Começando, Pratique

O Yoga e o naufrágio do Ocidente

Que o Yoga está em alta há alguns anos, já não é novidade para ninguém. No entanto, cabe nos fazer a seguinte pergunta: como pode explicar-se esta situação?

Escrito por Pedro Kupfer · 3 mins de leitura >

Que o Yoga está em alta há alguns anos já, não é novidade para ninguém. No entanto, cabe nos fazer a seguinte pergunta: como pode explicar-se que uma tradição originada 5000 anos atrás no Oriente possa ter tanto apelo nos dias de hoje? Nossa sociedade está vivendo uma crise de valores tão grande que esta pergunta é plenamente justificada.

Assim se arrasta a Humanidade…

Atualmente, a velocidade com que a informação circula tornou-se uma espécie de ditadura: somos obrigados a engolir e processar uma quantidade despropositada de dados que são perfeitamente inúteis no processo de nos ajudar a nos tornarmos medianamente felizes. Esse excesso de informação ainda alia-se à pressão que a sociedade coloca sobre o indivíduo para que este se enquadre sob o rótulo do ‘cidadão produtivo’.

Essa sobrecarga de exigências se traduz na perda do espaço de reflexão interior. Não temos tempo para mais nada e passamos a ver o mundo como um lugar hostil, onde é preciso estar na defensiva e garantir o próprio quinhão a qualquer custo. Esquecemos, portanto, de viver bem, viver harmoniosamente, viver inteligentemente, para nos tornarmos candidatos a sobreviventes nessa corrida.

Consequentemente, renunciamos igualmente (por ‘falta de tempo’) a dedicar alguns momentos do nosso dia-a-dia ao bem comum. Estamos tão absorvidos pelas nossas próprias demandas que não nos sobra tempo para os demais. O mais patético é que tampouco nos sobra tempo para nós mesmos. Devemos reconhecer que isso é totalmente insuficiente para termos uma vida humana realizada, plena ou apenas medianamente satisfatória.

O naufrágio dos dogmas ocidentais.

Por outro lado, assistimos, nos últimos 200 anos, à derrubada de muitos dos dogmas e crenças que foram durante séculos os alicerces da civilização ocidental. O biólogo inglês Charles Darwin elaborou a teoria da evolução, segundo a qual o ser humano não é o centro da criação, mas o fruto de uma série fortuita de acidentes da natureza. O filósofo alemão Friedrich Nietzsche, por seu lado, proclamou audaciosamente que ‘Deus morreu’. As religiões foram desmistificadas e suas práticas e símbolos sistematicamente questionados e esvaziados de significação e poder.

Lembro que, quando era criança, a ciência e a tecnologia eram consideradas as únicas soluções possíveis para os problemas humanos. A ciência prometia para um futuro muito próximo a solução para todos os nossos problemas. Dali a pouco, afirmavam os meios de comunicação, teriamos a cura de todas as doenças, haveria colônias humanas em estações no espaço exterior, e haveria uma infinidade de robôs trabalhando para nós. Assim, teriamos mais tempo para nos dedicar à nossa família, à nossa felicidade, e a nós mesmos.

O que aconteceu foi exatamente o oposto: a tecnologia veio para resolver problemas que antes não tinhamos e, de quebra, robou-nos o tempo, a felicidade e a sanidade. E isso é apenas a ponta do iceberg. Nesse contexto, o humanismo laico tentou, desde sua origem, preencher sem sucesso o vazio deixado pela crise ética e religiosa.

Essa derrubada dos dogmas veio acompanhada de uma deterioração dos valores sobre os quais se apoia a sociedade. A crise de valores é tão grande que a nossa civilização está despedaçando-se num crescendo de violência, terrorismo, guerras absurdas, famílias aos frangalhos, explosão demográfica, crescente miséria nos países pobres e concentração cada vez maior da riqueza nos países ricos. Qual é o papel do Yoga nesse contexto?

A busca de uma saída humanamente viável

É perceptível o crescimento de um grupo de pessoas dentro da nossa sociedade que procura genuinamente uma nova forma de vida, mais simples, mais significativa e mais feliz. Essas pessoas podem ter se sentido decepcionadas pelas respostas que as religiões, a ciência ou o humanismo laico têm para seus anseios. Elas intuem que exista uma alternativa viável para dissipar sua angústia e estão dispostas a explorar caminhos não ortodoxos para o auto-conhecimento. Nesse grupo incluem-se aqueles que se sentem atraídos pela senda do Yoga.

A senda do Yoga

Como filosofia de vida, o Yoga é um caminho que conduz à paz interior, à percepção clara, ao auto-conhecimento, através da compaixão e do amor. A diversidade e riqueza dos pontos de vista desta disciplina milenar permite que cada indivíduo possa encontrar uma abordagem significativa para si mesmo.

No entanto, essa mesma variedade de abordagens fez com que, com uma certa freqüência, tenham surgido interpretações superficiais ou equivocadas das práticas yogikas, que foram desnudadas dos seus propósitos originais.

Embora o Yoga tenha se originado no sub-continente indiano, e tenha crescido sob a marca da cultura vêdica, seu apelo é universal, tão válido e eficiente dentro da cultura indiana como fora dela; tão atual nos tempos modernos como o foi milênios atrás.

Afirma o erudito Georg Feuerstein:

‘O método yogue é perfeito. Surge da experimentação prática, convida a ela e inclusive a exige, e se demonstra por meio da experimentação pessoal. A falta de sucesso no caminho yogue não é provocado por um defeito do Yoga, senão sempre pelo fracasso da pessoa que carece do critério necessário ou não segue corretamente seus procedimentos. (…)

O Yoga é como uma mãe paciente que nutre a todo aquele que esteja disposto a realizar o mais humilde gesto de compromisso em relação ao caminho espiritual. (…)

O Yoga nunca foi dirigido ao consumo fácil e as promessas de alcançar soluções rápidas, ou inclusive a iluminação em um fim de semana são ostensivamente ridículas. Em verdade, obtemos do Yoga aquilo que aportamos a ele. (…)

Se confundirmos o Yoga com um treinamento físico e seguirmos um programa correto, não há a menor dúvida de que conseguiremos estar em boa forma. Porém, também teremos perdido o genuíno poder do Yoga. Por outro lado, se nos aproximamos ao Yoga com altas expectativas, mas pouco inclinados a seguir os passos práticos necessários para realizá-las, somente conseguiremos nossa própria frustração.’ Yoga, pp. 165-166.

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10 respostas para “O Yoga e o naufrágio do Ocidente”

  1. Gratidão Pedro! Seus textos tem me ajudado bastante. A prática de yoga é realmente algo que tem que ser levado a sério

  2. Salve, Pedrão!

    Ler seu texto me fez refletir que o excesso de informações tende também a gerar cada mais tensão, e, queiramos ou não, a parte visual inicial do Yoga ainda é a flexibilidade corporal, que atraia cada vez mais estressados tensionados. Me veio aquelas camisetas NO Stress com nomes de praias e locais de descanso. Tá na hora de alguém fazer uma camiseta No stress – Pratico Yoga, e depois mandar uns trocos de royaltes da idéia pra mim, hehehe…

    Tudo de Ommm!

    Obrigado pelo compatilhar!

    Jaya!

    PS: A comunicação virtual então é ótima para gerar uma tensão entre o que se sente e o que realmente se diz. Me peguei fazendo isso agora escrevendo automaticamente “Obrigado pelo compartilhar”… Por isso, aí vai de novo… Obrigaaaaaado pelo compartilhar! Hehe…

    Jaya!

  3. Oi Pedro,
    descobri com o Yoga a dar valor aos momentos em família, com os amigos, contemplando a natureza, pintando, escrevendo, lendo e, principalmente, silenciando. É impressionante e precioso escutar o silêncio, principalmente num tempo e espaço de tanto movimento e ruído. O desacelerar, o aquietar da mente, o escutar a si próprio e ao outro…
    Ah, quantos tesouros estão sendo revelados neste caminho. É claro que não é nada fácil passar por desconstruções daquilo que achamos que somos, mas faz parte da jornada! Por isso o Yoga é tão atual nos dias de hoje, assim como a obra de pensadores como Carl G. Jung – ambos nos mostram o caminho da individuação.
    Om namah Shivaya!
    Namastê!
    : )*
    Mariana

  4. Pedro, eu estava hoje no final da tarde no trânsito da Marginal Pinheiros, cercada de concreto e ansiedade por todos os lados, com dois celulares tocando ao mesmo tempo.

    Extremamente irritada por estar ali presa, me pus a refletir.

    Várias idéias me vieram à mente, perguntei a mim mesma por que me colocara naquela situação, não podendo culpar mais ninguém a não ser eu mesma. A solução veio rápido: pensei em escrever um artigo sobre stress e avanços tecnológicos.

    Ao voltar para casa, sentei-me ao computador, quando acabei me deparando com seu texto. É isso aí, Pedro, você captou o que eu iria dizer.

    Se me permite, irei repassar o seu artigo, pois achei perfeitas as suas colocações.

    Atenciosamente,

    Laura S. P. Ferrari
    São Paulo, SP.

  5. Olá, amigos. Há muito tempo eu sou um admirador do Yoga e do pensamento oriental como um todo. Porém, fico um pouco frustrado com o preço dos cursos de Yoga e até das aulas de Yoga, o que exclui muitas pessoas dos benefícios proporcionados pela prática de Yoga. Um abraço e até outra vez.

  6. Querido Pedro,

    De fato as escolhas e a forma que seguimos dentro desse vasto caminho do Yoga é que poderá ser fonte de felicidade nos dias de hoje.
    Uma forma legal, bacana, e uma saída interessante e genuína para essa era de tanto egoísmo e, como você colocou tão bem, “A crise de valores é tão grande que a nossa civilização está despedaçando-se…”. Na minha curta experiência (aliás, somente experienciando é que a gente vai descobrindo qual é, o que é, como é, não é, etc). Então eu devo dar uma chance para mim mesma, pois o Yoga é generoso, está aí, não tem pressa e me abraça com carinho, com amor de mãe, incondicionalmente, e a prática que eu encontrar, ao meu ver, tendo essa qualidade, não vai me afundar. Cruzei com professores assim e ainda os tenho. Que benção! Você vai sentir, acredite e escute sua intuição.

    Boas práticas, amigos.

    Harih OM!

    Paula.

  7. Eu sou principiante, li tudo e não encontrei nada para principiantes. Gostaria de fazer o curso com Pedro Kupfer, mas não por livros, e sim pessoalmente. Moro em Arujá, SP.

    Obrigada,
    Matilde.

  8. Grande, Pedro!

    Fantástico o artigo! Só gostaria de acrescentar que o método yogi é tão perfeito, mas tão perfeito, que muitos dos que o buscam inicialmente apenas como uma prática física, acabam por redescobrir sua dimensão espiritual, como foi o meu caso! Assim, penso que muitas vezes a “ocidentalização” excessiva do yoga pode até ter o seu lado bom….
    Hari Om!

  9. Querido Pedro, você se supera a cada artigo, com uma visão clara e objetiva sobre tantos assuntos.

    Me parece que o naufrágio é geral, tanto no ocidente quanto no oriente. Acredito que o que nos resta fazer é procurar irradiar e unir (Yogar, como você mesmo forjou essa ótima palavra) as pequenas ilhas de sanidade espalhadas pelo mundo, criando assim focos de condutas saudáveis e seres felizes.

    Ananda Mangalam!

  10. Quero elogiar esse artigo, pois coloca a preocupação em relação a como o Yoga está sendo praticado no mundo ocidental. Parabéns ao autor.

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