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Maha Śiva Rātri, a Grande Noite de Śiva

Todos os meses, a noite anterior ao dia da Lua Nova é chamada Shivarátri, a noite de Śiva. Uma vez ao ano, no mês chamado Magha (fevereiro/março), há um dia e uma noite inteiros dedicados a Śiva, chamados Mahaśivarātri.

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Śiva Rātri

A Narrativa do Śiva Rātri

Śiva é um dos deuses da Trimurti (trindade) hindu, e simboliza o poder da destruição e da transformação.

Os outros dois são Brahmā, o Criador, e Viṣṇu, a força que mantém a Criação. Esses três são a manifestação de um único poder, sendo, portanto, inseparáveis.

Śiva é casado com Pārvatī, que representa Prakṛti, a matéria. Isso mostra que o poder de destruição só pode se manifestar quando associado a algo perecível.

Como destruidor da ignorância (avidyā), Śiva é representado meditando nas neves do Monte Kailaśa, do Himalaya. Sua postura simboliza a serenidade, a disciplina (sādhana) e o comando do corpo, dos órgãos de percepção (os sentidos) e da mente.

A brancura da neve representa a mente sáttvica, purificada – nem deprimida (tamásica), nem agitada (rajásica) – o que é necessário para se poder meditar.

Śiva representa não só o mais alto estado de perfeição humana (a plenitude da Sabedoria), como, também, os meios para alcançá-lo.

Seus olhos estão entreabertos, mostrando que sua mente está absorta no Ser e seu corpo se relaciona com o mundo (completamente fechados indicariam total desligamento, e bem abertos, completo envolvimento com o mundo).

O estado meditativo também é simbólico. A meditação (dhyāna) é a última porta para a autorrealização. Para obtê-la, é preciso meditar. E para poder meditar, é necessário uma mente pura.

Śiva nos mostra que para purificar a mente é preciso ser um yogi, isto é, agir com total entrega dos frutos das ações ao Criador (Karma Yoga), neutralizando, assim, apegos (rāga) e aversões (dveśa).

Śiva Rātriमहा शिवरात्रि

Para ajudar nessa luta contra os apegos (rāgas) e desejos, Śiva carrega seu triśūla, ou tridente, simbolizando não só a destruição do ego e seus três aspectos de desejos (físicos, emocionais e mentais/intelectuais).

O triśūla também simboliza a transcendência dos três mundos (bhūr (terra); bhuvah (atmosfera); e svāhā (firmamento), vinculados aos três guṇas (sattva, rājas e tamas) e aos três períodos do tempo: passado, presente e futuro.

O kamandalu, ou pote d’água, representa a renúncia (vairagya), o ascetismo, o viver com o mínimo necessário.

As rudrākṣas – sementes usadas para fazer japamālās – simbolizam Japa, a disciplina da repetição, e o damaru – pequeno tambor -, o som e o fenômeno da Criação, do qual fazem parte a manutenção e a destruição.

A lua que lhe enfeita a cabeça representa não só as tendências e as transformações, mas, também, a mente ou o ego, todos usados como adornos, isto é, já não atrapalhando.

O cabelo comprido mostra o seu poder e todos os tipos de energia concentrados na busca do conhecimento. O fato de estar emaranhado representa a austeridade (tapas).

As cinzas simbolizam a queima da ignorância (avidyā) e da ilusão (māyā), com seus apegos e desejos.

Śiva ‘possui’ um terceiro olho, na vertical, cujo poder de visão vai além dos olhos mortais (‘vê por outro ângulo’).

A visão do ser humano se limita às suas percepções, emoções e pensamentos, mas, ao transcender as limitações do corpo, mente e intelecto, reconhece o seu Ser, indicado pela ‘abertura’ do terceiro olho.

O sábio (ṛṣi) é aquele que conquistou o seu ego, representado pela serpente que, agora, é apenas um ‘adorno’ e, também, pela pele de tigre, que morreu de morte ‘natural’ (no reconhecimento da sabedoria, a ignorância ‘naturalmente’ morre), e na qual ele ‘senta’, pois o sábio não senta sobre o chão, mas, sim, sobre o corpo.

Todos os meses, a noite anterior ao dia da Lua Nova é chamada Śiva Rātri, a noite de Śiva. Uma vez ao ano, no mês chamado magha (fevereiro/março), há um dia e uma noite inteiros dedicados a Śiva, chamados Maha Śiva Rātri.

Esse dia é de orações, rituais e ascetismo, sendo também utilizado para a iniciação de saṁnyāsis, ou renunciantes, e para reafirmar propósitos de busca espiritual. No dia de Maha Śiva Rātri são observados o silêncio e o jejum, além de outras práticas religiosas.

Durante o dia são realizados rituais e à noite há um ārati – ritual simples com fogo, cânticos e distribuição de prasāda, alimento oferecido (consagrado) e depois distribuído entre os participantes. Nos templos, o Mantra Oṁ namaḥ Śivāya (‘Oṁ, Saudações a Śiva’) é repetido numa corrente contínua até a meia-noite.

Natarāja é Śiva em pose de dança. Na noite de Maha Śiva Rātri , ele larga o triśūla (tridente) e dança tocando o damaru (o pequeno tambor). A noite simboliza a ignorância do Ser, e a dança, o êxtase da Auto-realização, a aurora do Conhecimento.

A Lua Cheia representa o preenchimento, a realização, o final do caminho, e a Lua Nova, um novo começo. Os últimos minutos da Lua Cheia representam esse preenchimento, e a Lua Nova, o ‘começo’ dessa vida de plenitude.

O triśūla é para destruir todos os obstáculos que nos ‘separam’ do Ser e largá-lo mostra a nossa vitória.

O Maha Śiva Rātri celebra a vitória da Sabedoria sobre a ignorância do Ser e sobre o ego, e ajuda-nos a lembrar de Śiva e de tudo o que ele representa: a disciplina, a renúncia, a meditação, o esforço e a seriedade na busca espiritual.

Englobando tudo isso, a destruição completa da ignorância (avidyā), a dissolução do indivíduo no Total e a realização do Ser.

॥ हरिः ॐ ॥

+ histórias do dharma aqui

Ouça aqui outras histórias de Śiva pela narrativa do professor de Vedānta Patrick van Lammeren:

॥ हरिः ॐ ॥


Extraído do Informativo Vidyā Mandir de janeiro de 1990. Digitado por Cristiano Bezerra. Visite aqui o site do Vidyā Mandir – Centro de Estudos de Vedānta e Sânscrito da professora Gloria Arieira.

॥ हरिः ॐ ॥

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