Ética, Pratique

De volta ao básico

Dois amigos professores tiveram seus tapetinhos de prática roubados dentro de uma escola de Yoga. Quando coisas como esta acontecem, é sinal de que devemos revisar o básico

Escrito por Pedro Kupfer · 5 mins de leitura >

Praticar sobre um tapete roubado?

Dois amigos professores tiveram seus tapetinhos de prática roubados dentro de uma escola de Yoga. Quando coisas como esta acontecem, é sinal de que devemos revisar o básico para avaliar o que pode estar dando errado na comunidade do Yoga. Diante dos dramas que o Brasil está testemunhando atualmente, ter seu tapete de prática roubado é algo insignificante. No entanto, é um sinal preocupante de que há gente que diz praticar Yoga, mas que não compreendeu o mais fundamental dos princípios da convivência: não fazer aos demais aquilo que não gostaríamos que fizessem conosco. O detalhe: esse princípio áureo é o pontapé inicial das práticas de Yoga.

Surgiram algumas perguntas na minha mente quando estes amigos me contaram a notícia: ‘como poderia alguém praticar sobre um tapete roubado? Como o ladrão iria encontrar tranqüilidade para meditar sentado sobre o fruto de um roubo? Em caso desse praticante alcançar a iluminação, iria repensar seu gesto e devolver o tapete?’ Roubar comida para manter-se vivo é algo totalmente compreensível em momentos de crise. Meu avô Markus, homem honesto como poucos, viu-se obrigado a roubar uma vaca na Áustria para alimentar sua família durante a guerra.

Roubar coisas supérfluas como um tapete é mais grave. Isso, feito dentro de uma escola de Yoga, é mais grave ainda. Significa que os professores estamos falhando ao não conseguirmos ensinar os valores mais básicos para os praticantes. Significa que talvez não estejamos colocando o devido empenho em transmitir a importância de praticar o Yoga nas pequenas atitudes do cotidiano, o que é bem mais importante que dominar o tal do bananapásana. Para isso, cada professor ou praticante deveria fazer da sua vida um exemplo onde os yogis da próxima geração possam se inspirar. Isto pode parecer pretensioso, mas, se você que é consciente não der o exemplo, quem irá fazer isso?

Voltando ao início.

Muito embora o tema da compreensão do Yoga seja vasto e profundo como o próprio oceano, nunca está demais lembrarmos o básico. Neste caso, o básico é o código de conduta do Yoga, pilar central sobre o qual primeiro se constrói a prática e, depois, a vida de Yoga como um todo. Constatamos que, infelizmente, muita gente começa a praticar sem haver sequer ouvido falar que, para que a prática funcione, é necessário aplicar este código. E, o que é ainda pior, há professores mal preparados que tampouco conhecem esse código, cuja aplicação é absolutamente essencial se quisermos ter uma vida tranqüila e equilibrada.

No Yoga Clássico, esse código tem dez partes, distribuídas em dois grupos de cinco preceitos, chamados respectivamente yama e niyama. Existe bastante desinformação a respeito deste decálogo (decálogo, em latim, significa ‘dez palavras’), que alguns chamam ‘os Dez Mandamentos do Yoga’. A expressão Dez Mandamentos nos remete às tábuas da lei judaica, o conjunto de leis que Deus legou a Moisés no monte Sinaí. Diferentemente daqueles mandamentos religiosos, o decálogo do Yoga não pode nem deve ser imposto desde fora ou à força. Ele deve ser compreendido e integrado desde dentro. Sem essa integração, que pressupõe a presença de uma motivação correta para agir em harmonia com esses preceitos, o Yoga não funciona.

Yama, as cinco proscrições.

Proscrever é banir. A palavra yama significa ‘controle’. O yogi quer banir da sua vida cotidiana obstáculos e sentimentos indesejáveis como a violência, a falta de sossego, a mentira e a cobiça, dentre outras. Viver respeitando os yamas significa livrar-se desses obstáculos, que nos tiram o sossego. Os cinco preceitos são:

1. Ahimsa: significa não-violência. É uma poderosa força que pode ser usada para escolher desde o que comemos nas refeições até o alimento que damos para o nosso coração nos relacionamentos. Ahimsa é evitar vitimizar os demais seres com nossas atitudes.

2. Satya: é dizer somente a verdade e, além disso, fazer coincidir pensamentos, palavras e ações. Ser verdadeiro não é somente dizer a verdade, mas manter a coerência entre o nosso mundo interior e o exterior.

3. Asteya: literalmente, significa não roubar. Não roubar o tempo, as idéias, o mérito ou a paciência dos demais, são formas de asteya que vão bastante além de apoderar-se de objetos alheios.

4. Brahmacharya quer dizer conduta brahmínica. Muitas vezes, este preceito é traduzido com abstinência sexual. Pessoalmente, prefiro traduzir o termo como fidelidade nos relacionamentos. Ou seja, evitar a conduta galinácea.

5. Aparigraha é contentar-se com o necessário. Nesse sentido, o bom-senso deve prevalecer. O yogi não tem interesse em acumular objetos inúteis pelo mesmo motivo que as águias voam carregando apenas o indispensável: para ficarem leves e assim poderem chegar longe.

Estes cinco preceitos têm como objetivo organizar e harmonizar o espaço exterior, no qual acontece a vida do praticante, bem como dar disciplina para os órgãos de ação: as mãos e pés, e os aparelhos fonador, excretor e reprodutor. Os yamas são tão importantes que o sábio Patañjali indica que devem ser seguidos por todos os humanos, independentemente de posição social, vocação ou atividade. Se estes princípios forem seguidos, sem dúvida, haverá harmonia na sociedade.

Niyama, as cinco prescrições.

Prescrever é indicar, determinar, recomendar. A palavra niyama quer dizer ‘abster-se’, deixar de fazer algo, objetivando um bem maior. Essas cinco recomendações de conduta são as seguintes:

1. Shauchan é pureza, mas não apenas no sentido de manter o corpo higienizado por dentro e por fora. Shauchan aponta também para um estado de pureza interior, em sentimentos, pensamentos e gestos.

2. Santosha quer dizer contentamento, capacidade de estar em paz consigo mesmo e com o mundo. Não é resignação, mas a capacidade de adaptar-se e permanecer feliz, sejam quais forem as adversidades que estivermos atravessando.

3. Tapas é esforço sobre si mesmo. Significa ser mais forte que nossas próprias fraquezas, e manter constantemente o foco e a motivação para a auto-superação, em todas as circunstâncias.

4. Svadhyaya significa compreensão de si mesmo. Esse processo de autoconhecimento acontece olhando para os modelos psicológicos expostos em escrituras de Yoga como o Yoga Sutra, a Bhagavad Gita, a Ashtavakra Gita e outros.

5. Ishvara pranidhana, é a entrega dos frutos das ações ao Ser. Isso implica compreender que não temos direito de escolha sobre os frutos das nossas ações, uma vez que eles sempre retornam para nós da maneira justa e adequada, de acordo com a lei do karma.

Os cinco niyamas têm como objetivo organizar a vida interior e as emoções do praticante, bem como disciplinar seus órgãos sensoriais: audição, visão, paladar, tato e olfato. Patañjali afirma que a prática conjunta dos últimos três princípios desta lista é tão poderosa que é capaz, isoladamente, de produzir o estado de iluminação e atenuar as fontes de aflição existencial.

‘OK, entendi. Mas por onde começo?’

Sopa quente se come pelas beiradas. Aplicar estes dez princípios ao mesmo tempo pode resultar em indigestão ou queimadura de segundo grau. Ao invés disso, recomenda-se escolher apenas um deles, que não seja o mais fácil nem o mais difícil, e centrar-se nele durante um período determinado. Convém fazer, para tanto, um voto com início, meio e fim, e observar-se ao longo desse período. A idéia é que, uma vez que tivermos integrado esse preceito, os demais virão sozinhos, da mesma maneira que, quando uma criança puxa seu dedo para chamar a sua atenção, você inteiro se volta em direção a ela.

Com o tempo de prática, você irá reparar que o decálogo yogi é uma unidade, e compreenderá que cada elemento deste sistema está integrado com todos os demais. Então, se a prática de Yoga de verdade for de seu interesse, pare, reflexione, faça sua escolha e tente viver por um breve período observando o que acontece quando você aplica ou tenta aplicar, por exemplo, um voto de veracidade à suas palavras, gestos e ações. Boas práticas na vida!

Namaste!

Sankalpa: a resolução interior

Pedro Kupfer em Meditação, Pratique
  ·   1 mins de leitura

Como ser feliz?

Pedro Kupfer em Pratique, Yoga na Vida
  ·   7 mins de leitura

6 respostas para “De volta ao básico”

  1. Olá , acho muito interessante este artigo estar aqui. Escrevo somente para dar outra perspectiva. Quem sabe os tapetes não foram roubados? Muita hipotese existe até se descobrir um ladrão. E caso seja assim acho que acima de tudo os professores têm uma boa oportunidade para se porem tambem em causa e será que estam a transmitir bem os principios do yoga para além dos ásanas?
    Será que não conhecem os seus alunos e os alunos não conhecem o que estão a praticar? enfim muita coisa pode fazer a mente trabalhar sobre este assunto, não se esqueçam que são só suposições. abraço de paz.
    g.

  2. Lamentavelmente muitas escolas (quem sabe a maioria atualmente??) ensinam o Yoga como uma “modalidade de ginástica exótica”; o chamado “fitness yoga”.
    E pergunto: quem é atraído para estas aulas? Pessoas preocupadas com a sua evolução espiritual ou dispostas apenas a modelar o corpinho e entrar na moda, com a prática desta exótica modalidade? Até começar a fazer aulas com meu mestre, da linhagem do grande Paramhansa Satyananda, fiz aulas em algumas escolas aqui em Porto Alegre, e confesso que jamais se mencionou nem de longe Yamas e Niyamas.
    Seria comercial falar em Yamas e Niyamas quando o aluno está disposto tão somente a praticar aquilo que comercialmente é vendido como sendo Yoga? Ah, mas não importa de quem venha o dinheirinho, o importante é que venha! Ent
    ão este é o preço que se paga pelo que se está ensinando, algo que nem de longe pode ser considerado Yoga. Discordo de você em um ponto crucial, Pedro Kupfer: o problema não é tão somente se estar ou não ensinando Yamas e Niyamas.
    Digo isto porque ninguém que tenha má índole, mal caráter, tornar-se-á “virtuoso” por apenas ouvir algumas aulinhas sobre yamas e niyamas. O problema é anterior, está relacionado ao que se propõe como sendo Yoga, e a quem se aceita como aluno. Faça uma enquete e veja quantas escolas de Yoga ensinam yamas e niyamas, ou samyama?
    No máximo pranayamas, além dos ásanas. Aliás, neste contexto sequer considero ásana ou pranayama o que se ensina, pois desconectados da filosofia, são meros exercícios de alongamento e práticas respiratórias. E estamos, sim, pagando o preço por isso.
    Acho que o seu site contribui enormemente para “recontextualizar” o Yoga, para mostrar o realmente é Yoga. Mas não sejamos ingênuos, fitness yoga está aí, e com ela os seus inconvenientes…

  3. Caro Pedro, assim como todos os que aqui estão indignados, vejo que alguns seres estão muito longe do que seja a prática do yoga. Prefiro praticar em casa e ao sair a rua, continuar minha prática, ou seja, além do meu tapete. Acho que isso é um início de caminho que sem a intenção de ser o mais alto grau de perfeição, que seja o melhor bem que eu possa praticar hoje!!! Namaste

  4. É realmente lamentável que esse tipo de coisa aconteça, é ainda incompreesível pra mim… Satya, escolho esse como um início, um princípio que pra mim vale mto e na minha caminhada tenho tentado levar mto a sério gosto de ser verdadeira, embora mtas vezes seja mal interpretada, com o tempo aprendemos a melhor forma de sermos verdadeiros, de forma mais doce e suave, com Ahimsa. Gratidão imensa Pedro pelo sagrado espaço e abençoadas práticas! Namaste!

  5. Ter um tapetinho roubado ainda não me assusta, porque este ato pode ser de um aluno novo que acabou de entrar na escola e perdeu a aula de Yamas e Niyamas. Agora, o que me assusta é um professor de Yoga, fazer um curso de formação e pagar todo o curso com cheques sem fundos, como acaba de acontecer com a gente neste momento.
    Esse professor não responde mais os emails e não atende o telefone e o único lugar em que conseguimos encontra-lo foi em uma academia ministrando aulas. Bem vindos a Kali Yuga! Namastê.

  6. Caro Pedro, Entendo e concordo com tudo que você disse.
    Passei por uma situação, onde na sala de prática, na quel entramos sem sapatos, por respeito ao ENCONTRO que ali se dá, a instrutora abriu uma sacola com lingerie , uma vez um aluno levou discos para vender, isto aconteceu outras vezes com outros “produtos”.
    Era nova no Yoga naquela época, e não entendi nada.
    Tempos depois conclui sozinha que algo estava errado, e mudei de escola.
    Namastê! Fernanda.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *