Pratique, Yoga na Vida

Contemplação: Reflexão à Luz da Filosofia

Contemplar é ver o que está latente e intocável no contemplado. É ver nele o que percebo e sinto que também está em mim. É aceitar como o visto está envolto e não deixar que o invólucro cegue a visão. O que contemplo vai além do que apenas meus olhos seriam capazes de enxergar. Nas palavras de São Tomás de Aquino: “onde está o amor, aí está o olhar”...

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sentido da vida

Toda alma torna-se o que contempla
Plotino: 2008, p. 75.

Assim, reflito: Contemplar é ver o que está latente e intocável no contemplado. É ver nele o que percebo e sinto que também está em mim.

É aceitar como o visto está envolto e não deixar que o invólucro cegue minha visão. O que contemplo vai além do que apenas meus olhos seriam capazes de enxergar. Nas palavras de São Tomás de Aquino: ubi amor, ibi oculus, “onde está o amor, aí está o olhar”…

Os princípios da contemplação têm sustentações históricas que se estabelecem num total entrosamento com a abordagem científica.

Portanto, não por acaso, e justamente por esse motivo, a palavra contemplação – do latim contemplatio, que significa ação de olhar atentamente, reflexão, meditação – seja equivalente ao termo grego theoria.

Mas, apesar dos dois vocábulos serem sinônimos, a expansão do império da razão no Ocidente, notadamente, marcou fortemente o conceito de contemplação como algo alheio ao pensamento.

Voltando-nos para os primórdios da filosofia greco-romana, iremos constatar que Pitágoras, por exemplo, não afastava a dimensão contemplativa do pensamento científico.

Foi ele quem criou no sul da Itália, em torno de 450 a.C., uma das primeiras comunidades contemplativas conhecidas, ao mesmo tempo religiosa e marcada, sobretudo, pela abstração matemática.

Pitágoras acreditava na imortalidade da alma e na sua transmigração através de vários corpos com a finalidade de realizar sua purificação.

A conexão entre a transmigração da alma e a contemplação era firmada a partir da concepção de que “por meio da contemplação (theoria), a alma avança no conhecimento (gnosis) de Deus, que a transforma, segundo Platão, até tornar-se divina” (Citado por WALLACE, 2009, p. 25).

Um conhecimento que, para o texto da filosofia hindu, Śiva Saṁhitā [1], é a própria iluminação:

Somente o Conhecimento é eterno. Ele não tem início nem fim. Não existe nada fora ele. A aparente diversidade do mundo é resultante da limitação dos sentidos. Quanto esta limitação desaparece, apenas o Conhecimento, e somente ele, resplandece (Citado por KUPFER, 2009, p. 51)

filosofia

Esse conhecimento poderia ser despertado justamente pela prática da contemplação. Para o teólogo do cristianismo primitivo [2], Orígenes de Alexandria[3], o homem já carrega consigo, ao nascer, esse conhecimento de Deus.

Quase três séculos após os escritos de Orígenes, essa visão da reencarnação e imortalidade da alma será condenada através de um édito publicado pelo Imperador Justiniano, em 543, no qual ia de encontro à ideia do teólogo da preexistência:

“Quem sustentar a mítica crença na preexistência da alma e a opinião, consequentemente estranha, de sua volta, seja anátema” (ATKINSON, 1997, p. 47).

O édito foi posteriormente referendado durante o V Concílio Ecumênico de Constantinopla II, de 553, quando é declarada como herética a doutrina da reencarnação e passa a ser rejeitado todo o pensamento do filósofo e teólogo da Alexandria.

Antecedendo essa proibição, o tema já havia sido abordado por Santo Agostinho [4] que, pouco antes de sua conversão ao cristianismo, defendia a existência da alma a partir do pensamento platônico: teríamos um tipo de conhecimento adquirido pelos órgãos sensoriais e outro captado pela alma.

O primeiro estaria condicionado aos sentidos e relacionado aos objetos/imagens exteriores, ou seja, estruturado a partir de qualidades instáveis.

Já o conhecimento adquirido pela alma não teria influência dessa ação e estaria apoiado em regras imutáveis, que não podem ser diferentes do que são, uma vez que são permanentes e, desta forma, verdadeiras. Esse contato com o pensamento platônico chegou a Agostinho recuperado e apresentado principalmente por Plotino.

Para o filósofo, o silêncio é um estado inerente da contemplação. Quando contemplamos, o silêncio se apossa do nosso interior. Nossa mente se cala. Escuta. “A alma, então, atinge a tranquilidade e nada busca por estar plenificada, e a contemplação, nesse estado, repousa no interior, por confiar possuir” (2008, p. 65).

A experiência mística estaria relacionada a um crescimento espiritual com base num esforço não apenas moral, mas, também, intelectual Um intelecto não circunscrito a um indivíduo, pois

“[…] o intelecto não é o intelecto de alguém, mas é universal e, sendo universal, é intelecto de todas as coisas”. Uma universalidade que pode ser relacionada a uma passagem da Isa Upanisad[5], que afirma que aquele que percebe o Ser em si mesmo e a si mesmo em todos os Seres, não conhece o medo (Conf. KUPFER, 2009, p. 254).

Plotino também anula a diferença que Aristóteles propõe entre a theoria (contemplação) e práxis (ação), ao considerar que toda ação é o resultado do ato contemplativo.

Portanto, o conceito plotiniano de contemplação criadora – onde não existe separação entre ação e contemplação – não está mais preso ao pensamento grego nem, tampouco, se caracteriza como um pensamento cristão.

Uma união que seria, segundo a tradição hindu, propiciadora da própria imortalidade: “… aqueles capazes de combinar ação e contemplação, atravessando o mar da morte pela ação, alcançam a imortalidade através da contemplação” (Citado por KUPFER, 2009, p. 255).

Mas é, sobretudo, na Idade Média que a contemplação passa a ser fortemente associado à dimensão religiosa, o que explica, em grande medida, as reações de oposição à ideia de contemplação a partir da ruptura cartesiana.

Apesar disso, verificamos que a teoria como ação de ver, contemplar e meditar está voltada para uma atitude na qual não se percebe nada da intenção de Descartes de tornar o homem, a partir do conhecimento, senhor e proprietário da natureza.

Concepção que nos leva às reflexões de Michel Foucault, para quem o procedimento cartesiano requalificou o lema grego clássico conhece-te a ti mesmo em prejuízo de outro lema com qual fazia parte, cuidado de si:

“Em primeiro lugar, pois, volver o olhar para si é desviá-lo dos outros. Desviá-lo dos outros quer dizer: desviá-lo da agitação cotidiana” (2004, p.268).

Um olhar que se dirige ao autoconhecimento, assim definido pelo Yoga: “Quando os cinco sentidos e a mente estão parados, e a própria razão descansa em silêncio, começa o caminho supremo” (Citado por KUPFER, 2009, p. 242).

Que assim seja. Contemplar, para mim, é como meditar. Meu olhar, atento, é capaz então de tornar presente e significativo o que nele me falta. O que nele me completa.

॥ हरिः ॐ ॥

Filosofia – Referências bibliográficas

ATKINSON, William Walker. A Reencarnação e a Lei do Carma, São Paulo, Pensamento, 1997.

BEZERRA, Cícero Cunha. Compreender Plotino e Proclo. Petrópolis: Vozes, 2006.

FOUCAULT, M. A Hermenêutica do Sujeito. São Paulo: Martins Fontes, 2004.

KUPFER, Pedro. Formação em Yoga. Bombinas: Yogabindu, 2009.

PESSANHA, J.A. Motta. Santo Agostinho. São Paulo: Nova Cultura, 1987 (Os Pensadores).

PIEPER, J. Philosophie und Weisheit. ANO II No 4 (Suplemento) Jan-Abr 98 . www.hottopos.com/mirand4/suplem4/filosofi.htm. Acessado em 2007

PLOTINO. Enéada III. 8 [30] Sobre a natureza, a contemplação e o Uno. Introdução, tradução e comentário de José Carlos Baracat Júnior. Campinas: Editora Unicamp, 2008.

REALE, Giovanni. Plotino e Neoplatonismo: História da Filosofia Grega e Romana, Vol VIII. São Paulo: Edições Loyola, 2008.

WALLACE, B. Allan. Ciência Contemplativa: onde o budismo e a neurociência se encontram. São Paulo: Cultrix, 2009.

॥ हरिः ॐ ॥

[1] Texto sobre Haṭha Yoga datado de século XVII.

[2] “A denominação ‘cristianismo primitivo’ compreende o período que vai da morte de Jesus em 33 A.D até a chamada “conversão de Constantino” (306-337) ocorrida ao que parece no ano de 337 d.C. Cantareira – Revista Eletrônica de História – Volume 2 – Número 2 – Ano 3 – Ago. 2004. www.historia.uff.br/cantareira

[3] 185-254 d.C.

[4] 354-430 d.C

[5] Texto da tradição védica, com cerca de 3500 anos.

॥ हरिः ॐ ॥

Leia também:
1. O Yoga e a sua Filosofia
2. Filosofar o Āsana?
2. Por que Yoga?

॥ हरिः ॐ ॥

mantra om

Meditação no Sagrado Mantra Om

Ana Farache em Meditação, Pratique
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8 respostas para “Contemplação: Reflexão à Luz da Filosofia”

  1. Essa é minha amiga!
    Que texto lindo Ana, adorei, bem elaborado, bem escrito, bem pensado. Muitos bjsssss Espero que possamos fazer mais um modulo juntas, pois foi muito bom compratilhar os momentos e o conhecimento com voce.
    Bjsss,
    Gabriela.

    1. Essa é minha amiga Gabriela.
      Generosa e querida, sempre!
      Também não vejo a hora de fazermos juntas o próximo módulo com Pedrito, em Mariscal!
      Obrigada pelo carinho.
      Beijos,
      Ana.

  2. Parabéns Ana querida!
    Só vi agora esta publicação…
    Imensamente lindo!

  3. Obrigada a você Pedro, sempre tão generoso!
    Fico muito feliz em ter um texto publicado neste belo espaço.
    É uma honra pra mim.
    Namaste!
    =====
    A honra é toda nossa, Ana querida!
    Namaste!
    Pedro.

  4. Lindo texto Ana, valeu!
    Sem falar nas referências!
    Tudo de bom!

    1. Fico contente por você ter gostado, Tales.
      Obrigada!
      Abraços,
      Ana.

  5. Um lindo e profundo texto, que nos leva naturalmente à comtemplação.
    Gratidão e Namastê

  6. Oi Ana,
    muito obrigado pelo belo texto e as reflexões!
    Namaste!

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