Ética, Pratique

Ética para viagem

Desde crianças somos confrontados com aquilo que é correcto e incorrecto. Os desenhos animados são uma das primeiras formas de confrontação com este tema

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Desde crianças somos confrontados com aquilo que é correcto e incorrecto. Os desenhos animados são uma das primeiras formas de confrontação com este tema. Há sempre o ‘bem’ e o ‘mal’ personificados no ‘clube dos bons’, geralmente muito belos e coloridos, e no clube dos maus, os mais feios monstros que a imaginação possa conceber. Imediatamente, sem que ninguém precise dizer nada, sem que os pais necessitem de intervir, escolhemos torcer pelo ‘clube dos bons’.

Porque é que com o crescimento esta escolha deixa de ser tão óbvia ou tão intuitiva? Porque é que muitas vezes passamos para o lado dos ‘maus’ e começamos a espalhar o sofrimento na nossa ‘mundolândia’?

Talvez porque as sociedades que integramos nos ensinem a ter desejos de possessão e a basear a nossa felicidade na concretização destes desejos a qualquer preço, sem olhar a meios para atingir os fins. Vivemos para a satisfação das experiências, das expectativas, e dos sonhos e a pouco e pouco esta ansiedade e insatisfação permanentes vão-se materializando numa cegueira constante e num enorme equívoco existencial, que podemos denominar de ignorância. Mergulhados nesta ignorância confundimos o certo e o errado, o ‘clube dos bons e dos maus’ e perdemos o rumo.

Hoje em dia, no Ocidente, viver uma vida simples e desapegada não é visto como algo de positivo ou desejável, mas sim como falta de ambição, cobardia ou preguiça. O contentamento é visto como inércia, e o que é socialmente correcto é lutar para ter sempre mais e mais.

Regras de navegação

Como viver aqui e agora, livres de pressão e de sofrimento, se não integrarmos o sistema pré-estabelecido?

Há duas receitas que a alguns poderão parecer simplistas e que, de facto, são tão óbvias que custa a crer, mas que para mim têm resultado: ‘não fazer aos outros aquilo que não gosto que me façam a mim’, ‘pensar conscientemente cada acção que executo, sabendo que inevitavelmente desencadeará um efeito. É tão simples quanto isto! Este é o segredo! Para quê ligar o ‘complicómetro’? São as mesmas duas regras que ouvíamos em casa quando crianças, porque é tão difícil recordá-las agora? ‘Não batas ao teu irmão, porque senão ele também terá o direito a bater-te’. ‘Não ponhas a mão no ferro, porque senão vais-te queimar.’

Estamos a viver um período no qual parece que perdemos o mapa da estrada, andamos tontos e perdidos, já nem sabemos bem qual é o destino da viagem. Face a isto alguns preferem levar uma vida sem regras, freestyle, à luz do álibi do carpe diem (“aproveite o dia”, em latim), ignorando o facto de que todas as suas acções terão repercussões. Outros preferem entregar os rumos das suas vidas a líderes, instituições ou rituais, furtando-se a assumir sequer a responsabilidade pelas suas próprias acções.

Vamos para para pensar! Vamos usar a bússola que temos cá dentro, a mesma que em crianças nos fazia torcer pelos ‘bons’, e vamos tentar viver melhor. É tão natural perceber que a violência não é desejável. Todos sabemos que não devemos magoar-nos, nem magoar o próximo. É tão natural percebermos que devemos ser verdadeiros (já dizia a minha mãe ‘mais depressa se apanha um mentiroso do que um coxo’). É tão natural viver com honestidade. Não conheço ninguém que dentro de si não tenha esta escala de valores, não conheço ninguém que não queira ser feliz.

Yoga, o mapa para encontrar a bússola

Na minha opinião, o que o yoga nos propõe é voltar a encontrar esta bússola ética que temos cá dentro para assim vivermos melhor. Ora assim sendo, o yoga é para todos, todos nós que, sem excepção, queremos ser felizes.

Estou muito agradecida ao yoga e aos meus professores por me terem mostrado isso. Por me terem ensinado que o yoga não é só ficar de cabeça para baixo, a respirar pelo nariz em cima de um tapete, mas que existe uma ordem universal e que devemos viver alinhados com ela, pois tudo o que fizermos terá resultados de alcance incalculável.

A minha experiência é curta mas muita coisa mudou desde que o yoga me ‘piscou o olho’. Vivi a minha adolescência distraída com os rapazes, as paixonetas, as férias loucas com as amigas, as festas e as experiências do álcool, do fumo, das drogas, enfim o cardápio completo de um adolescente dos anos 90. Não rejeito estas experiências e não lamento sequer tê-las vivido, mas sinto-me eternamente grata por ter percebido que elas não são a minha felicidade e por ter deixado de viver para a sua satisfação. Vivo agora de forma menos distraída, mais acordada e mais consciente, embora a estrada ainda seja longa. Percebi que não estou sozinha na minha ‘mundolândia’ que todos os seres que aqui estão sofrem os efeitos dos meus actos.

Concretizando: deixei de fumar, pela minha saúde, pela saúde daqueles que me rodeiam e pela saúde do planeta; deixei de comer carne pelo bem-estar dos animais, que tal como os humanos têm o direito à vida; abstenho-me de matar aranhas, moscas e mosquitos que antes esmagava colericamente com o chinelo contra a parede do quarto; ofereço uma parte do meu tempo e do meu dinheiro para tentar ajudar um grupo de sem-abrigo da minha cidade…

E para além destas pequenas acções, que são ainda grãos de areia numa praia de coisas a melhorar, procuro levar o yoga no bolso em todos os momentos da minha vida. Esforço-me por manter-me no presente a cada segundo, permanecendo de olhos bem abertos a cada momento. Isto reflecte-se imediatamente num aumento da objectividade na análise que fazemos das mais prosaicas situações do dia-a-dia, e se antes no trânsito 10 em 10 vezes desesperava, buzinava e me irritava, agora já só 5 de 10 vezes isto acontece.

Eu encontrei a bússola ética, o mapa da minha viagem, e se durante este percurso tiver conseguido indicar o caminho a algumas pessoas, salvo a vida de uma vaca, 20 galinhas, 50 sardinhas e 100 flores, então já viverei feliz para sempre como nos desenhos animados.

Ana é yogini e professora na cidade de Porto, em Portugal.

Uma resposta para “Ética para viagem”

  1. Muito legal seu texto Ana.Parabéns. Iniciei yoga há pouco tempo ja pensei algumas vezes na espontaneidade que temos enquanto crianças e que deveria sempre estar presente na vida de todos.
    Façamos esforços para conseguir resgatar a espontaneidade que está dentro de nós mesmos…

    Namaste

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