Começando, Pratique

Curso Instantâneo de Formação (gratuito!) e receita infalível para ficar rico ensinando Yoga

Não quero ser repetitivo com os temas que escolho para escrever neste site, mas as atuais circunstâncias nos mostram que alguns assuntos estão longe de se esgotar. Um deles é o tratamento patife e caricato que o Yoga está recebendo nos meios de comunicação. Do jeito que as coisas estão sendo apresentadas, esse sofisticado sistema de filosofia está ficando muito parecido com um cachorro viralata (com todo respeito pelos simpáticos quadrúpedes).

Escrito por Pedro Kupfer · 3 mins de leitura >

Não quero ser repetitivo com os temas que escolho para escrever neste site, mas as atuais circunstâncias nos mostram que alguns assuntos estão longe de se esgotar. Um deles é o tratamento patife e caricato que o Yoga está recebendo nos meios de comunicação. Do jeito que as coisas estão sendo apresentadas, esse sofisticado sistema de filosofia está ficando muito parecido com um cachorro viralata (com todo respeito pelos simpáticos quadrúpedes).

Para evitar que as coisas piorem, achei que seria uma boa idéia estipular um padrão mínimo de ensino para que esta tradição milenar não se perca. Dessa forma, e inspirado pelos cursos de nivelamento oferecidos pelos CREFs, criei um Curso Instantâneo de Formação. Igualmente, juntei a ele uma série de dicas importantes que podem ser aplicadas por aqueles que aspiram a ficar ricos ensinando Yoga, sem abrir mão da profundidade filosófica dos ensinamentos (tá bom, só um pouquinho!).

Agora, você pode aproveitar minha vasta experiência como megaempresário do Yoga para também ficar rico. Por primeira vez na história, estou revelando gratuitamente o segredo do sucesso de tantos gurus que prosperaram em ocidente. A informação para este curso foi retirada da mídia não especializada que, como todos sabemos, é a fonte de pesquisa mais fidedigna sobre as tradições ancestrais do Yoga.

Caso você esteja interessado em fazer sucesso e dinheiro aplicando esta receita de Yoga (aliás, já divulgada pela mídia), reúna ao longo de uma aula de 60 minutos os ingredientes listados a seguir. Para ensinar este tipo de Yoga, não se exige nenhuma experiência prévia. Só precisa ser bastante cara de pau e ter um pouco de criatividade. Esta fórmula é especialmente indicada para academias de ginástica:

Como apresentar-se:
– use roupas sensuais e apertadas (e dane-se a circulação)
– se você for mulher, pense num implante de silicone (mas só se for XG!)
– loirice sempre está de moda nas academias. Se você não for loira, pense em ficar loira
– se você for homem, malhe bastante ferro e tome L-carnitina (suco de boi ralado, que ajuda a destacar os músculos)
– se não tiver tatuagens, faça-as
– se já estiver tatuado, tatue-se mais, preferentemente com motivos hindus.

Acrescente à sua prática:
– algumas séries de saudação ao sol
– um pouco de alongamento
– um pouco de contorcionismo
– algumas séries de abdominais
– uma postura de cabeça para baixo
– alguns minutos de descanso.

Certifique-se de que as pessoas transpirem bastante. Para tanto, feche as janelas se for preciso. Fale bastante em queima de calorias.

Use expressões como estas:
– vamos lá, força!
– é isso aí, pessoal!
– puxa mais! (ou estica mais!)
– show!
– uhu!

Elimine qualquer menção à ética do Yoga, principalmente durante as práticas, para não distrair os alunos que estejam apreciando (ou invejando) alguma parte da anatomia ou a performance dos demais.

Evite fazer invocações, mantras ou visualizações que possam assustar seus alunos ou tirá-los de seus devaneios. Reduza os respiratórios e elimine sumariamente a meditação (afinal de contas, meditar é mesmo um saco). Imposte a voz e esforce-se para fazer cara de inteligente.

Evite as seguintes palavras:
– filosofia
– auto-conhecimento
– transcendência
– espiritualidade
– iluminação

Qualifique seu método com adjetivos como estes:
– científico
– anti-espiritualista
– malhação corpo-mente

Sorria bastante, especialmente na execução das posturas mais difíceis (treine frente ao espelho, se for preciso). Avise às pessoas que as práticas que você ministra têm mais de 5000 anos de garantia e existência comprovada. Invente um nome indiano para seu mestre imaginário e declare que você recebe instruções diretamente do além (tente não rir de si próprio ao fazer isso. Com o tempo, você irá se acostumar). Monte uma campanha de marketing e faça uma vernissage numa academia da moda para lançar sua criação.

Use slogans como estes:
– o exercício que traz força, flexibilidade e bem-estar
– a mais nova onda em matéria de condicionamento físico
– ginástica puxada
– força, flexibilidade, equilíbrio e melhor condicionamento cardiovascular
(citações ipsis literis da reportagem da revista Veja de 19/11/2003)

Chame isto de yoginástica, bodyoga ou invente algum outro nome criativo. Pronto! Você já tem a receita perfeita. Há dezenas de milhares de ávidos praticantes desejosos de aumentar sua qualidade de vida aplicando seus ensinamentos “milenares” (mesmo se você não tiver a mínima idéia do que esteja fazendo). Como essa receita foi descrita inúmeras vezes por revistas especializadas em qualquer coisa, como Veja, Boa Forma, Nova e outras, não há como falhar.

Posteriormente, abra franquias, que lhe possibilitarão cobrar polpudos dividendos. Use gente bem jovem. Especialize-se nesse público, pois os jovens são mais fáceis de serem manipulados.

Quando for suficientemente rico, peça para seus discípulos organizarem uma doação de alimentos para campanhas beneficientes como Fome Zero ou Natal sem Fome. Certifique-se de chamar a imprensa ao fazer sua doação. Isso atrairá potenciais clientes e pode servir como uma lavagem de consciência (caso você tenha alguma. Se não tiver, esqueça).

Escreva sua auto-biografia aos 35 anos. Invente, exagere ou distorça detalhes que possam tornar a leitura mais interessante (afinal de contas, uma biografia notável deve ser fabricada com fatos notáveis, heróicos ou nobres, que nem sempre coincidem com a vidinha normal que você tem). Não esqueça de colocar-se como empresário muito bem sucedido e feliz (mesmo que não seja).

Uma dica importante: repita o processo inteiro ao perceber que o interesse do público está começando a esmorecer. Se for preciso, desta vez use um turbante e roupas indianas. Exija que seus alunos o chamem de “mestre”. Nunca falha.

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11 respostas para “Curso Instantâneo de Formação (gratuito!) e receita infalível para ficar rico ensinando Yoga”

  1. Achei ótimo o seu humor, a forma como passou para seus leitores algo que realmente acontece em muitas profissões. Procuramos por cursos sérios e acabamos paga do por cursos idiotas, montados por idiotas e dentro da idiotice permitida em todo ser humano, acabamos aceitando e pagando o preço por um curso que não é real. Que nada acrescenta, ou melhor, tenta nos ensinar que não podemos fazer cursos se ter uma formações a respeito.

    1. Eu Ri do início ao fim.Muito irônico, hilário…Uma piada mesmo, como o é quem intenciona ensinar Yoga em um final de semana e mais ainda quem pretende e acredita que conseguirá.Bastante eficiente seu método para mostrar toda a podridão dos cambalacheiros.Realmente tem muita oferta de cursos mequetrefes, trapaceiros que brincam com o que é sério. E com um pouco de discernimento e raciocínio percebemos que é tudo uma enrolação e enganação.

  2. O seu chamado “body yoga” é na verdade o Body Balance, uma aula testada e aprovada por junta médica e psicologos, e para sua medíocre falta de informação, essa modalidade apenas usa os movimentos da YOGA, TAI CHI CHUAN E PILATES para compor uma aula segura e agradável. E SEMPRE MINISTRADA POR UM PROFISSIONAL DE EDUCAÇÃO FÍSICA, que não é o caso da maioria dos professores que se formam em YOGA… para um site de yoga, sua tolerância está bemmmmmmm fraquinha…NAMASTÊ!!!!
     
    =======
     
    Kary Machado,

    Obrigado pelo seu comentário. Esclareço aqui que este texto é apenas uma piada que tem como objetivo ironizar os cursos de formação em Yoga de fins-de-semana que, com nomes novos (muitas vezes em inglês) aparecem como cogumelos após a chuva na esteira da popularização do Yoga.

    Pessoalmente, achei que essa intenção de ironizar a situação estava suficientemente clara no título, que pretensamente ensina a ficar rico ensinando Yoga. O objetivo do Yoga não é ficar rico mas conhecer a si mesmo como alguém livre de limitações, como você deve saber. Porém, percebo infelizmente que este esclarecimento se faz necessário, uma vez que vejo que há pessoas que não compreendem a metalinguagem.

    Não vou abordar nesta mensagem a questão de se professores de educação física, com o que aprendem na faculdade, estarem ou não qualificados para ministrar aulas de Yoga. Essa é outra questão. Isto é somente uma piada. Espero que agora tenha ficado claro.

    Para maiores esclarecimentos, sugiro Kary que você leia os outros comentários que foram postados nesta mesma página. Há muitas pessoas que perceberam a piada, por um lado, e o grave da situação que ela denuncia, por outro lado.

    Tudo de bom.

    Pedro Kupfer.

    1. Kary Machado,
      Obrigado pelo seu comentário. Esclareço aqui que este texto é apenas uma piada que tem como objetivo ironizar os cursos de formação em Yoga de fins-de-semana que, com nomes novos (muitas vezes em inglês) aparecem como cogumelos após a chuva na esteira da popularização do Yoga.
      Pessoalmente, achei que essa intenção de ironizar a situação estava suficientemente clara no título, que pretensamente ensina a ficar rico ensinando Yoga. O objetivo do Yoga não é ficar rico mas conhecer a si mesmo como alguém livre de limitações, como você deve saber.
      Porém, percebo infelizmente que este esclarecimento se faz necessário, uma vez que vejo que há pessoas que não compreendem a metalinguagem.Não vou abordar nesta mensagem a questão de se professores de educação física, com o que aprendem na faculdade, estarem ou não qualificados para ministrar aulas de Yoga. Essa é outra questão. Isto é somente uma piada.

      Para maiores esclarecimentos, sugiro Kary que você leia os outros comentários que foram postados nesta mesma página. Há muitas pessoas que perceberam a piada, por um lado, e o grave da situação que ela denuncia, por outro lado.
      Espero que agora tenha ficado claro.
      Tudo de bom.
      Pedro Kupfer.

    2. Kary Machado, quanto a sua colocação sobre “PROFISSIONAL DE EDUCAÃ?Ã?O FÃ?SICA, que não é o caso da maioria dos professores que se formam em YOGA…” Deve-se ficar claro que a Yoga ou o Yoga, não é um campo para o “PROFISSIONAL DE EDUCAÃ?Ã?O FÃ?SICA” ou similares focados na anatomia ensinada nas faculdades que rejeitam, veemente, chácras, prana, nadis… E outros elementos que não compreendem músculos, tendões, ligamentos, entre outros. Nesse sistema, YOGA, não é o CORPO BIOFÃ?SICO, o objeto, MAS OS CORPOS ENERGÃ?TICOS DO HOMEM. Até porque, esse conhecimento e sua finalidade; O SAMADHI, é totalmente ignorado pela ciência. Não sinta-se ofendida, pois, a crítica do proprietário do blog não foi direcionada a senhora ou a sua área de conhecimento “testada e aprovada por junta médica e psicologos”. E sim, a profissionais que se apoderaram de algumas técnicas de Hatha Yoga, em específico asanas, para construir prática que poder confundir pessoas acerca dessa tradicional sabedoria, YOGA e seus fundamentos filosóficos que não estão no campo da educação física, está enraizada na culta VÃ?DICA. Embora não conheça a senhora ou o proprietário do blog, creio que faltou compreensão, clareza de comunicação, que poderiam ser dirimidas caso, primeiro; fossem esclarecidas as dúvidas sobre a opinião do senhor Pedro Kupfer.

  3. olá, faz muito tempo que procuro querer ser instrutora de yoga, mas onde moro não possui pessoas que possam certificar, por favor , você ´pode me ajudar? Gostaria de fazer o curso.
    Gratidão.

  4. Há alguns meses atráz, abri meu espaço de Yoga. Tenho me esforçado bastante para me dedicar ao máximo aos meus queridos alunos.
    O espaço é simples, e, a vontade é muita de aprender ensinando. Tento sempre me espelhar nos meus queridos professores: JOSEPH LEPAGE, A LILIAN, O PROFESSOR TINOCO E O INCRÍVEL HERMÓGENES…lembro do primeiro livro que li, “yoga para nervosos” e antes dele um livro que não é do yoga, porém a nada deixa a desejar.
    chamava-se “sabedoria incomum” do físico FritJof Capra. Alí, ele se dizia um eterno aprendiz diante da grandeza do infinito… pois é é assim que eu me sinto uma eterna aprendiz…graças a Deus. Essas pessoas que não levam a sério o yoga vão passar, como ondas no oceano, afinal a profundidade do yoga sabemos ser tão vasta e grandiosa, acho até que infinita. FAÇAMOS A NOSSA PARTE, DE QUEM DETEM A GRANDE RESPONSABILIDADE DE CONTINUAR ALGO TÃO SAGRADO. QUE DEUS NOS ABENÇOE. NAMASTÊ.

  5. O artigo tem muito da realidade do que está acontecendo não só com o Yoga, mas de uma geral com as profissões e profissionais. (Que Deus se apiade). Estou procurando um curso de formação, já faço Yoga há algum tempo e quero me formar, porque acredito numa evolução, em todos os níveis e pelo que tenho praticado, sinto que o yoga é um caminho. Porém não gostaria de fazer esses cursos de fim de semana e sim algo mais constante durante a semana em qualquer horário. Se puderem me ajudar, agradeço. Gostaria que fosse uma verdadeira escola. Não me interessa qualquer coisa. Um abraço.

  6. Simplesmente muito esclarecedor esse artigo, gosto muito de ler os artigos desde site. Este, mostra de forma clara e objetiva como acontece frequentemente esse tipo de coisa relacionado com o Yoga, infelizmente tem muita gente mal preparada e com a intenção simplesmente de ganhar dinheiro vendendo algo que nem saber ao fundo o que realmente é… Acho que o Yoga deveria ser levado mais a sério por esse tipo de pessoa, eu pratico há 4 anos, leio tudo oque posso para me interar do assunto, e estou ingressando em um curso de formação com duração de 2 anos, tudo para realmente me sentir preparando…um grande abraço

  7. Achei esse artigo muito bom e senti um grande alívio depois que o li, pois sou Instrutora de Yoga Integral há 4anos e dou aulas nesse mesmo tempo. Estou sempre a pesquisar e a ler, e a conclusão que cheguei é que, apesar do meu interesse, que, para mim, não é, de maneira alguma, sacrificante, sinto que tenho muito que aprender; aprendo a cada dia com os meus alunos, por quem tenho um grande respeito; enfim, estou sempre a aprender, e gosto muito dessa sensação. Fiquei muito satisfeita com esse artigo, pois, daquilo que sei, pratico e leio, acredito que é a pura verdade o que está escrito nele. Mas, infelizmente, também penso que dessa forma talvez seja uma maneira, aqui no Ocidente, das pessoas ficarem a saber o que é realmente a filosofia do Yoga. Pois quem realmente levar o Yoga a sério, como ele realmente merece, com todo o respeito, talvez saberá distinguir entre um Yoga verdadeiro e um Yoga de marketing.

    Om Shanti Prabha,

    Meire.

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