Mantra, Pratique

Hastāmalaka Stotram

Não sou humano, nem anjo nem demônio. Não sou brâmane nem guerreiro, nem comerciante nem artesão. Não sou brahmacari nem casado (gṛhasta), nem aposentado nem renunciante. Na forma de bodha, a consciência, sou Åtma, cuja natureza é a consciência ilimitada.

hastamalaka

O Hastāmalaka Stotram, também chamado Hastāmalakīyam,  é um texto que fala sobre autoconhecimento. Cada texto de Vedānta tem seu próprio sabor, sua própria abordagem. Cada um ressalta algum aspecto de Brahmavidyā, o conhecimento sobre si mesmo, já que ele tem aspectos diferentes e únicos.

Existem várias versões diferentes do Hastāmalaka. Algumas têm doze versos, outras, treze ou catorze. Esta que aqui apresentamos tem catorze. Algumas versões não incluem os primeiros versos. Não obstante, eles são importantes para a correta contextualização do ensinamento.

॥ हरिः ॐ ॥

Ouça o stotram aqui

Conta-se que uma vez, o grande mestre Śaṅkarācārya e seus discípulos estavam viajando pela região de Mukambi, no estado de Karṇataka, quando chegaram num Śrībali agrāhara, uma cidade de brâmanes. Lá, encontraram um sacerdote chamado Prabhakāra.

Ele era uma pessoa muito bem preparada, versada nos Śāstras, com uma bela família e tudo para ser feliz. No entanto, tinha uma preocupação que o deixava infeliz: seu filho, embora com treze anos de idade, não falava, não brincava com as outras crianças nem se comunicava, embora aparentasse ser muito brilhante e saudável. Não ia à escola, comia muito irregularmente e ficava inerte, sem ação, por longos períodos.

Prabhakāra levou a criança à presença do mestre, buscando ajuda e conselho. Śaṅkarācārya, dirigindo-se à criança, perguntou-lhe:

“Ó criança! Quem é você? De quem você é filho? Qual é seu nome? De onde você vem? Para onde você vai? Você parece ser atraente, brilhante, e amoroso. Por favor, responda-me, para a minha satisfação”.

Pode parecer absurdo falar para alguém que não responde mas, por algum motivo, a crianca fala com Śaṅkara. A resposta dada pelo garoto é este texto em quatorze estrofes conhecido como Hastāmalaka Stotram. Basicamente, ele responde não ser um autista (jada), nem um objeto inerte, mas plena consciência.

Ele sabe que todas as ações, todos os elementos da criação, tanto no micro quanto no macrocosmos, derivam da consciência, e são pura consciência. Provavelmente, Shankara não esperava que o garoto respondesse. Muito menos, que desse esse tipo de resposta.

Quem ensinou para ela? A Bhagavadgītā (VI:40), Śrī Kṛṣṇa ensina que qualquer esforço em direção ao autoconhecimento feito em nascimentos prévios, não se perde. Ou seja, que os esforços feitos em vidas anteriores são retomados no mesmo ponto em que foram deixados na existência anterior. Isso explica por que o garoto é tão dotado, e fala de maneira tão clara sobre o autoconhecimento.

O contato com Śaṅkarācārya é uma bênção para o menino. Ele lembra de tudo o que sabia e realizou nas encarnações anteriores. Então, o mestre, dirigindo-se ao pai da criança, Prabhakāra, diz que ela não é de nenhuma utilidade na casa, e que gostaria de adotá-lo para que ele pudesse continuar no processo de autoconhecimento.

O pai aquiesce, com relutância. O garoto viveu e aprendeu com Śaṅkarācārya e passou posteriormente a ser conhecido como Hastāmalakācārya, tornando-se um dos quatro mais importantes discípulos dele.

A palavra hastāmala significa ‘o amala na mão’. Amala ou amla é uma fruta ácida, rica em vitamina C, largamente usada na Índia, tanto na culinária quanto em preparados ayurvédicos, como em forma de óleo cosmético para a pele ou o cabelo.

Assim, o Hastāmalakā, ‘O amala na mão’ é uma parábola que explica o brilhantismo da sabedoria do garoto, que explica as coisas de forma tão simples e direta, que o autoconhecimento fica tão acessível quanto uma fruta na palma da mão.

Todos os grandes temas do Vedanta e do Jñanayoga estão aqui: dharma, autoconhecimento, meios para se livrar do sofrimento, os propósitos humanos, e a inspiração.

Swāmi Dayānanda.

॥ हस्तामलकस्तोत्रम् ॥

Hastāmalaka Stotram

कस्त्वं शिशो कस्य कुतोऽसि गन्ता
किं नाम ते त्वं कुत आगतोऽसि ।
एतन्मयोक्तं वद चार्भक त्वं
मत्प्रीतये प्रीति विवर्धनोऽसि ॥ १ ॥

śrī śaṅkarācārya uvāca
kastvaṁ śiśo kasya kuto’si gantā
kiṁ nāma te tvaṁ kuta āgato’si,
etanmayoktaṁ vada cārbhaka tvam
matprītaye prītivivardhanosi. || 1 ||

Ādi Śaṅkarācārya disse: Ó criança! Quem é você? De quem você é filho? Qual é seu nome? De onde você vem? Para onde você vai? Você parece ser atraente, brilhante, e amoroso. Por favor, responda, para minha satisfação. 1.

हस्तामलक उवाच ।
नाहं मनुष्यो न च देव-यक्षौ
न ब्राह्मण-क्षत्रिय-वैश्य-शूद्राः ।
न ब्रह्मचारी न गृही वनस्थो
भिक्षुर्न चाहं निजबोध रूपः ॥ २ ॥

hastāmalaka uvāca
nā’ham manuṣyo na ca devayakṣau
nā brāhmaṇakṣatriyavaiśyaśudrāḥ,
na brahmacārī na gṛhī na vanastho
bhikṣurna cāham nijabodharūpaḥ. || 2 ||

Hastāmalaka disse: Não sou humano, nem anjo nem demônio. Não sou brâmane nem guerreiro, nem comerciante nem artesão. Não sou brahmacari nem casado (gṛhasta), nem aposentado nem renunciante (bikṣu). Eu sou na forma de bodha, a Consciência. 2.

निमित्तं मनश्चक्षुरादि प्रवृत्तौ
निरस्ताखिलोपाधिराकाशकल्पः ।
रविर्लोकचेष्टानिमित्तं यथा यः
स नित्योपलब्धिस्वरूपोऽहमात्मा ॥ ३ ॥

nimittaṁ manaścakṣurādipravṛttau
nirastākhilopadhirākāśakalpaḥ,
ravirlokaceṣṭānimitaṁ yathā yaḥ
sa nityopalabdhisvarūpo’hamātmā. || 3 ||

Sou Åtma, cuja natureza é a consciência ilimitada, e que é a causa do funcionamento da mente, do olhar e dos demais sentidos, assim como o Sol é a causa das ações de todos os seres na Terra. Contudo, quando não associado com os fatores limitadores [na forma do corpo, a mente e os sentidos], Eu, o Ser, sou como o espaço [que tudo abrange]. 3.

यमग्न्युष्णवन्नित्यबोध स्वरूपं
मनश्चक्षुरादीन्यबोधात्मकानि ।
प्रवर्तन्त आश्रित्य निष्कम्पमेकं
स नित्योपलब्धिस्वरूपोऽहमात्मा ॥ ४ ॥

yamagnyuṣṇavannitya-bodhasvarūpaṁ
manaścakṣurādīnyabodhātmakāni
pravartanta āśritya niṣkampamekaṁ
sa nityopalabdhisvarūpo’hamātmā. || 4 ||

Sou o Ser, cuja natureza é a consciência ilimitada, que é eterno e uno [não-dual], cuja verdadeira natureza é a eterna consciência, assim como o calor é a real natureza do fogo. É graças a essa consciência que a mente, o olhar e os demais sentidos funcionam. 4.

मुखाभासको दर्पणे दृश्यमानो
मुखत्वात् पृथक्त्वेन नैवास्ति वस्तु ।
चिदाभासको धीषु जीवोऽपि तद्वत्
स नित्योपलब्धिस्वरूपोऽहमात्मा ॥ ५ ॥

mukhābhāsako darpaṇe dṛṣyamāno
mukhatvātpṛthaktvena naivāsti vastu,
cidābhāsako dhīṣu jīvo’pi tadvat
sa nityopalabdhisvarūpo’hamātmā. || 5 ||

O reflexo de um rosto num espelho não tem existência separada da face refletida. Similarmente, o jīva, que é reflexo do Ser na inteligência, não tem, de fato, existência separada dele. Eu sou esse Ser, que é da natureza da eterna consciência. 5.

यथा दर्पणाभाव आभासहानौ
मुखं विद्यते कल्पनाहीनमेकम् ।
तथा धी वियोगे निराभासको यः
स नित्योपलब्धिस्वरूपोऽहमात्मा ॥ ६ ॥

yathā darpaṇābhāva ābhāsahānau
mukhaṁ vidyate kalpanāhīnamekam,
tathā dhīviyoge nirābhāsako yaḥ
sa nityopalabdhisvarūpo’hamātmā. || 6 ||

Assim como quando o espelho é removido, o reflexo cessa de existir, mas o rosto permanece, similarmente, o Ser existe sem seus reflexos, na ausência da inteligência. Eu sou esse Ser, cuja natureza é consciência ilimitada. 6.

मनश्चक्षुरादेर्वियुक्तः स्वयं यो
मनश्चक्षुरादेर्मनश्चक्षुरादिः ।
मनश्चक्षुरादेरगम्यस्वरूपः
स नित्योपलब्धिस्वरूपोऽहमात्मा ॥ ७ ॥

manaścakṣurāderviyuktaḥ svayam yo
manaścakṣurādermanaścakṣurādiḥ,
manaścakṣurāderagamyasvarūpaḥ
sa nityopalabdhisvarūpo’hamātmā. || 7 ||

Sendo o Ser livre da mente e dos órgãos sensoriais, ele é o pensar da mente e o olhar do olho. Sua própria natureza não pode ser alcançada pela mente nem pelos órgãos de percepção. Eu sou esse Ser, cuja natureza é consciência ilimitada. 7.

य एको विभाति स्वतः शुद्धचेताः
प्रकाशस्वरूपोऽपि नानेव धीषु
शरावोदकस्थो यथा भानुरेकः
स नित्योपलब्धिस्वरूपोऽहमात्मा ॥ ८ ॥

ya eko vibhāti svataḥ śuddhacetāḥ
prakāśasvarūpo’pi nāneva dhīṣu,
śarāvodakastho yatha bhānurekaḥ
sa nityopalabdhisvarūpo’hamātmā. || 8 ||

Aquele que é Uno, autoefulgente, brilha através da pessoa de mente pura. Mesmo brilhando com luz própria, o Ser aparenta ser muitos e variados indivíduos, assim como o Sol, que é um só, aparenta ser muitos nos diversos reflexos em diferentes corpos de água. Eu sou esse Ser, cuja natureza é consciência ilimitada. 8.

यथाऽनेकचक्षुःप्रकाशो रविर्न
क्रमेण प्रकाशीकरोति प्रकाश्यम् ।
अनेका धियो यस्तथैकः प्रबोधः
स नित्योपलब्धिस्वरूपोऽहमात्मा ॥ ९ ॥

yathā’nekacakṣuḥ prakāśo ravirna
krameṇa prakāśīkaroti prakāśyam,
anekā dhiyo yastathaikaḥ prabodhaḥ
sa nityopalabdhisvarūpo’hamātmā. || 9 ||

Assim como o Sol dá a luz para os olhos, sem precisar revelar os objetos para cada olhar sucessivamente [mas a todos ao mesmo tempo], da mesma forma, a consciência única não ilumina as muitas mentes uma a uma, [senão a todas simultaneamente]. Eu sou esse Ser, cuja natureza é consciência ilimitada. 9.

विवस्वत् प्रभातं यथा रूपमक्षं
प्रगृह्णाति नाभातमेवं विवस्वान् ।
यदाभात आभासयत्यक्षमेकः
स नित्योपलब्धिस्वरूपोऽहमात्मा ॥ १० ॥

vivasvatprabhātaṁ yathā rūpamakṣaṁ
pragṛhṇāti nābhātamevaṁ vivasvān,
yadābhāti ābhāsayatyakṣamekaḥ
sa nityopalabdhisvarūpo’hamātmā. || 10 ||

Assim como o olho vê claramente apenas aqueles objetos que são iluminados pelo Sol, mas não aqueles que a luz não alcança, o próprio Sol torna o olho capaz de enxergar os objetos, apenas por que ele é, por sua vez, iluminado pela luz do Ser. Eu sou esse Ser, cuja Natureza é consciência ilimitada. 10.

यथा सूर्य एकोऽप्स्वनेकश्चलासु
स्थिरास्वप्यनन्यद्विभाव्यस्वरूपः
चलासु प्रभिन्नः सुधीष्वेक एव
स नित्योपलब्धिस्वरूपोऽहमात्मा ॥ ११ ॥

yathā sūrya eko’psvanekaścalāsu
sthirāsvapyananyadvibhāvyasvarūpaḥ,
calāsu prabhīnnāsu’dhīṣveka eva
sa nityopalabdhisvarūpo’hamātmā. || 11 ||

O único Sol parece ser muitos ao se refletir em diferentes corpos de água. Ele permanece imóvel, mesmo quando as águas se movem. Similarmente o Ser, embora refletido em distintas mentes sempre mutantes, permanece sempre o mesmo, intocado por essas mudanças. Eu sou esse Ser, cuja natureza é Consciência Ilimitada. 11.

घनच्छन्नदृष्टिर्घनच्छन्नमर्कम्
यथा निष्प्रभं मन्यते चातिमूढः ।
तथा बद्धवद्भाति यो मूढ-दृष्टेः
स नित्योपलब्धिस्वरूपोऽहमात्मा ॥ १२ ॥

ghanacchannadṛṣṭirghanacchannamarkaṁ
yathā niṣprabhaṁ manyate cātimūḍaḥ,
tathā baddhavadbhāti yo mūḍhadṛṣṭeḥ
sa nityopalabdhisvarūpo’hamātmā. || 12 ||

Assim como o tolo imagina que o Sol perde o brilho quando é escurecido pelas nuvens, da mesma forma, aquele que é enganado pela ignorância acredita que o Ser é condicionado. Eu sou esse Ser, cuja natureza é consciência ilimitada. 12.

समस्तेषु वस्तुष्वनुस्यूतमेकं
समस्तानि वस्तूनि यन्न स्पृशन्ति ।
वियद्वत्सदा शुद्धमच्छस्वरूपं
स नित्योपलब्धिस्वरूपोऽहमात्मा ॥ १३ ॥

samasteṣu vastuṣvanusyūtamekaṁ
samastāni vastūni yaṁ na spṛśanti,
viyadvat sadā śuddhamacchasvarūpaḥ
sa nityopalabdhisvarūpo’hamātmā. || 13 ||

O Ser que permeia o universo, mas a quem nada pode atingir, que é sempre puro como o espaço, que é livre das impurezas do apego e a aversão, que é imortal, esse Ser, cuja natureza é consciência ilimitada, sou eu. 13.

उपाधौ यथा भेदता सन्मणीनां
तथा भेदता बुद्धिभेदेषु तेऽपि ।
यथा चन्द्रिकाणां जले चञ्चलत्वं
तथा चञ्चलत्वं तवापीह विष्णो ॥ १४ ॥

upādhau yathā bhedatā sanmaṇīnāṁ
tathā bhedatā buddhi bhedeṣu te’pi,
yathā candrikāṇāṁ jale cañcalatvaṁ
tathā cañcalatvaṁ tavāpīha viṣṇo. || 14 ||

Assim como, em presença dos objetos, o claro cristal aparenta ser algo diferente dele mesmo, da mesma forma, você, ó Viṣṇu, aparenta ser distinto em presença das diferentes mentes. Assim como a lua parece mover-se nos reflexos na água, similarmente, você aparenta movimentar-se aqui [na criação]. 14.

॥ इति श्रीहस्तामलकाचार्यरचितं
हस्तामलकसंवादस्तोत्रं सम्पूर्णम् ॥

|| iti śrī hastāmalaka acāryacitaṁ
hastāmalakasaṁvādastotraṁ sampūrṇam ||

Aqui completa-se a exposição na
forma do Hastāmalaka Stotram,
de Śrī Hastāmalakācārya

Tradução de Pedro Kupfer

॥ हरिः ॐ ॥

Aqui há uma versão
do Hastāmalaka Stotram
por Swāmi Brahmānanda

॥ हरिः ॐ ॥

Ouça e desfrute também do Gurvaṣṭakaṁ,
o Octeto do Mestre e igualmente
do Nirvāṇa Ṣaṭkam, o Sexteto do Nirvāṇa,
de Śrī Ādi Śaṅkarācārya

4 respostas para “Hastāmalaka Stotram”

  1. Imensamente grata pelo compartilhar de tao lindo Ensinamento!
    Namaste!!!

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