Prāṇāyāma, Pratique

Pandemia, Respiração e Humanidade

Em tempos de pandemia, respirar tem-se tornado paradoxalmente um ato perigoso e nocivo para as outras pessoas e para nós.

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Voltei finalmente ao Atlas do Corpo e da Imaginação. Corpos, fragmentos e imagens (2013) de Gonçalo M. Tavares. Já faz um tempo, desde que comecei a estudar massagem Thai Yoga, que quero pegar nele e aprofundar uns temas. A ocasião chegou agora, em tempos de pandemia, quando estive à procura de inspiração para esse pequeno escrito. 

Nele podemos ler: “a respiração não é apenas um processo fisiológico de um corpo que quer sobreviver, é também um processo ético de um corpo que quer sobreviver, mas de determinada maneira”, um processo, portanto, não meramente fisiológico, nem só psicológico, mas também social (pp. 453-454). 

No livro “A Árvore do Yoga”, B.K.S. Iyengar (1988) recorda que a “a ciência da respiração une o macrocosmo com o microcosmo e vice-versa”, representando a ponte entre o físico e espiritual, onde na dimensão espiritual podemos incluir tudo o que foi falado até agora – o ético, o moral, o psicológico e o social. 

A relação entre respiração e ética surge aqui da inspiração ao Gaston Bachelard, que aliás, cita justamente o pensamento indiano e os seus exercícios respiratórios para se referir ao “valor moral” destes últimos (cit. in ibidem).

Os mesmos exercícios respiratórios que Mircea Eliade diz serem uma espécie de “manipulação do intelecto ou pensamento” (cit. in ibidem). Não quero abandonar o fio da imaginação do Bachelard e nem a importância da vertente social do ato respiratório.

E achei muito encantadora a sua ideia de que a poesia “é uma alegria do sopro […] a felicidade de respirar” (cit. in idem, p. 454).

No “Atlas” do Gonçalo Tavares ainda são citados uns exercícios respiratórios que o Bachelard sugeria para exemplificar como palavra, som, expressão, escuta e respiração estão ligados.

Imaginemos uma respiração completa que chamamos de alternada: neste caso o que alternamos são as palavras vie, vida, e âme, alma. Inspiramos vida e expiramos alma.

Profundamente a largos pulmões inspiramos ar e generosamente entregamos alma para o macrocosmo, o universo. Assim, escreve o autor, não respiraremos “um ar anónimo” (cit. in idem, p. 456). Muito inspirador, para mim. 

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Respiração e pandemia

A respiração é um tema que desperta a minha atenção, intriga-me, e “inspira” a minha prática do Yoga quotidiana.

A respiração ujjāyī, o som da minha respiração durante a prática (que tantas memórias aliás me traz ao relembrar-me o som do meu respiro em épocas de mergulho) é o ato mais consciente e prazeroso que descobri ao conhecer o Yoga.

Muito mais agora, em tempos de pandemia, este tema faz sentido, agora que respirar tem-se tornado paradoxalmente um ato perigoso e nocivo para as outras pessoas e para nós.

Continuamos obviamente a respirar; porém, não o podemos fazer da forma “natural” que é própria deste ato, porque agora temos de fazê-lo escondendo e/ou filtrando o ar que inspiramos e expiramos.  

Respirar é um ato “político”. E curiosamente, enquanto penso no assunto e escrevo, aparece-me a pesquisa de Umut Yildirim.

Umut Yildirim é uma investigadora que propõe utilizar a “respiração” como conceito etnográfico para explorar se e como ações violentas do Estado (neste caso o Estado turco em relação à população curda), como ocupação militar, deslocação de populações em nome de políticas mercantis etc., deixariam espaço vital para respirar, no fundo, para viver.

De resto, como já dizia Michael Foucault na sua “Microfísica do poder” (1977) “o corpo não escapa á história” (p.43)

॥ हरिः ॐ ॥

Texto de autoria de Micol Brazzabeni, professor de Yoga e antropóloga italiana, residente em Lisboa.

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