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Dharma: quem precisa dele?

Este texto foi preparado para a palestra sobre dharma ministrada por Pedro Kupfer no II Yoga Sangam, conferência internacional de Yoga que aconteceu em Florianópolis, em maio de 2001. O nosso caro leitor/internauta saberá perdoar o estilo coloquial do artigo.

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Geralmente pensamos que dharma seja algum tipo de código moral, um grupo de mandamentos ou proibições que nos obriga a andar na linha e que somente lembramos ou invocamos quando nos convém.

Nas últimas décadas, a nossa civilização parece haver perdido sua bússola ética. Nossos líderes políticos ou espirituais pairam no vazio moral, preocupados apenas com as estatísticas, a roubalheira desenfreada e a corrupção em todas suas manifestações.

O poeta irlandês W. B Yeats (1865-1939) falou dos nossos líderes nestes termos:

Os melhores não possuem convicção nenhuma;
Os piores estão cheios de intensidade passional.
Essa crise de valores se estende ao resto da população mundial, que acaba se espelhando nas lideranças. Para você só precisa abrir o jornal de hoje para ver a escalada de desfaçatez e corrupção que rolam soltas. A incoerência entre palavras e ações pode ser vista em qualquer lugar. Lembre que estamos na kali yuga.

É bom lembrar que as nossas ações forjam o nosso caráter e que tudo o que fizermos determinará os nossos karmas futuros.

A palavra virtude vem do latim, virtues, que deriva da mesma raiz que a palavra viril. Então, a pessoa viril, o homem de verdade, não é o que sai dando porrada nos demais. Etimologicamente, a palavra virtuoso designa a pessoa forte, poderosa, independente. Resumindo, as virtudes são qualidades do caráter que nos ajudam a ter uma vida feliz e vigorosa.

Qualquer outra leitura deste termo, como considerar alguém fraco por ser bom ou virtuoso, e uma degradação do conceito de virtude e um sinal da perversão de valores que se consideram desejáveis, que estamos vivendo nos dias de hoje. Isso tudo acontece por conta de avidyá, a ignorância.

O remédio prescrito por Patañjali para curar essa doença que é a ignorância e vairagya, o desapego. Porém, cultivar o desapego pode parecer fora de moda neste presente que estamos vivendo, onde aprendemos que morreremos se não mantivermos tudo aquilo pelo qual nos ensinaram a lutar.

E assim, ficamos vivendo nossas vidas inteiras dentro desta equação:
Ignorância ==> senso de permanência das coisas ==> apego

A jornada em direção à iluminação não pode se fazer carregando correntes. Precisamos nos libertar de alguns condicionamentos antes de chegar em algum lugar.

Vamos então entrar no assunto que nos ocupa. Em sânscrito, dharma significa ‘suporte’, ‘aquilo que mantém unido’, ‘aquilo que aglutina’.

Se existe uma coisa que apoia, que mantém unidas as pessoas, isso é o dharma. O dharma é algo muito prático. É a lei inerente à natureza de todos os fenômenos existentes. Não é apenas um conjunto de crenças separadas da vida diária, senão um conjunto de princípios para viver uma vida harmoniosa e benéfica.

O título original da palestra era ‘dharma, quem precisa dele?’ Entretanto, ele não coube no espaço que tínhamos reservado no folheto da programação. Ficou só ‘dharma‘. Então, voltamos à pergunta inicial: quem precisa do dharma?

Do ponto de vista da filosofia hindu, tudo o que podemos querer fazer nesta vida ficará necessariamente dentro de um dos quatro purusharthas, os propósitos humanos ou as aspirações legítimas sancionadas pelo hinduísmo:

1. artha (prosperidade)
2. kāma (prazer)
3. dharma (virtude)
4. mokṣa (libertação ou iluminação)

O dharma é a lei universal. Noutro sentido, é a virtude, concebida como um dos objetivos acima citados. É compreendida como manifestação ou reflexo da lei divina.

Enquanto as palavras Yoga e religião significam unir, dharma significa manter unido. O dharma é o que mantém o homem alinado com a sua lei interior, que o conduz da ignorância à verdade.

Embora a leitura das escrituras não conduza por si só à iluminação, os ensinamentos nelas contidos provêm uma base e um caminho para viver a espiritualidade.

Apesar de ser a mais antiga religião, a verdade vislumbrada pelos ṛṣis, os antigos sábios védicos, provam que a Verdade presente no hinduísmo está além do tempo e das barreiras culturais.

Nesta altura do campeonato, você pode estar perguntando-se o que é o hinduísmo. A melhor definição que encontramos foi a que B.G. Tilak sugeriu:

” A aceitação dos Vedas com reverência; o reconhecimento do fato que os meios ou caminhos para a salvação são diversos; e a tomada de consciência de que o número de deuses a se adorar é grande, são as características que distinguem a religião hindu.”

O hinduísmo se chama Sanatana Dharma em sânscrito, a verdade eterna. O hinduísmo não é estritamente uma religião. Está baseado na prática do dharma, o código da vida. Como o hinduísmo não tem um fundador, qualquer pessoa que pratique o dharma pode se considerar um hindu, mesmo que questione a autoridade de alguma escritura, ou até mesmo a existência do Divino.

Pedro nasceu no Uruguai, 56 anos atrás. Conheceu o Yoga na adolescência e pratica desde então. Aprecia o o Yoga mais como uma visão do mundo que inclui um estilo de vida, do que uma simples prática. Escreveu e traduziu 10 livros sobre Yoga, além de editar as revistas Yoga Journal e Cadernos de Yoga e o site yoga.pro.br. Para continuar seu aprendizado, visita à Índia regularmente há mais de três décadas.
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A Limitação dos Mantras

Pedro Kupfer em Mantra, Pratique
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Uma resposta para “Dharma: quem precisa dele?”

  1. Seu artigo foi muito esclarecedor. Depois de um ano vivendo a força de Vishnu, iniciei a prática de Yoga nesta semana. Entender melhor o que é Dharma foi enriquecedor neste momento da minha vida. Namastê.

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