Ética, Pratique

Abusos Sexuais no Yoga

Na esteira de uma série de recentes escândalos envolvendo condutas criminosas por parte de famosos professores de Yoga, cabe uma reflexão aqui para voltarmos ao básico do básico.

· 8 mins de leitura >
abusos
Aos poucos, a nossa comunidade está acordando para a incômoda realidade dos abusos sexuais no Yoga.

“Há um padrão profundamente perturbador de má conduta sexual em nossa comunidade, um padrão que atinge quase todas as tradições do Yoga moderno. Todo ser humano merece praticar Yoga livre de abuso, assédio e manipulação. 

“Como homenagem àqueles que se manifestaram e para honrar àqueles que ficaram muito magoados para falar, temos que começar de algum lugar, e temos que começar agora. ” Shannon Roche, COO da Yoga Alliance. 

Comecemos pelo início: um professor de Yoga decente nunca oferece massagens com conotações sexuais para as suas alunas. Um professor de Yoga decente nunca faz ajustes ambíguos ou constrangedores.

Um professor de Yoga decente nunca toca de maneira inapropriada às suas alunas durante o relaxamento. Um professor de Yoga decente nunca faz ajustes sobre ou perto das zonas erógenas das suas alunas.

Um professor de Yoga decente nunca coloca a língua na orelha das alunas. Se seu professor de Yoga fizer algo disto é um farsante, um agressor e um abusador: denuncie esse criminoso e caia fora.

Na esteira de uma série de recentes e tristes escândalos de abusos e condutas sexuais inapropriadas por parte de alguns famosos professores de Yoga no mundo inteiro, cabe uma reflexão aqui para voltarmos ao básico do básico, bem como para não perdermos a bússola ética nos mares turbulentos em que o Yoga navega atualmente.

Escândalo e impunidade

Abusos, assédio e tortura psicológica são palavras que apareceram não somente em blogs de Yoga mas também na grande mídia internacional, associadas às infelizes atitudes dessas pessoas, que precisam em primeiro lugar responder por seus crimes e em segundo lugar de assistência psiquiátrica.

Para nosso horror, a impunidade é a regra e esses criminosos voltam aos seus negócios depois de algumas poucas semanas de silêncio e afastamento tático para esperar a poeira assentar.

Vamos começar com um exemplo emblemático: Kausthub Desikachar, neto do célebre guru Krishnamacharya e filho de TKV Desikachar, criou uma ONG em Chennai para “curar” pessoas com traumas vinculados à violência sexual.

Essa instituição chamava-se Krishnamacharya Healing and Yoga Foundation. O “dr.”Kausthub (também apresenta-se falsamente como médico) fundou essa entidade unicamente com o intuito de atrair vítimas já traumatizadas, para se aproveitar delas.

A veracidade destas afirmações sobre os abusos de Kausthub Desikachar pode ser conferida aqui, aqui, aqui e aqui.

Porém, escassas semanas depois do estouro do escândalo, sem sequer rosear de vergonha, esse criminoso já estava de volta aos negócios, usando o nome de outra instituição. O povo tem memória curta.

O chaveco da massagem tántrica

Outros, tanto no nosso país como fora dele, oferecem suspeitas “massagens terapéuticas para abrir os cakras“, abusam da sua posição de poder enquanto professores e ajustam suas alunas de maneiras constrangedoras e inapropriadas, criando um clima de insegurança e medo dentro da sala.

Para os que ostentam essas atitudes, o que vale é não perder as oportunidades de negócio e satisfação dos desejos que o Yoga pode oferecer. Tudo em nome do lucro e a sede de poder.

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Para trás ficam as vítimas, com seu sofrimento, seu silêncio e seus pesadelos, como cascas de laranja descartadas depois do seu suco ter sido espremido.

A pessoa que consciente ou inconscientemente olha para os outros como fontes de satisfação dos seus próprios apetites, recolhe o sofrimento dos demais, bem como a sua própria frustração.

Abuso sexual é crime

Bad karma: essas pessoas não estão apenas sujando o Yoga, mas igualmente cometendo graves crimes.

O pior é que estes casos recentes se somam a uma já longa lista de falsos mestres e professores que ao longo das últimas décadas têm agido como se estivessem acima do bem e do mal e cujos atos incluem todo tipo de atropelo do dharma.

O cinismo e a frieza das pessoas que cometem esses abusos é de gelar o sangue nas veias. Acobertando-se sob o véu da espiritualidade, usam uma linguagem sedutora para cativar e escravizar corações, corpos e mentes.

O presente texto se centra apenas no aspecto da distorção da sexualidade nas relações professor-aluno no âmbito do Yoga e nas possíveis soluções que o próprio Yoga propõe para resolvê-la. Deixaremos os demais aspectos desse tema para um texto futuro.

Encobrimento e negacionismo

Por outro lado há, previsivelmente, uma cultura de acobertar esses abusos, culpar as vítimas e fazer pouco caso do sofrimento delas.

O acobertamento e o negacionismo são certamente as políticas aplicadas pelos próprios abusadores e as instituições que eles mantêm, desde que os primeiros casos vieram à tona na década de 1960.

É notório o caso de K. Pattabhi Jois, popular professor de Aṣṭāṅga Vinyasa Yoga falecido em 2009. Por décadas, este senhor aproveitou-se sexualmente das suas alunas através de manipulações e toques abusivos e totalmente inapropriados.

Um raro pedido de desculpas

O próprio neto de Pattabhi Jois, Sharath Jois Rangaswami, admitiu a veracidade das denúncias das inúmeras vítimas dos abusos cometidos pelo seu avô. Ele escreveu isto, em julho de 2018:

“Crescendo, fui muito próximo dos meus avôs. Ao lembrar quando aprendia āsana com o meu avô, traz-me imensa dor o fato de que eu testemunhei ele dando ajustes impróprios.

“Eu não entendia, e me sentia impotente. Lamento pelo sofrimento que isso causou aos seus estudantes. Depois desses anos todos, ainda sinto dor pelas ações do meu avô. (…)

“Devemos ter zero tolerância em relação ao abuso, as manipulações ou os toques inapropriados nos estudantes. Os professores devem respeitar os estudantes o tempo todo. (…)

“O meu avô foi o meu guru. Ele me ensinou tudo o que sei sobre āsana, e eu o amava, mas estou extremamente arrependido pelo fato de que as suas alunas estão sofrendo este trauma.

“Eu compreendo a dor de vocês. É o meu humilde pedido a todos aqueles estudantes feridos que o perdoem pelas suas ações. (…)”

Um pedido público de desculpas e a admissão de abusos desse tipo não é a regra. Por falho, trôpego e tardio que seja, este pedido tem lá pelo menos o mérito de reconhecer que houve abusos.

No entanto, um professor brasileiro chegou, recentemente, a justificar publicamente os abusos do Pattabhi Jois e ainda foi sarcástico com as vítimas.

Esse professor disse, com total falta de empatia, que “as meninas devem ter gostado” de sofrer aqueles abusos e que o problema real é a “histeria” das mulheres. Ora, isso é apologia ao crime, puro e duro. 

Lamentavelmente, há professores que agem como se as leis não valessem para eles. Cabe lembrar que a apologia ao crime (assim como o próprio abuso sexual), é um delito tipificado no Código Penal. 

Muitas outras instituições cujos líderes foram acusados de crimes violentos, muito piores do que os de Pattabhi Jois, dentre as quais podemos citar a Bihar School of Yoga, (Satyananda Yoga) ou a 3HO do Yogi Bhajan (Kuṇḍalinī Yoga), optam simplesmente pelo silêncio, a negação ou o sarcasmo.

A válvula de segurança

Sabendo que havia um perigo potencial inerente às práticas, os sábios da antiguidade dotaram o Yoga de um mecanismo de segurança que permitisse aos praticantes lidar da maneira mais saudável com essa mudança hormonal e os potenciais perigos inerentes a ela: a prática de brahmācārya um dos preceitos fundamentais da conduta yogika.

Esse voto aparece em todos os śāstras, do Yogasūtra à Bhagavadgītā, das Upaniṣads à Haṭha Yoga Pradīpikā, e abrange dois aspectos que devem ser bem compreendidos:

1) como se relacionar com os próprios desejos, e
2) como se relacionar emocionalmente com outrem.

Esses dois são pontos fundamentais que precisam ser assimilados se quisermos levar a bom porto a nossa prática.

Dessa maneira, praticaremos de forma saudável para nós mesmos e para os demais, cultivando o respeito, a consideração e a capacidade de se colocar no lugar do outro, para evitar vitimizar alguém, mesmo que de maneira involuntária.

A luz no fim do túnel

Para aqueles que consideram que não precisam assumir um voto de castidade (a maneira mais frequente de traduzir brahmācārya) existe outra forma de interpretar esse princípio: coerência relacional ou ainda, fidelidade nos relacionamentos, ou ainda, contenção e autocontrole para não ofender nem ferir ninguém.

De uma forma mais ampla ainda, podemos definir brahmācārya como moderação, conduta virtuosa ou comando sobre os desejos.

Considere o amigo leitor que essa atitude não precisa se restringir apenas a uma relação afetiva entre duas pessoas, mas pode ainda se estender a todos os relacionamentos, mesmo aqueles que não incluem necessariamente envolvimento emocional ou contato físico.

Não estamos aqui falando em repressão dos impulsos sexuais, nem propondo que seja necessário eliminar ou ignorar os desejos, mas dar a essa pulsação sexual uma vazão saudável e construtiva, de maneira que ela possa funcionar, não como um obstáculo, mas como uma força que nos ajude no processo do Yoga.

Esta força precisa ser bem gerida e direcionada, e deveria ser usada em função do objetivo supremo do Yoga, que é mokṣa, a libertação.

Para tanto, a solução passa por aprender a amar conscientemente e a colocar o desejo ou a pulsação sexual a serviço do amor, do crescimento interior e da liberdade.

testosterona Yoga

Brahmācārya, a bigorna que molda o praticante

O ferreiro usa o metal em estado bruto para, à força de calor e marteladas, dar a forma aos objetos que cria.

Para tanto, precisa de um apoio, uma base sólida sobre a qual possa transformar o mineral: a bigorna, que é capaz de suportar a temperatura e as batidas, e é mais e firme que os metais que sobre ela se moldam.

Se a sexualidade é uma das forças que definem, e muitas vezes governam, os desejos dos humanos, então o voto de brahmācārya poderia ser considerado uma espécie de bigorna onde se molda o carácter do praticante.

O praticante ou professor deve pensar em forjar o próprio carácter e, consequentemente, construir seus relacionamentos, da mesma maneira que o ferreiro dá forma aos instrumentos que fabrica ao calor do fogo.

Se essa força e essa motivação estiverem ausentes, há uma grande chance de o aspirante se perder no meio do caminho, vítima dos seus próprios temas mal resolvidos.

Assim, penso que, se um praticante ou professor de Yoga não for capaz de lidar de maneira saudável e fluida com esta questão, deveria procurar um bom terapeuta ou psiquiatra e abandonar a prática até resolver a questão, como deveríam ter feito as pessoas mencionadas no início deste texto, antes de vitimizar pessoas inocentes.

O voto na prática

Se formos considerar o voto de brahmācārya como coerência relacional ou fidelidade, então estamos frente a uma bela oportunidade para compreender os mecanismo do desejo e as maneiras que temos para lidar construtivamente com ele.

Talvez o segredo para aplicar este voto seja agir sem reagir. Noutras palavras, nos tornar mais fortes que as nossas próprias fraquezas, que nos levam a realizar ações impulsivas ou indesejáveis.

Uma solução viável para se relacionar saudavelmente com os próprios desejos é evitar se deixar arrastar pelo primeiro impulso e cultivar nirodhaḥ, a não-identificação com eles.

Assim, quando vemos que há alguma possibilidade de entrar numa contingência indesejável, poderemos manter a testosterona sob controle e ao mesmo tempo evitar vitimizar os demais com nossos desejos.

Uma boa maneira de evitar o primeiro impulso é simplesmente respirar, olhar para o relógio e dizer: “agora são as 11:00h e percebo que cresce em mim este desejo”.

Assim, centrando-nos tranquilamente no fluir da respiração por um momento, poderemos depois pensar: “agora são as 11:20h e percebo que esse desejo se enfraqueceu”.

Assim, observando os desejos na distância até que eles percam a força, é bem provável que possamos evitar as ações e reações que aconteceriam se nos deixássemos arrastar por eles.

Lembremos que a mente nada mais é do que uma sequência de pensamentos. Alguns deles vêm na forma de desejos mas, se eles não forem alimentados, simplesmente se debilitam e desaparecem.

Ignorar ou reprimir a pulsação sexual, como dizemos antes, não resolve a questão.

Porém, se nos dermos a chance de, honestamente, trabalhar nela no espaço sagrado que é um relacionamento sólido e sincero, não afastaremos apenas os perigos de ferir os demais e perder a própria dignidade.

Ainda teremos em mãos uma valiosa ferramenta com a qual poderemos trazer o Yoga para esse aspecto também sagrado da nossa existência que é a sexualidade.

॥ हरिः ॐ ॥

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Textos em inglês

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6. Yoga’s Culture of Sexual Abuse: Nine Women Tell Their Stories
7. Master of Deceit: How Yogi Bhajan Used Kundalini Yoga for Money, Sex and Power
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॥ हरिः ॐ ॥

Pedro nasceu no Uruguai, 55 anos atrás. Conheceu o Yoga na adolescência e pratica desde então. Aprecia o o Yoga mais como uma visão do mundo que inclui um estilo de vida, do que uma simples prática. Escreveu e traduziu 10 livros sobre Yoga, além de editar as revistas Yoga Journal e Cadernos de Yoga e o website www.yoga.pro.br. Para continuar seu aprendizado, visita à Índia regularmente há mais de três décadas.
Biografia completa | Artigos

De Volta ao Básico: Yamas e Niyamas

Pedro Kupfer em Ética, Pratique
  ·   5 mins de leitura

29 respostas para “Abusos Sexuais no Yoga”

  1. QUANDO SE ESTÁ FRAGILIZADA FICA MUITO FÁCIL PARA ALGUÉM SEM ESCRÚPULO ALGUM SE EMBRENHAR NA VIDA DA GENTE E FAZER UM VERDADEIRO ESTRAGO. ABUSOS NÃO SÃO SÓ SEXUAIS, EXISTE MANIPULAÇÃO EMOCIONAL QUE CAUSA UM TISSUNAMI DE DOR E TRISTEZA NAS PESSOAS. UM PROFESSOR OU PROFESSORA DE YOGA, NA MAIORIA DAS VEZES SE TORNA MUITO INTIMO, SE TORNA UM AMIGO, UM CONFESSOR. DE POSSE DE DETERMINADAS INFORMAÇÕES PODE ABUSAR EMOCIONALMENTE TAMBÉM. CONHEÇO UM CASO MUITO DOLOROSO. QUANDO SE CHEGA AO PONTO DE DENUNCIAR, ONDE SERIA? ALEM DA POLICIA OBVIAMENTE? TEM ALGUM CONSELHO QUE GERE ?

    1. Olá Maria,

      नमस्ते Namaste. Obrigado pela mensagem.

      O que cabe num caso destes é procurar o Ministério Público para fazer uma denúncia.

      A Aliança do Yoga (http://www.aliancadoyoga.com.br) pode registrar o caso, mas há pouco que possa fazer além de banir o abusador.

      Porém, esse banimento só vai acontecer se o professor for de fato membro da Aliança.

      A solução está portanto no sistema judiciário.

      Desejo de coração que a sua conhecida possa recuperar-se sem sequelas deste trauma.

      Tudo de bom!

      ॥ हरिः ॐ ॥

      Leituras sugeridas:

      https://www.yoga.pro.br/yoga-vira-latas-perigo-um-alerta-de-pedro-kupfer/
      https://www.yoga.pro.br/o-teste-do-guru/
      https://www.yoga.pro.br/teste-estou-numa-seita/

  2. Olá!
    Adorei seu artigo. É um tema no qual eu me interesso muito. E gostaria também de dividir uma experiência que tive…

    Bem, moro fora do Brasil e sou instrutora de yoga. Aqui, estou constantemente procurando por estúdios de yoga para poder dar aulas e como ainda não falo a língua local, é bem difícil encontrar um local para oferecer minhas aulas.

    Entretanto, um dia resolvi entrar em contato com um estúdio daqui, que até então seguia uma linha do yoga que era desconhecida para mim; o Bikram yoga.

    E o proprietário pediu que eu fosse lá para conversarmos e vermos se eu poderia dar aulas lá ou não. Vendo ele que eu não me comunicava na língua local me propôs em fazer pequenos trabalhos no estúdio (como limpeza, organização, registro de informações no sistema etc), em troca ele me ofereceria o ensino da filosofia Bikram e assim eu iria aprendendo os comandos no idioma daqui.

    Fiquei muito feliz com a possibilidade, apesar de ter achado estranho o fato dele estar sendo tão solícito comigo sem nem me conhecer (aqui ninguém costuma ser assim), mas acreditei que ele estivesse seguindo os princípios do yoga: de empatia e compaixão.

    Enfim… Trocamos e-mails, ele me enviou algumas fichas com ensinamentos para que eu lesse. Durante esse meio tempo, a curiosidade despertou em mim quanto a buscar informações sobre essa vertente do yoga. Foi aí que eu comecei a ficar incomodada.

    Também assisti ao documentário no Netflix sobre as acusações contra o Bikram (“Bikram: Yogi, Guru, Predador”) e tudo ficou matutando na cabeça incessantemente.

    Então, entrei em contato com o proprietário lá do estúdio novamente e pedi que conversássemos (e até então eu não havia mencionado do que se tratava a conversa), na semana seguinte fui até o estúdio, encontrei a companheira dele que também estava lá, e então comecei a expor as informações que eu descobrira (e eu havia pesquisado muito, inclusive, pesquisei artigos judiciais que comprovavam as suspeitas), disse que eu havia descoberto todas essas informações e que tudo aquilo era contra meus valores (e os valores do yoga) e permanecer talvez não fosse correto – local que leva o nome do abusador na porta de entrada do estúdio – e disse que mesmo assim eu gostaria de saber da opinião dele (do proprietário) sobre tudo isso para que assim eu pudesse refletir e avaliar se eu poderia ficar ali ou não (pois talvez, pensei eu inocentemente na época, ele fosse contra e desaprovasse tudo aquilo)…

    Tentei expor isso tudo a ele, entretanto, mal comecei a falar e o dono me interrompia constantemente, elevou a voz e disse que tudo isso era drama, que as mulheres inventaram tudo isso para tirarem proveito da fama do Bikram, que ele (o dono) havia conhecido e feito treinamento com o Bikram e que este era mesmo um cara arrogante e soberbo, mas abusador jamais! (!!!!)

    Quanto mais eu tentava expressar minha opinião com argumentos do tipo “Mas há provas concretas expostas na internet que comprovam que o Bikram realmente fez isso…”, ele me interrompia e dizia que era tudo drama e invenção e que se eu quisesse, ficava ali ou se não, não precisava.

    [Detalhe: No meio dessa (tentativa) de conversa a namorada dele deixou escapar que uma aluna do estúdio havia enviado um e-mail no dia anterior dizendo que não ia mais fazer aulas lá pelas mesmas razões!].

    Aí naquele momento, depois de tudo que eu havia escutado, eu já sabia o que fazer, peguei meus pertences e quando eu ia me virando para porta de saída do estúdio me veio um impulso de olhar para a companheira dele e dizer em tom baixo “Sinto muito por você ter que conviver com isso”.

    Neste momento o dono ouviu o que eu disse e se transformou numa pessoa descontrolada (mais ainda!), começou a gritar e me ofender de todos os nomes possíveis, mesmo depois que eu já estava do lado de fora do prédio do estúdio ele continuou gritando pela janela me ofendendo e eu em completo silêncio (e acho que foi por isso que ele se descontrolou, por eu não ter reagido), mas é claro que eu estava emocionalmente abalada e devastada, apenas não demonstrei por achar que não valesse a pena e por medo, afinal eu estava no “território” dele.

    E mesmo depois d’eu já estar no metrô voltando para minha residência, ele me enviou um SMS agressivo e ao mesmo tempo se colocando como vítima dizendo algo do tipo “Tentei te ajudar e você vem no meu espaço me ofender!” (oi?).

    Bom, com tudo isso minha percepção foi a de que este homem, tendo convivido com Bikram, é farinha do mesmo saco! Fiquei com muita raiva, mais raiva ainda por este infeliz (assim como muitos homens) proteger um abusador.

    Lembro que nesse dia quando cheguei em casa, eu chorei, chorei de raiva, de dor por todas as mulheres que já passaram por abusos, chorei também porque eu queria ter tido mais coragem de enfrentar este homem, que em sua arrogância e machismo, ainda se acha numa posição de superioridade.

    Enfim, quis compartilhar com vocês e dizer, principalmente as mulheres, que não importa como, mesmo que você tenha que se manter calada, virar as costas e sair mostrando assim que você não apoia tal atitude, faça! Sejam fortes e ouçam suas intuições!

    E aos homens, jamais sejam coniventes e solidários para com abusadores (de todos os níveis).

  3. Infelizmente estes indivíduos ainda não perceberam o que é de facto o Yoga.

  4. Infelizmente, tem muito malandro à solta no Yoga. É preciso ter cuidado.

  5. Estimado Pedro

    Excelente texto: claro, correto, verdadeiro e amoroso.
    Pratico, penso, respiro e vivo o Yoga há mais de 40 anos, tenho 61.
    Sinto que, com o Yoga dentro da alma, a vida pode ser incorruptível ,
    mesmo nos momentos de maior desafio em qualquer área que seja.
    É como caminhar em campo minado e não ser atingido, porque a mente e o coração
    conseguem ver com clareza, por entre os véus, a grande ilusão que permeia a existência.

    Acompanho o Yoga.Pro desde sempre, e, embora talvez não o saiba,
    você é um dos meus queridos mestres há tempos.
    Seus textos, de grande profundidade e conhecimento indiscutíveis, são parte
    do meu aprimoramento constante nessa árdua, porém exuberante estrada do Yoga.

    Á você minha gratidão sempre e um grande Namastê!

  6. Parece só postar elogios ao senhor. Qualquer comentário que desafia sua opinião provavelmente não é aprovado. Sugestão: Porque não escreve algo sobre professores de Yoga que cobram demasiadamente depois de adquirirem uma certa fama? Há várias formas de distorcer o bom nome do Yoga. Mercenarismo e arrogância são problemas mais sérios do que o que o pequeno problema que o senhor citou. Boa sorte!

    1. Caro Sr. Hriday,
       
      Obrigado pelas suas duas postagens. Se fosse verdade o que o senhor insinua neste comentário, eu não teria sequer publicado o comentário de Turya, em 3 de Dezembro, que você, inclusive, respondeu.
       
      Noto que há apenas 24 horas de diferença entre a sua postagem de 22 de Dezembro e esta presente que respondo aqui. 
       
      Ao que parece, como eu não liberei seu comentário em um dia, o senhor ficou indigando, achando que teria sido objeto de algum tipo de censura. 
       
      Peço desculpas, mas eu não entro neste site todos os dias por falta de tempo. Minhas prioridades estão noutro lugar, e não no mundo virtual da tecnosfera.
       
      Um dos grandes problemas da nossa sociedade atual é a ansiedade. Queremos tudo para já. Não tenho nenhum problema em publicar seu comentário.
       
      Não achei ele insultante nem ofensivo. Só que demorei até hoje para liberá-lo pois, como lhe disse acima, viver na frente do computador não é a minha prioridade.
       
      Compreenda por favor que eu não posso liberar qualquer comentário que seja postado aqui. Há muitos comentários que são de fato ofensivos, racistas, intolerantes, homofóbicos, e nós naturalmente não os publicamos.
       
      Há comentários de pessoas exigindo que tiremos este site do ar por considerar que ele tem conteúdos satánicos, de fundamentalistas cristãos e psicopatas violentos. Compreende então a importância que tem filtrar minimamente as mensagens? Espero que sim.
       
      Peço desculpas pela demora e desejo-lhe um ótimo 2016.
       
      Namaste.
       
      Pedro Kupfer.

  7. Ommm Eu ofereço massagem não só as alunas como aos alunos e a todos aqueles que precisarem… Sou MUITO bem resolvido sexualmente e não preciso disso para satisfazer essa parte nobre do ser humano que é a energia vital e o corpo físico. Mesmo assim, considero válido suas observações, já que muitos “precisados\\\’ fazem isso! Também considero prudente um pouco mais de reflexão e precisão naquilo que vc escreve, a generalização é sempre pouco inteligente e justa. 😉

    1. Turya, obrigado pelo comentário. As frases que abrem este texto, se você reparar, estão todas no mesmo parágrafo, configurando uma unidade. Portanto, não precisam nem devem ser lidas de maneira separada.
      Elas apontam para um quadro dentro do qual esse tipo de agressor sexual comete seus crimes, como aconteceu muito recentemente numa célebre escola do Rio de Janeiro, em que um desses criminosos assediou pelo menos três jovens, sendo uma delas menor de idade.
      Tudo começa com o inocente oferecimento de uma massagem para abrir os chakras ou coisa que o valha. Depois vem os avanços, os toques durante o relaxamento quando o professor acredite que ninguém vê o que ele faz, depois surge aquele papo de liberar a energia, o apelo ao tantra. Logo acontece a agressão, sem aviso.
      Espero que você e todos os nossos leitores tenham conseguido ler esse primeiro parágrafo no devido contexto, à luz do que se expõe no restante do artigo. Tudo de bom para você.
      Namaste.
      Pedro Kupfer.

      1. Muito bem pontuado Pedro. Pratico yoga há anos nessa escola, já substituí professores de todas as linhas e a ética vale para todas, sem distinção. O comportamento foi inaceitável.

      2. Concordo com as colocações de Pedro e também vejo o ponto de Turya. Generalização cimenta a consciência em opiniões fixas. Sabedoria maior é limitada por rigidez (mesmo nobre). Sabedoria vem com fluidez, não rigidez. Vamos ser francos. Muitas vezes, quem se insinua e se mostra interessada é a aluna de Yoga frente ao professor ou a paciente frente ao terapeuta. Quando o professor de Yoga e a aluna se mantém focada no propósito, a energia fica pura – não há distorção de desejos pessoais, o conhecimento flue. Mas muitos são os casos que professores e terapeutas oferecem a massagem basicamente atendendo o “silencioso” anseio da paciente. Certo o errado fica com a consciência de cada um, mas generalizar não explica 20% dos casos. O importante, como Pedro falou é manter em mente que o que um professor ou terapeuta faz EM NOME DA YOGA afeta a imagem da Yoga. Portanto, o indivíduo pode agir livremente na sua vida privada, mas com cuidado quando ele ou ela representa (no momento da sessão) algo além do indivíduo.

  8. Pedro, simplesmente feliz demais em ler o seu texto e sua resposta acima. Gostaria de dizer outras coisas, mas tô no celular e a letra é minúscula. Abraço grande no coração!

  9. Excelente texto, Pedro!
    Denuncia, informa, respalda, exemplifica e ainda traz conhecimentos práticos para o crescimento humano. Inspiração transformada em conteúdo educativo. Que sirva para todos!
    Obrigada por compartilhar. Grande abraço.

  10. Seria possível indicar onde achar os estudos citados no texto? Obrigado.

  11. Parabéns, Pedro!
    Como sempre as suas interpretações são brilhantes e oportunas, este tema tão delicado que tem trazido tantos problemas e constrangimentos a um bom número de praticantes, fica muito bem esclarecido neste seu texto, sendo uma bússola que orienta o praticante na escolha certa do seu instrutor.
    Namastê.
    M. Bernadette Junqueira Azevedo

  12. Querido amigo, que texto atual, infelizmente. Devemos prestar atenção pois as aparências enganam e muitas vezes logo ali, pertinho, do seu lado e vc nem se dá conta!
    E aí BOOM! A bomba explode e vc fica assim sem chão! Mas é bom que exploda para acabar com esses farsantes!

  13. Que sorte aprender contigo. Bonito teu relato de caso. Admiro muito a tua história. Que bom se todos os homens fossem assim. Ainda há uma distância muito grande entre aqueles que vivenciam o yoga e aqueles que não. Os pontos de vista são muito diferentes e os relacionamentos tendem a não dar certo. Obrigada, merci, gracias, grazie pelas sábias palavras. Não estamos sozinhos nesse pensamento.

  14. uma coisa e sexo outra é o yoga, não confundir, sou estudante desse e só me foco em algo que traga bem estar a mim aos que me rodeiam, não sou demagogo. O verdadeiro yogi apesar de ser humano, se faz conhecer não esconde suas intenções. Namastê

  15. Se não houver estupro, não existe erro. O consentimento basta para o sexo, independente de inúmeras filosofias que diferenciem seu penasamento sobre yoga ou tantra. Seja um orgasmo ou uma meditação, tudo acontece dentro do plano de manifestação divina.
    ===
    Guilherme,
    lembre por favor que os códigos penais dos países civilizados listam vários crimes que se encontram em algum lugar entre o estupro e o sexo consentido, como você afirma.
    Dentre eles, o Código Penal Brasileiro lista crimes como por exemplo Assédio Sexual Contra a Mulher no Ambiente de Trabalho, Crimes Contra a Liberdade Sexual e Crimes Contra a Dignidade Sexual.

    Recomendo que você leia algo sobre o tema, como por exemplo esta seção do Código Penal Brasileiro: http://www.dji.com.br/codigos/1940_dl_002848_cp/cp213a216.htm.

    Afora esses, há sempre as atitudes machistas, os comentários sarcásticos, as condutas limítrofes com o crime de assédio, que são formas de sexismo “socialmente aceitáveis” e infelizmente presentes no cotidiano (e fonte de sofrimento) para inúmeras mulheres no cotidiano, tanto no Ocidente como em Oriente.
    E espero ainda que você reflita bastante sobre o erro crasso que contêm suas palavras, pois nem o Yoga nem o Tantra jamais apoiaram, sancionaram ou justificaram nenhum tipo de crime, atitude sexista ou discriminatória, ou o que quer que seja.
    Pedro Kupfer.

  16. O que foi vivenciado na yoga faz parte fda história da humanidade: a associação entre poder, desejo de controle e pulsão sexual. É fácil encontrar essa combinação nas mais diversas religiões: o padre pedófilo, o pastor que assedia suas seguidoras, etc, ou nas empresas, onde alguém detentor de poder busca submeter outrem do sexo oposto pela busca do prazer por meio da dominação. Não entrando no mérito da classificação da yoga, se apenas prática física ou forma de fé, como leigo, enxergo o problema descrito (assédio) como inerente à natureza humana e, portanto, universal.

  17. Saudacoes, Gracas e louvores ao seu voto de esclarecer questões cabeludas. Nossas mentes doentias precisam muito de você. Concordo plenamente que a repressão do desejo sexual não ajuda em nada, pelo contrario, alimenta ainda mais a forca do mesmo.
    Freud deixou isto bem claro em seus ensaios sobre a sexualidade e o poder que ela tem ao trabalhar pelo inconsciente. Acredito que estas pessoas não estão levando muito a serio a pratica do yoga. Da minha experiencia de praticante, percebo o Brahmacharya como um subproduto da pratica, a energia que antes eu extravasava pelo sexo, agora encontra outros caminhos para fluir no corpo.
    Com a pratica surgiu em mim um respeito muito grande por esta energia, com o despertar da testemunha posso distinguir o desejo que vem da mente e a necessidade que vem do corpo. Assim o sexo ainda não sumiu completamente, mas ele foi se tornando raro e muito importante, muito bonito. Nao mais uma válvula de escape e sim um transbordamento, uma comunhão.
    Namaste.

  18. Prezado Pedro, Acho que existe uma dimensão dessa relação homem – mulher que foi ignorada na sua análise: o machismo. A Índia tem uma sociedade extremamente machista, a maioria dos países do ocidente padecem desse mesmo mal. Veja que você falou de abusos praticados por homens, ou existe algum praticado por uma mulher? O abuso tem a ver com uma relação de poder e de desigualdade, com a objetificação da mulher. Muitos homens abusam das mulheres com os níveis de testosterona absolutamente normais ou até abaixo do normal. Acho que a elevação desses hormônios não resultariam em abusos se não vivêssemos na sociedade em que vivemos.

    1. Camila, concordo contigo em grau, número e gênero. Tetostona TB aumenta nas mulheres e no entanto… não serei repetitiva, mas se VC ler a resposta de Pedro ao cometário do Guilherme verá que ele TB está atento ao machismo, em que pese o titulo do artigo. Namaste

  19. Pedro,
    Sou simpática a estas tuas ideias oriundas do Yoga.
    Que bela esta senda!
    Paz nas andanças.
    Adelice Souza.

  20. Gratidão Pedro!

    Meu amigo, gostaria muito que você pudesse escrever mais quanto a sexualidade no Yoga, também optei por estar com uma única pessoa, e gostaria de saber mais quanto as práticas a dois, ou alguma fonte confiável que eu pudesse ir buscar.

    Gratidão

    Namastê

  21. Sabe Pedro, concordo e acredito que nestas atitudes estão por trás o verdadeiro caráter e a busca real desas pessoas em ensinar o yoga, pois para mim e meu marido (somente eu sou professora de yoga) o yoga veio para fortalecer muito nossa vida afetiva e familiar, causando verdadeiras mudanças nos relacionamentos. Mas se o yoga for usado para atrair fama, satisfação e reconhecimento, então é desvirtuado, tanto a prática, quanto o objetivo.

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