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Afinal, é a vaca louca ou sagrada?

Gandhi disse uma vez que a grandeza de um país pode ser medida pela maneira como trata os animais. Tenho visto os horrores do mundo ocidental, como caça por esporte, rodeios, touradas, vivissecção

Escrito por Pandit Garam · 6 mins de leitura >

Biting the burger makes our brains get smaller.
[“Morder o hambúrger faz nossos cérebros encolher”].

Steve Chandra Savale, aka Chandrasonic.

 

A Índia via satélite

 

É fato que os brasileiros têm um certo fascínio pela Índia, que às vezes mistura ainda curiosidade e asco. Mas estranhei quando, em junho passado, avalanches de pessoas se acercavam com as mais variadas perguntas sobre o país do Taj Mahal. Acreditei que era o poder lisérgico dos incensos vendidos nas ruas de São Paulo, mas logo alguém me alertou que um canal de televisão não muito confiável havia feito uma série de reportagens sobre a Índia.

 

Adivinhem, entretanto, qual era a pergunta mais freqüente? Exato, no Brasil, que é o maior país exportador de carne do mundo, a idéia da vaca sagrada ainda soa como fanatismo. Altamente compreensível.

Gandhi disse uma vez que a grandeza de um país pode ser medida pela maneira como trata os animais. Tenho visto os horrores do mundo ocidental, como caça por esporte, rodeios, touradas, vivissecção, etc. Ou o inverso, ocidentais que tratam os animais de estimação melhor do que tratariam uma criança abandonada, socialites que promovem festinhas de aniversário para suas cadelinhas, hotéis para animais, cachorrinhos que fazem o papel de filhos para seres humanos e por aí vai. Essas pessoas querem banir do planeta os coreanos que comem carne de cachorro, mas não são complacentes com os indianos que não comem carne de vaca. É como disse o ex-vocalista dos Sex Pistols e atual playboy Johnny Rotten: “as vacas são animais muito estúpidos ? merecem virar comida”.

 

 

O católico Pandit

Neste artigo, é chegado o momento em que devo admitir que já comi carne. Conheço seu cheiro e gosto. Venho porém de uma família católica, em que o consumo de carne durante a quaresma não era visto com bons olhos. Quarenta dias por ano, ininterruptos, sem carne! Isso trouxe ao pequeno (e embrionário) Pandit questões pertinentes à sua idade: “Se Deus não quer que a gente coma carne, então não deve ser uma coisa boa mesmo”. Quando criança, nunca havia ouvido falar em penitências que envolvessem a abstenção de frutas, legumes e verduras em detrimento da carne.

Como o protagonista indiano do livro “A vida de Pi”, em alguns anos ampliei o meu clube de deuses. Jeová e Jesus começaram a ter a mesma importância que Buda, Alá e Brahma, sem falar no infalível Ganesha ou no admirável Hanuman. Todos eles, porém, em algum momento, proibiam o consumo de carnes ou simplesmente eram vegetarianos. Decidi antes de virar adulto. Carne nunca mais.

Fui minha própria cobaia, mas virei referência para os que queriam saber sobre o assunto. Afinal, seria possível viver sem carne? Há um certo estrabismo no conceito de que todos os indianos são vegetarianos. Há muitos que o são, obviamente, nem ovos consomem os hindus mais ortodoxos. Mas há outros que comem frango, peixe e carneiro. A diferença é que, na Índia, os restaurantes são vegetarianos em sua maioria, e mesmo as pessoas que comem carne não o fazem todos os dias, como no Brasil.

 

De onde vem o conceito de vaca sagrada?

E o objetivo deste artigo não era obviamente trazer dados estatísticos sobre:

 

a) os malefícios do consumo de carne;

b) os benefícios em ser vegetariano;

c) doenças coronárias;

d) prisão de ventre;

e) colesterol ruim;

f) devastação de florestas para dar lugar a pastos (e a plantações de soja, também);

g) destruição da camada de ozônio por vacas flatulentas;

h) crueldade com os animais de corte;

i) crueldade com os filhotes dos animais de corte;

j) longevidade;

k) consciência tranqüila.

 

Só queria falar sobre o conceito de vaca sagrada. Vamos a ele.

 

O Dictionary of beliefs and religions, da Wordsworth, traz a seguinte explicação: “A vaca é um animal sagrado no hinduísmo, tratada com reverência e nunca é levada ao abate. O respeito pela vaca pode ser visto como uma expressão do ideal de não violência (ahimsa) e reverência pela ‘mãe’, representando (a vaca) ambos: o ideal e a Deusa Mãe. Os cinco produtos da vaca ? leite, manteiga, esterco, coalho (iogurte, coalhada) e urina são vistos como purificadores (…). Estes produtos têm também um aspecto prático: leite, manteiga e iogurte formam uma parte importante da dieta dos hindus, enquanto a urina é usada como agente de limpeza e o esterco (seco) é usado como combustível (para o fogo)”.

Ou seja, a vaca não é tratada como um deus, mas com reverência. São úteis na sociedade e eu mesmo as via sempre reciclando todo o tipo de restos de lixo, além de fornecerem mais alimento vivas (leite e derivados) do que mortas. É ainda um elogio para uma indiana ouvir que ela tem a mesma expressão facial de uma vaca, acreditem.

 

Tenho uma teoria (talvez, muito particular) sobre a vaca sagrada. A Índia sempre foi um país de miseráveis (talvez, não o tenha sido em sua gênese) e famintos. É provável que um rico proprietário de vacas, há muitos anos, temeroso por seu rebanho, resolveu contratar um guru para dizer aos habitantes das cercanias que a vaca era sagrada e não deveria ser comida. Assim, ele garantiria a intocabilidade dos seus animais. Sempre precisamos de deuses, a história se espalhou pelo subcontinente e… estava feito!

 

 

Hindus que comem vaca ? a contrapartida

No sul da Índia este conceito de vaca sagrada nem é tão levado à sério. Um amigo, do partido comunista de Kerala, confessou-me que comia vaca. Perplexo, perguntei-lhe como era isso, sendo ele hindu, ao que me respondeu que mais importante do que ser hindu era ser comunista, e comunistas não tem restrições alimentares (esse rapaz certamente nunca esteve em Cuba).

Gandhi comeu carne na adolescência. Haviam lhe dito que era a carne de vaca que trazia a força aos ingleses, e por isso eram mais altos e dominadores que os indianos. Um amigo íntimo, mais forte, incutiu-lhe estas idéias. Teve muitos pesadelos e, obviamente, comia carne escondido dos pais. Tudo isso deve ter lhe causado muito sofrimento. A idéia de ficar “mais forte” às custas da vaca não era pra ele algo aceitável. Devido a esta experiência, que não durou muito, converteu-se num dos mais fervorosos defensores do vegetarianismo, mesmo no início da juventude, e propagou o conceito de não violência pelo mundo todo.

 

 

Vaca louca

Há alguns anos ouvimos falar do mal da vaca louca. O homem, na sua ânsia de produzir mais, resolveu dar ração de carne a um animal herbívoro por natureza. Consumidores da carne morreram em questão de dias, e ainda há um mês foi detectado um caso nos Estados Unidos. Na minha modesta vivência como defensor do vegetarianismo, tendo visto os horrores aos quais os seres humanos submetem os animais, pergunto-me todos os dias: quem é mais louco, esta vaca ou o homem?

Ser vegetariano, porém, não é uma opção intelectual. Se você, por questões religiosas ou de saúde, for proibido de comer carne, não terá muito o que argumentar. Mas se tem total liberdade de escolha, não tente embarcar no vegetarianismo de uma maneira puramente mental. Ser vegetariano envolve outros conceitos, como a compaixão, a abstinência, o cuidado com outros seres e com o planeta. Mesmo Hitler foi vegetariano, mais por uma patologia psíquica sobre limpeza ? que se aplicava a quase tudo em sua vida ? do que pelos ideais de não violência, obviamente. Tentar se convencer de que comer carne faz mal à saúde também não é um bom argumento. Todo mundo sabe que fumar faz mal, não é mesmo? E ainda assim…

 

O budismo é vegetariano em sua essência, assim como os textos de yoga. Acercar-se destes universos pode ser um bom começo para quem quer deixar de comer carne. Repressão e culpa devem ser deixados de lado. E daí, num belo dia ao acordar, você descobre que sempre foi vegetariano. Sua mãe é que não sabia e lhe dava carne (!).

 

Orientais selvagens

 

Pude assistir recentemente a uma cópia restaurada do documentário “Corações e Mentes” (1974) do norte-americano Peter Davis, que retrata o imperialismo norte-americano na Guerra do Vietnã. Num dado momento um chefe de exército ou figurão do governo de Nixon (não me lembro bem) expõe calmamente ? ao mesmo tempo em que imagens mostram os norte-americanos bombardeando, torturando e matando os iraquianos, quero dizer, vietnamitas ? que os orientais são selvagens e que têm pouco apreço pela vida. Pobres selvagens orientais!

 

Se nos lembrarmos de que há bem pouco tempo atrás o Brasil (ou os EUA) era uma colônia que considerava negros e índios como seres inferiores e sem alma ? passíveis de espancamento e mortes como os animais ? e que hoje a sociedade ainda luta para uma integração mais justa de todos, pode ser que no futuro as vacas não sejam vistas só como alimento. Mais do que qualquer power yoga da moda, vejo este sim como um legado que a Índia gostaria de deixar ao ocidente. Amém.

 

Pandit Garam é formado em Letras e pós-graduado em Yoga. Atualmente estuda sânscrito na USP, mas matriculou-se com outro nome, para não levantar suspeitas. Nunca publicou nada na vida, nãoa tem filhos, mas plantou algumas árvores. Já quis banir o consumo de carne do planeta, hoje, porém, contenta-se em organizar festinhas vegetarianas. Não perde um gulab jamun por nada deste mundo. Tentou ser budista, mas é sempre Ganesha quem lhe quebra uns galhos. Continua intrigado com o incômodo vaso sanitário ocidental (raro na Índia), mas um dia ainda chega lá. Seu site: www.yogamitra.kit.net. Este artigo foi originalmente postado em agosto de 2005 no site http://www.germinaliteratura.com.br/india_agosto05.htm. Reproduzido com autorização do autor.

2 respostas para “Afinal, é a vaca louca ou sagrada?”

  1. Esse assunto é urgente! O planeta precisa evoluir. Logo não haverá mais tempo. Os sites devem ser mais breves e simples.

  2. Fala, Pandit! Muito legal o seu artigo! Quem sabe as vacas não se tornem a bandeira para a defesa de outros animais? Hoje, até estátuas de vacas já existem espalhadas pela cidade de São Paulo. Hehehehe… Um forte abraço. Paz e luz à todos! Namastê!

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