Mantra, Pratique

Para Compreender a Ciência dos Mantras

Os mantras são “traduções” da inteligência criativa, Īśvara. Nas Upaniṣads, o próprio mantra Oṁ, por exemplo, é considerado uma espécie de símbolo sonoro, de “corpo” em forma de som, de Īśvara, a Criação.

· 5 mins de leitura >

Não se perca no labirinto dos mantras!

Para compreender corretamente os mantras na tradição do Yoga precisamos, naturalmente, do devido contexto.

Há diversos tipos de mantra, dependendo da maneira em que olharmos para eles ou da forma em que os definimos ou classificamos.

Definindo os mantras

Para começar, vamos definir o que é um mantra. Há três definições diferentes, todas corretas. Vejamos elas agora, desde a mais ortodoxa à mais flexível.

1) No contexto da cultura védica, mantras são textos metrificados que aparecem nos quatro Vedas: Ṛg, Sama, Yajur e Athārva. Cada Veda consta por sua vez de quatro partes: Saṁhitās, Brahmāṇas, Āraṇyakas e Upaniṣads.

Essas quatro seções estão vinculadas com as quatro fases da vida: brahmacarya, gṛhasta, vāṇaprastha e saṁnyāsa. Respectivamente: vida dedicada ao estudo, vida em família, vida na floresta e vida de renunciante.

Algumas dessas seções são compostas em prosa e outras em verso. No entanto, todas as quatro seções de cada um dos quatro Vedas  devem ser considerados mantras.

Existem regras exatas de pronúncia e respiração que são usadas no canto védico. Veremos elas mais adiante neste texto. Esta é a primeira definição de mantra.

Alguns exemplos: os mantras védicos mais conhecidos são o Gāyatrī e o Mahamṛtyuñjaya mantra, do Ṛgveda. O Mahamṛtyuñjaya é um mantra de invocação a Śiva, chamado “O Grande Vencedor da Morte”:

Outro muito célebre e largamente usado nos rituais para Śiva é o Rudri Pāṭha:

2) A segunda definição, igualmente ortodoxa, diz que mantras são fórmulas em sânscrito que louvam os inúmeros nomes e formas de Īśvara, e que contém a palavra namaḥ, que significa “reverência” ou “saudação”.

Exemplos: o popular Gaṇeśa Mahamantra, Oṁ Gaṁ Gaṇapataye namaḥ, ou o também muito conhecido pañcākṣara, mantra das cinco sílabas, oriundo do Ṛgveda, Oṁ namaḥ Śivāya.

3) A terceira definição é a mais conhecida e popular: segundo ela, mantras são frases melódicas com significados que apontam para verdades vinculadas com a busca da espiritualidade, como por exemplo a vontade de libertação, mumukṣutvaṁ, o foco na compreensão das realidades da vida, viveka, e outras.

Nessa terceira definição entra tudo o que coloquialmente chamamos mantras, mas que não seriam mantras segundo as duas definições que demos acima: bhajans, stotras, ślokas, dhunis ou kīrtaṇs.

Enquanto nas formas de fazer mantra acima citadas usa-se apenas a voz humana e, eventualmente apenas um som contínuo para marcar o śruti (a nota pedal, para a qual se usa um tampura ou um surpeti), nestas outras formas usamos instrumentos musicais de todo tipo para marcar o ritmo e a harmonia.

Cânticos devocionais em outras línguas afora do sânscrito, como por exemplo o hindi, o tâmil ou o panjabi, entram dento desta categoria. Um exemplo em hindi, cantado por Vikram Hazra:

॥ हरिः ॐ ॥

Como funcionam os mantras?

Os mantras são “traduções” da inteligência criativa, Īśvara. Nas Upaniṣads, o próprio mantra Oṁ, por exemplo, é considerado uma espécie de símbolo sonoro, de “corpo” em forma de som de Īśvara, o criador.

Literalmente, mantra significa “instrumento do pensamento”. Os sons mântricos são o melhor instrumento para purificar a mente e praticar o nididhyāsanam.

Mas cabe lembrar que a repetição de um som não é um fim em si mesmo: ela se faz em função do resultado: estabilidade do pensamento e reflexão sobre a identidade real.

Para compreender os mantras

Se nos observarmos no dia-a-dia iremos reparar que em muitos momentos ficamos sob tensão, com a consciência atenta apenas ao exterior e ainda com um diálogo interior, um ruído constante na mente, como um rádio que não desliga.

Esse ruído de fundo forma a paisagem interior, o substrato das nossas experiências mentais.

Não é possível mudarmos essa paisagem apenas querendo calar a mente no grito: precisamos usar a ferramenta adequada. Os mantras nos ensinam a separar-nos das experiências e influências externas, nos levam para o silêncio e nos abrem o espaço interior.

Eles predispõem a mente para meditar e nos conectam, através da reflexão em seus significados, com nossa verdadeira identidade.

O Yoga utiliza diferentes fórmulas para conduzir a mente a um estado de tranquilidade, o que lhe permite perceber a si mesmo como profunda calma, śāntaḥ. Porém, é preciso igualmente prestar atenção ao significado desses sons.

Esses significados variam, assim como as formas mas todos apontam para a mesma realidade: Brahman, o Ser ilimitado. Cada mantra revela um dos diferentes aspectos de Brahman, nas formas do universo manifestado.

ABC dos mantras

1. Bhajan

Um bhajan é uma canção devocional hindu. O nome bhajan está associado ao bhakti, à devoção popular. Muitos bhajans estão compostos em sânscrito, mas igualmente há bhajans nas muitas línguas vernáculas da Índia.

Exemplos: os poemas de Kabir, Mirabai ou Tulsidas, cantados especialmente em festivais religiosos como o navaratrī, a festividade das nove noites dedicadas a Devī.

2. Bījamantra

Bījamantra é um som “semente”, também chamado matrikā, “mãezinha”, associado aos diferentes aspectos da manifestação de Īśvara, os devatās. Há treze bījas primários, cada um deles associado a um devatā.

Por exemplo, o bīja Aiṁ é associado a Sarasvatī, Duṁ é associado a Durgā, Gaṁ a Gaṇeśa, etc.

Existem ainda, no Yoga tántrico, outros bījamantras que estão associados aos sete principais chakras ao longo da coluna vertebral: Laṁ, Vaṁ, Raṁ, etc.

3. Japa

Japa quer dizer repetição de um mantra, frequentemente usando um mālā ou colar de 108 contas para a recitação de um mantra transmitido no momento da iniciação (dīkṣa) por um guru.

Outra forma de meditação muito popular é a chamada japanamaḥ, na qual se repetem os nomes das manifestações de Īśvara, como Oṁ namaḥ Śivāya, Oṁ namo Narayaṇāya, Oṁ Gaṁ Gaṇapataye namaḥ, e o conhecido mahamantra, entre outros.

4. Kīrtan

Kīrtan ou saṅkīrtan é a repetição de um mantra em grupo, em forma de pergunta e resposta, acompanhado de melodia e instrumentos musicais. Para fazer kīrtan também são usados os japanamas mencionados anteriormente.

5. Vedapāṭhaḥ

O Vedapāṭhaḥ: é um forma recitação dos hinos védicos dentro da tradição oral śrauta, associada ao Śrutiḥ.

Essa recitação se faz de acordo com regras mnemónicas e de pronunciação bem estritas, assim como acompanhado por três variações no tom: udātta, “elevado”, que é o tom mais agudo, anudātta “não elevado”, que é o tom mais grave, e svarīta , “soado”, que é o intermediário.

Há ainda outro som chamado nighada, que é a prolongação da nota elevada. Exemplos, os śāntipāṭhas das Upaniṣads: sahanāvavatu, pūrṇamadaḥ e outros.

6. Śloka

Um śloka é um verso metrificado. Um śloka da Bhagavadgītā ou das Upaniṣads, por exemplo, pode ser repetido à guisa de meditação.

7. Stotra

Um Stotra é um hino de louvor dirigido a um devattā, uma deidade. Exemplos: Gaṅgāstotram, hino à deusa Gaṅgā, devattā do rio sagrado Ganges e o Dakṣinamūrtistotram, em louvor a Dakṣinamūrti.

Uma palavra sobre o mantra japa

Mantra japa é a disciplina meditativa não qual repetimos um mantra.

Essa repetição pode ser feita em voz alta (vaikhārī), na forma de um murmúrio (upamṣu), ou mentalmente (manasa), sendo a segunda mais potente que a primeira, e a terceira mais potente que ambas.

Outra maneira de fazer japa é escrevendo o mantra repetidas vezes (likhīta japa).

O japa tem a virtude de nos dar foco e atentividade. Ao fazermos concentração num devattā, numa deidade, o pensamento flui em direção a ela e, naturalmente, as emoções e pensamentos se acalmam.

Isso, por sua vez, nos permite compreender a nossa real identidade.

Ensina Swāmi Dayānanda: “na prática de japa quebramos a associação livre dos pensamentos. Como o estímulo mântrico é sempre uniforme, fica fácil evitar a dispersão natural que tende a acontecer noutras situações”.

Swāmiji explica aqui que, através da prática de repetição de um mantra, aprendemos a estabelecer o comando sobre o pensamento.

Essa adquisição do comando sobre a mente acontece da seguinte maneira: ao repetirmos um mantra sucessivas vezes, conseguimos estabelecer, de antemão, qual será nosso próximo pensamento.

Desta forma, adquirimos o comando sobre a mente, no sentido de que ela fica mais disciplinada e assim, podemos evitar distrações e conteúdos indesejáveis.

Desta forma, o praticante fica em calma e consegue que a sua própria mente se torne um aliado no processo do crescimento interior.

Eis um lindo vídeo sobre os mantras da professora Gloria Arieira aqui:

॥ हरिः ॐ ॥

Leia mais sobre os mantras aqui
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Pedro nasceu no Uruguai, 54 anos atrás. Conheceu o Yoga na adolescência e pratica desde então. Aprecia o o Yoga mais como uma visão do mundo que inclui um estilo de vida, do que uma simples prática. Escreveu e traduziu 10 livros sobre Yoga, além de editar as revistas Yoga Journal e Cadernos de Yoga e o website www.yoga.pro.br. Para continuar seu aprendizado, visita à Índia regularmente há mais de três décadas.
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7 respostas para “Para Compreender a Ciência dos Mantras”

  1. gostaria de saber a tradução da frase. – om gam ganapataye namaha. desde já Obrigado

  2. Boa Tarde Pedro: Chamo-me Rui sou psicólogo e comecei a praticar Yoga acerca de 3/4 anos após ter ido à Índia e ter ficado fascinado nas margem do rio Ganges em Varanasie por toda “aquela envolvência” onde logo de manhã lá estavam eles a praticar Yoga, muito lindo um ambiente de verdadeira fé, vim enfeitiçado.
    Como o meu professor de Yoga costuma dizer Yoga é antes de tudo “atitude mental” o que é verdade é que a psicologia tal como eu a entendia modificou-se e estou na iminência de tirar um curso de instrutor de Yoga. A prática confirma-nos o “não-dualismo”.
    E procuro trazer o Yoga para o trabalho onde desenvolvo e coordeno um conjunto de actividades com idosos. há dias lembrei-me de trazer para o trabalho um MP3 com mantras gravados e estou surpreendido com as reacções que uma idosa muito deprimida quase sem expressão (parkinson muito depressivo).
    Na verdade a expressão dela modifica-se para além de sorrir fazer comentários neste momento estou a olhar para ela que tem as mãos como se tivesse a rezar (Om Namah Shivaya). A questão aqui é que eu não sei o que provoca o quê e gostava de perguntar se conhecem alguém que faça trabalho terapeutico com Mantras ou este tipo de trabalho faz parte da disciplina de musicoterapia? Obrigado e Abraço a todos!
    Namastê

  3. Hola desde Nicaragua !
    Tienen alguna traducción de este artículo en Español o Inglés ?
    Namaste
    Gabriela

  4. Ainda sobre os bijas mantras, existem aqueles referentes aos chakras e às suas petalas, usados como poderosas ferramentas p/ energizá-los ou desbloquear as nadis.
    São Lam, Vam, Ram, Yam, Ham e Om p/ o Muladhara, swadhistana, manipura, anahatha, vishudha e ajna chakras respectivamente.
    Como somos unos com a consciencia o que reflete dentro tambem reflete fora.
    Então os mantras podem ter finalidades bem práticas como destruir obstáculos na nossa vida diaria (om sri maha ganapataye namah) que é p/ Ganesha.
    Na verdade esse mantra energiza o Muladhara (que tem como animal um elefante de seis patas na sua mandala, e Ganesha é tb elefante lembra?) que nos dá maior senso prático, lógica e pés no chão, mas existem também mantras que mexem com forças desconhecidas que afirmo funcionam.

    1. Olá Luiz,

      Onde posso me informar melhor sobre as funções de cada mantra?

      Desde já agradeço sua atenção ????

  5. Olá, Pedro! Este é um dos seus melhores posts! Gostei particularmente do que você diz sobre o uso do japa. Lembrou-me um sensacional trecho do Vivekachudamani: “O mesmo vento que reúne as núvens, também as dispersa. ” Estou citando de memória e a tradução é minha, então, desculpe a imperfeição! Forte abraço! Salam para todos!

  6. Forma perfeita clara e fiel para compreensão dos mantras! tive o previlégio de estar presente, participando deste estudo, do encontro 23 e 24 no Rio, retorno a Resende, Pedro, certa de ter dado um grande passo em direção ao meu auto conhecimento, devido tb os outros temas abordados e a prática, instruída de forma perfeita.obrigada por momentos de aprofundamento neste sadhana.

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