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Tripura rahasya

A tradição yogika conhece dois caminhos diferentes que conduzem à iluminação. Destes, o primeiro é o da prática constante e o desapego (abhyāsa e vairāgya), postulado por Patañjali no Yogasūtra. O segundo caminho que propõe a iluminação como forma de vida é muito menos conhecido.

A tradição yogika conhece dois caminhos diferentes que conduzem à iluminação. Destes, o primeiro é o da prática constante e o desapego (abhyāsa e vairāgya), postulado por Patañjali no Yogasūtra. O segundo caminho que propõe a iluminação como forma de vida é muito menos conhecido.

Nele, iluminar-se não significa negar ou ficar de costas para o corpo e para a vida no mundo. A experiência de libertação e a existência do mundo real são perfeitamente compatíveis. Essa possibilidade de levar uma vida onde a iluminação aconteça concomitantemente com o cotidiano é conhecida no Yoga como sahaja samadhi.

O samadhi pode ser definido como um estado de consciência em que a dicotomina sujeito-objeto, característica do estado de vigília, é temporariamente abandonada através da identificação total do meditador com o objeto da meditação. Não obstante, há uma péssima notícia: expericienciar o samadhi não é garantia de que o ego e a mente serão aniquilados.

Fatalmente, após essa profunda experiência, existe a volta às experiências do corpo, da mente e do ego. Tudo continua como estava antes: os medos, os condicionamentos e o sofrimento voltam à tona. Tornar-se mais forte do que as próprias fraquezas interiores é tarefa das mais árduas, pois viver em estado de dualidade é um hábito do qual é extremamente difícil se libertar.

É por isso que algumas tradições yogikas não dualistas, tanto tântricas quanto vedânticas, negam enfaticamente a necessidade de buscar essas experiências. Elas não são nem definitivas nem duradouras. A idéia é que não devemos libertar-nos do mundo, mas no mundo. O mundo não é algo diferente de nós mesmos, do qual devamos fugir. O mundo é uma projeção do poder da Consciência Infinita, que está igualmente presente em nossa essência mais profunda. Portanto, tudo é sagrado.

O Tripura Rahasya e a iluminação espontânea

Essa atitude, revolucionária em termos do que se entende por prática de Yoga atualmente, está belamente expressa num śāstra do tantrismo śāktadvaita (śāktismo não-dualista), chamado Tripura Rahasya (O Segredo das Três Cidades). Esse texto narra a história do príncipe Hemachuda e a princesa Hemalekha, do reino de Videha, e tem como objetivo demonstrar que nem sequer mil samadhis conseguem tirar a pessoa da rede de seus próprios karmas e samskāras.

A história é a seguinte. Um dia, o príncipe estava caçando na floresta quando foi supreendido por uma forte tormenta. Vislumbrando em meio à chuva, a ermida de um sábio no alto de uma montanha, tomou a decisão de refugiar-se nela. A bela filha do sábio, Hemalekha, abriu a porta e deu-lhe as boas-vindas. O príncipe apaixonou-se imediatamente pela moça e pediu-a em casamento. Obtida a aprovação do pai, eles casaram-se.

O tempo passou e, apesar de Hemalekha ser uma ótima esposa, bondosa e atenta, parecia não compartilhar a paixão pela vida que seu marido exibia. Pelo contrário, estava sempre serena, e um pouco ausente, como que indiferente, tanto perante as coisas boas, quanto perante as coisas ruins que acontecessem.
Isso produziu uma certa frustração no apaixonado príncipe, que, interrogando-a, obteve uma resposta que era, ao mesmo tempo, um pedido:

“Estou em busca da felicidade eterna. Por favor, ajude-me a encontrá-la”.

De início, o príncipe achou que o pedido de sua esposa era absurdo e começou a questioná-la. Ao perceber a penetrante sabedoria de suas respostas, descobriu que estava tendo com ela o diálogo mais profundo que jamais tivera e vislumbrando coisas nas quais nunca tinha pensado antes. Como resultado desse diálogo, ele próprio entrou numa profunda crise existencial e, renunciando aos seus afazeres e responsabilidades, acabou por fechar-se em seu quarto para encontrar a iluminação. Não tardou muito em atingir e dominar o samādhi.

Uma vez, quando a princesa foi visitá-lo em um dos raros momentos em que ele estava fora desse estado transcendental, ele lhe disse: “Alcancei a felicidade perfeita do samādhi”. Porém, novamente, a bela e sábia Hemalekha, com sua profunda acuidade, demonstrou-lhe tranqüilamente que estava enganado.
Disse-lhe então:

“Meu querido, creio que você ainda não aprendeu nada. Você está tão longe do samādhi quanto o reflexo das estrelas numa poça d’água está do céu, pois somente experiencia essa felicidade quando está sentado meditando. Que tipo de iluminação é essa que se dissolve quando você abre os olhos e se levanta?”.

Argumentou que, se precisava ainda concentrar-se tanto para entrar em samādhi, não tinha conquistado ainda a felicidade real. Todavia, fez o príncipe perceber que o Ser Infinito que estava procurando não estava apenas dentro de si próprio, mas igualmente fora dele, em todas as coisas. Finalmente, revelou-lhe que o objetivo verdadeiro e segredo do Yoga é a felicidade real do sahaja samādhi.

Como resultado da aplicação desses ensinamentos, Hemachuda alcançou a verdadeira iluminação através do sahaja samādhi. Naturalmente, também percebeu que sua esposa já havia alcançado esse estado havia tempos e ficou devidamente grato a ela. Assim governaram na paz do samādhi espontâneo, e todos no reino foram felizes.

Sahaja significa em sânscrito “nascer junto”. Esse termo faz referência à união de dois pólos que acontecem nesse estado: mukti e bhukti, ou libertação e experiência no mundo.

Assim, o sábio Yājñavalkya nos diz na Aṣṭavakragītā, II:1-2:

Eu sou a pura e serena Consciência, mais além da natureza.
Durante muito tempo fui cegado pela ignorância.
Como o Único, ilumino este corpo e o mundo.
Possuo o mundo inteiro e, em verdade, nada possuo.


Texto introdutório extraído do artigo A iluminação no cotidiano, de Pedro Kupfer, e publicado originalmente na revista Cadernos de Yoga, volume 1, do Verão de 2004.

2 respostas para “Tripura rahasya”

  1. O link está quebrado!

    Teria como disponibilizar por favor? 😀

    Namastê

  2. Puxa, parece que todos os links nos quais eu clico estão corrompidos! É Kali Yuga, claro! Será que dá pra disponibilizar Tripura Rahasya também? Um abração de quebrar os ossos!

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