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Mahalīlā, o Jogo do Autoconhecimento

O Mahalīla, jogo milenar hindu, é para os indianos o que o tarô é para os europeus e o I Ching para os chineses: uma descrição dos estados, experiências e situações pelas quais circula o homem no processo de crescer através da vida

Escrito por Harish Johari · 6 mins de leitura >
Mahalila jogo autoconhecimento

O Mahalīlā, jogo milenar hindu, é para os indianos o que o tarô é para os europeus e o I Ching para os chineses: uma descrição dos estados, experiências e situações pelas quais circula o homem no processo de crescer através da vida.

Para jogar o Mahalīlā precisam-se quatro coisas:

1) o tabuleiro,
2) um dado,
3) estas instruções, e
4) um objeto pessoal como uma medalha, um anel ou uma chave que o jogador utilize freqüentemente, e que o representará no jogo.

Ao iniciar, cada jogador coloca seu símbolo na casa 68, Consciência Cósmica (vaikuṇṭha loka) e aquele que tirar o maior número numa primeira rodada do dado lerá para os demais jogadores este texto:

Antes de jogar o jogo estamos na meta final dele, o Ser,
que, sem forma nem nome, é fonte de todo o que existe.
Mas o dado do karma registra as vibrações do jogador,
que logo escolherá uma forma e um nome
para jogar o jogo das escadas e das serpentes,
através dos oito níveis do mahalila, o grande jogo,
até voltar à fonte original, onde tudo recomeça eternamente.

Depois, joga o dado e o passa para a pessoa à sua direita. Quem tirar um número um move seu símbolo para a primeira casa, nascimento (janma), e lê seu significado em voz alta para os demais jogadores.

Nas próximas etapas do jogo, a cada vez que um jogador tirar um seis, avança sem ler e joga o dado novamente até tirar um número diferente de seis. Somente no último movimento lerá a descrição da casa em que caiu.

Quando o símbolo do jogador cair na base de uma escada, move seu símbolo até o fim dela, lendo a descrição dessas duas casas.

Quando o símbolo cair sobre a cabeça de uma serpente, deve descer até o extremo da cauda, lendo as duas descrições correspondentes.

O objetivo do jogo é chegar na Consciência Cósmica (vaikuṇṭha loka), à casa 68. Se o jogador alcançar a oitava fileira e passar do 68, deve avançar e retroceder entre a casa 69, plano do Absoluto (brahmā loka) e a 72, inconsciência (tamoguṇa), até tirar a cifra exata que o deixe na boca de serpente, que o engolirá e levará de volta para a terra (pṛthīvī), na casa 51.

Lançar os dados simboliza a influência do caos em uma existência que nem sempre acontece dentro de uma seqüência lógica. Cada casa tem um nome e corresponde a um nível de consciência no processo do autoconhecimento.

Os nomes das casas levam o jogador a meditar sobre o conceito por trás da palavra e a familiarizar-se com a metafísica hindu como veículo para o autoconhecimento.

Cada fileira que o jogador ascende, como numa espiral, equivale a um cakra, centro de energia no ser humano onde se expressa a energia cósmica, indo desde o mais denso (mūladhāra) ao mais sutil (sahasrāra), e além dele, até o plano da consciência cósmica (chamada no hinduísmo vaikuṇṭha loka, plano celestial), em que se transcende a individualidade.

O jogo conclui quando o jogador cai exatamente na casa 68, Consciência Cósmica (vaikuṇṭha loka), seja através da ascensão numérica, seja pela escada que inicia na casa 54, exercício espiritual (sādhana).

Jogando várias vezes, você irá descobrir circuitos freqüentes, escadas auxiliadoras e serpentes amistosas. Isto é o que torna o Mahalīlā um jogo de autoconhecimento. Há somente um jogo: o jogo em que cada um de nós é um jogador representando seu papel.

Esse é o jogo universal da energia cósmica, Mahalīlā. Após iniciar o jogo, o tabuleiro começa a brincar com a mente, com o ego e com o sentido da própria identidade do jogador.

॥ हरिः ॐ ॥

Estes arquivos são disponibilizados para livre distribuição, desde que o seu uso não envolva nenhum tipo de remuneração à pessoa que o apresenta para os demais, explica ou guia o jogo. Respeite por favor o dharma. Não cobre pelo jogo. O jogo deve ser dessinteressado. Não pode envolver pagamento de nenhum tipo. O jogo é o jogo. Obrigado.

Mahalila Jogo Autoconhecimento

 

महलीला

Mahalīlā

As Casas do Jogo

1. Janma: nascimento
Nascer é entrar no jogo. No início não havia jogo, mas a natureza brincalhona da Consciência não pode ficar imóvel por muito tempo e, desde a Unidade, Brahman, o Absoluto, torna-se muitos para jogar o jogo. Este é o jogo do karma, onde o Uno chega a ser muitos jogando o jogo cósmico de esconde-esconde consigo próprio.

2. Māyā: ilusão
Jogando, perco a percepção da unidade na fascinação do próprio jogo: estou separado e sou diferente. Dois é a dualidade, e a dualidade acontece quando o um repete a si próprio. Um é realidade. Dois é ilusão. Estou no mundo dos nomes, das formas e os fenômenos, no cenário onde irei inventar minha ação… mas intuo que há uma saída: perceber a ilusão das dualidades.

3. Kroḍha: ira
Não sei ao certo quem sou, mas sei muito bem quem não sou. Esta corrente de auto-identificação enfrenta inevitavelmente aspectos reprimidos de mim mesmo. Minha identidade vacila. Meu ego está ferido. Minha reação emocional é a ira. A ira produz fogo e o fogo queima tudo. Esta é a cauda da serpente da casa 55, egocentrismo. Projeto em você o que reprimi em mim e concentro então minha energia para eliminar de você esse aspecto indesejável.

5. Bhuḥloka: corpo físico
Fui pego pela vibração mais baixa de mim mesmo. Meu único tema é a realização material: meu conforto, minha sexualidade, minha alimentação, minha vontade de satisfazer os sentidos. Mas isso é tão fugaz que devo repetir tudo de novo e de novo!

6. Moha: apego, condicionamento
Desde que nasci fui condicionado pelas circunstâncias de nascimento, tempo e lugar (janma, kala e desha). Deixei de jogar e caí no delírio do apego. A realidade de hoje deve ser a realidade de sempre. Esse apego que me condiciona a ver do jeito que eu sou é a causa real que me traz de volta uma e outra vez às vibrações mais baixas de mim mesmo.

7. Mada: vaidade
Estou auto-intoxicado. Estou intoxicado de mim mesmo. Sou aquilo que os demais dizem de mim. Cheio de falsas identificações de todo tipo, fiquei preso no meu próprio jogo: não entendo como não se cumprem todos meus desejos, sendo eu como sou. As más companhias apenas confirmam a minha auto-intoxicação.

8. Matsāra: avareza
A avareza é cobiça mais inveja. Tenho uma aversão ativa contra todos vocês. Sou demasiado bom para vocês e minhas coisas também são demasiado boas para vocês. Até mesmo as coisas que vocês têm são demasiado boas para vocês, pelo que deveriam ser minhas.

9. Kāmaloka: desejos
Se não houver desejo, não haverá criação. É a pura vontade de jogar a que cria a diversidade. Mas viver satisfazendo desejos é um estado vinculado à ignorância. O verdadeiro vazio não se preenche deste modo.

10. Tapaḥ: purificação
Quero me purificar e consigo isso alterando o comportamento de meus órgãos dos sentidos. Aos poucos, percebo um aumento de nível vibracional que faz minha energia ascender. Fazer um esforço sobre si próprio para purificar-se é a primeira escada do jogo, que nos dá a oportunidade de transcender os apegos vinculados à primeira fileira.

11. Gandharva: divertimento, aroma
Este espaço psíquico freqüente na infância é a expressão natural da minha alegria interior. A criação é uma brincadeira alegre da energia e somente quando nos libertamos da primeira fileira podemos perceber a vida como o riso Daquele que escolheu ser muitos.

13. Antarīkṣa: nulidade, limbo
Não estou nem na terra nem no céu. Nem aqui nem lá: em parte alguma. Caí na nulidade. Qual é o propósito do meu ser? A angústia existencial flui através da minha consciência. Sou tão insignificante… tudo perdeu o sentido. Os objetivos estão ainda aí, mas, para que servem? Felizmente, a nulidade não é um estado permanente.

14. Bhūvaloka: corpo astral
Por um momento, realidade e fantasia se estabilizam entre o que sou e o que poderia ser. Posso ver a estrutura de minhas idéias com total clareza: devo continuar sendo o que sou. Não posso deixar de ser o que sou. Esse é o caminho correto.

15. Nāgaloka: fantasia
Aqui voa a imaginação: não há nada que não possa fazer. Nada é demasiado fantástico ou estranho. Na brincadeira, despertei as possibilidades. Aqui, mergulhei nelas. Estou materialmente seguro, tenho meu sucesso garantido e, com a maré da autoconfiança, a imaginação criativa pode voar. A fantasia é o poder que está por trás da criatividade.

16. Dveśa: ciúmes, aversão
Perdi a habilidade de distinguir entre o possível e o impossível. Sonho, e acredito que meus sonhos são reais. Este é o apego básico da segunda fileira e é provocado pela minha confusão: minha indulgência com o mundo do fantástico. Minhas dúvidas crescem. Tenho tão pouca autoconfiança que me odeio. Projeto esse ódio sobre todos aqueles que não confirmam minha auto-imagem. A energia baixa. Caí na cobiça.

17. Daya: compaixão
Entrego-me à compaixão com tal potência que meus olhos ficam úmidos, meu coração bate forte e meu ego é varrido com tal força que, por um momento, sou uno com o outro… e isso é ser uno com Brahman. Essa essência da compaixão desapega minha consciência da identidade que escolhi. A vibração da energia assim liberada me eleva ao plano do Absoluto (brahma loka).

18. Harṣaloka: alegria
Uma fase está terminada, outra a ponto de começar. Neste momento o espírito da alegria atravessa meu ser. Estou no cume de mim mesmo. No cume do mundo. O tempo desaparece. A alegria é eterna, sempre. Entretanto, breve é sua duração.

19. Karmaloka: ação
Enquanto vivo esta existência corpórea não posso deixar de agir. As ações criam seus próprios resultados. Além destas ações naturais, meu ego deseja estender sua influência em círculos crescentes. No entanto, sendo o mundo exterior um espelho de mim mesmo, ao agir descubro as influências familiares, sociais e políticas que criaram minha própria identidade egoística. Então, vejo que a ação é ao mesmo tempo a corrente e a libertação.

20. Dana: caridade
Caridade é compaixão mais ação, uma virtude que quebra os limites da terceira fileira, relativa ao terceiro chakra, manipura. O sentimento de alegria que experiencio ao realizar uma ação caridosa se traduz na transcendência da energia ao plano do equilíbrio (maha loka).

॥ हरिः ॐ ॥ 

 

© Copyright Harish Johari.
Edição em português online em www.yoga.pro.br desde novembro de 2005.
Texto original por Harish Johari, do livro Leela, the Game of Self Knowledge.
Adaptação e tradução por Pedro Kupfer.

॥ हरिः ॐ ॥

Oceano da Vida

O Oceano da Vida

Harish Johari em Conheça, Literatura e Sânscrito
  ·   2 mins de leitura

16 respostas para “Mahalīlā, o Jogo do Autoconhecimento”

  1. Boa tarde! Gostaria de saber se há a possibilidade de fazer a vivência do jogo? Se há espaços que fazem essa vivência e se tem previsão de datas. Obrigada.

  2. Participei desse jogo e adorei, gostaria de saber mais sobre ele, e adquiri-lo, é possível. obrigada. Lucia.

  3. Sou Prfessora da PUC-Rio e há muito tempo (uns 15 anos) me dedico a conhecer jogos milenares. Sabia do Mahalila mas não tinha ainda encontrado algo mais detalhado dele. Assim sendo, foi maravilhoso visitar seu site. Parabéns! Por outro lado, desejo saber se é possível se adquirir o jogo com os senhores ou então se me podem indicar onde posso adquiri-lo. Aguardando suas notícias,
    Sou atenciosamente,

    Apparecida Mamede.

    ==========================================

    Cara Apparecida, vá para a página http://www.yoga.pro.br/artigos.php?cod=504&secao=3017 e faça você mesma o download do texto com as descrições e instruções, e o tabuleiro. Imprima e bom jogo! Namaste! Pedro.

    1. O jogo não esta mais disponível para dowload. O link não funciona tem como colocar de novo?Namastê

  4. Obrigada por sua generosidade; de colocar a nossa disposição o tabuleiro e o significado das casas do Mahalila. Conheci este jogo há menos de 1 dia através de uma revista de Yoga e me apaixonei. Estava pesquisando, quando entrei em seu site. Para mim foi um grande presente, este Tabulerio. Era o que estava me faltando.Agradeço a você a ao universo. Namastê.

  5. Boa tarde! Como posso adquirir o tabuleiro do Mahalila? Sem mais para o momento agradeço!

  6. Amava poder comprar o Mahalila. Como posso fazer? Ajude-me por favor.Obrigada!

  7. Olá Pedro, também consulto está pag. diáriamente.
    Já tinha ouvido falar do jogo mas nunca havia tido o contato. Lindo o tabuleiro. Minha pergunta: você tem estes para vender???? Conhece quem faça???
    Se tiver alguma coisa por Floripa me fale, estou bem perto.
    Grata,
    Adriane
    Shanti

  8. Caro amigo,

    Guardo com carinho as lembranças da vez que jogamos com sua mãe o Mahalila naquele workshop em Floripa. É muito bom poder ter acesso a este jogo novamente.

    Mais uma vez, obrigado.

    Om Shanti!

    Celso.

  9. Querido Pedro, sou sua admiradora, leio todos os teus artigos e quando entro na internet a primeira página que consulto é a sua. Já imprimi o jogo e aguardo o tabuleiro.
    Namastê,
    Elaine.

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