Pratique, Yoga na Vida

O vero fogo do Yoga: integrando meditar, sentir e pensar para agir

Partilho este texto para zelar pela verdade e economizar o tempo de iniciantes como eu. Ele fala sobre a lamparina como síntese de uma primeira viagem para a Índia

· 10 mins de leitura >

Um momento chave no meu caminho no Yoga.

Eu estava sem meu MP3 nos ouvidos, mas quando fecho os olhos para lembrar desse momento, o silêncio para o qual ele me levou traz suaves sons de tablas, flauta indiana, cítara e ondas respeitosas do rio Ganges, anunciando um momento chave da minha primeira passagem pela Índia, de 23 de Janeiro a 13 de Maio deste ano (2008).

Meus passos e olhares eram lentos e a percepção do momento muito estimulada pela raridade daquela oportunidade e preciosidade das reflexões que cada nome de livro representava nas estantes, até que resolvi abrir um deles.

Após ler o trecho abaixo, tive a sensação de que o tempo parou. Fechei os olhos. Fiquei completamente estático por aparentes 60 segundos e as múltiplas linguagens que se referiam ao Yoga que eu tinha absorvido até ali, se integravam para um âmbito além do intelectual, naquele momento, na livraria do Ashram de Swamiji Dayananda Sarasvati que eu passava em visita de dois dias.

O Karma Yoga é uma lamparina na terra.
O Bhakti Yoga é o óleo da lamparina, seu combustível.
O Raja Yoga é o pavio da lamparina, que mantém a chama acesa.
O Jñana Yoga é o ar que traz a luz da chama,
que nos mantém conscientes.
Swami Dayananda, O que é meditação?

Durante o tempo que fiquei estático, em silêncio, apenas absorvendo esse trecho, veio uma sensação especial trazendo a lembrança de um professor estimado que se remete à mesma integração das escolas do Yoga acima. Porém, a metáfora da lamparina que o texto usa e o contexto em que eu estava, de uma forma especial me estimulou a contemplar e absorver isso pela primeira vez.

A leitura de um texto de auto conhecimento, como os sutras, por exemplo, às vezes depende de um contexto para uma real absorção ou no mínimo torná-lo objeto de concentração para meditação. O trecho citado acima pode ser uma oportunidade para praticarmos isso e acredito que é pela lei da ação e reação na teia de interrelações que nos conecta com todos que ele veio parar nas minhas mãos e aqui na nossa tela nesse momento.

Em cada mês dessa viagem à Índia, seja nos 30 dias intensivos com a programação da Sachcha Sangha, nos 45 dias intensivos aperfeiçoando ásana com a professora USha ou nos 10 dias de silêncio absoluto com a meditação Vipassana e em tudo que permeou essa programação, a lamparina desse trecho acima simbolizou a síntese de cada etapa.

Ouso simplificar, que a síntese que essa lamparina me inspirou é próximo de: Agir é o objetivo… mas de dentro para fora … com consciência e com o coração.

A programação do primeiro mês.

Contemplando essa lamparina pouco antes de deixar Rishikesh, lembrei que durante o inicio da minha viagem na Índia em todo mês de Fevereiro no Sachcha Dhan Ashram em Sat Sangs com Sachcha Prem Baba, foi muito evocado: Meditar, ajuda a reintegrar o que você pensa, com o que você sente e finalmente com o que você faz e de certa forma a programação de atividades expressava isso, meditação, conhecimento, sentimento para ação.

1.Meditar de manhã,

2. Depois escutar palavras de sabedoria e verdade universal em Sat Sangs e leituras de escrituras sagradas universais,

3. Colocar sentimento nisso tudo com os incríveis músicos presentes nos bhajans e outras expressões musicais da verdade, e finalmente

4. Participar no fim da tarde, das reuniões de ação social, que deram frutos como a peça de teatro educativo e minimização dos resíduos gerados pela Sangha.

Dá-lhe lamparina!

A programação ainda incluía puja para o Ganges, aprofundamento de técnicas de meditação, ritual do fogo e bhajans à noite.

Esse primeiro mês guarda também um momento especial na minha caminhada com o Yoga, já que buscava consagrar solenemente os ensinos que absorvi ouvindo a música de um dos estudantes de Sachcha Prem Baba e participando de seus satsangs e grupo de estudos sobre um dos principais problemas ou miséria existenciais (kleshas) citados no Yoga Sutra: egocentrismo. Depois que caiu minha ficha que é por causa dos kleshas que é sugerido o Ashtanga Yoga de Patanjali que deu origem a tantas escolas de Yoga atualmente.

Estudar as complexas matrizes do egocentrismo moderno com exercícios do meu cotidiano prático, me ajudou a ter uma visão mais científica para diferenciar o estado de Yoga do estado de não-Yoga, e só assim poder escolher com consciência o que queria com o Yoga.

Também alimentou um pouquinho mais de pureza a humildade, devoção e comprometimento com a meta do Yoga, podendo ser simbolizada por uma lamparina que jamais se apaga e pela própria presença de alguém que consegue se manter lá, o mestre.

A auspiciosidade do momento onde com 30 anos, eu presenciava pela primeira vez o berço da cultura do Yoga, na presença de professores que com certeza estão bem na frente de mim nessa caminhada e me ajudaram a renovar minha consciência do inevitável sofrimento de desenvolver um ego e se apegar a identificação da sua dualidade, me encorajou por livre espontânea vontade, para me desapegar de todos meus cabelos, deixando-os fluir com a vida, depois de muito meditar, pensar e sentir. Dá-lhe lamparina!

O anseio da lamparina: a prática

Uma das principais inquietações que tenho desde que comecei a conhecer grupos de auto conhecimento é sobre ação prática, ou seja, a lamparina. Primeiro por testemunhos de pessoas próximas, depois pelos escândalos que a mídia já reportou e agora pelo clamor que pessoas da comunidade Yogi que já estão levantando essa bandeira nas mais variadas formas de expressão com algumas ações sociais aparentemente desidentificadas do ego ou pelo menos como bons exercícios.

Sempre senti muita discordância entre o que se pensa, sente e realmente faz nesses grupos, mas quando eu mesmo tento integrar vejo que isso não é nada mais, nada menos que uma característica da meta, ou seja, é realmente um desafio e foi interessante sintetizar isso num símbolo tão preciso, simples e fácil de lembrar como o da lamparina.

O que ajuda na aceitação mas não elimina a frase : tudo muito bonito, mas e a prática (lamparina)?

Essa inquietação por um Yoga que gerasse ação prática fortalece a importância dessa reflexão, porque se estendia especialmente para aquele exato momento que eu estava na Índia onde fui para aprofundar um sistema filosófico que acredito me ajudar no aperfeiçoamento como ser humano, mas o que via a minha frente era uma grande distancia entre o significado pelo menos simbólico daquela grande quantidade de Ashrams e escolas de Yoga, versus o que eu via ao seu redor no cotidiano.

Montanha lixo jogada à beira do sagrado Ganges.

Fica para um outro artigo citar cada um desses paradoxos na Índia, por enquanto citarei apenas um: o barranco de lixo a beira do lindo rio Ganges, gerado principalmente pelo desafio de gerenciar a avalanche de turistas que lá chegam sedentos por se relembrarem de quem realmente são.

Não são em três ou quatro meses que se conhece uma cultura como essa, muito menos visitando só 4 cidades como preferi focar, mas quando ficava um pouco indignado com a parte prática da Índia que era mais difícil de aceitar, eu gostava de lembrar da curiosidade de que nenhum dos meus professores dos cursos dessa viagem eram indianos, apesar de terem aprendido com mestres nativos de lá, pelos quais desenvolvi especial devoção.

Com uma angustia real, passei a mantrar essa bandeira para muitos, colecionando frases sobre o tema da lamparina: ação prática. Ainda estou pensando em tatuar uma lamparina e a frase ‘A prática é o esforço para nos manter lá’ que estava na minha resposta de quase todos emails da época e se um dia sonhar com uma escola de Yoga essa lamparina não faltará no símbolo.

A lamparina na pratica de ásana: segundo mês

Depois da rotina no Sachcha Dham Ashram, fui buscar um aperfeiçoamento na minha prática de asanas em 45 dias com foco em intensivo e práticas com a professora de Iyengar Yoga, Usha, o que mais tarde também trouxe a percepção da mesma lamparina para dentro da sala de prática, onde era acesa pouco antes da aula sob a estátua de Patanjali.

A precisão com que as instruções para alinhamento dos asanas eram ditadas pela professora, vinha como a do conhecimento de um Jnana Yoga e me deixavam cheio de foco para aprofundar minha visão de asanas com critérios de alinhamento que me deixavam entusiasmado cada vez que percebia a realidade sistêmica do meu corpo e as interrelações entre os membros e as sequencias de asanas.

Mas utilizar meus órgãos de ação (pernas e braços), integrados com a consciência das instruções, nem sempre era tão preciso, principalmente se eu não me lembrasse de colocar sentimento nessa ação, através dos Yamas e Nyamas e comprometimento com a auto observação meditativa no asana,que era o desafio.

Já tinha tido alguns momentos onde percebia a chave dessa integração da lamparina sobre o tapetinho também, quando percebi que minha prática emperrava se ficava só no pensar de como fazer o asana ou se fazia a prática por uma ação mecânica, sem sentimento, real consciência ou intento meditativo e nas práticas na Índia, tive mais exemplos disso principalmente com o sentimento inspirado por tapas, a auto-superação.

Passei a valorizar também o uso de mantras no início da prática que também ajudam a integrar nossa consciência com o sentimento, assim como uma devoção sincera ao sol e seu significado simbólico e concreto na Saudação ao Sol ou em qualquer asana.

Nunca tinha me aprofundado de forma realmente intensiva na prática de Iyengar e queira ou não, foram minhas contusões originadas dos tempos de artes marciais e futebol, que me levaram a sessões de RPG (Restauração Postural Global) e depois ao Yoga em 1996 e finalizei os 45 dias de intensivo muitíssimo satisfeito com as descobertas experienciadas rumo ao alinhamento de um vero asana, com destaque principal para a importância dos pés e alguns cuidados especiais e particulares com meus joelhos e cervical que são de muita valia para essa minha vida nesse corpo.

Porém, minha formação introdutória em Hatha Yoga e pesquisa em vários sistemas para encontrar a prática que mais me ajudava, trouxe a tona inevitáveis questões sobre elementos da prática de Iyengar e Ashtanga que acendem e apagam essa lamparina, seja por falta de conhecimento correto, sentimento, ação correta ou intento meditativo e que ficam para outro artigo.

O importante é que logo depois que deixamos uma prática de Yoga no tapetinho, que mantém a lamparina acesa, nossas ações tendem a ser mais integradas também, mas é aquela velha historia: a prática se encerra no tapetinho, mas o Yoga continua e perceber quando que uma ação te tira do estado de desidentificação, pode ser a chave para o encontro de mais um condicionamento. Essa lamparina, tem me ajudado na ainda difícil atenção de aplicar o Yoga na ação cotidiana.

Sangam: termômetro se sua ação é ou não de uma lamparina

Meu terceiro e último programa intensivo foi minha primeira experiência de 10 dias em silencio absoluto com a meditação Vipassana, próximo de Dharamsala, onde eu também estava pela minha curiosidade pelo budismo tibetano e pela presença do Dalai Lama, em meio a exilados do conflito socio-ambiental no Tibet entoando mantras com especial devoção.

Da mesma forma que os outros programas, percebi que a meditação Vipassana, era conduzida integrando muita consciência, sentimento e atitude dentro de um regime isolado e foi o momento onde essa integração se revelou de forma mais profunda por estar pela primeira vez protegido dos desafios da dualidade cotidiana por plaquinhas como ‘Não ultrapasse essa área’ e “Nobre silêncio”.

Foi minha primeira experiência com o Vipassana e principalmente em ficar 10 dias em silêncio absoluto em um regime de Ashram. Com algumas ressalvas importantes, o resultado final foi bastante positivo, no mínimo, pela experiência do papel de uma mente clara e objetiva e de um corpo estável, imóvel e confortável para ser tomado pela consciência testemunha da meditação.

Porém, esses 10 dias são apenas um treino. Em retiro, minha ação estava protegida de errar, eu não estava me relacionando com as pessoas e com a sociedade, apenas comigo mesmo. Em todo esse tempo da viagem, exceto os 10 dias em Vipassana onde fiquei realmente em regime isolado, os relacionamentos de todos os tipos eram um espelho poderoso para me ajudar a analisar minhas ações.

Para mim, apesar dos grandes desafios e falta de infra-estrutura da Índia para o turismo, o grande diferencial de Rishikesh-India para o turismo do auto conhecimento é que além de todo seu ambiente propício para foco num mergulho adentro, você encontra gente de todo mundo aberta para conversar sobre temas profundos, o que criam elos verdadeiros e ainda desenvolve o inglês, um dos meus objetivos na viagem.

Foram muitas às vezes, que nos espelhos maravilhosos das pessoas que convivi por lá, em verdadeiros sat sangs em trens, encontros inesperados e refeições surpreendentemente incríveis (apesar de eu só ter achado que ia passar mal um dia, 60% das pessoas que conheci passaram mal com a comida. Leve hidrosteril e cuide de suas emoções!) percebi e pude confessar minha desintegração entre o que eu meditava, pensava, sentia e fazia.

Por enquanto, me parece claro que a desintegração nas nossas práticas cotidianas ou em cima do tapetinho das quatro escolas citadas no trecho que deu origem a essa reflexão, não poderá nos levar a meta da lamparina, e pior, desintegradas, sinto que o poder de concentração, desenvolvimento sensorial, boa saúde e aparência física gerados pelas técnicas, pode alimentar o que nos distancia dela: o egocentrismo.

Assim, com muita, muita gratidão mesmo, a todos meus instrutores e toda Sangha da comunidade yogi espalhada na placenta azul, está acesa a lamparina que sintetiza essa minha primeira viagem para Índia.

Que a constante desintegração entre o pensar, sentir e agir seja sempre um sinal que o pavio ainda não é eterno e é preciso meditar um pouco mais tirando a lamparina da cabeça e colocando no coração. Será preciso toda arquitetura desse texto para uma simples lamparina dizer: faça, mas de dentro pra fora, com consciência e de coração?

Ah! Depois do Vipassana, além de celebrar com muita música, oficina de Contact Dance e social o final desse retiro dos 30, fiz uma trilha ate próximo de 3.500 metros acima do mar, para um lugar bem especial, onde se pode ver os Himalaias mais de perto, tocar os pés na sua neve, acender uma lamparina e escutar o silêncio que inspira o Yoga Chitta Vritti Nirodha. Antes de deixar a Índia por Delhi, tambem visitei o Taj Mahal que silenciou todos os meus pré-julgamentos de estar num lugar muito turístico. Imperdível!

Que a luz dessa lamparina possa inspirar outros praticantes como me inspirou! Mas se você precisa como eu, de mais de uma metáfora para se lembrar disso, tem o arqueiro abaixo, para dizer o mesmo:

Segure o arco das escrituras,
coloque nele a flecha da devoção;
tensione a corda da meditação e
entregue a ação em direção ao alvo, o Ser.
Mundaka Upanishad, II:2.

Thank you Índia! Dhanyavad! Obrigado! ((((_/_)))

Om shanti shanti shanti … Harih om!

Links interessantes:

Letra de música do autor inspirada pela lamparina: http://triptudovemdanatureza.blogspot.com/2008/05/tates-arte-purificadora.html

Blog com reflexões pessoais, músicas e poesias no caminho com o Yoga: www.murilloyoga.multiply.com

Ação, Yoga & Ecologia — Especial Índia: www.tudovemdanatureza.org.br

Resumo geral da viagem Índia: http://triptudovemdanatureza.blogspot.com/2008/02/inicio-parte-2-o-corpo.html

2 respostas para “O vero fogo do Yoga: integrando meditar, sentir e pensar para agir”

  1. Olá MurilO!!

    belo texto.. tbm quero visitar a india e seu texto ainda me deixou mais interessado!

    Um grande abraço!

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