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Luz ou Coincidência?

Imagine que arqueólogos, explorando um sítio virgem de mil anos na Antártida, se deparem com uma inscrição subterrânea que mostra o Sol e próximo a ele o número 186.000 milhas por segundo, a velocidade da luz. O que faria o mundo?

Escrito por Subhash Kak · 3 mins de leitura >

Imagine que arqueólogos, explorando um sítio virgem de mil anos na Antártida, se deparem com uma inscrição subterrânea que mostra o Sol e próximo a ele o número 186.000 milhas por segundo, a velocidade da luz. O que faria o mundo? Provavelmente esse achado não seria aceito pelos estudiosos. Uma fraude, eles diriam, inventada para obter fama fácil. A reputação dos arqueólogos se arruinaria. Se eles não tivessem um cargo com estabilidade, perderiam seus empregos.

Apenas lunáticos os apoiariam, afirmando que isso prova que alienígenas visitam a terra de tempos em tempos. Os grandes líderes religiosos diriam que mesmo que o achado fosse genuíno não prova nada; na melhor das hipóteses, seria uma coincidência.

Mas que coincidência surpreendente! O número exato dentre uma infinidade de números!

A velocidade de luz foi primeiro determinada em 1675 por Roemer, que determinou a diferença nos tempos que a luz de Io, um das luas de Júpiter, levava para chegar à terra conforme ela estivesse no lado mais próximo ou mais afastado de Júpiter. Até então, considerava-se que a luz viajava com velocidade infinita. Assim pensou Newton.

Mas por quê é que estamos falando sobre essa absurda cena dos arqueólogos na Antártida? Porque nos confrontamos com uma situação que é bastante semelhante!

Eu sou arqueólogo de textos. Leio velhos textos do ponto de vista de história da ciência. Um desses livros é o célebre comentário do Rig Veda por Sayana (c. 1315-1387), ministro no tribunal do Rei Bukka I, do Império de Vijayanagar, no sul da Índia.

Em um hino (1) dirigido ao Sol, ele diz: “Lembrando que o Sol atravessa 2,202 yojanas na metade de um nimesha”.

Essa declaração poderia relacionar-se à velocidade do Sol ou à da luz. As unidades são bem conhecidas. Por exemplo, os Puranas – antigos livros enciclopédicos da Índia que remontam aos tempos vêdicos – definem 1 nimesha como sendo igual a 16/75 segundos; 1 yojana é aproximadamente 9 milhas.

Substituindo esses valores na declaração de Sayana, temos 186.000 milhas por segundo (2).

Incrível, você dirá! Não pode ser a velocidade de luz. Talvez isso se refira à velocidade do Sol em sua suposta órbita ao redor da Terra. Mas isso coloca a órbita do Sol a uma distância de mais de 2.550 milhões de milhas. O valor correto é só 93 milhões de milhas e até o tempo de Roemer considerava-se a distância ao Sol como menos de 4 milhões de milhas. Essa interpretação não nos leva a lugar algum.

Mas e a possibilidade de uma fraude? A declaração de Sayana foi impressa em 1890 numa edição do Rig Veda editada por Max Müller, sanscritista alemão. Ele disse ter usado vários antigos manuscritos de três ou quatro séculos de antiguidade, do comentário de Sayana, escritos muito antes do tempo de Roemer.

É possível que Müller tenha sido enganado por um correspondente indiano que alterou justamente a linha sobre a velocidade? Improvável, porque o comentário de Sayana é tão conhecido que uma alteração teria sido logo descoberta. E logo após a publicação do “Rig Veda” de Müller alguém teria afirmado que ele continha um particular conhecimento “secreto”. O fato da velocidade no texto corresponder à velocidade da luz só recentemente foi apontada por S.S. De e P.V. Vartak. Também existe uma cópia disponível do manuscrito de Sayana, de 1395.

Outro reforço à veracidade da informação do antigo livro vem de um dos Puranas mais recentes, o Vayu, que, numa estimativa conservadora, tem, pelo menos, 1.500 anos (a mesma referência pode ser achada também em outros Puranas).

No capítulo 50 desse livro há a declaração de que o Sol se desloca 3,15 milhões de yojanas em 48 minutos. Isso corresponde aproximadamente a 10.000 milhas por segundo, se considerada como velocidade da luz, e 135 milhões de milhas de distância, se considerada como a velocidade do Sol (3).

A velocidade da luz de Sayana é exatamente 18 vezes maior que a velocidade do Sol! Mera numerologia?

Tampouco devemos esquecer que os Puranas falam da criação e destruição do universo em ciclos de 8,64 bilhões anos, que são muito próximos do valor atualmente aceito como sendo o da ocorrência do Big Bang.

Para os racionalistas, esses números são uma coincidência. Dado o significado desses números, eles olharão com muita cautela para os velhos manuscritos do comentário de Sayana. Há outros que dirão que a consciência, agindo em si mesma, pode atingir o conhecimento universal. Eles dirão que, examinando os ciclos biológicos, podem conhecer-se os períodos do Sol e da Lua. Assim sendo, por quê não seria possível conhecer outras verdades universais?

Eles diriam ainda que aqueles antigos textos falam – e isso é verdade – de transplantes de embrião, nascimentos múltiplos de um mesmo feto, viagens aéreas e espaciais, redução ou aceleração da velocidade do tempo, armas que podem destruir o mundo inteiro.

Eles diriam que é mais que ficção científica antiga. Mostra que a imaginação humana pode pressentir tudo aquilo pode acontecer.

Isso nos devolve para a pergunta de se a figura de 186.000 milhas por segundo no livro de Sayana é uma coincidência surpreendente, um exemplo dos poderes de intuição, ou um número sem sentido.

O que você acha?


(1) O número do hino rigvêdico é 1.50.

(2) Para obter o valor correspondente em kilômetros, multiplique o valor em milhas (186.000) por 1,6093. O resultado será algo muito próximo de 299.792 km/s, a velocidade da luz.

(3) Para uma discussão dos aspectos técnicos, carregue o arquivo speedlight.ps do diretório de ftp em minha homepage, ou vá para www.ee.lsu.edu/kak e confira o arquivo speedlight.ps. Você também pode ler o paper chamado The speed of light and Puranic cosmology no arquivo de física de Los Alamos: http://xxx.lanl.gov/abs/physics/9804020.

Se quiser entrar em contato com o autor, clique aqui.

Traduzido por Pedro Kupfer e publicado originalmente em português na revista Cadernos de Yoga, volume 04, da Primavera de 2004.

Uma resposta para “Luz ou Coincidência?”

  1. Acredito plenamente neste artigo. Por que não? Os povos antigos tinham todos esses conhecimentos. Todos sabemos que a Índia é o umbigo do mundo no sentido de desenvolvimento da consciência. É meio tosco e prepotência do homem achar que só no nossso tempo é que ocorrem as maiores descobertas. Seria ótimo saber que o homem já tinha como calcular a distância do Sol e a velocidade da luz. Acho que cairia um bocado de teorias que hoje não servem pra nada a não ser vangloriar certos cientistas que só querem criar algo para aparecer. Saber então que antecessores a nós tinham contatos com outros seres de outros planetas ou cosmos… Nossa! Para mim seria muito além de uma ficção, mas um sério caminho a seguir e compreender. Se nós temos preconceitos com nós mesmos, imagina com outros seres. Aí está um desafio para Humanidade. Um abraço e namaste.

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