Pratique, Yoga na Vida

Desejo, felicidade, conhecimento

O presente texto, baseado numa série de aulas de Swāmi Dayānanda sobre a grande afirmação védica ayamātmā brahma, “este Ātma é Brahman”, da Bṛhadāraṇyakopaniṣad, versa sobre a constatação de que a felicidade não depende de estudar, praticar, fazer ações de algum tipo, acumular informação ou satisfazer desejos.

Escrito por Pedro Kupfer · 12 mins de leitura >

O presente texto, baseado numa série de aulas de Swāmi Dayānanda sobre a grande afirmação védica ayamātmā brahma, “este Ātma é Brahman”, da Māṇḍūkyopaniṣad, versa sobre a constatação de que a felicidade não depende de estudar, praticar, fazer ações de algum tipo, acumular informação ou satisfazer desejos.

Se existe algo chamado plenitude ou felicidade, essa felicidade é o próprio Ātma, é aquilo que somos. E, este Ātma, como ensinam as próprias Upaniṣads, deve ser conhecido.

Nārada e Sanatkumāra

O yogi Nārada é considerado uma grande alma. Sua presença em qualquer lugar é de bom agouro. Ele sempre chega devagar, sem se fazer notar, aprende com os grandes ṛṣis e nós aprendemos junto com ele, através das esclarecedoras histórias dos Purāṇas.

[Leia o diálogo entre Nārada e Sanatkumāra, da Chāndogyopaniṣad, aqui]

Um dia, Nārada visita Sanatkumāra, o menino yogi, conhecido pela sua sabedoria, e diz: “Ouvi dizer que aquele que conhece o Ser, atravessa o oceano do sofrimento. Portanto, vim até você para lhe pedir que me instrua. Desejo conhecer Ātma.”

Sanatkumāra fica impressionado com esta visita inesperada, e mais ainda com o fato de lhe fazer esse peculiar pedido, já que Nārada é considerado muito sábio. Como é que lhe pede o conhecimento de Ātma? O menino responde, como muitos bons professores, perguntando o que ele sabe, para definir em que ponto precisa ser ajudado.

Nārada diz que conhece os quatro Vedas, o vedaṅga (as seis ciências auxiliares: hermenéutica, prosódia, gramática, astronomia, astrologia, física), os mundos paralelos, Svargaloka e Pretaloka, música e poesia, arte dramática e dança, e continua apresentando uma lista muito variada de disciplinas.

“Porém, sou infeliz. Por favor, me ajude a atravessar esse sofrimento”. Sanatkumāra lhe responde: “você conhece um monte de nomes e palavras. Mas você não conhece aquele que dá existência e razão de ser a todas estas disciplinas”. Se o um não estiver presente, você pode pegar a quantidade de zeros que for, mas nunca chegará no um. Nenhuma soma de zeros dá nada diferente de zeros. Para chegar no um, é preciso conhecer o um.

Nadar é preciso, se viver for preciso

Era uma vez um grande erudito que morava em Allahabad. Ele era muito versado nas escrituras e também muito gordo, dado à indolência e aos prazeres da boa mesa. Numa ocasião, precisou cruzar o sagrado rio Gaṅgā de barco, para participar de uma pūjā na outra beira.

conhecimento

Conversando com o barqueiro, este sábio, que era filho e neto de sábios, que conhecia os Vedas de cor e salteado, lhe diz: “é impossível viver sem conhecer o vyakarāna, a ciência da gramática sânscrita. Você conhece essa ciência?” O barco está andando pelo rio.

O barqueiro diz “Vyakarāna? Nunca ouvi falar”. O paṇḍitaḥ diz que ele perdeu um terço da sua vida. Lhe faz outra pergunta: “Você conhece a literatura sânscrita?” O barqueiro diz que não, que não teve ocasião de estudar pois rema no rio desde criança. O erudito lhe diz que, por causa disso, perdeu outro terço da sua vida. “Você sabe ler e escrever?”, pergunta. Novamente, a resposta do barqueiro é negativa.

O paṇḍitaḥ diz que o barqueiro perdeu a vida inteira, já que vive sumido na ignorância. Dali a pouco, um redemoinho pega o barco, que fica à mercê da forte correnteza, bate numa rocha e começa a afundar. O erudito se desespera. O barqueiro lhe pergunta: “Você sabe nadar?” Ouvindo a resposta negativa do outro, diz: “Então, você perdeu a sua vida inteira, agora. Desculpe, mas com esse seu peso não vou conseguir lhe ajudar!” E sai nadando até a beira, enquanto o paṇḍitaḥ se afoga.

Então, de que adianta conhecer todas as disciplinas se você não sabe o fundamental? De que serve a Nārada tanta “teoria”, de que serve conhecer tantos rituais e formas de arte, se ele não sabe nada sobre si mesmo? Com toda compaixão, Sanatkumāra lhe responde que o Ser deve ser compreendido, que não devemos esmorecer no esforço de entender quem somos, pois aquilo que somos não é evidente. Voltaremos sobre isto no fim do presente texto.

“Prazer em conhecer. Sou Fulano”

Quando, num encontro casual, alguém nos pergunta quem somos, damos geralmente o nosso nome ou a nossa filiação, e ainda fornecemos informação sobre a nossa ocupação, vocação, posição social e, eventualmente, uma localização geográfica, dizendo onde nascemos ou vivemos.

Em algum momento da conversa, algo de familiar vai ressoar na pessoa com quem conversamos. Assim, cria-se uma afinidade que dá lugar à continuação do diâlogo. Todas estas questões que colocamos numa conversa deste tipo estão centradas na ideia de eu, naquilo que compreendemos como sendo o eu.

Sanatkumāra diz para Nārada que ele não pode se dar ao luxo nem se precipitar em dizer que conhece o Ser. A base para esta busca é a soma das experiências conflitantes que temos, e que nos fazem nos sentir ora em casa, ora como se estivéssemos num lugar estranho.

Nārada tinha uma dúvida sobre si mesmo, portanto sobre Ātma, a partir da qual surge aquele śokaḥ, aquele sofrimento, surge a motivação para esclarecer a dúvida e se livrar da aflição.

É possível ter diferentes “opiniões” sobre Ātma?

Ātma é o nosso tema. Agora, quais são as possíveis conclusões que podemos tirar sobre Ātma? Há diversos tipos de conclusão. Cada um de nós pode achar que tem o direito de tirar a sua. Os filósofos, via de regra, têm suas próprias conclusões, quase todas conflitantes entre si. Cada um deles vai definir Ātma em diferentes termos.

Para alguns, Ātma tem peso físico e está vinculado com a existência do corpo. Alguns definem Ātma como sendo o próprio corpo. Dizem que Ātma começa e termina junto com a existência do corpo, indivíduo do nascimento à morte. Então, segundo essas pessoas que têm essa visão, se meu corpo é gordo, Ātma é gordo, se meu corpo é magro Ātma é magro, etc.

A associação com o corpo é natural: Ātma parece ocupar o espaço que o corpo ocupa no ambiente. Ātma, portanto, deveria durar tanto quanto o próprio corpo humano, já que este é a medida de todas as experiências. A humanidade é assim.

Essa é a tendência natural para interpretar o lugar do homem na criação, de acordo com a maioria dos filósofos. Já retornaremos ao assunto. Porém, antes de continuarmos com esse tema, cabe colocarmos algumas palavras sobre esse delicado equilíbrio entre felicidade e desejos.

O corpo está sujeito à doença, é frágil e tem uma duração limitada. Então, naturalmente, pensamos que for durar um certo número de anos, Ātma irá viver pelo mesmo período.

Depois de um corpo ser reduzido a cinzas no campo crematório, o que sobra? Ninguém se levanta das cinzas. É um caminho sem volta. Ātma desaparece junto com o corpo? Também se torna cinzas?

A felicidade não depende da satisfação dos desejos

Enquanto você está feliz, pode manter uma lista de desejos pendentes, por serem realizados, que permanecem latentes. Sempre há desejos não satisfeitos, e desejos que estão no processo de serem satisfeitos. Há desejos que estão nascendo e outros que irão surgir no futuro. Todos esses desejos são centrados em você, em sua pessoa. Mesmo aqueles desejos que estão conectados com os demais, se referem a você.

Digamos que você acabou de realizar um desejo. Quanta felicidade você acha que deveria ter? Você pode quantificar a felicidade? Existe uma medida, um padrão, para medir a felicidade?

Como você mede a felicidade produzida pela satisfação desse desejo? Não há como medir. Quando você está feliz, você está feliz. Quando você não está feliz, você não está feliz.

Algumas situações engraçadas que vivemos nos mostram que não há necessidade de preencher os desejos para ser feliz. Até mesmo quando não compreendemos uma situação, podemos rir, podemos ser felizes. Não precisamos satisfazer os desejos para sermos felizes.

Às vezes, satisfazemos nossos desejos e ficamos felizes. Às vezes, não satisfazemos os desejos e ainda assim, ficamos felizes. Às vezes, mesmo satisfazendo os desejos, não ficamos felizes.

Por momentos, apenas olhar para as estrelas brilhando no céu, ou para as crianças brincando, são coisas simples que nos deixam felizes. Boas lembranças, de momentos de felicidade, tem nos fazem felizes, pois nos revelam, nos mostram a nós mesmos como pessoas dignas de felicidade. Porém, não há um objeto que nos possa fazer felizes. Não há fonte externa de felicidade.

A felicidade não pode ser qualificada

Os adjetivos qualificam substantivos. Posso usá-los para qualificar a felicidade? Quantos tipos de felicidade há? Não há adjetivos para qualificar a felicidade. Ela é ou não é. Está ou não está. O Vedānta possui uma visão única sobre o tema. A felicidade não é um pronome nem um adjetivo. Parece ser algo que está do lado de fora de mim mesmo. A qualquer momento posso ficar feliz, e a qualquer momento posso me tornar infeliz.

A felicidade não está fora de você, mas tampouco está dentro. Se você buscar “no interior”, digamos fechando os olhos para meditar, não vai achar nada, ou vai estar se autoenganando. A felicidade está dentro do que? No interior do que? Da minha mente? Do meu corpo?

Na mente, certamente não. Se você definir a felicidade como uma condição peculiar da mente, você também estará equivocado, pois sempre irá reduzir a felicidade a um objeto exterior, separado do eu. E, o detalhe, é que a felicidade está centrada no eu.

O meu corpo é fonte de felicidade? Certamente não. A menos que eu considere que os meus problemas estomacais possam fazer feliz um gastroenterologista, que os meus problemas articulares possam fazer a felicidade de um ortopedista, que os meus problemas de visão possam fazer feliz o meu oculista, etc.

Que eu tenho desejos, é uma conclusão que não consigo aceitar, porque autoaceitação e o fato de ter desejos me parecem coisas incompatíveis. Portanto, eu me vejo como o buscador da felicidade, que está o tempo todo tentando ser diferente do que é. Como aquilo que eu sou, ou, melhor dizendo, a maneira em que me vejo, é inaceitável, o conflito continua. E se estende ao longo da vida inteira. É por isso que o herói aqui é, nas diversas situações, considerado como alguém não aceitável perante si próprio. A aceitabilidade do ser é também uma experiência muito válida.

Sou felicidade

Ao mesmo tempo em que me vejo como alguém inaceitável, também tenho momentos em que me vejo como alguém totalmente aceitável. Apesar de todos os desejos não satisfeitos, apesar da sensação de desamparo, por momentos, parece que todos esses problemas ficam como que suspendidos, e eu, provisionalmente, vejo a mim mesmo como alguém pleno e aceitável.

A felicidade não é um objeto, nem um adjetivo nem um substantivo. Felicidade é o que eu sou. Eu sou felicidade. Os sentimentos de alegria e tristeza estão sempre centrados no eu. Estamos o tempo todo tentando nos afastar da tristeza e nos manter próximos da alegria.

Isto não é pensamento positivo ou algum outro processo mental similar. O pensamento positivo não funciona. O pensamento positivo não vai livrar o obeso de continuar ganhando peso se continuar comendo hambuguers só porque ele acha que pensando positivamente, as calorias desse alimento não irão afetá-lo. Isso é uma ilusão. Quando o praticante do pensamento positivo se compara com outrem, o pensamento positivo desaparece.

Não precisamos de pensamento positivo ou de pensamento negativo: precisamos é de pensamento objetivo. Nada mais. Precisamos saber como lidar com a peculiar situação que é estarmos vivos agora. Olhando para mim mesmo como alguém que está dentro da ordem de Īśvara, incluo tanto a ordem subconsciente quanto a ordem inconsciente em mim, sem negar nada. Assim trago Īśvara para dentro da minha vida.

Assim, entendo que não preciso me afastar da tristeza ou ficar sempre correndo atrás da alegria. Como é que eu posso ser as duas coisas ao mesmo tempo, alegria e tristeza? Há algum outro motivo pelo qual eu possa ser feliz, que transcenda a alegria e a tristeza?

A tristeza não é natural

Quando a ideia de que “eu sou triste” é o natural, o sofrimento surge. Porém, eu existia antes dessa ideia aparecer. Se a tristeza fosse de fato a minha natureza, então eu poderia me contentar com ela. Porém, é fato que ninguém entende a tristeza ou o sofrimento como coisas naturais, a menos que a pessoa tenha uma psicopatologia.

O fato de que os sentidos funcionem bem não é motivo para se queixar deles. O fato de que a mente funcione bem não é motivo para se queixar dela. Essa é a natureza das coisas.

Que a mente funcione não é um problema. Que os olhos enxerguem não é um problema. A tristeza não pode ser natural, pois você quer sempre se livrar dela. Isso não pode ser a sua natureza.

A tristeza é uma força motivadora que nos leva a buscar soluções, por um fato muito simples: eu não a suporto. Isso também está centrado em mim mesmo. Ninguém se queixa da felicidade, assim como ninguém se queixa, ou deveria se queixar, de que os sentidos funcionam bem.

Então, estas são conclusões que podemos tirar baseados na nossa experiência, examinando a maneira em que nos sentimos. Um pingo de água numa prancha de ferro incandescente. Isso é o que sou. muito transitório, muito pequeno, muito frágil. O autojulgamento em relação à insignificância, ao fato de ser ninguém, psicologicamente é muito danoso.

A pessoa básica parece ser insignificante, mas o Vedānta me diz que eu sou a única pessoa significante que existe, a causa da existência do universo, a causa da existência do todo. Esse é o mahāvākya da Māṇḍūkyopaniṣad, essa é a grande afirmação védica, ayamātmā brahma, este Ātma é Brahman, que sou eu. Eu sou o significante. Não preciso nada além desse conhecimento.

Tristeza e alegria estão baseadas no eu. Da tristeza, eu quero me livrar. Da alegria, quero me aproximar. Esta é a verdade. Então, quiçá, aquilo que eu quero me tornar seja exatamente aquilo que já sou. Talvez, o que estou buscando já seja o que sou. Sou Ātma, me dizem as Upaniṣads, e Ātma é Brahman.

Ātma é conhecimento. Ātma é autoevidente

Este Ātma nunca está longe ou perto da gente. Ele é o que somos, ele é eu, é nós. Qualquer coisa que possamos testemunhar ou conhecer pela inferência, o testemunho ou outros meios de conhecimento, é chamada parokṣa.

Este Ser, Ātma que não se torna evidente para mim por não ser um objeto, mas que é autoevidente, é chamado aparokṣa, não-evidente. Ele é o sujeito que eu sou, e é apontado pela expressão “eu sou”.

Este nityaparokṣa, este autoevidente, só pode existir sob uma forma: a forma daquilo através do qual tudo se torna evidente para mim. Em português usamos a palavra consciência para apontar para esse autoevidente que eu sou. Em sânscrito, as palavras chit, jñānam.

Qualquer uma dessas palavras aponta para aquele que é autorrevelado e, por sua vez, revela tudo o mais, como uma luz que ilumina os objetos para meus olhos, sem esforço.

A luz não muda: ela não tem opiniões ou julgamentos sobre os objetos que toca, que “ilumina” com sua presença. Com a consciência é igual. Tudo se torna evidente para mim. Eu sou Ātma, o Ser, e este Ser é Brahman: ayamātmā brahma.

Pratyakṣa é o conhecimento direto, obtido através dos sentidos. Parokṣa é o conhecimento inferencial, conclusão indireta tirada sobre alguma percepção parcial, como quando por exemplo observamos fumaça na ladeira de um morro, e inferimos que haja fogo.

Há uma conexão, um sambandha, entre o fogo e a fumaça. Como não há fumaça sem fogo, concluímos que haja fogo, mesmo quando não o vemos.

Aparokṣa é o conhecimento que não é direto nem indireto, sobre aquilo que é autoevidente e autorrevelado, id est, Ātma. Aparokṣa designa aquilo que não é indireto. Em termos de conhecimento, se não for parokṣa, poderíamos  pensar que fosse pratyakṣa, percepção direta.

No entanto, quando dizemos ayamātmā, a palavra ayam, “este”, não designa algo que seja pratyakṣam nem algo que seja parokṣa. Nem percepção direta, nem indireta.

Que eu sou o que sou não é assunto para percepção direta, nem para percepção indireta. Eu não sou pratyakṣa, nem parokṣa. Eu sou nityāparokṣa, sempre autoevidente. O Ser é autorrevelado.

Essa é uma parte da equação ayamātmā brahma. Brahman é a causa do universo, de tudo o que está aqui, incluindo os corpomentes, todos os seres vivos, e o corpo que estou usando agora mesmo.

O peso dos mahāvākyas

Há uma conexão entre causa e efeito. Brahman é a causa, jagat, o universo manifestado, o efeito. Porém Brahman, enquanto causa, está igualmente contido no efeito, já que o universo não é apenas criado, mas também sustentado por ele. No recolhimento, é a Brahman que os elementos retornam.

A identidade de uma pessoa é Brahman, mesmo quando ela não sabe. Pessoas podem narrar as tragédias ou comédias das suas vidas, histórias de saṁsāra. Agora, a afirmação ahaṁ brahmāsmi nega todo o saṁsāra.

O Śrutiḥ afirma que você é Brahman. Você é autoevidente significa que você é o significado da palavra consciência, como vimos ontem. Isto deve ser corretamente compreendido.

A palavra consciência tem sido um problema. Você não está “mais além” dos sentidos, dos vṛttis, das vāsanās. Há gente que ensina desse jeito, que é totalmente equivocado, e pior do que isso, gente que senta para ouvir esse tipo de abobrinha. Você não precisa “realizar” a consciência.

A consciência não está escondida, como o sol atrás das nuvens. A consciência é autoevidente. Ela não precisa ser “realizada”. Não há “cobertura” para a consciência.

Frases como tattvamasi, “você é este [Brahman]”, ou ahaṁ brahmāsmi, “eu sou Brahman”, são obviamente afirmações que revelam equações. Ahaṁ asmi, tvamasi, eu sou o quê, exatamente? “Você é” é uma frase incompleta. Você está predicando em relação a algo.

A afirmação completa é “você é jagat kāraṇam Brahman, você é Brahman”, que é a causa do inteiro universo. De um dos lados da equação está o indivíduo. Do outro, Brahman, ou Īśvara, todo o conhecimento, todo o poder.

Agora, passemos à segunda parte da equação que mencionamos acima, ayamātmā brahma: este Ātma é Brahman. Pensemos no seguinte: esta frase pode se referir a alguma característica que existe em comum entre você e Brahman, ou pode ser considerada uma força de expressão, como quando dizemos que Fulano é um leão, para nos referir ao fato de a é uma pessoa muito corajosa. Fulano é um tigre, Sicrano é um lobo, são maneiras de expressar coisas de maneira metafórica.

Porém, quando dizemos tattvamasi, ou ahaṁ brahmāsmi, não há lugar para interpretações metafóricas. Estamos falando de um “algo” que, se for conhecido, permite conhecer todo o mais, da mesma maneira que se você conhecer a natureza da argila, conhecerá todos os objetos feitos de argila.

Não há lugar para interpretações subjetivas quando usamos estes mahāvākyas. Se não há mais ignorância em relação a esse “algo”, todo o resto será conhecido, uma vez que só há Brahman, e não há mais anda além de Brahman. É por isso que esses mahāvākyas, essas grandes afirmações védicas não são coisas a se tomar levianamente.

Não há chance para ninguém de imaginar outro significado para estes mahāvākyas, que não seja a exata e perfeita identidade entre jīva e Brahman, entre o indivíduo e o Todo, entre você e Brahman.

Assim, você é a causa do jagat, a causa do universo, todo o conhecimento, sarvājñaṁ, todo o poder, sarvaśakti, toda a inteligência, toda a criação, Sṛṣṭiḥ.

Oṁ tat sat.

॥ हरिः ॐ ॥

Este texto está baseado nas anotações feitas sobre uma série de aulas ministradas por Swāmi Dayānanda em março de 2012, em Rishikesh, Índia.

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2 respostas para “Desejo, felicidade, conhecimento”

  1. Olá Pedro.
    Adoro seus textos. Esse em particular diz muita coisa sobre o que sinto. Já fui católica, espirita, já larguei tudo e hoje estou procurando o caminho de volta. Já fiz ingles, italiano, sanscrito, já estudei administração, psicologia, ciencias socias, já fiz natação, musculação, yoga, etc. Tudo isto buscando a tão sonhada felicidade, a sonhando com a tão buscada plenitude…É angustiante a procura, onde está este algo que quando eu encontrar vou conhecer todo o resto?? Dói.
    Namastê.
    ===
    Cristiane:
    “O aspirante ao conhecimento, havendo-se dado conta de que mokṣa faz sentido e que vale a pena se dedicar a esse propósito, começa a descartar ações e atitudes contraproducentes, inadequadas, e se centra na reflexão sobre aquilo que não muda, que é ilimitado: o Ser. Esse Ser não está separado da criação, assim como a argila não está separada do pote”. Swāmi Dayānanda.
    Essa plenitude não é algo que esteja separado de quem você é. Portanto, não pode ser encontrado fora, nem buscado dentro de si como se fosse um objeto.
    Namaste.
     

  2. Caro Pedro,
    Gostaria de sua opinião sobre uma dúvida minha: ao passar dos anos, eu tenho cada vez mais certeza, através da experiência, de que há um espaço dentro de mim, além das experiências sensoriais, que consegue se afastar da dor e do sofrimento, da tristeza e da alegria, olhando de uma maneira não identificada…
    Através do yoga, além de outras práticas, eu consigo acessar esse lugar particular. A minha dúvida é em relação a esse lugar particular, esse lugar é o Átma? Como o conhecimento de Átma, sendo eu mesmo, pode não colocar em cheque as atividades do eu, em seus vários papéis: filho, marido, profissional, amigo, etc?
    Um abraço.
    ===
    Esse lugar não é um lugar físico, Felipe. Esse lugar é a própria Consciência, Atma, cuja natureza é plenitude. É por isso que você consegue se afastar das aflições.
    Abraços e boas práticas.
    Pedro.

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