Pratique, Yoga na Vida

Yoga, Hábito e Vício

Embora os seres humanos tenham o potencial inato de experimentar a felicidade ilimitada, a maioria das pessoas deve concordar que o sofrimento e a dor são fatos da vida

Escrito por Robert Birnberg · 5 mins de leitura >

Embora os seres humanos tenham o potencial inato de experimentar a felicidade ilimitada, a maioria das pessoas deve concordar que o sofrimento e a dor são fatos da vida. De acordo com o Yoga Sutras de Patanjali, o texto fundamental do Yoga, essas aflições são geradas pela mente, principalmente por nossos hábitos.

Enquanto estamos vivos, estamos criando hábitos (samskaras), tanto conscientemente quanto inconscientemente. Esses padrões estão ligados e existem em todas as áreas de nossas vidas. Nossos gostos, emoções, atitudes, crenças e comportamentos são ligados a hábitos de corpo e mente. Samskaras são necessários, na medida em que ajudam a criar um senso de identidade, estabilidade e controle. Assim, a criação de hábitos possui uma função importante.

Por exemplo, o hábito de assumir uma postura com a parte superior das costas curvada, faz uma pessoa tímida, excessivamente alta ou com seios grandes parecer menor, menos percebível. Segurar a respiração reduz o fluxo de emoções intensas ou desagradáveis, comer em excesso serve como uma recompensa fácil e rápida por um dia difícil, drogas e álcool podem ajudar a relaxar, reduzindo os efeitos do estresse e da pressão. Esses hábitos variados de corpo, respiração e comportamento possuem uma coisa em comum: eles realmente ajudam a nos sentir melhor … por um tempo.

As Coisas Mudam

A vida, no entanto, está mudando constantemente. Eventualmente, mesmo nossos melhores hábitos podem deixar de ter efeito. Soluções para o tempo presente demandadas por experiências passadas são, com freqüência, inapropriadas e inadequadas. O resultado destas reações habituais é o aumento do sofrimento e dos obstáculos (duhkha) na vida diária. Se com o passar do tempo um hábito persiste, apesar do constante aumento de duhkha, esse hábito é, na verdade, um vício totalmente desenvolvido.

Eventualmente, costas curvadas podem gerar dor e baixa auto-estima. Uma respiração superficial e/ou irregular pode contribuir para a asma e a depressão. O vício em drogas e álcool apresenta uma variedade de problemas psicológicos, sociais e de comportamento. Comer em excesso é relevante para numerosas questões de saúde.

Colocando de forma simples, as soluções de ontem tornam-se os problemas de hoje.

Este é o nosso dilema. Uma mente totalmente livre de hábitos seria instável e estupefata pelas opções infinitas da vida, mas anos de condicionamento inconsciente criam hábitos e vícios que ocultam a verdadeira felicidade e, no final das contas, abreviam ou até mesmo terminam com nossas vidas. Esta luta eterna entre o fato da mudança e a necessidade de segurança é, de acordo com o Yoga, a condição humana.

A Solução Proposta pelo Yoga

A estratégia do Yoga para resolver este antigo problema é simples, elegante e brilhante. Ao invés de insistir que paremos de criar hábitos, o Yoga nos encoraja a ser totalmente envolvidos no processo de criação desses hábitos. Através do Yoga, podemos começar a criar conscientemente e a aprimorar constantemente nossos padrões, tornando-nos mais saudáveis, versões mais positivas de nós mesmos, de uma forma progressiva.

Para auxiliar neste processo, o Yoga recomenda encontrar alguém cujos pontos de vista e desapego permitam uma visão clara a nosso respeito e que também possua a experiência e habilidade necessária para ajudar-nos a mudar.

Em psicoterapia, esta é a função do terapeuta. No programa de doze passos, essa pessoa é o patrocinador. Em Yoga, temos o professor.

Assim como com terapeutas e patrocinadores, tradicionalmente cada estudante de Yoga possui somente um professor e cada professor recebe um estudante por vez. Como cada estudante representa uma complexa rede de hábitos corporais, respiratórios e mentais interconectados, o Yoga reconhece a necessidade da individualização. Por esta razão, TODOS os yogis adultos eram ensinados um a um. Além do mais, o professor de Yoga era responsável por apoiar mudanças positivas, não apenas no corpo físico, mas também em todos os aspectos da vida do estudante. O conjunto completo de ferramentas clássicas: a visualização, a orientação nas relações, o direcionamento de estilo de vida, o trabalho respiratório, a meditação, o som, o ritual, a reflexão, o serviço, o estudo e a postura; eram usados e adaptados para cada indivíduo da maneira que fosse necessária.

Como professores de Yoga ensinam normalmente através do exemplo, necessitamos de um professor que seja igualmente comprometido com a autotransformação e que tenha um professor. Em outras palavras, precisamos de um professor que também seja um estudante. Assim, a linhagem (cada professor sendo estudante de um professor que era, ele mesmo, estudante de outro professor) era essencial para a prática tradicional de Yoga.

Para muitos de nós, comprometer-se com um professor é um novo padrão. Os velhos hábitos de autoconfiança estóica e de manter as opiniões abertas pelo não comprometimento, agora nos impedirão de progredir no caminho do Yoga (ou da recuperação).

A dinâmica da transformação

O Yoga Sutra descreve vários elementos e orientações para criar hábitos conscientes para uma mudança suave e positiva, quais sejam:

Abhyasa: uma nova prática/hábito/padrão. Pode ser em qualquer área da vida, como corpo, respiração, mente ou comportamento. Tecnicamente, a prática é implementada gradualmente e executada por um longo período de tempo, sem interrupção, com entusiasmo e convicção.

Vairagya: desapego. O abandono dos velhos padrões, de seus resultados e das emoções ligadas tanto aos padrões quanto a esses resultados.

Tapas: aprimoramento. Fazer ações contrárias para ter uma nova experiência de si mesmo e do mundo. O Yoga descreve esta ação como ‘queimar as impurezas’.

Svadhyaya: reflexão. Normalmente feita com a ajuda de um professor, é uma auto-avaliação conduzida para revelar para qual padrão é correto mudar e qual o melhor caminho para fazer esta mudança. Svadhyaya também é útil para medir o progresso.

Isvarapranidhana: liberdade, entrega, disposição para mudar, ensinamento, ênfase na qualidade do comportamento, aceitação dos resultados.

Tapas, Svadhyaya, e Isvarapranidhana, em conjunto, são conhecidos como Kriya Yoga, o modelo do Yoga Sutra para transformação dinâmica. De forma interessante, esse mesmo modelo é também expresso como a Oração da Serenidade, um pilar para pessoas que estão se recuperando do vício.

Aprimorar e substituir padrões antigos através da prática diária, é o princípio por trás das três ferramentas mais populares e conhecidas do Yoga: o asana, o pranayama e a meditação.

Asana: posturas de Yoga, que trocam nossos padrões neuromusculares antigos e limitantes por outros melhores. A prática contínua remodela a espinha e melhora por completo a força e a flexibilidade do corpo.

Pranayama: uma técnica de respiração destinada a trocar respirações curtas, superficiais e irregulares por respirações lentas e profundas. Com o passar do tempo, o pranayama fortalece o sistema respiratório [palavra introduzida pelo tradutor], estabiliza a mente e torna as emoções mais claras.

Meditação: visualização (bhavana) e outras técnicas de meditação, substituem padrões mentais negativos por outros mais positivos. Uma mente distraída, entorpecida ou agitada é transformada em uma mente focada, atenta e relaxada. Enquanto a mente vai se tornando mais estável, uma luz interna, visível a todos, começa a brilhar.

Concluindo

O Yoga é um processo de aprimoramento constante dos nossos hábitos e de melhoramento contínuo de nossas vidas. Com a ajuda de um professor qualificado, podemos escolher as ferramentas apropriadas e praticar regularmente para criar uma mente estável, confortável e livre de vício.

Tal mente pode alcançar qualquer objetivo, denso ou sutil, grande ou pequeno.

Traduzido pelo yogi Rogério Maniezi de Yoga, Habit and Addiction, de Robert J. Birnberg, em 20 de Janeiro de 2007, acessível no endereço: http://www.khyf.net/, seção Articles.

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Uma resposta para “Yoga, Hábito e Vício”

  1. Oi Pedro,

    Foi muito oportuno encontrar este artigo, pois estou trabalhando com drogados em uma clínica particular e procuro estudar a melhor maneira de conduzir este trabalho,pois a pratica com eles e muito dificil . Cada vez mais , uso seu site desde nosso encontro no último Yoga Sangam em outubro de 2006, certa de que estarei novamente este ano aí em Mariscal.

    Namastê!

    Maria Angela.

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