Para todos nós, praticantes e professores de Yoga, a questão do título é importante. Precisamos saber como lidar com emoções e experiências indesejáveis da melhor maneira possível, pois cedo ou tarde irão surgir, tanto dentro da nossa própria experiência como praticantes, quanto no papel que desempenhamos como instrutores/facilitadores de Yoga.
Para começar: práticas como Yoga, mindfulness ou meditação são frequentemente associadas a paz, equilíbrio e bem-estar. Mas há nessas disciplinas um lado pouco discutido: muitas pessoas atravessam fases de ansiedade, tristeza intensa, irritabilidade, sensação de vazio ou até medo durante essas práticas.
Se o facilitador(a) de Yoga não estiver bem preparado(a) para lidar com estas questões, a experiência dos alunos e alunas pode ser bastante traumática e deixar sequelas. E, quando a pessoa não tem recursos pessoais para lidar com essas experiências, elas podem ser também frustrantes.
Ter esse tipo de experiência indesejável não significa que as pessoas estejam fazendo a prática errada. Significa que estão acessando de maneira inconsciente, camadas profundas da própria psiquê. É necessário falarmos sobre isso de maneira honesta e sincera, começando com uma pergunta fundamental:
1. Por que experiências negativas acontecem?
Quando reduzimos os estímulos externos e ficamos em silêncio, sozinhos com os nossos pensamentos, algo pode acontecer: conteúdos guardados no subconsciente começam a emergir na mente diurna. Desta forma, durante as práticas de relaxamento profundo, mantras ou meditação, podem ter lugar algumas coisas (e é bom que você saiba disso quando for dar aulas):
- Emoções, lembranças e experiências antigas, reprimidas ou esquecidas, às vezes vêm à tona sem que a pessoa seja muito consciente delas.
- Memórias dolorosas sobre as quais não pensamos habitualmente, que permanecem soterradas, podem ressurgir com força.
- Sensações físicas desconfortáveis podem manifestar-se na forma de ansiedade, tristeza ou até ataques de pânico.
- Podemos perceber uma sensação de perda de identidade ou de controle.
A mente, que em situações habituais, permanece ocupada a olhar para o exterior, passa a revelar o que estava guardado ou reprimido no interior. Isso é especialmente frequente quando a prática se aprofunda, ou se torna mais consistente.
2. Tipos comuns de experiências emocionalmente desafiantes
Algumas experiências relatadas incluem:
- Ansiedade aumentada
- Sensação de despersonalização
- Tristeza intensa sem motivo claro
- Irritação e impaciência
- Sensação de vazio existencial
- Medo súbito
- Vontade de sair correndo da sala de práticas
No contexto do Yoga clássico, especialmente no Yogasūtra de Patañjali, esses estados podem ser entendidos como manifestações dos kleśas, formas de aflição como apego, aversão e medo que se tornam visíveis quando a mente começa a se aquietar. Noutras palavras: o problema não é criado pela prática, mas é revelado por ela.
3. O erro mais comum
O maior erro é forçar na prática. Muitas pessoas acreditam que precisam meditar por mais tempo, respirar mais intensamente ou insistir até “superar” as experiências negativas. Essa não é a melhor atitude, pois pode piorar o quadro, especialmente se houver um histórico de trauma, ansiedade ou tendência a exercer demasiado autocontrole na pessoa. Disciplina é importante, mas rigidez é contraproducente. Sempre foi.
4. Como superar essas experiências de forma saudável
Eis aqui algumas soluções que realmente funcionam:
A. Ajustar a intensidade das práticas
Reduza o tempo de prática. Troque meditações profundas por práticas mais focadas no corpo (posturas, caminhada consciente, respiração suave, prāṇāyāmas e mantras). Lembre que nem todas as fases ou momentos da vida pedem uma experiência radical ou um mergulho profundo na meditação.
B. Desenvolver estabilidade antes de profundidade
Antes de buscar “transcendência”, construa:
- Rotina regular
- Sono adequado
- Exercício físico
- Conexão social
Espiritualidade sem base emocional sólida pode amplificar instabilidade.
C. Trabalhar com um professor qualificado
Um instrutor experiente ajuda a interpretar experiências e evitar exageros. Prática isolada, guiada apenas por vídeos ou leituras, aumenta o risco de interpretações equivocadas.
D. Diferenciar o desconforto da desregulação
Existe um desconforto natural do crescimento. Mas há sinais de alerta:
- Ataques de pânico frequentes
- Dissociação intensa
- Pensamentos autodestrutivos
- Insônia persistente
Nesses casos, interromper a prática intensa e procurar apoio psicológico é sinal de bom-senso e maturidade emocional, nunca de fracasso.
E. Aprender a observar sem identificar-se
Parte da prática é perceber que emoções são fenômenos transitórios. Em vez de identificar-se com conteúdos como “estou ansioso” ou pior ainda, “sou ansioso”, experimente focar na apreciação objetiva da experiência, reconhecendo o espaço que existe entre essa emoção e a pessoa fundamental que é você, dizendo por exemplo “a ansiedade está manifestando-se agora.” Essa mudança de perspectiva pode parecer pequena, mas altera a relação que temos com esse tipo de experiência.
5. Uma verdade importante
Cabe lembrar, meninas, que o Yoga e a meditação não são anestésicos emocionais, mas ferramentas para cultivar a clareza, a equanimidade e a presença no agora. E essa clareza, às vezes, dói. Se você estiver atravessando uma fase difícil na prática, isso não significa que seja um fracasso, nem que o Yoga não seja para você.
Pode querer dizer apenas que você está acessando camadas subconscientes que antes estavam escondidas, esquecidas ou reprimidas embaixo das distrações cotidianas. Lembremos que o progresso no Yoga não é medido pela intensidade das experiências, e sim pela estabilidade, a lucidez e a compaixão que você desenvolve na vida diária.
Pedro nasceu no Uruguai, 60 anos atrás. Conheceu o Yoga na adolescência e pratica desde então. Aprecia o o Yoga mais como uma visão do mundo que inclui um estilo de vida, do que uma simples prática. Escreveu e traduziu 10 livros sobre Yoga, além de editar as revistas Yoga Journal e Cadernos de Yoga e o site yoga.pro.br. Para continuar seu aprendizado, visita à Índia regularmente há mais de três décadas.
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