Começando, Pratique

O Yoga do $egredo

O Yoga já foi alternativo. Historicamente, no ocidente, o Yoga esteve ligado à contestação dos valores vigentes

Escrito por Tales Nunes · 2 mins de leitura >

O Yoga já foi alternativo. Historicamente, no ocidente, o Yoga esteve ligado a contestação dos valores vigentes. Num estudo histórico sobre o Yoga, De Michelis diz que o primeiro ocidental a se dizer yogi foi o filósofo Henry Thoureau.

Este construiu sua própria cabana e foi morar na mata, plantando a sua comida e vivendo apenas com os frutos de seu trabalho. Nesse período, negou-se a pagar impostos ao estado norte-americano, pois não queria patrocinar a guerra que esse país travava com os vizinhos mexicanos na briga por terras.

Essa sua experiência na floresta é narrada no livro Walden e a Vida nos Bosques. Depois disso ele foi preso por sonegação e, indignado, escreveu A Desobediência Civil, um escrito pré-anarquista que contestava o poder do estado e valorizava a consciência individual. Depois de alguns anos, Gandhi usou esse escrito para balizar sua política de revolução pacífica na luta pela independência da Índia.

Anos depois, nos Estados Unidos mesmo, toda uma geração hippie teve não apenas o livro de Thoureau como inspiração, mas também a filosofia do Yoga como um meio alternativo ao American Way of Life. Hoje, esse estilo de vida espalhou-se pelo mundo e serve de modelo de desenvolvimento seguido pela maior parte das lideranças políticas dos países e como sonho individual de grande parte das pessoas que vivem no planeta.

E é dentro desse contexto que o Yoga floresce atualmente. Mas o Yoga que é praticado por grande parte das pessoas hoje, não é o Yoga dos Vedas, ou o Yoga de Patanjali, ou o Yoga da Hatha Yoga Pradipika. O Yoga praticado pelos sábios que deixaram o seu legado na Índia era preservado como uma jóia, era sagrado e guardado em segredo.

O Yoga mais praticado hoje é o Yoga do ‘$egredo’. Para mim, o filme ‘O $egredo’ revela toda a pequenez americana através de uma linguagem da física “quântica”. Como enriquecer com o poder da mente, usando a força conceitual da física quântica.

Detalhe, não se fala em construir um mundo melhor, mais harmônico ou mais pacífico com o poder das orações, mas sim, e apenas, a realização de desejos pessoais. Na verdade, nesse meio, a física quântica está sendo tão banalizada e tão descaracterizada quanto o Yoga. Mas ambas se encontraram no Ocidente e deram origem ao Yoga do ‘$egredo’ ou Yoga Quântico.

O Yoga Quântico é in. Ele atrai cada dia mais adeptos, pois veio para resolver os dois problemas básicos da modernidade. Dois problemas quânticos: Quantiquecusta? e Quantiquevouganhar?

Uma das meque práticas mais consumidas se resume ao seguinte: dois Oms, vynyasa, ego, uma respiração especial, sussurro, drishti, e um tapetinho suado ao fim. Fora isso, o resto vem. O problema é que o resto esperado que venha pelos praticantes é: um corpo melhor modelado, bem estar, longevidade, menos rugas, etc. No Yoga Quântico, na meditação, reflete-se sobre a diferença quântica entre o custo e o benefício da prática que pode ser, ao invés de tradicional, ‘traicional’. Pois o resultado esperado pode não vir, ou vir muito menos do que se esperava.

O Yoga do ‘$egredo’ está em anúncios publicitários, em revistas de saúde e beleza, em filmes clichês norte-americanos, na novela das oito. Nesse Yoga, o que importa é o que você pratica, e não a pessoa que você é ou se tornou praticando. Esse Yoga é o Yoga de vitrine, o Yoga visual, que não tem força suficiente para chegar ao coração.

Em muitos países, esse Yoga foi institucionalizado e submetido a regras e a fragmentações. Na América do Norte é descaradamente patenteado. Na Inglaterra é submetido ao Conselho de Esporte. No Brasil quase foi submetido ao Conselho Federal de Educação Física. Esse Yoga não é dos rishis, de Patanjali, ou da humanidade. Esse Yoga é da pessoa que o pratica, que aprendeu com o professor-mestre dela, que é o maior e melhor de todos. Isso torna a pessoa que pratica esse Yoga, por tabela, a maior e a melhor de todas.

Mas o bom disso tudo é que muitas pessoas entram no Yoga do ‘$egredo’, dentro dele descobrem maravilhas e, a partir dele, chegam em outros Yogas que continuam sendo alternativos, transformadores.

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20 respostas para “O Yoga do $egredo”

  1. Concordo plenamente com seu ponto de vista. A nós, que exercitamos o senso crítico, cabe não se deixar enveredar pelo individualismo e estar atentos às pequenas armadilhas do modo ocidental de ver as coisas. Só depois que li seu texto, me toquei da abordagem egoísta sobre a utilização da física quântica em “O segredo”. Até então, tudo no filme tinha me parecido super normal. Vou ficar mais atenta ao que vejo, ouço e leio.

  2. É irmãozinho Kabeça!
    Cabe a nós mudarmos esta visão deturpada que o Yoga está tendo.
    Sabia que eu as vezes noto a sala de aula, dos grandes centros de Yoga mais vazias? Pelo menos as minhas. Acho que uma aula que faz a pessoa refletir em vez de suar a deixa com medo de enfrentar os seus próprios “limites” de frente.
    Lendo o que escrevemos e lemos de nossos professores é que a inspiração volta. Me chateia perceber que as pessoas não dão a mínima para o conteúdo da prática e sim para o contorcionismo e as flexões de braço.
    Voltar de uma viagem à India ou de um curso que nos leva para reflexões mais profundas sempre me deixam a impressão de “não quero voltar”.
    Mas fico feliz de ter amigos como você que continuam a ser fonte de inspiração!
    Grande abraço Kabeça!
    Obrigado!!!

  3. Mesmo essas publicações em revistas e outros meios, só fortalecem o Yoga como uma atividade que realmente funciona, cabe aos bons profissionais tirar um bom proveito e fazer um bom trabalho…

  4. Parabens pelo texto.
    Uma constatação…
    Quando nós instrutores, em nossa missão de divulgar o Yoga mais puro, tentamos aconselhar os instrutores do Yoga do Segredo, constatamos infelizmente que eles preferem continuar no Yoga do segredo e fazem aquela cara de .. ” haaa… é? legal… mais eu prefiro yoga assim… mexe mais com o corpo, fico mais zen”
    Abraços a todos.
    Namastê!

  5. Grande Tales!

    $em palavras, pefeito o trocadilho do cifrão. É realmente uma comédia o filme o Segredo. É a pura manifestação da gula egocêntrica usar o poder da mente para querer tudo pra si, quando vamos realmente absorver conscientemente que o real segredo é a infinitude de nossa essência altruísta e parar de incoscientemente buscá-lo na ilusória infinitude da matéria e do ego? Obrigado por mais essa inteligente e bem humorada reflexão! Harih om! (Evocado seja o real segredo do Ser)

  6. Muito bom, Tales! Excelente! Essa reflexão é bastante necessária nos tempos de hoje. Não só em termos críticos, mas em termos propositivos. Como o yogi pode contribuir para tornar esse mundo um lugar melhor para se viver? É preciso praticar um yoga radical, no sentido de raíz, e a raíz é o humano, a existência. Namastê!

  7. Acredito que hoje o denso é tão importante quando o sutil. O mundo hoje trata de muita coisa de forma grosseira, e muitas vezes nosso primeiro contato com algo, acaba sendo de forma grosseira.

    A partir daí entra a sensibilidade de cada um, aqueles que irão continuar encarando o Yoga da forma como foi apresentado, de forma grosseira, e aqueles que partem para o aprimoramento, que seria o conhecimento do Yoga na forma sutil. Acredito sempre que, entre milhares, com certeza terá um que irá entender o verdadeiro segredo. Om Mani Padme Hum.

  8. Entrei por puro acaso, mas valeu a pena.
    Aprendi muito. Parabéns pelo artigo!
    Bruna.

  9. Bom dia gente de bem!

    Com relação ao texto acima, acho importante ressaltar justamente o fechamento do texto, onde, diz que o lado bom do filme The Secret é que por meio deles outras pessoas encontram as verdadeiras belezas de várias outras Yogas.
    Acredito que todo o discurso contrário ao filme, poderia ser revido sob a ótica do respeitar o momento de cada um… há quem encontre Plenitude depois de um longo período em drogas, há quem encontre Plenitude após a perda de um ente querido, um momento de desemprego, enfim, cada um em seu momento, mesmo que este seja um momento diferente do seu.
    Costumo comparar momentos como camisetas… e isso me livra do ato de julgar na sua forma pejorativa, por exemplo: A camiseta de quem usa os métodos do filme O Segredo pode ser mais larga ou mais justa que a sua… não melhor ou pior que a sua… é perigoso e errôneo tomar partido… pode ser que amanhã você engorde e a camisa que criticou irá te servir, ou, pode ser que emagreça e a camisa mais justa será a que melhor lhe servirá… da mesma forma me pergunto: “Fernando, não seria essa apenas a camisa do Tales?” Sim! Certamente é… por isso o respeito… só tomei a liberdade de estender a minha camisa para que outros observem tb, pois, acho muito perigoso e negativo textos com posturas bem definidas e segregadoras… mas lembre-se, essa é apenas a minha opinião… posso estar certo ou não… o que isso importa?
    Bem, também gostaria de deixar aqui uma coisa que aprendi que diz que “Há três tipos de pessoas que encontram a Deus: Os Aflitos, Os que procuram Bens Materiais, Os Curiosos e os Sábios”… Mais uma vez friso: TODOS encontram a Deus e não há maior ou menor nobreza nisso, pois, todos simplesmente “são”… melhor ou pior é coisa de ser humano e simplesmente penso que você está certoem suas palavras e eu também… e o filme O Segredo também :o)

    Paz Profunda!

    Namastê!

    Fernando Camargo,

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