Pratique, Yoga na Vida

Ritual e Êxtase: Yoga, Dança e o momento presente

Este texto pretende apresentar como a prática de Yoga pode estar a serviço de uma dança mais "total" para o bailarino. São investigados pontos de convergência, diferenças e ressonâncias entre estes dois universos

Escrito por Bia Gaspar · 9 mins de leitura >

Este texto pretende apresentar como a prática de Yoga pode estar a serviço de uma dança mais “total” para o bailarino. São investigados pontos de convergência, diferenças e ressonâncias entre estes dois universos.

Das coxias, a bailarina escuta o terceiro sinal, maquiada, figurino bem ajustado ao corpo. Uma aula de uma hora e meia foi feita no teatro; em seguida, o espetáculo inteiro foi dançado com as cortinas fechadas, para as correções do ensaiador. O ritual se repete e se renova a cada performance. Concentrada, ela respira em diferentes ritmos, mobiliza as articulações, percorre, imóvel, toda a seqüência de movimentos do primeiro ato, mentalmente.

Ao cruzar as fronteiras do palco, irrompendo na luz quente da cena, nada mais existe. Não há espaço para a dúvida, para o medo, não é possível planejar, nada que não o imediato movimento. Em mágicos instantes, é a memória do gesto no corpo que o conduz, e a mente — passiva e alerta –deixa-se guiar pelo fluxo unívoco da respiração e do movimento.

A mente dirige o corpo, a musculatura voluntária reage aos comandos: um exercício meditativo de precisão motora. ‘A dança que se vê no corpo do bailarino existe antes como mapa no seu cérebro. Ela começa lá, como sinapse. A dança surge neste contínuo entre o mental, o neuronal e o carnal.’ (Helena Katz, 1998). Há um nível de concentração que permite ao bailarino assistir a execução do movimento, e executá-lo, sendo simultaneamente o ‘fazedor’ e aquele que assiste ao que é feito. A conquista de um ‘estar presente’, observando o próprio estado de presença, de um ‘fazer’ simultâneo a um ‘observar’ do que está sendo feito, é uma das etapas no caminho da integração.

A energia do bailarino é transformada em movimento, doada à platéia e, na doação e na entrega_ tomado pela exaustão física posterior_ estará alimentada a alma do artista. Algo pode ter sido comunicado, algo pode ter sido exibido, mas é na doação que a realização atinge seu ápice. BKS Iyengar nos instrui que poucos conhecem o yoga como arte — ele é mais difundido como filosofia ou caminho — e afirma:

‘Nenhum artista consegue definir a sua arte: aquilo que a arte é só pode ser expresso por meio desta própria arte, não em palavras’, ‘O yoga é uma arte espiritual’ e só pode ser conhecido por meio do yoga, ensinam os mestres.

Em seu livro A Árvore do Yoga, Iyengar nos diz que o artista que está em contato com os níveis internos do seu ser desenvolverá uma vasta gama de expressões, sua arte se tornará: ‘satyam, sivam, sundaram‘, ou verdadeira, auspiciosa e bela, ‘uma arte divina’. Sem tal profundidade a arte teria como fim o prazer, que, segundo ele, também tem o seu valor. Porem se a intensidade e a devoção desaparecerem, ela pode facilmente se degenerar em kama-kala, ou a arte pela gratificação sensual. O bailarino que entrega sua dança, abandonando a ânsia pela aprovação e pelo reconhecimento, usufrui da grandeza de viver sua arte nas altas atmosferas do ‘espírito’.

A dança, desde os seus primórdios esteve envolvida com o ritual, celebração, sacrifício, adoração; o culto a forças da natureza, a entidades invisíveis. Algo que se fazia em grupo, seguia uma determinada progressão de eventos que envolvia muitas vezes a criação de um estado de transe, um clímax, e o retorno ao estado de vigília. Muitos séculos depois ela foi elevada ao palco italiano, para contar uma estória, encenar um evento, nas operas, peças e grandes balés de repertorio. Neles, a dança frontal sugeria um ‘fazer para o outro’, uma ‘exibição’ para a platéia.

Com o tempo, o olhar altivo, a pose, a pompa dos figurinos, foi ganhando outras tonalidades. O olhar que se lançava para a platéia passou a poder recolher-se e concentrar-se no espaço cênico. A busca pela reprodução exata do movimento coreográfico deu vez à riqueza da tradução de um dado corpo, particular, com suas memórias e vivências, impregnado da própria história sensorial e psico-comportamental. A busca pelo gesto autentico, pela apropriação do gesto, passou a ser legitimada. E, desta forma, o espectador pode ser ‘convidado’, hoje, a entrar em processos cada vez mais subjetivos de criação, universos ‘auto-eróticos’, delírios criativos, questionamentos e angustias privadas. Na contemporaneidade a dança se distancia cada vez mais do enredo, o espectador está livre para absorver sentidos, emoções ‘brutas’, idéias ou sensações.

Do celebrar ao comunicar, dos enredos a livre interpretação do espectador, a dança não perdeu seu caráter ritualístico. A aula diária, os preparatórios antes do espetáculo, o descanso e a alimentação, a repetição e depuração do movimento. No seu ‘Light on Yoga’, BKS Iyengar, se curva, numa prece, aos ensinamentos de Patanjali. Saúda, em seguida, Shiva, o Senhor Primordial, o terceiro deus da trindade hindu, incumbido da destruição. Destruição e renovação, morte e renascimento, o eterno ciclo de mutações. Shiva Nataraja é a personificação da dança e das transformações, sua dança é um ritual de morte (ao ‘velho’, a uma persona) e renascimento: de um novo corpo, uma nova identidade, um novo ciclo. O calor no corpo queimando velhos padrões psíquicos, antigos modos de ser, ver, e sentir. O ritual da cena, o ritual nas praticas de yoga, transmutam o bailarino e o praticante respectivamente.

Se a dança transmuta emoções, os asanas também expressam: dão corpo às intenções, materializam a nobreza do caráter, esculpem na forma o que está contido na alma. A pratica de vinyasa, como na dança, permite o entrelaçar de movimentos, fluidez e intensidade. A profundidade na execução de alguns asanas leva a tal alinhamento energético e estrutural, que a própria postura ‘acolhe’ o corpo, num ‘ceder’ maior do que um forçar. Há a entrega durante a prática, o ‘esforço relaxado’ que atingimos com a depuração, e há a entrega que se faz ao final de cada pratica, savasana, como o sono profundo que se segue a um espetáculo.

Como a prática de Yoga, então — resumidamente: asanas, pranayamas, e a meditação propriamente dita — somaria a um profissional que devota tanto tempo a exercícios físicos e repetições nos ensaios? O que a imobilidade teria a acrescentar ao bailarino?

É através do esforço e da disciplina que o praticante escala em direção ao Raja Yoga (o Yoga da contemplação). E é através da lapidação das posturas, da observação na imobilidade, que ele atinge o ‘relaxamento no esforço’, a meditação em movimento. Um bailarino está sempre sendo defrontado com a dose do seu esforço, a quantidade de energia que é dedicada à aula, a que é despendida no ensaio prévio ao espetáculo. A dança não é aeróbica por excelência, os esforços são geralmente assimétricos, pausas bruscas podem ser transformadas em rompantes no espaço. É necessária muita concentração para conservar e armazenar energia. A dose exata, a integridade e a inteireza em cena, muitas vezes, só chegam com a maturidade.

O Yoga apresenta caminhos acessíveis para tal. Numa aula convencional — como nós ocidentais tivemos acesso, por intermédio da sistematização dos ingleses — aquecemos o corpo, liberamos articulações, alongamos e fortalecemos músculos, respirando continuamente. A respiração é via de acesso, ferramenta capital. O transito da energia no corpo depende de como respiramos, depende de um alinhamento especifico de ossos, de uma transmissão de tensão adequada entre os músculos.

Qual seria, se não a mente, o maior ‘ralo’ de energia para um corpo que vive de explosões da mesma? A imobilidade ‘treina’ a observação: das emoções antes destas se tornarem atitudes, dos pensamentos, do próprio movimento do corpo. Na ausência da palavra, a pura observação aproxima o ser do observador do ser. E talvez ai resida o maior beneficio do yoga para um bailarino que trabalha desencadeando ações. Seu trabalho é agir, disparar contrações musculares, não pode eleger quando descansar… Segue uma ordem de passos coreográficos, improvisa, repete à exaustão: produz ações. O seu ‘fazer’, no entanto, precisa estar bem estruturada no corpo, de forma que a ação tenha principio, meio e fim; foco, precisão. Do contrario o bailarino pode se perder disparando pelo espaço, randomicamente, passos dispersos e fragmentados, dispersando e fragmentando energia.

A mestra Godelieve Denys Struyf, na introdução ao seu método de Cadeias Musculares e Articulares GDS, afirma: ‘Pensamentos e emoções acionam grupos musculares’ e segue: ‘a linguagem corporal e o comportamento são designados em associação com o sistema muscular que concretiza a mensagem.’ Assim, mesmo que a expressão de tais pensamentos e emoções for inibida: ‘o sistema muscular é ativado da cabeça às mãos e aos pés’, o corpo fica em estado de prontidão, pronto para agir ou expressar-se numa dada pulsão, a tensão aumenta nos músculos envolvidos. Há uma contrapartida física de tudo o que pensamos e sentimos.

A busca da verticalidade, presente em inúmeras asanas — incluindo siddhasana, a típica postura para meditação — é central na dança clássica. A ênfase no eixo, no alongamento axial, na elevação e suspensão do corpo no espaço, é indissociável do ensino e pratica do ballet clássico. Tal impulsão vertical, para Godelieve, tem o poder de desencadear alavancas ósseas, trações de músculos que reagirão à gravidade encadeados, moldando o corpo no sentido ascendente. Tal ‘pulsão vertical’ está, segundo ela, associada à busca da espiritualidade.

Já na dança contemporânea, as rápidas transições, entradas e saídas do chão, as espirais e os movimentos pendulares, desafiam o eixo, o ‘centro’, em sua estabilidade. Daí a necessidade de tonificá-lo, compactá-lo, tornando-o firme para lidar com as trações vigorosas dos membros. O mesmo centro que condensamos com a ativação de mula bandha e uddiyana bandha, na pratica de Yoga.

O bailarino treina para que seja capaz de se ‘libertar’ da técnica, para que, uma vez revelados potenciais ou deficiências, ele possa trabalhá-los, dominá-los, adestrá-los: o corpo. Em última instância, a técnica é um ‘recurso para libertação’, para superação, lançando-o em experiências artísticas ilimitadas. No Yoga a disciplina tem como meta a libertação, moksha, que no caso se trata de uma libertação integral, num nível profundo do ‘ser’.

O treinamento físico na dança possibilita a execução de uma enorme gama de movimentos complexos no espaço: estabilizações em redutos apoios, rapidez e agilidade, resistência. Tal complexidade pode ser expressa em termos quantitativos: o numero de ‘baterias’ no ar, o numero de piruetas que gira; ou qualitativos: no incrementar do tempo de sustentação de um equilíbrio, no aumento da amplitude de um movimento, na altura de um salto, na maior permanência no ar durante um salto.

Paulo Vaz e Maurício Lissovsky, em seu A vida na tecnologia dizem que ‘a dança preocupa-se com os limites nos movimentos que o corpo pode fazer. Deste modo, investigará as restrições nos movimentos humanos e construirá técnicas corporais para superá-los. Estes limites, porem, não se definem só pela resistência corporal. Definem-se também pelo que uma dada cultura definiu como limites aos movimentos propriamente humanos e que se corporificam na alteridade inventada.’ O treinamento da dança, como uma organização que acontece no continuo a que Helena Katz se refere, se servirá de outros substratos de vivências motoras, alargando as fronteiras inventadas pela cultura do que é aceitável para o corpo. Novas conexões neuronais, novas rotas inteligentes e vias inativas serão inauguradas, acrescidas e decodificadas somaticamente.

Com o tránsito veloz de informações na forma de imagens, pouco pode se dizer inacessível ao conhecimento hoje. Para uma dada cultura certos graus de extensão da coluna vertebral podem ser inaceitáveis (e inatingíveis se não por meio de lesões), assim como, para outra, girar piruetas, sobre os dedos dos pés comprimidos num molde de gesso (sapatilha de ponta), pode parecer irreal e inadmissível. O encontro de culturas diversas permitiu a aquisição de novas técnicas para o cultivo de antigos tesouros culturais.

Se o Yoga é milenar e embasado em escrituras milenares, por estar inserido em novos contextos culturais, não ficou ‘esterilizado’ deste contato. Linhas e métodos surgiram, algumas demoraram mais a popularizarem-se no ocidente, outras foram largamente descaracterizadas, outras ainda, guardam fielmente os ensinamentos ancestrais. O yoga virou objeto de estudos científicos, testes. Cientistas medem hoje o fluxo de ondas cerebrais de pessoas em meditação, pesquisam como os drishtis afetam a mente, investigam as articulações na coluna de praticantes desta ou daquela modalidade, os efeitos dos asanas em hérnias discais, distúrbios psiquiátricos, distúrbios respiratórios e hormonais.

No passado os anatomistas faziam seus estudos nos cadáveres e se preocupavam em nomear e ‘segmentar’ o corpo em partes constitutivas. Com o passar do tempo esta observação passou também a integrar o movimento, como estes músculos funcionavam em cadeias, integrados, gerando alavancas e pinças, amortecimento e descompressão, força, coordenação e precisão motora. Hoje em dia sabemos com mais propriedade os efeitos particulares de cada asana, a biomecânica que permite sua execução e aquela que a impede. Temos como trabalhar com alunos múltiplos: atletas, bailarinos, pessoas de idade avançada, de forma preventiva, individual, adequando o método, dosando a intensidade e a progressão. A universalização do conhecimento disponibiliza novas ferramentas, que podem se somar e dialogar: filosofias e praticas que podem estar ‘a serviço’ do progresso, da saúde e da paz.

A prática de Yoga reserva ao iniciante a instigante descoberta de novas possibilidades no corpo, de um fluxo de energia vital revigorante, de uma estabilidade e conforto na mente, antes inimagináveis. O Yoga é embasado em instruções praticas, filosofia e ensinamentos ancestrais. Textos como o Hatha Yoga Pradipika e o Yoga Sutra de Patañjali oferecem não só procedimentos, mas informações sobre os efeitos da técnica, etapa por etapa.

A libertação que o Yoga visa, é, no entanto, uma libertação num âmbito total, existencial, espiritual. E esta liberdade, o trilhar do caminho em direção a ela, instrumentará o bailarino e sua dança, da possibilidade de transmutar a vida na arte, fazer morrer e viver num ritual de transformação e doação infinitos.

Bia é professora, dança e escreve em Sampa. Seu email é [email protected].

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Uma resposta para “Ritual e Êxtase: Yoga, Dança e o momento presente”

  1. Bia,
    Adorei seu artigo. Sei exatamente do que vc fala e compartilho da sua opinião. O Yoga me fez retomar à dança, de forma muito profunda. Descobri que posso vivenciar minha arte, através da verdade que sinto durante a prática. Ganhei de “presente” também, a música que nesse processo surgiu aliada à dança. Enfim, estou muito feliz de saber que vc tb está nessa jornada…
    Grande beijo,
    Juliana Nunes.

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