Pratique, Yoga na Vida

A prática do Yoga: espelho e modelo para a vida

Escrito por Pedro Kupfer · 4 mins de leitura >

A seqüência de posturas praticada em muitas tradições de Hatha Yoga, além de todos os benefícios normalmente citados, pode servir para uma pequena reflexão sobre alguns aspectos universais e pessoais do relacionamento de cada um com sua vida e a vida em si.

1 – Assim, por exemplo, há uma analogia alegórica entre os estágios da vida individual e as fases de uma prática de Ashtanga Vinyasa Yoga. Quando iniciamos a prática em posição sentada, conectando-nos com a energia cósmica e abstraindo-nos de nosso ser individual em estado meditativo, somos um com o espírito absoluto e onipresente. Na Saudação ao Sol (Surya Namaskar) – o nascimento, em nossa analogia -, a energia primordial em forma de prana casa-se com o veículo físico, espalhando-se por todos os membros do corpo, criando espaço e gerando calor, que, em última análise provém do Sol.

Nas fases tradicionais da vida hindu, as posturas em pé que seguem corresponderiam ao período de Brahmacarya (estudo combinado com abstinência). Elas nos fazem crescer, estão nos fortalecendo, nos alinhando e ajudanod a criar resistência. A força do jovem estudante se desenvolve e concentra; prescrições e proscrições éticas (Yamas e Niyamas) alinham sua conduta e ajudam a resistir à tentação e aos desvios de seu caminho. A fase de Grihastha (construir casa e família) pode ser comparada às posturas sentadas. A força desenvolvida é assentada e usada de maneira criativa, unindo ao já conquistado a flexibilidade e a entrega para aceitar as limitações impostas pelo ambiente e, não obstante a isso, seguir no esforço concentrado. As posturas invertidas balançam radicalmente todo este horizonte firme e estabelecido, invertendo todos os pesos e valores, e fazendo-nos olhar para a vida através de um ângulo oposto, o que prepara a próxima fase de vida, a da renúncia (Samnyasa). Esta, então, traz ainda mais entrega, através das posturas deitadas. Finalizamos a prática e a vida em Savasana (a postura do morto), onde toda a atividade física consciente cessa e o círculo se fecha, retornando novamente a um estado meditativo, totalmente conectado à consciência absoluta. O ciclo de toda uma vida está contido simbolicamente em uma prática de yoga de uma hora e meia, eís mais uma aplicação do princípio da frase upanishádica célebre: “yata Brahmande tata pindade” – [Assim] como [é] no universo, assim [também é] no ser.

2 – Ao mesmo tempo, a nossa prática é um espelho de nossa vida, no sentido de refletir nossas atitudes e posturas do cotidiano. Assim como a vida em si, a prática de yoga coloca desafios, confronta-nos com emoções como alegria, medo, raiva, tristeza e frustração. A prática reproduz nossa maneira de identificar, enfrentar e solucionar problemas, com força ou fraqueza, atacando ou evitando a dificuldade, de maneira organizada e sistemática ou como uma brincadeira, com disciplina e aplicação ou dando espaço à preguiça e omissão, alegre ou triste, humilde ou exibido, tímido ou extrovertido, com concentração ou distraidamente, com paciência ou cheio de ansiedade, com tranqüilidade ou angústia, com amor e carinho ou com agressividade, com ambição ou desapego, com auto-confiança ou insegurança, usando ou não todo nosso potencial, em espírito de competição e concorrência ou de ajuda mútua e de solidariedade com os outros praticantes, de maneira consciente com a mente alerta ou iludindo-nos, agindo por nossa vontade própria ou dependendo de estímulo externo, auto-determinado ou manipulado por outros. A lista aqui poderia ser bem mais longa.

Observe-se em sua prática; ela é um laboratório privilegiado onde você pode aprender muito sobre você mesmo. Isso também porque, normalmente, há muito menos interferência de terceiros, cada praticante lida consigo mesmo, dentro do contorno de seu tapetinho. Desta forma, os outros não podem ser culpados pelo fato de que não estejamos atingindo nossas metas. Sua maneira de praticar mostra onde você está em seu desenvolvimento pessoal em todas as áreas. Os desafios pessoais de cada um no plano da prática remetem a características pessoais e traços de personalidade análogos, desde fatores aparentemente físicos como, por exemplo, rigidez, falta ou excesso de flexibilidade ou força, até aspectos mentais e emocionais como ambição, teimosia, orgulho, medo e insegurança ou disciplina, auto-confiança, coragem e alegria. Dores que podem surgir em determinadas áreas do corpo apontam para posturas erradas, não apenas no sentido físico. A maneira como você lida com sua respiração durante a prática reproduz sua maneira de usar sua energia vital em todos os aspectos da vida. Por isso, observe-se; veja se você está respirando profunda ou superficialmente, com calma ou de maneira aflita ou tensa, aquém ou além de seu limite. Como você está percebendo e trabalhando seus limites na prática? – Muito provavelmente encontrará a contrapartida em sua atuação fora do espaço de prática.

3 – A prática, vista neste sentido, naturalmente não serve apenas para nos observarmos e aprendermos mais sobre nós mesmos. Esta brecha no tempo e espaço que criamos sistematicamente em nossa rotina diária para praticar yoga é um espaço único para ensaiar o crescimento pessoal em muitos sentidos. Na mesma medida em que progredimos na prática de asana, pranayama e meditação, estamos crescendo em todos os aspectos da vida. O aumento de nossa força, segurança, tranqüilidade, vitalidade, energia e todos os progressos nos diversos níveis podem ser transferidos da prática para nossa vida em si. O que desenvolvemos e conquistamos na prática está a nossa disposição também nos outros momentos da vida. Na prática, aprendemos a viver intensamente o momento, o que é uma atitude mais difícil de se conquistar em outras atividades da vida normal. Exercitamos nossa concentração e disciplina; unimos o esforço ao desapego; aprendemos a respeitar e, ao mesmo tempo, estender nossos limites.

Passo a passo começamos a sair da prisão da rede de pares de opostos que nos envolve. Acima de todos os demais benefícios, porém, está a eqüanimidade que podemos levar diretamente para outros contextos e a atitude de nos observarmos atentamente, porém, sem nos julgarmos ou criticarmos. Assim percebemos e aceitamos a nossa verdadeira existência. É importante conquistar o equilíbrio de não se entusiasmar nem se abater e afligir por causa de pequenas vitórias ou derrotas no tapetinho. Com isso, alcançamos uma maior paz interna em todas as situações da vida que projetamos também para nosso ambiente. Assim, nossa vida e nossa prática começam a assemelharem-se e a aproximarem-se uma da outra. Finalmente, aos poucos, ao longo do desenvolvimento constante de nossa prática e na medida em que conseguimos aplicar os frutos da prática no cotidiano, nossa vida inteira estará se tornando gradualmente uma grande e contínua prática de yoga, 24 horas por dia, 7 dias por semana, 52 semanas por ano e ano após ano, até o nosso retorno à origem.

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