Começando, Pratique

Preferindo a Funcionalidade, Abdicando da Forma: o Mito do Estilo em Yoga

Um homem sábio disse, 'Não há resposta certa para uma pergunta errada.' Estas palavras ecoam sempre que alguém pergunta qual estilo de Yoga eu ensino

Escrito por Robert Birnberg · 4 mins de leitura >

Definindo o Yoga

Um homem sábio disse, ‘Não há resposta certa para uma pergunta errada.’ Estas palavras ecoam sempre que alguém pergunta qual estilo de Yoga eu ensino. Normalmente, explico, ‘Estilo é uma forma ou modo reconhecível, fixo, enquanto Yoga é uma arte de cura fluída, adaptativa…’ Quem pergunta, esperando uma resposta de uma palavra, assim como ‘kund-ashtang-usara’, fica com o olhar fixo, vidrado e começa a se mover nervosamente. Sob o risco de criar um exército de leitores nervosos e vidrados, continuarei.

Yoga é um sistema holístico de auto-cura, uma das seis filosofias formais (darsanas) extraídas do antigo Vedas Indiano. Esta psicologia espiritual elegante oferece discernimento profundo e numerosas estratégias para reduzir o desconforto (duhkha) que acompanha a vida diária.

O texto fundamental do Yoga, o Yoga Sutras de Patanjali, sustenta que o sofrimento é universal, criado pelo apego da mente a padrões fixos, hábitos e crenças, percepção errada da natureza das coisas e, no fim das contas, confundindo a forma mutável da realidade (apesar de sólida) com sua essência imutável. No Sutras não há menção a ‘estilos’ de Yoga. Ao contrário, o Sutra III:6 usa a palavra ‘viniyoga’ ou ‘aplicação especial’ para descrever a necessidade de modificação e adaptação individual.

A Origem do Estilo

Historicamente, a noção de ‘estilos’ é uma invenção muito recente. Os conceitos mais próximos disso eram, tradicionalmente, quatro abordagens comuns do Yoga: Siksana, Raksana, Cikitsa, e Adhyatmika.

Siksana era Yoga para crianças saudáveis e adultos jovens. Normalmente ensinada em grupos, esta abordagem enfatiza asanas atléticos e vigorosos para fortalecer o corpo físico e aumentar a força. Para melhorar a capacidade de concentração, Siksana emprega seqüências fixas e/ou formas clássicas minuciosas. T.Krishnamacharya, o grande Mestre de Yoga, introduziu esta abordagem amplamente baseada em asanas aos jovens BKS Iyengar e K. Pattabhi Jois. Siksana Yoga, apesar de limitada em profundidade, escopo e sutileza, é totalmente apropriada para a mente simples e para o corpo ainda em desenvolvimento de uma pessoa jovem.

Raksana Yoga é para adultos saudáveis. Apresentada em um contexto de uma relação dedicada entre aluno e professor, esta abordagem é melhor ensinada um a um. Raksana é uma Yoga mais interativa, holística, que respeita a idade do estudante, saúde, ocupação, necessidades, objetivos, habilidades e fraquezas. A prática prescritiva altamente individualizada emprega a totalidade de ferramentas do Yoga, incluindo asana, pranayama, som, gestos, visualização, reflexão, meditação, ritual, aconselhamento, etc, todos integrados no regimento diário do estudante. Para ter efeito, a prática é continuamente adaptada para acomodar as mudanças da vida e refletir o progresso que está ajudando a criar. Ao contrário de perfeição na postura, o Raksana mais elaborado é direcionado a melhorar os relacionamentos dos estudantes adultos e sua qualidade de vida. Como a maioria dos praticantes de Yoga estão nessa saudável categoria entre 20 e 60 anos de idade, Raksana é o ‘estilo’ apropriado para a maioria dos estudantes modernos.

Cikitsa é Yoga Terapia. Baseada em um modelo multidimensional, como os 5 Mayas ou 7 Chakras, Cikitsa usa as interconexões entre corpo, respiração, mente, personalidade e emoções para promover saúde física e mental. Cikitsa Yoga integra asanas muito modificados com pranayama, visualização, som, ritual e oração; assim como dieta, ervas, massagens e muitas outras ferramentas comumente vistas como o Ayurveda. O objetivo de Ciktsa é tratar problemas de saúde específicos, promovendo o aumento da confiança do aluno (sraddha) e sua completa vitalidade.

Adhyatmika é para estudantes que desejam a experiência da verdade superior ou o significado da vida. Amplamente ensinado a idosos, renunciantes e outras pessoas livres das responsabilidades diárias, esta abordagem é profundamente contemplativa e enfatiza o estudo, a reflexão, a medição, a prece e o ritual para alcançar a paz interior e a auto-realização.

Identificando as Diferenças

Embora estas abordagens tradicionais possam ser chamadas de ‘estilos’ elas são fundamentalmente diferentes dos ‘estilos’ praticados atualmente. As abordagens clássicas eram funcionais e fluídas, mudando de forma conforme a necessidade, para alcançar um objetivo específico, simultaneamente demonstrando profundo respeito para as necessidades do indivíduo. ‘Estilos’ modernos, definidos pelas aparências, oferecem métodos padronizados (salas aquecidas, seqüências preestabelecidas ou uma confiança em apoios ou jargão técnico) e requerem que todos os estudantes se adaptem ao ‘estilo’ para alcançar seus benefícios.

Purificar o entendimento moderno do Yoga nesta área parece ser uma tarefa difícil. Enquanto o Yoga se torna mais comercial, um ‘estilo’ identificável eqüivale a uma marca protegida por direitos autorais. Visibilidade fácil é uma vantagem inquestionável em um mercado transbordando de novatos desinformados procurando por respostas fáceis e um rápido conserto. Tão atraentes são os estilos marcas registradas que ‘viniyoga’, a palavra que T.K.V. Desikachar usou uma vez para explicar o princípio Yogue de aplicação apropriada, foi entendido como outro estilo de Yoga.

Mas a troca para um entendimento do Yoga mais rico e mais fluído é necessária e inevitável. Praticantes de todos os lugares estão descobrindo que os ‘estilos fixos’ de Yoga podem fornecer alívio e/ou ajuda em curto prazo, mas podem, no final, aprofundar a tendência em direção a degradação física, (como milhares de estudantes relataram lesões relacionadas ao Yoga, professores experientes necessitando de cirurgia nos joelhos e substituição da articulação coxofemoral), ao pensamento dogmático e faccional e a rigidez emocional. A ligação emocional a ‘estilos’ ironicamente, aumenta o sofrimento (duhkha) que o Yoga foi designado a reduzir.

Como Mudar

O primeiro passo para conhecer uma prática gentil e mais individualizada de Yoga é esvaziar nossos copos de pré-conceitos centrados em estilos. Não é uma tarefa fácil para professores ou alunos que acreditam que já conhecem o que o Yoga é, e estão emocionalmente envolvidos (asmita), e/ou financeiramente dependentes de seus conhecimentos. Mais uma vez, abandonar a falsa percepção, tornando-se receptivo ao aprendizado, ao contrário de perfeitamente equilibrado sobre os braços, é o desafio real do Yoga. A seguir, precisamos estabelecer uma relação com um professor livre de estilo, preferencialmente alguém que seja um estudante de tal professor (como TKV Desikachar e seus estudantes que vêm a mente). Há muito que podemos aprender com um professor que está profundamente conectado ao Yoga Sutra, imerso em princípios universais do Yoga e em seu completo conjunto de ferramentas, estratégias e adaptações. Com estudo devotado e prática zelosa começaremos a ver mais claramente e a perceber o que muda e o que permanece o mesmo. Para tanto, é somente através do discernimento entre a essência imutável e a forma sempre mutável, que o Yoga e seus praticantes podem ser o que eles são, livres para realizar seus maiores potenciais.

Traduzido pelo yogi Rogério Maniezi, de Favoring Function, Forgoing Form: the Myth of Style in Yoga, de Robert Birnberg, 16 de maio de 2007, acessível no endereço: http://www.khyf.net/, seção Articles.

Desiderata

Desiderata

Robert Birnberg em Pratique, Yoga na Vida
  ·   20 segundos de leitura

Āsanas para fortalecer a lombar

Robert Birnberg em Āsana, Pratique
  ·   8 mins de leitura

5 respostas para “Preferindo a Funcionalidade, Abdicando da Forma: o Mito do Estilo em Yoga”

  1. Ótimo artigo. Não sabia que os estilos eram atuais. Interessante saber que devemos nos desapegar até deles. Vivendo e aprendendo

  2. Muito bacana esse artigo!

    É um verdadeiro “chacoalha” em conceitos e pré-conceitos!

    Tomara que consigamos esvaziar a xícara para receber, sem pré-conceitos, tudo que está disponível, sem a necessidade de classificações do tipo “este é melhor, aquele é pior”.

    Namaste!

    Rosa.

  3. Que pérola! Uma das melhores reflexões que vi sobre a pergunta dos estilos. Isso é um alerta pra toda a comunidade yogika. Vou indicar esse link sempre quando ouvir essa pergunta.

    Gostei da lembrança de que o Yoga também ajuda a eliminar resíduos dos conflitos do dia-a-dia.

    Só não consegui absorver com clareza a solução para a mudança. Quantos professores terão capacidade de desenvolver uma visão e técnica capaz de se adaptar a cada aluno ou grupo de alunos? Será que os Instrutores deverão compartilhar apenas com aspirantes que precisam das suas estratégias e, ao invés de fechar o olho para aquele aluno que vê que não poderá progredir muito com ele, mandá-lo embora de uma vez? Como ficam os yogis brasileiros que aspiram viver só de Yoga ? Viverão todos de aulas particulares?

    Namaste ji.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *