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Karma e aflição

Assim como o arroz sem descascar e sem preparar pode germinar mas não consegue faze-lo quando é descascado e torrado, da mesma forma o karmāśaya, quando baseado nos kleas, é capaz de produzir conseqüências, mas não produz nenhum efeito quando esses kleas são removidos através da adquisição do conhecimento verdadeiro.

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Sati mūle tadvipāko jātyāyurbhogāḥ || 13 ||

Enquanto a raiz da aflição estiver presente, ela
produz nascimentos sucessivos, duração e experiência.

Este é o décimo terceiro aforismo de Patañjali, que fala sobre a persistência do sofrimento. Vejamos o comentário de Vyāsa sobre este sūtra:

O karmāśaya, reservatório dos karmas, começa a frutificar quando as raízes dos kleas [os pensamentos aflitivos] estão presentes. Entretanto, ele não frutifica quando essas raízes são desenterradas.

Assim como o arroz sem descascar e sem preparar pode germinar mas não consegue faze-lo quando é descascado e torrado, da mesma forma o karmāśaya, quando baseado nos kleas, é capaz de produzir conseqüências, mas não produz nenhum efeito quando esses kleas são removidos através da adquisição do conhecimento verdadeiro.

As conseqüências do karmāśaya são de três tipos: nascimentos futuros, duração das existências e experiências de dor ou prazer. A este respeito deve considerar-se: 1) se uma ação é responsável por um nascimento ou ela provoca múltiplos nascimentos. E ainda, 2) se muitas ações dão lugar a muitos nascimentos ou apenas a um só.

Uma simples ação nunca pode ser a causa de um nascimento, pois, nesse caso, não havendo regularidade na sucessão de fruições das ações presentes e de inúmeras ações acumuladas no karmāśaya desde o início —algumas das quais permanecerão latentes — as pessoas perderiam a fé nas ações. Esta postura é insustentável.

Uma simples ação não pode provocar múltiplos nascimentos, pois nesse caso, se uma dentre as muitas ações provocasse múltiplas existências, então as ações restantes não teriam tempo de dar seus próprios frutos. Este ponto de vista, portanto, também é insustentável.

Muitas ações não podem ser responsáveis por muitos nascimentos, porque múltiplos nascimentos não podem acontecer simultaneamente. E se se afirmar que eles acontecem gradualmente, a mesma dificuldade surge. Por estas razões, o acúmulo das diversas latências das ações, sejam elas dignas de mérito ou demérito, sejam feitas entre o nascimento e a morte, em estado dominante ou subordinado, é posto em ação através da morte e acumulado em um esforço que simultaneamente produz a morte e causa um único nascimento futuro.

Esse nascimento, por sua vez, cria a extensão de uma vida a partir do karmāśaya acumulado e durante essa expansão as experiências se sentem como resultado desse karmāśaya.

Sendo o karmāśaya a causa do nascimento, da duração da existência e das experiências afetivas, ele é chamado trivipka ou que possui ‘três conseqüências’. Pela mesma razão, o karmāśaya foi chamado ekabhavika, ou ‘reunido em uma só vida’.

Quando o karmāśaya se torna ativo na existência presente e é responsável unicamente pela experiência afetiva se diz que ele é de ‘conseqüência simples’. Quando ele é responsável pela duração de existência e pelas experiências dessa existência, ele é chamado de ‘dupla conseqüência’ — como no caso de Nandīśvara e Nahuśa (de dupla e de simples conseqüência respectivamente).

A mente que se nutre desde tempos imemoriais nas latências dos kleas e nas ações é como uma pintura intrincada ou como uma rede de pesca cheia de nós. É por isso que as vsans derivam de muitos nascimentos prévios, enquanto que o karmāśaya deriva somente de um nascimento ou de uma vida. Estas impressões latentes subconscientes, que dão lugar à memória, são conhecidas coma vsans e não têm início.

O karmāśaya, que é a ação acumulada de uma vida apenas, pode ter dois tipos de realização: certa e incerta. A regra que diz que ele é ativo em apenas uma vida é totalmente aplicável ao karmāśaya de realização certa, enquanto que o de realização incerta, que pode dar frutos em alguma vida futura, pode não restringir-se a ser ativo em uma vida só.

Isto é porque para ser operativo em uma vida futura, o karmāśaya de realização incerta tem três tipos de resultado: em primeiro lugar, o karmāśaya que não frutificou pode destruir-se através da expiação antes de ficar ativo.

Em segundo lugar, ele pode misturar-se com o karmāśaya dominante como um elemento subordinado. Em terceiro lugar, ele pode ser eclipsado pelo karmāśaya dominante e ficar em estado latente por longo tempo. Destes, o primeiro é ilustrado pela extinção nesta vida de feitos ruins através de realização de atos pios.

A este respeito foi dito:

“Saiba que a ação pode ser de dois tipos, dos quais uma série de feitos corretos anula uma série de ações errôneas. Conseqüentemente, tome a decisão de fazer a coisa certa. Essas ações meritórias devem fazer-se nesta vida, como disseram os sábios”.

Foi dito que a morte é a causa geral da manifestação do karmāśaya ilimitado que se manifesta na vida futura. Mas essa regra nem sempre é aplicável, pois a morte nem sempre é a causa da manifestação completa do karmāśaya limitado que manifesta na vida futura.

Os karmas que se manifestam em vidas futuras e que ainda não estão maduros o suficiente como para produzir frutos podem ser destruídos. Ou eles podem misturar-se ou ficar ofuscados e não amadurecer por longos períodos, até que ações favoráveis à sua manifestação os façam manifestar-se.

Desde que o tempo, o lugar e a causa de tal manifestação não podem ser determinados, a direção do karma é considerada incerta e imperceptível. Porém, em tal caso, sendo esta uma exceção, a regra geral não é quebrada. Conseqüentemente, foi dito que o karmāśaya é unigenital, ou que produz apenas um nascimento.


Tradução por Pedro Kupfer do Yoga Sūtra Bhāśya, comentário de Vyāsadeva sobre os Sūtras de Patañjali.

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