Começando, Pratique

Yoga ou Bhoga?

Os Mestres insistiram em ensinar que, se pretendemos alcançar o Divino em nós, é-nos recomendado exercer um afiado, constante, profundo e claro discernimento, para defender-nos de ilusões, fantasias, equívocos e engodos.

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Yoga ou Bhoga?

União ou busca do prazer? Os Mestres insistiram em ensinar que, se pretendemos alcançar o Divino em nós, é-nos recomendado exercer um afiado, constante, profundo e claro discernimento, para defender-nos de ilusões, fantasias, equívocos e engodos.

Só assim podemos evitar iludir-nos e, se já estivermos iludidos, desiludir-nos em relação ao mundo impermanente e, portanto, ilusório e decepcionante.

Somente após desiludidos quanto à impossível perenidade de tudo, pois tudo é transitório, chegaremos à mais libertadora e iluminadora conquista, que é desapegar-nos das coisas do mundo, sem o que não podemos começar a caminhada rumo à única realidade perene: Deus.

O “filho pródigo”, quando ainda seduzido e arrastado pelas atrações do mundo, não tem como entregar-se ao Yoga ensinado pelos Sábios e pelas escrituras.

Ele ainda está se distanciando do Pai por preferir os dourados atavios da ilusão. Um “filho pródigo” assim, ainda encantado com as promessas e delícias mundanas, não quer saber da austeridade do Yoga ensinado pelas sagradas escrituras e pelos Mestres.

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É por isso que alguns deles inventam um Yoga que lhes seja útil na conquistas dos falsos valores pelos quais anseiam e batalham. Tal Yoga, acreditam, os ajudará alcançar o o que mais desejam: prazer e poder, fama e status.

E, para isso, disciplina, autodomínio e humildade, sacrifício e renúncia, veracidade e amor, finalmente cuidadosa vida ética…, nada importam. E podem mesmo atrapalhar.

O que se alcança sem ética, no entanto, não pode ser Yoga. Jóia de preço baixo só pode ser imitação medíocre.

Yoga é disciplina iluminativa a serviço de uma extrema opção pelo Divino. É inteligente auto-reeducação que nos leva a um natural desapego dos efêmeros encantos da vida material.

O anti-yoga, dos egoístas, dominados por mil desejos, apegos e aversões, arrasa com últimos vestígios de lucidez, e isso os arruina e os atrela à escravidão e à dor. O anti-yoga tem um nome: bhoga.

Eu me preocupo com e me entristeço pelos muitos que se atolam em bhoga, principalmente se, iludidos, supõem estar praticando Yoga.

Use os “olhos de ver e ouvidos de ouvir” (viveka) para não “cair em tentação” e não chegar a comprar gatos por lebres. Não se deixe enganar. O falso Yoga e os “falsos profetas” andam muito ativos.

Bhoga se apresenta como uma metodologia fácil e sedutora; uma espécie de “caminho largo”, que conduz à servidão e à dor.

O Yoga autêntico sempre foi e é a iluminada opção pela “porta estreita”, que conduz à “salvação”.

O Yoga é razoavelmente exigente, mas abre as portas à luz e à libertação. Bhoga é a submissão às trevas. Não sou eu quem afirma, mas os Mestres e as escrituras.

É extraordinária a austeridade e transcendente a sacralidade desse caminho para Deus. Dá para concluir que Yoga e atividade comercial e empresarial, exibicionismo e competição de contorcionismo estão em pólos opostos?!

Dá para ver o quanto o Yoga hoje anda sendo desfigurado, desviado e distorcido?! Dá para ver o quanto o Yoga está longe dos que vivem em bhoga, dos que o confundem com atividade física, somente física?!

Neste ponto você poderá questionar: E o Hatha Yoga não é uma ginástica?

Supor que Hatha Yoga é simples ginástica tem prejudicado muito a imagem do Yoga. Tem levado quase todos a cuidar somente do corpo, ao fazer ásanas e achar que estão praticando Yoga.

É inegável que os ásanas (posturas somato-psico-espirituais), realmente parecem com atividade física. Apenas parecem.

Na verdade, porém, cada ásana é um atividade holística, pois exercita a vastidão de todo sistema que cada um de nós é e não somente um de seus componentes – o físico.

Além do mais, não é algo repetitivo, mecânico, automático, orgástico, fatigante, digamos uma espécie de “malhação”.

Supor que Hatha Yoga é simples ginástica tem prejudicado demais a imagem do Yoga. Tem levado quase todos a trabalhar exclusivamente o corpo e achar que estão praticando Yoga.

Nenhum homem é apenas máquina. Nenhum iceberg é somente uma pedra de gelo que flutua. Algum dia não mais se falará em educação física ou atividade física.

A parada do corpo em uma posição permite um eficaz acesso ao sistema nervoso autônomo, o que, em grande parte, explica os admiráveis resultados terapêuticos e as curas espantosas colhidos pelos praticantes de Yogaterapia.

O Hatha Yoga, mesmo em sua conceituação mais correta, mais científica, não constitui sozinho o Yoga. Aliás, ele é apenas o b-a-bá do Yoga. Não é opinião minha, insisto, mas de uma venerável escritura própria do Hatha:

“Assim como pelo aprendizado do alfabeto pode-se, através da prática, dominar todas as outras ciências, assim também, através de praticar inicialmente o Hatha Yoga, pode-se ascender à posse da Verdade.” Gheraṇḍa Saṁhitā, 1.5.

Não estou pretendendo reduzir a importância do Hatha. Seria ingratidão inominável. Ele foi peça da maior importância, quando, sozinho e doente, pratiquei ásanas e outras técnicas com finalidade yogaterápica.

Não menosprezo os ásanas, e isso eu provo pois, com oitenta anos, ainda “planto bananeira” e faço outras proezas. Só estou tentando evitar um equívoco que vem sendo muito ruim para a conceituação do Yoga em sua imensidão. Os ásanas fazem parte de um sistema muito maior.

Sugiro aos praticantes que caprichem, que persistentemente pratiquem, mas nunca percam de vista o objetivo mais excelso do próprio Hatha Yoga: viabilizar a união com o Divino Ser que cada um é.

Não usem āsanas para favorecer bhoga. A prática somente de ásanas pode degenerar em narcisismo patológico. Cuidado!

Se os mais jovens exímios em ásanas se consideram yogis, considerem também que os contorcionistas de circo seriam pessoas mais santas e mais evoluídas que Jesus Cristo, S. Francisco de Assis, Santa Tereza de Ávila, Buddha, Gandhi, Chico Xavier… e outros que nunca fizeram āsanas.

Todo instrutor de Yoga já deve ter estudado o Yoga Sútra, no qual seu autor, o sábio Patañjali, codificou todo o vetusto e milionário acervo da já existente ciência do Yoga.

Ensina ele que, sendo a normal turbulência e tagarelice da mente que, tecendo uma densa cortina opaca velando o fulgor infinito de Puruṣa (o Ser, o Atma, a Realidade…), o Yoga consiste em parar a agitação da mente e emudecê-la, desfazendo a cortina e desnudando o esplendor interno.

Como o conseguir? É através de um processo genial chamado Aṣṭāṅga Yoga ou “Yoga dos oito componentes”. É um caminho tão sábio que começa com dez procedimentos corretivos da conduta ética do aspirante. São cinco yamas e cinco niyamas.

Tal conduta, como se pode inferir, nada tem de fácil, mas daria elevado nível de paz a cada um e, conseqüentemente, à sociedade. A dificuldade de viver Yama é gigantesca nesta hora de amoralismo epidêmico na Humanidade.

Os niyamas são cinco procedimentos que devemos praticar a fim de conquistar a desejada paz conosco mesmo, pois só assim conseguiremos avançar para a iluminação. Eles são:

Śaucan – pureza exterior e interior, física e psíquica;

Santoṣa – contentamento, isto é, o incondicional sentimento de bastante; ausência de ambição…;

Tapas – austeridade, vida modesta, humilde, resistência à dor e ao desconforto; é eqüanimidade; consiste em incinerar as tendências, desejos e apegos egocêntricos, inferiores, animalescos, indiferença ao conforto…;

Svādhyāya – estudo e investigação sobre o Ser Real, essência una e única de todos os seres, de todos os universos…;

Īśvaraprānidhāna – entregar-se total, incondicional, definitiva e irreversivamente a Deus (Íshvara).

Raríssimos são os seres humanos que seguem essa ética super austera. É o preço altíssimo a ser pago pelo praticante do verdadeiro Yoga, a jóia maravilhosa que nada tem a ver com algumas “modalidades” encontradas no mercado.

Se você me pedisse orientação na escolha de um profissional de Yoga, eu diria: procure analisar o que ele diz e faz. Ele precisa pôr em prática os Yamas e Niyamas e o que Krishna ensinou a Arjuna no campo de batalha.

Adianto que, se você for rigoroso ao me analisar, poderá me reprovar. Tem-me sido difícil não falhar. Tenho ainda as naturais limitações humanas.

Acredito, porém, que ao conseguir honestamente constatar minha própria falibilidade, me encontro melhor do que se inventasse um Yoga menos exigente, mas embusteiro, para cultivar.

Recusei até agora esse auto-embuste, essa tão grosseira racionalização. Continuarei engajado no Yoga que acredito autêntico, embora difícil, o Yoga de Kṛṣṇa, Patañjali, Jesus Cristo, Śiva, Śaṅkarācārya, Buddha, Sai Baba…

Nunca lançarei no mercado um monstrengo rotulado, digamos, “Hermo Yoga” – horrível! ignóbil! -, nascido de um chega-pra-lá na ética e no objetivo divino. Tais facilidades provavelmente me atrairiam muitos fregueses e me tornariam um empresário vitorioso.

O Yoga das escrituras e dos Mestres, como se pode ver, está ao alcance somente de raríssimos seres humanos.

No entanto, praticando Yoga, como disciplina para-médica, tuberculoso em estado gravíssimo, sendo apenas um indivíduo normal, ainda enfiado nos meandros de um viver medíocre, consegui reverter o quadro.

Ressuscitei. Tornei-me uma outra pessoa, sadia, feliz, bem disposta, mais lúcida, sentindo paz, sentindo amor universal e liberdade ampla… Como?!

Lidando com possivelmente dezenas de milhares de pessoas, ao longo de quarenta anos, em precárias condição de saúde orgânica e psíquica, apenas ensinando-lhes Yoga, as vi vencer enfermidades no corpo, na mente e na vida de relação. É fácil constatar o poder maravilhoso da Yogaterapia.

Diante de fatos incontestes e inequívocos, conclui pela existência de um Yoga reservado aos santos ou quase santos, um método de duríssima ascese, portanto um Yoga elitista, para os poucos que podem, e outro, muito ameno, mas espantosamente eficaz, para as multidões que precisam.

Eu, pessoalmente, pratico e ensino o “Yoga para quem precisa”, o qual denomino Yogaterapia.

As técnicas predominantes são as do Hatha Yoga fidedigno, sem enfeites nem modernismos, adaptadas às condições individuais dos alunos. Os princípios filosóficos e a meta suprema continuam as mesmas do “Yoga para quem pode”.

É um caminho mais fácil, mas a anos-luz de distância de bhoga, por procurar ser eminentemente fiel aos luminosos princípios e às sábias aspirações do genuíno Yoga eterno.

Na tentativa de melhor elucidar o dois caminhos, proponho a você que estude este comparativo:

Os dois caminhos

Caminho largo X caminho estreito

Caminho agradável X caminho bom

Pravṛtti mārga X Nivrtti mārga

Alienação X Conscientização

Divergência X Convergência

Fragmentação X Religação

Cativeiro X Libertação

Saṁsāra X Nirvāṇa

Apego X Renúncia

Dukha X Sukha

Roga X Aroghya

Bhoga X Yoga


॥ हरिः ॐ ॥

Extraído do livro Canção Universal.
Digitado por Cristiano Bezerra.
Leia aqui mais textos deste brilhante autor.
Visite aqui o site do Professor Hermógenes.

॥ हरिः ॐ ॥

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2 respostas para “Yoga ou Bhoga?”

  1. E muito gratificante ter contato com textos como esse. Pois o verdadeiro Yoga precisa ser divulgado as pessoas para que nao se perca no caminho de de falsas praticas e falsos mestres que pregam somente o caminho do corpo e da perfeicao fisica, gerando um fazio nos coracoes e nas almas desses praticantes. Praticntes esses que se tivessem contato com o verdadeiro yoga poderiam utilizar sua tecnicas para aperfeicoamento espiritual e o comunha com o divino, melhorando assim a vibração do nosso planeta e de nossos mentes e corações! Desejo amor, paz e saude vcs do site para que continuem o caminho de vocês!
    Namaste!

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