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A força do karma

Para que possamos entender mais sobre karma, a Saraiva.com.br entrevistou o professor Pedro Kupfer. Em sua opinião, dizemos com freqüência "fulano tem um karma pesado" ou "sicrano pagou seu karma", sem entender ao certo o que é esse tal de karma.

Escrito por entrevista com Pedro Kupfer · 4 mins de leitura >

por Adilson Rielo

Saraiva.com.br – No Yoga, qual é o conceito de karma?

Pedro Kupfer – A palavra karma é de origem sânscrita e deriva da raiz “kr”, que significa fazer, agir, criar. O karma é o resultado das ações, a lei de causa e efeito. A teoria do karma afirma que a ação e a reação configuram dois aspectos da mesma realidade. Entretanto, a noção de karma não tem nada a ver com fatalismo ou determinismo – embora o efeito esteja potencialmente contido na sua causa – muito pelo contrário, é uma realidade que pode ser modificada, uma espécie de destino maleável.

Saraiva.com.br – Na sua opinião, por que no Ocidente temos a idéia de que o karma é uma coisa ruim?

Pedro Kupfer – Aqui no Ocidente pensamos que o karma seja uma espécie de fatalidade, algo ruim que acontece sem motivo aparente. Com freqüência dizemos: fulano tem um karma pesado ou sicrano pagou seu karma, sem entender ao certo o que é esse tal de karma. O conceito de karma no contexto do Yoga de Pátañjali não tem nada a ver com isso. Creio que isto acontece devido à nossa ignorância e a leviandade com que encaramos as tradições orientais, em geral, e o Yoga em particular. Para entender que a lei de causa e efeito não é nem boa nem ruim, é preciso estudar seus mecanismos. O karma não é nem bom nem ruim. Isto pode parecer incompreensível se não for melhor explicado: pense que alguém é condenado a ficar numa cadeira de rodas, sem movimento algum do corpo, a não ser dois dedos de uma das mãos. Sem poder falar nem mexer-se, sem absolutamente nenhuma independência para fazer os mínimos movimentos do cotidiano, você poderia imaginar a vida desta pessoa como uma longa espera pela morte, uma espécie de vegetal consciente e desesperado. Pois então, pense que essa pessoa existe mesmo e que ela deu um jeito de receber o Doutorado em Cosmologia na Universidade de Cambridge, onde ocupa a cadeira de Newton como professor de Matemática! Essa pessoa é Stephen Hawking, autor do best seller ‘Uma Breve História do Tempo’, considerado por muitos como o mais brilhante físico teórico desde Einstein. Talvez, se ele não tivesse que ficar sentado na cadeira de rodas, não teria tido a oportunidade de explorar os limites da astrofísica e da natureza do tempo e do universo. Talvez, Stephen Hawking fosse, sem cadeira de rodas, ao invés de um prêmio Nobel de física, apenas um medíocre jogador de futebol. Então, ficar uma vida inteira num cadeira de rodas é ruim ou é bom? Depende da sua perspectiva…

Saraiva.com.br – Quais são os tipos de karma?

Pedro Kupfer – Segundo o sábio Patañjali, referência obrigatória para todos os yogis, existem três tipos de karma: o karma que já foi criado e está acumulado, chamado prarabdha karma; o karma que está amadurecendo, como uma semente germinando, ou seja, que já foi criado, mas ainda não se manifestou, chamado sañchita karma e o karma que estamos criando neste momento presente, chamado kriyámana karma.

Saraiva.com.br – Para exemplificar os três tipos de karma, você tem o exemplo do arqueiro. Você poderia explicá-lo?

Pedro Kupfer – Na verdade, eu uso esse exemplo, mas ele não é meu; pertence à tradição do Yoga. Estes três tipos de karma se explicam assim: o arqueiro pega uma flecha da aljava, mira em um pássaro e solta a flecha. Imediatamente se arrepende, mas já é tarde e não pode voltar atrás: o pássaro morre. Este é o karma do primeiro tipo que mencionei acima, o que já foi criado e está acumulado, aguardando uma oportunidade para se manifestar. As flechas na aljava do arqueiro são seu reservatório karmico, o segundo tipo de karma: ele pode escolher se irá tirar uma flecha da aljava ou não, e em que direção irá apontá-la. A flecha que ele segura no arco, pronta para ser disparada, é o karma atual, aquele que estamos gerando neste preciso instante.

Saraiva.com.br – É possível, então, mudarmos o nosso karma?

Pedro Kupfer – Claro! Entretanto, talvez esse aspecto da lei de ação e reação seja o mais difícil de entender para nós, porque ainda vemos essa lei como algo fatalista, que exclui o livre arbítrio. Vivekánanda, um mestre de Yoga contemporâneo disse que o karma é a eterna afirmação da liberdade humana… Nossos pensamentos, nossas palavras, nossos atos, são fios de uma rede que tecemos ao redor de nós mesmos. Ou seja, o homem é intrinsecamente livre e responsável pelas suas ações. O Satapatha Brahmana, um dos mais profundos e antigos textos vêdicos, afirma que todos os homens neste mundo nascem moldados por si mesmos. Isto significa que estamos criando a nós mesmos a cada instante e podemos, através de um ato de vontade, nos transformar e transformar consequentemente nosso futuro. Com os karmas que ainda não se manifestaram e os que estamos criando agora podemos exercer o livre arbítrio. Podemos, como diz Pátañjali, evitar a dor que ainda não apareceu. Em relação ao karma que já se colocou em movimento, embora seja inexorável, se podem mitigar seus efeitos através de práticas de meditação e mentalização, ou de tarefas que coloquem o foco da pessoa fora do seu ego, como a ação social ou o trabalho pelo bem comum.

Saraiva.com.br – Quais obras literárias você indicaria para quem está interessado no assunto?

Pedro Kupfer – Acabou de ser editado em português pela Editora Pensamento um livro fundamental para entender o Yoga. Trata-se de A Tradição do Yoga, de Georg Feuerstein, um dos estudiosos que foi mais fundo na compreensão dessa filosofia. Também gosto muito de Yoga, imortalidade e liberdade, de Mircéa Éliade, editado pela Palas Athena, de São Paulo. Os livros de Swami Vivekánanda são muito bons, mas a obra imperdível para quem quiser acabar de entender definitivamente estas questões é a Bhavagad Gítá, em que Vishnu, encarnado como Krishna, ensina o príncipe Arjuna a viver em harmonia com o karma e o dharma – lei humana, tendo como pano de fundo a terrível guerra travada entre duas famílias nobres, primas entre si, os Pándavas e os Kauravas, que simboliza a dialética da vida. Arjuna nega-se a entrar em combate contra pessoas do seu próprio sangue, refugiando-se numa renúncia mal entendida. Entretanto, é convencido por Krishna sobre a inevitabilidade da ação, pois, desde que o homem está vivo, está sujeito à lei do karma, sendo-lhe impossível fugir à ação. Renunciar não significa subtrair-se à vida, isolar-se do mundo e da sociedade. Krishna propõe um Yoga em que ação e contemplação estão intrinsecamente ligadas. O que é necessário fazer é viver a própria vida executando as ações cabíveis a si mesmo, eliminando o apego aos seus resultados. Numa palavra, traz o Yoga para a vida secular, para aqueles que não podem renunciar às suas responsabilidades humanas – swadharma.


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jñānayoga

Jñānayoga em 11 Palavras

entrevista com Pedro Kupfer em Conheça, Vedānta
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