Ética, Pratique

Ahimsa: um valor em extinção

É assustadora a insensibilidade com a qual a minha amiga ativista política se refere à 'empregada da casa', que não faz o trabalho como é mandada

Escrito por Cristiane Carvalho · 4 mins de leitura >

Por onde anda ahimsa?

Aquilo que deveria ser o princípio básico das relações humanas é na verdade quase uma utopia nos tempos atuais. Tenho uma amiga que sempre esteve envolvida em movimentos e causas de cunho político. Desde os tempos do colégio sempre foi ativista em grêmios, ongs e coordenou e chefiou grandes iniciativas de modificação em sua faculdade. Porém é assustadora a insensibilidade com que se refere à ‘empregada de sua casa’, que ‘não faz o trabalho como é mandada’.

A frieza dessa relação entre patroa e empregada, que deveria ser uma relação de companheirisimo, visto que a segunda toma conta e cuida de lar da primeira, lembra as relações de hierarquia que existiam entre servos e senhores não muito tempo atrás.

Sem ahimsa, sem não-violência verdadeira, todos os discursos sociais e políticos de intenções mais nobres ficam vazios. Mas em que época essa realidade foi diferente? A agressividade, a violência e as relações de poder são tão presentes em nossos dias, quanto eram em tempos mais remotos da humanidade. Uma história permeada de crises, conflitos e acontecimentos que destoam do que conhecemos como Dharma.

O Dharma está em crise desde que o homem começou a se relacionar com o poder. Talvez desde que o homem descobriu o fogo. A valorização do poder ocupa um papel de grande destaque na nossa história. A busca por ele resistiu ao tempo e norteia ainda hoje nossos objetivos e condutas.

O desejo por ele infiltra-se pelas ‘arestas’ de nossa personalidade, manipulando pelos bastidores os impulsos que conduzem as nossas ações. Tamanha é a capacidade de persuasão do ego quando imbuído desta ‘sede’ pelo poder, que a encontramos camuflada nos gestos mais nobres.

O poder em si não é o vilão, mas a relação que estabelecemos com ele é que é problemática. Levamos muito a sério essa história de seleção natural, e na busca por sermos os mais fortes, comprometemos nossa relação com os valores, perdendo os referenciais corretos.

Encontramos algumas expressões de ahimsa em alguns momentos na vida e em restritas relações. A ironia maior é que tais momentos nos proporcionam uma grande satisfação, mas esta extingue-se logo após estes momentos, quando na verdade essa sensação deveria servir de ponto de partida para questionarmos nossos padrões comportamentais e deixarmos de nos mover pelas nossas conveniências.

Em nosso mundo crescem cada vez mais barreiras entre eu e você, meu e seu, proporcionalmente ao aumento da competitividade e do desenvolvimento tecnológico em nossas vidas. Proliferam fatores que incentivam as dualidades, ao invés de reduzi-las. Como o movimento feminista, por exemplo, que começou com uma finalidade nobre de diminuir diferenças, mas criou um novo problema afastando as mães de seus filhos, terceirizando a função primordial da educação e interferindo no estabelecimento de ahimsa na sociedade como um todo.

O maior referencial de educação e valores deve estar em casa e não nas escolas onde os padrões de educação seguem a demanda dessa sociedade enferma.

As crianças não podem ter os referenciais da TV, do Playstation, da Internet, do Messenger, do Orkut, ou das revistas Capricho para formar sua visão das coisas. Os valores, a começar por ahimsa, devem inicialmente ser aprendidos no lar, em pequenas atitudes, em exemplos e diálogos.

As crianças high-tech de hoje são extremamente estimuladas e desenvolvidas intelectualmente, porém, muito pouco amadas. Sairão de casa preparadas para o mercado de trabalho porém emocionalmente frágeis e carentes. Enquanto isso, as mães e pais recebem aplausos e honrarias em seu trabalho, e as ‘sementes’ de valores que não estão sendo lançadas no tempo certo farão falta, contribuindo para a escassez de amor no solo do mundo.

O mundo parece extremanente infértil para o amor. Sofremos de insuficiência afetiva e inabilidade crônica para lidarmos com isso.

Percebe-se no teor das conversas, na realização das prioridades diárias, nos hábitos cotidianos, nas relações entre as pessoas, que não há espaço para cordialidade desinteressada, para a gentileza sem segundas intenções, para a fraternidade sem merchandising. A competitividade é o orientador geral das ações; compaixão é algo démodé; caridade, algo piegas; doçura, um sinal de fraqueza; e só se faz algo bom para alguém se isso trouxer um benefício em troca, uma compensação futura.

Fica difícil de encontrar espaço para o tal do amor, que acaba sendo mais bem expresso nos poemas e letras de música, muitas vezes banalizado na boca das pessoas, mas cada vez menos presente nas relações humanas.

‘Faça aos outros aquilo que gostaria que lhe fizessem’, ‘ame o próximo como a ti mesmo’, tantas vezes isso é repetido, mas tão pouco aplicado.

Para erradicarmos um mal, é preciso que primeiro o reconheçamos como tal. Esse padrão de imposições e sobreposições de ‘espaços’, de opiniões e idéias, onde predomina a ‘lei do quem pode mais’ é a regra geral, aceita e muitas vezes louvada.

Precisamos nos conscientizar dessa necessidade de ahimsa, de benevolência e bondade gratuita e desinteressada, de compaixão e amor, não apenas com o intuito de criarmos movimentos e revoluções sociais (apesar de que são necessários), mas para aplicarmos primeiramente em nossas condutas diárias, em atitudes pequenas que fazem grandes diferenças.

A verdade é que estamos nesse século cheio de ‘maravilhas’ científicas e tecnológicas, mas somos muito rudes ainda, embrutecidos em termos de sentimentos, e de civilização mesmo nós só temos o verniz, encobrindo uma mentalidade rudimentar como a de nossos antepassados primitivos.

Devemos começar a buscar ahimsa avaliando a qualidade da relação que estabelecemos conosco, com nossa individualidade. De que forma ahimsa pode melhorar o tratamento que direciono a mim mesmo?

Melhorando essa relação, naturalmente estendo essa qualidade aos meus filhos, marido, animais de estimação, fazendo de minha casa um ambiente estabelecido em ahimsa, um templo de paz. Através de simples atitudes podemos começar a trazer ahimsa para nosso lar. Evitando alimentar-se às custas do sofrimento de animais, reciclando o lixo, evitando desperdícios e poupando o planeta da agressividade do consumo, sendo cordial com os vizinhos, com as pessoas que lhe prestam serviços, dentre outras variadas formas.

Isso, por si só, já e capaz de produzir uma grande revolução e contribuição para o mundo.

Cristiane é yogini e professora em Belo Horizonte. Seu email é [email protected].

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9 respostas para “Ahimsa: um valor em extinção”

  1. Acho que as pessoas esquecem que empregada também é ser, igualzinho todos nós. Achei bisonho o comentário sobre separar as coisas.

    Na verdade é isso mesmo que alguém falou num comentário, as pessoas tem um discurso vedântico de ser, de alma, de consciência pura, mas no final das contas exploram empregadas.

    Até mesmo na Índia, país que é a mãe de toda filosofia, ainda se mantém, mesmo que enfraquecida, essa imoralidade que são as castas, onde tem gente que acha que é melhor que outra, onde tem gente considerada intocável.

  2. Em resposta à Sandra.

    Concordo com você também, Sandra. Onde há ahimsa, não há o que temer. Inclusive para nos manifestarmos uns aos outros, em comentários como estes.
    Todavia, vejo ahimsa em tudo, inclusive nas manifestações dos monges do Mianmar esta semana. Eles recusam ofertas de alimentos e outros víveres, feitas pelos militares que governam o País em protesto, e saem às ruas, em protesto. Já há cinco mortos, em protesto.
    Enfrentam os militares, em protesto. E é ahimsa. Creio que cada um pode tratar suas relações como quiser, sendo amiga e companheira dos empregados domésticos ou não. Há que se ter apenas dignidade e respeito.

    Há violência (psicológica) disfarçada em “boas” relações, com um tentando influenciar o outro, servir-se do outro, “amar” o outro de forma a ser beneficiado. Continuo sustentado este pensamento, porque todos nós, se temos consciência, vemos acontecer tais fatos todos os dias: entre casais, entre pais e filhos, entre colegas de trabalho, entre amigos etc etc etc.
    Limites nas relações não implicam em perda da igualdade, muito pelo contrário, podem favorecê-la. Uma forma de pensar, que não defendo ser a única certa. Namastê!

  3. O poder estabelecido sempre irá se sentir ameaçado com qualquer palavra que sugira igualdade entre os homens.

    Tem gente que tem medo de ficar amiga da empregada e dos filhos. Medo de não conseguir estabelecer limites, alegando que o patrão que é amigo pode abusar, coisa impossível de acontecer se houver ahimsa.

    Na existência dessa, ninguém irá abusar da “empregada” só por que ela se tornou amiga. As coisas podem ser resolvidas de forma civilizada e conversada.

    O artigo falou sobre isso, de civilizados temos apenas o verniz, mas somos primitivos.

    A “empregada” pode ser amiga, ou considerada da família, ou companheira, chame-se do que for, e mesmo assim, podemos separar as coisas: pagar o que é devido, cumprir as obrigações empregatícias e agir de forma correta com ela. A separação deveria ser essa, e não algo do tipo: vamos separar as coisas, a “empregada” é uma coisa, amigos são outras, as coisas não devem se misturar.

    Foi exatamente o que eu li neste artigo, que até hoje, as relações entre “patroa” e “empregada”, colocam limites que lembrar as antigas relações entre senhores e servos.

    Vale lembrar que servo recebe alguma coisa, não é escravo. Mas a relação de servo e senhor é baseada em poder, exploração, frieza e impessoalidade, sentimento de superioridade e subjugação, cheia de limites que mostram onde há um “maior” que outro.

  4. Concordo em grande parte com seu texto, Cristiane, mas devo alertar que às vezes, disfarçados em amor e atenção, estabelecem-se dependências e falta de limites nas relações. Não comungo da idéia de que o empregado doméstico é alguém da família.
    Sim, é um tipo particular de relação empregatícia, mas deve ser tratada como tal, sob pena de confundirmos os papéis, e aquela pessoa que cuida do meu lar, ser também minha amiga e companheira, desbordando para outra relação, a de amizade, um tanto diferente.

    As relações de amizade permitem concessões, de ambos os lados, que a relação de trabalho não permite. Por exemplo, já que a pessoa que trabalha na minha casa é minha amiga, posso pedir-lhe que fique mais um pouco, além do horário habitual ou contratado, porque eu estou atrasada.

    Ou posso me sentar com ela para um café ou bate-papo, enquanto o serviço espera. E depois, ela que dê conta dele. E tantas outras atitudes, que acabam por privilegiar o lado mais “forte”, ou seja, do empregador. Aí sim, enxergo servidão não voluntária, e portanto indesejável.

    É como em certas décadas quis-se tratar os filhos, como amigos, perdendo-se com isto a necessária autoridade de pais, e imposição de limites. Bondade sim, mas com sentido de dever ou dharma. Namastê a todos!

  5. Esse texto nos faz refletir sobre ahimsa de um ponto de vista diferente do que estamos acostumados.

    Nós yoginis e yogis, estamos sempre falando em violência contra os seres, os animais, as pessoas, as plantas. Mas esquecemos que empregada é uma pessoa, que os filhos são pessoas, e cometemos uma grande violência com nossos filhos quando deixamos de dar-lhes aquilo que precisam.

    É muito fácil deixarmos as crianças com as babás eletrônicas: tv, computador, mp3, etc.E muito fácil também colocarmos eles em várias atividades, ballet, natação, tênis, futebol, inglês, do que ter que ficar dando atenção. E não seria a negligência também uma forma de violência com eles?

    Não tenho filhos, ainda, mas achei elucidativo ler isso, já que terei em um ano. Esse texto tem a importância de ampliar os pontos de vista sobre ahimsa.

    Parabéns!

  6. Parabéns Cristiane!

    Um texto de grande sensibilidade, principalmente social, com um recado duro de ouvir, mas precioso para todos nós que somos pais e que estamos deixando nossos filhos serem criados pela internet.

    Eu nunca tinha pensado no movimento feminista neessa forma, acho que a solução é mesmo a união do ser humano, sem tantos “ismos”.

    Parabéns pelo texto!

  7. Adorei o texto, acho até desagradável o uso da palavra “empregada” que soa como algo pejorativo quando estou tratando de uma pessoa que passa o maior tempo do dia dela cuidando de algo meu…e não de algo simples, e sim do meu lar. Muito oportunas suas palavras. Praticando-se ahimsa, os outros valores acontecem simultaneamente. Namastê!

  8. Muito bom o texto. Diz verdades incovenientes que muitos não querem admitir. Seria interessante que certas pessoas lessem textos assim de coração aberto e fizessem uma autoreflexão, autocrítica, como eu mesmo fiz ao ler, e me ver em certas situações de falta de ahimsa de minha parte. Pelo menos, eu estou relativamente consciente disso. E ahimsa implica em que eu não devo forçar a própria ahimsa aos outros, talvez porque eles tenham que chegar lá por si mesmos.

  9. Adorei este artigo, ele devia ser passado também em escolas, vou ler para minha mulher e filhos adolescentes e também para a pessoa que arruma minha casa, comumente chamada de empregada, expressão que já se tornou depreciativa.

    Ahimsa não deveria ser um valor apenas para salas de Yoga e templos, mas uma chama viva no peito.

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