Pratique, Yoga na Vida

Coitadinho do ego!

Cada parte do corpomente tem sua importância. Não obstante, ouvimos muitos praticantes de Yoga dizer que é preciso vencer o ego, ou anulá-lo, por ele lhes parecer a causa de suas aparentes limitações. De fato, um ego fora do controle é capaz de causar mais dor do que um joelho enfraquecido. Acontece que descartar o ego não é uma opção, já que ele faz parte da ordem psíquica que somos.

Escrito por Julia Rebuzzi · 2 mins de leitura >

Você se desfaria de um joelho apenas por ter lesionado os meniscos ou perdido os ligamentos cruzados? O joelho é uma articulação essencial, mesmo que o mau uso tenha limitado seus movimentos. Ninguém pensa em amputar as pernas só porque elas estão doendo ou não são mais funcionais.

Cada parte do corpomente tem sua importância. Não obstante, ouvimos muitos praticantes de Yoga dizer que é preciso vencer o ego, ou anulá-lo, por ele lhes parecer a causa de suas aparentes limitações. De fato, um ego fora do controle é capaz de causar mais dor do que um joelho enfraquecido. Acontece que descartar o ego não é uma opção, já que ele faz parte da ordem psíquica que somos.

O ego é parte integrante do corpomente, tanto quanto os joelhos ou o cérebro. Assim como não devemos exigir das articulações mais do que elas nos podem dar, tampouco deveríamos exigir demasiado do ego, já que também ele possui suas limitações. Da mesma forma que o joelho está presente onde está por uma razão óbvia de locomoção e sustentação; o ego está presente no antaḥkarāṇa, só que por um motivo menos óbvio para nós.

Antaḥkarāṇa significa, literalmente, órgão ou instrumento interno. Esse termo sânscrito é usado para identificar o composto mente-ego-inteligência, que constitui o psiquismo. Por sua vez, esse composto atua como um elo entre os karmendriyas, órgãos de ação e os jñanendriyas, órgãos de percepção, já que, com base na interpretação do que foi percebido pelos sentidos, o psiquismo decide se e como vai agir no mundo.

Diz a Kaṭha Upaniṣad: O ego bebe as águas doces e amargas, desfrutando das doces, rejeitando as amargas. O Ser bebe as águas doces e amargas, sem desfrutá-las nem rejeitá-las. O ego afunda nas trevas, enquanto que o Ser mergulha na luz. (I:3.1)

A persistente implicância com o ego se deve a uma incompreensão acerca de seu papel e também a uma confusão sobre como podemos nos vincular com ele. O ego busca o prazer, as águas doces, e, quanto a isso, não há conflito. Já quando chega o momento das marés amargas, naturalmente, rejeitamo-las. Esse é o papel do ego em nosso psiquismo: julgar o que é bom e o que é ruim para si.

Se nos condicionarmos aos julgamentos do ego quanto ao que é percebido do mundo exterior, nossas ações serão no sentido de só buscar o que é considerado bom, sentindo aversão pelos resultados diferentes daquilo que desejamos. Acabamos, assim, presos ao mundo material, em sucessivos – e inevitáveis – ciclos de prazer e sofrimento, já que colocamos os objetos de desejo no altar da mente.

A saída para esta aparente dicotomia, de que fala a Upaniṣad, entre o ego que desce às trevas e o Ser, feito de luz, é compreender que nossa realidade última é o Ser, que preenche tanto o ego quanto o mundo físico. E, se o ego sente desejos e cria condicionamentos, devemos nos empenhar em um re-condicionamento dele, para que busquemos o autoconhecimento – Brahmavidyā.

O hábito, ou condicionamento, nos amarra. Se deixamos este instrumento interno, que é nossa psique, solto para seguir qualquer caminho, ele seguirá o mesmo caminho de sempre. Com a prática do Yoga, com a atenção à prática inerente e com a atitude interna correta de compreensão sobre minha real natureza, torno-me capaz de disciplinar o ego e a mente na direção certa – e nem preciso tentar vencê-los!

Para finalizar, citemos mais uma vez a Kaṭha Upaniṣad: Aquele que tiver discernimento, mente disciplinada e pureza interior, alcançará a meta e nunca mais irá sofrer nas garras da morte (I:3.2). Com o esforço na prática, aprimoramos nosso discernimento e desenvolvemos disciplina e clareza de percepção. E um ego disciplinado e lúcido é capaz de discernir não só a melhor atitude com que agir no mundo, mas também a meta – mokṣa – que nos liberta do sofrimento pelos desejos e aversões.

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Julia Rebuzzi em Pratique, Yoga na Vida
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15 respostas para “Coitadinho do ego!”

  1. Arrasou! Tudo a ver com o sonho que tive essa noite. Vamos acolher o ego e discipliná-lo. Obrigada pelo texto. Beijão.

  2. Texto maravilhoso, Julinha!
    Parabéns!
    Nunca é demais nos lembrarmos das armadilhas nas quais podemos cair ao lidarmos com o ego, esse nosso companheiro de viagem q deve ser tratado com muito carinho.
    Beijão,
    Dri.

  3. Lindo texto, Julia!!!!! Muita claro e esclarecedor, inclusive para aqueles que não estão habituados à linguagem dos sastras.

    Parabéns!!!

  4. Julia, parabéns pelo texto! Importante a reflexão, feita com bastante clareza.

    Beijos, Namaste!

    1. Artigo excelente, do qual somente tive conhecimento agora quase 3 anos depois, por acaso ou “serendipity” , ao buscar uma forma de contatar a Júlia que “abandonou” – espero que temporariamente – as excelentes aulas de Yoga, as quais sempre atenuam a eventual vida atribulada de alguns de nós .Como dissociar o ego que algumas correntes de pensamento preconizam?Jamais. A prova mais categórica de que isso se torna impossível vem quando – a título de algum elogio ou menção favorável – dizemos: obrigado por massagear meu ego!! Ninguém massageia uma “entidade extracorporeamente”.Assim – de forma implícita – assumimos que o ego sempre foi e sempre será integrante da trilogia corpo-mente-ego.Parabéns Júlia por estimular a reflexão sobre esta tema.Convivamos com essa tríade de forma harmoniosa e aí sim poderemos nos dizer humanos.Sergio [email protected]

  5. Adorei seu texto. Está bem didático, claro e muito bem escrito. Parabéns.

  6. Parabéns, Julinha!
    O texto é ótimo e esclarecedor!
    Beijos,
    Paty.

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