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Samkhya Yoga – Bhagavad Gita, canto II

Yoga do conhecimento correto

Escrito por Vyasadeva · 15 mins de leitura >

Yoga do conhecimento correto

Fala Sanjaya:

1. Vendo Arjuna tão abatido, invadido pela comiseração, os olhos aflitos e cheios de lágrimas, disse-lhe Madhusúdana as seguintes palavras:

Fala Krishna:

2. De onde provêm, Arjuna, neste momento crítico, esse torpe desalento, indigno de um homem de raça nobre, essa covardia que traz ignonímia e cerra as portas do Céu (1)?

3. Não renuncies, filho de Prithá, à virilidade do combate e do herói! É indigno de ti! Liberta-te dessa fraqueza vergonhosa e levanta-te, ó terror dos inimigos (2)!

Fala Arjuna:

4. Ó Madhusúdana! Como poderia eu, em meio à batalha, empunhar minhas armas contra Bhíshma e Dróna, que são tão dignos de veneração, ó exterminador de inimigos?

5. Mais valeria viver mendigando por este mundo do que matar esses mestres de grande alma. Se eu os matasse, todas as delícias do mundo para mim estariam sujas de sangue.

6. Não sei se seria melhor para nós vencermos ou sermos vencidos, pois esses que estão a nossa frente, prontos para a luta, são os filhos de Dhritaráshtra e sua morte nos tornaria a vida insuportável.

7. Com a alma oprimida por uma piedade culposa, confuso quanto ao dever, apelo a Ti para que me indiques claramente o melhor caminho. Refugio-me em Ti como Teu discípulo. Esclarece-me.

8. Nada vejo que possa dissipar a angústia que embota meus sentidos, mesmo que eu obtivesse na terra um reinado sem rival, ou mesmo a soberania dos deuses.

Fala Sanjaya:

9. Tendo assim falado a Govinda, Arjuna, terror de seus inimigos, concluiu: ‘Não, não quero lutar’, e calou-se.

10. Então Hrishíkesha, sorrindo levemente, ó Bhárata, dirigiu-se ao príncipe que se mostrava tão pesaroso e desanimado entre os dois exércitos, dizendo-lhe:

Fala Krishna:

11. Estás te lamentando por quem não deves lamentar-te, ainda que tuas palavras sejam sábias (3). O homem verdadeiramente sábio não tem lágrimas; nem para os mortos nem para os vivos (4).

12. Não é verdade que tenha havido um tempo em que Eu não existia, nem esses príncipes (5). Também não é verdade que algum de nós no futuro deva deixar de existir.

13. Assim como a alma passa num mesmo corpo da infância à juventude e à velhice, passa também de um corpo a outro. O sábio não se perturba com isso.

14. As sensações (6), ó filho de Kuntí, de frio e de calor, de sofrimento e de prazer, são efêmeras e estão sujeitas a incessantes vaivéns. Aprende a dominá-las, ó descendente de Bhárata!

15. O homem a quem essas coisas não perturbam nem afligem, ó coração de leão entre os homens, o homem firme e sábio que permanece o mesmo no prazer e na dor, torna-se digno da Imortalidade.

16. O que realmente existe não pode deixar de existir, da mesma forma que o não-existente não pode começar a existir (7). O limite entre um e outro é claramente percebido por aqueles que vêem a verdade.

17. Sabe que é Eterno e Indestrutível Aquele que criou o Universo e que o preenche todo (8). Quem pode aniquilar o Imperecível?

18. Estes corpos são simples envoltórios mortais, finitos do Espírito Eterno, Indestrutível e Infinito, que está neles encarnado. Assim, pois, decide-te a lutar, filho de Bhárata!

19. Está enganado aquele que vê a alma como capaz de morrer ou matar. O Espírito não mata nem morre.

20. Não nasce nem morre, nem tampouco tendo existido no passado pode deixar de existir. Inato, Imortal, sem princípio nem fim, não perece quando morre o corpo.

21. Aquele que sabe, ó filho de Prithá, que o Espírito é Indestrutível, Eterno e não está sujeito ao nascimento nem à morte, como pode matar alguém, ou deixar-se matar?

22. Da mesma maneira que o homem, deixando de lado suas roupas velhas, veste outras novas, também o Espírito, depois de abandonar os corpos gastos, se reveste de outros corpos novos.

23. Nenhuma arma pode feri-lo, nem o fogo queimá-lo, a água não o umedece, nem o vento o resseca.

24. É invulnerável, refratário ao fogo, incapaz de umedecer-se e ressecar-se; é Imperecível, Onipresente, Permanente, Imóvel e Eterno;

25. é Invisível, Incompreensível e Imutável; conhecendo tais atributos, Arjuna, não tens porque te afligir.

26. Mesmo que pensasses que o Espírito está constantemente sujeito ao nascer e morrer (9), não terias porque lamentá-lo, ó guerreiro de braço possante (10),

27. pois, da mesma forma que tudo que nasce tem infalivelmente que morrer, tudo que morre tem que renascer. Não deves, portanto, te afligir por algo que não há como evitar.

28. Só é manifesto o estado intermediário dos seres, filho de Bhárata. Sua origem e seu fim (11) escapam à percepção humana. Que motivo tens, pois, para te entristeceres?

29. Vemos, falamos e ouvimos falar do Espírito como algo maravilhoso, além de nossa compreensão, pois de acordo com tudo que nos ensinaram os que têm conhecimento, nenhuma mente humana jamais concebeu esse Absoluto.

30. Sendo Eterno e Invulnerável o Espírito que habita o corpo de cada ser, não tens que lamentar nenhuma criatura viva, ó filho de Bhárata.

31. Por outro lado, considerando os deveres inerentes à tua casta, não deves afastar-te nem vacilar um momento, pois, para um kshátriya (12), nada melhor do que lutar por uma causa justa.

32. Felizes os guerreiros, filho de Prithá, que se deparam com um combate tão glorioso, que lhes abre de par em par as portas do Céu!

33. Mas se, esquecendo as obrigações de tua casta, recusas-te a tomar parte numa luta tão legítima, faltarás a teu dever e macularás tua honra, incorrendo em pecado.

34. Os homens falarão sempre de tua perpétua desgraça e, para quem é nobre, a desonra é pior que a morte.

35. Os homens corajosos pensarão que foges da batalha por covardia, e, mesmo aqueles que mais te admiram, logo irão olhar-te com desprezo.

36. Teus adversários irão cobrir-te de injúrias, escarnecendo de teu valor e perícia. Pode haver maior humilhação?

37. Se morreres em combate, ganharás os céus; se venceres, terás o domínio da terra. Levanta-te, portanto, ó filho de Kuntí, resoluto para o combate!

38. Fazendo com que a aflição e a felicidade, o ganho e a perda e a vitória e a derrota sejam o mesmo para a tua alma, atira-te à batalha. Assim não estarás pecando.

39. Os ensinamentos que acabo de te expor encontram-se na doutrina Sámkhya (13). Escuta agora os que se referem ao Yoga (14), graças ao qual, filho de Prithá, irás livrar-te das cadeias da ação (15).

40. Nesse caminho, nenhum esforço é vão, e nenhum obstáculo é insuperável. Um mínimo dessa prática piedosa é suficiente para nos salvar do grande perigo (16).

41. Aqui não há mais que um pensamento (17) único, de natureza fixa e constante, ó descendente de Kuru, enquanto os pensamentos dos inconstantes se ramificam até o infinito (18).

42. Os ignorantes que se comprazem com as palavras dos Vedas (19) recitam palavras floridas exclamando no final: ‘Não há nada como isso’ (20).

43. Sendo de natureza sensual e considerando o Céu como o Bem Supremo, declaram textos aduladores, que prometem um vantajoso renascimento como prêmio de suas obras e prescrevem diversos rituais para a obtenção de prazeres e poder.

44. Vivendo dessa forma afeitos aos prazeres e ao poder, enganados por tais palavras lisonjeiras, seu pensamento carece de firmeza, que se requer para a contemplação espiritual (21).

45. O tema dos Vedas são os três gunas (22). Supera os três gunas, Arjuna. Livra-te dos ‘pares contrários’ (23). Foge do afã de acumular riquezas e, subordinado ao Eu, permanece firme no sattwa (24).

46. Para um brahmána iluminado, os Vedas têm a mesma utilidade que pode ter uma cisterna ao lado de uma imensa torrente de água que se espalha por toda parte (25).

47. Dedica-te à obra exclusivamente, jamais a seus frutos. Tuas ações não devem ser motivadas pelo proveito que te possam trazer. Não deves tampouco te abandonares à inação.

48. Firme no Yoga (26), executa tuas obras sem apego nem interesse, permanecendo o mesmo qualquer que seja o resultado, feliz ou adverso, Dhananjaya (27), pois o Yoga significa igualdade de ânimo (28).

49. A ação, Dhananjaya, é bem inferior ao Yoga do conhecimento (29). Busca, pois, teu refúgio no conhecimento (30). Pobres almas miseráveis são aquelas que fazem do fruto de suas obras o objeto de seus pensamentos e atividades.

50. Neste mundo, o homem que possui o conhecimento se desembaraça das boas e más ações (31). Assim, aplica-te ao Yoga (32). O Yoga é a capacidade de agir corretamente (33).

51. Dotado de conhecimento e abandonando o fruto de suas obras, o sábio de liberta dos vínculos da reencarnação e se encaminha para a morada onde não há mal nem sofrimento (34).

52. Quando o teu entendimento (35) se libertar desse emaranhado de enganos, chegarás a desdenhar as Escrituras que conheces e as que falta conhecer (36).

53. Quando tua mente, até agora dispersa pelas doutrinas desveladas, se imobilizar e se estabilizar na contemplação espiritual (37), então alcançarás o Yoga (38).

Fala Arjuna:

54. O que distingue, Keshava, aquele que está firme no conhecimento espiritual (39) e é constante na contemplação? Como pode ele falar tendo a mente de tal forma fixa? Como pode mover-se e descansar?

Fala Krishna:

55. Quando o homem extirpa todos os desejos de seu coração, filho de Prithá, e encontra dentro de si mesmo e por si mesmo (40) a alegria e a felicidade, pode-se dizer que está firme no Supremo Conhecimento.

56. Aquele cuja mente não se turva na aflição e permanece passivo em meio aos prazeres, aquele que está isento de anseios, temores e cólera, é sábio, firme no Supremo Conhecimento.

57. Aquele que não tem apego a coisa alguma e que com ânimo imperturbável não se regozija com o sucesso nem se entristece com os reveses, está firmemente estabelecido no Supremo Conhecimento.

58. Quando afasta todos os seus sentidos dos objetos sensíveis, assim como a tartaruga cautelosa recolhe os seus membros em sua carapaça, o homem está firme no Supremo Conhecimento.

59. O homem abstinente deixa de ser afetado pelos objetos sensíveis, mas a sensação ainda permanece. Até mesmo a sensação se desvanece quando se contempla o Supremo (41).

60. Os sentidos, filho de Kuntí, fogosos e turbulentos, arrastam às vezes o espírito do sábio que com maior empenho luta para reprimi-los.

61. Depois de dominar todos os seus sentidos, o homem devoto pode descansar, entregando-se inteiramente a Mim (42), pois aquele que domina seus sentidos está firme no Supremo Conhecimento.

62. O homem que detém seu pensamento nos objetos sensíveis desperta em si mesmo a inclinação por eles. Da inclinação nasce o desejo; do desejo, a cólera (43);

63. da cólera, a desordem mental; da desordem mental, a confusão da memória (44); da confusão da memória, a perda do discernimento e pela perda do discernimento o homem se perde completamente (45).

64. Mas o homem disciplinado que se relaciona com os objetos sensíveis (46) através dos sentidos livres de atração e repulsão, subordinados ao Eu, alcança a serenidade.

65. Alcançada a serenidade, desaparecem os sofrimentos e inquietações, pois a inteligência tranqüila firma-se no conhecimento (47).

66. Para aquele que não se recolhe em si mesmo não há conhecimento nem aptidão para a contemplação (48). Quem não pratica a contemplação não consegue paz. E como pode haver felicidade para aquele que não tem paz?

67. Aquele cujo espírito se abandona aos sentidos errantes tem em breve seu conhecimento arrebatado, como o navio arrastado pelo furacão sobre o oceano enraivecido.

68. Assim, pois, ó guerreiro de braço poderoso, o homem cujos sentidos se encontram totalmente cerrados aos objetos capazes de afetá-los tem um conhecimento firme.

69. O que é noite para todos os seres é dia para o homem que consegue vencer-se a si mesmo. E o que é dia para os demais seres vem a tornar-se noite para o sábio vidente (49).

70. Consegue a paz aquele em cujo coração os desejos se extinguem, como os rios se perdem no oceano, que jamais transborda (50). Mas está muito distante da paz aquele que acaricia desejos.

71. O homem que, tendo extirpado de seu coração todo tipo de desejo, vive isento de afecções, interesses e egoísmo (51), obtém a paz (52).

72. Tal é a meta, a condição divina, filho de Prithá. Quem consegue alcançá-la não se acha mais exposto a perturbações ou enganos, e se nela persevera até a hora de sua morte, alcança o Nirvana em Brahman (53).

Notas:
(1)
Era um dever para os guerreiros conservar incólumes seu nome e sua fama. Os que morriam com bravura no campo de batalha alcançavam a bem-aventurança celeste.
(2) Parantapa, em sânscrito.
(3) “Palavras que soam como sábias, mas que carecem do sentido profundo da sabedoria”, comenta Annie Besant a respeito dessa passagem. Segundo G. R. S. Mead, essa frase é irônica. “Usas palavras sábias, mas ao mesmo tempo demonstras tua inconseqüência, pois o verdadeiro sábio não chora nem pelos vivos nem pelos mortos”, comentou Ádi Shankaracharya.
(4) A vida e a morte não são mais do que fases ou aspectos diferentes da vida única. Na realidade, a morte não existe. O Espírito, o verdadeiro Eu, como partícula segregada da Divindade, de natureza idêntica à Dela, é Inalterável e Eterna, sendo a Imortalidade um de seus atributos.
(5) Existe uma absoluta identidade entre todos os espíritos individuais, assim como entre estes e o Espírito Universal.
(6) Sparshas. Relações, contatos ou choques da matéria com os órgãos dos sentidos.
(7) Se bem que a Matéria Primordial seja – segundo os sistemas filosóficos Sámkhya e Yoga – Eterna e Indestrutível, o corpo e todas as demais formas transitórias da matéria não têm existência real ou absoluta, mas apenas uma existência condicional e finita. O sistema de Kapila, o Sámkhya, em sua forma teísta, inclui no Espírito Supremo todo ser, considerando a matéria apenas uma parte inferior da natureza dual da Divindade (Bhagavad Gítá, VII, 4 e 5), uma forma ilusória e passageira, na qual o Espírito esconde temporariamente sua verdadeira natureza e que no fim será absorvida na Natureza Divina de que se originou. A matéria, portanto, não surgiu do nada, porque tudo quanto existe só pode ter sido emanado de uma entidade existente; nem pode voltar ao nada, ao não-ser, ao completo aniquilamento.
(8) O Ser Supremo é, ao mesmo tempo, Causa Eficiente e Causa Material do Universo, ou seja, é ao mesmo tempo o oleiro e o barro com que se faz o tijolo. A criação é, na realidade, a emanação da Matéria Primordial (Prakriti), que é uma parte do Ser Supremo.
(9) Isto é, nasce e morre com cada um dos corpos em que se aloja.
(10) Mahábáhó, em sânscrito.
(11) Compare-se essa passagem à seguinte de Sir W. Hamilton: “O Universo não é mais que um meio entre dois extremos, ambos inconcebíveis” (Lectures on Metaphysics). O estado intermediário é a vida presente, na qual o Espírito se encontra revestido por um corpo visível. As fases da existência física se alteram sem cessar. Em seu estado pré-natal, os corpos estão confundidos na massa infinita da matéria primordial indiferenciada. Surgem dela, manifestando-se durante a vida, e, ao chegar o momento da morte, ou dissolução, voltam ao seio dessa matéria, absorvendo-se e dissolvendo-se em sua massa. Apenas o Espírito permanece Imutável.
(12) Pessoa pertencente à casta militar, segunda em categoria.
(13) Um dos seis sistemas filosóficos da Índia. Segundo alguns comentadores, o termo Sámkhya aqui se refere à doutrina do verdadeiro conhecimento do Espírito ou Realidade Suprema, da Imortalidade do Eu e sua Libertação através do conhecimento.
(14) Outro sistema da filosofia hindu. Segundo Ádi Shankaracharya, esse Yoga constitui o culto da Divindade (Íshvara) e consiste na prática da meditação (dhyána), como instrumento da Libertação do Eu, ou na execução de obras sem apego ou objetivos interesseiros, depois de libertar-se das influências dos “pares contrários”.
(15) Cada obra ou ação está ligada de certa forma a seu autor, pois suas conseqüências, boas ou más, cairão infalivelmente sobre ele na vida presente ou futura. Por isso, a ação é uma poderosa causa do renascimento. A aspiração daquele que se aplica ao Yoga é libertar-se dos resultados positivos ou negativos de suas ações e atingir, através da meditação contínua, a união mística (Yoga) com a Divindade e a absorção final em sua Essência. Só então o yogi deixa de estar sujeito ao renascimento e se liberta para sempre de toda relação com a matéria, fonte de todo mal e sofrimento.
(16) Bhaya (perigo, temor, desgraça). Esse grande perigo, ou mal, é a vida transmigratória, a existência terrena ou condicionada em formas cada vez mais inferiores.
(17) Buddhi.
(18) “O verdadeiro yogi concentra todo o seu pensamento num só objeto: a Libertação do Eu; enquanto que os pensamentos dos homens inconstantes são tão inumeráveis como as coisas que desejam e como os atos que praticam para obtê-las” (comentário de Rámánujáchárya).
(19) Sagradas Escrituras dos hindus. Nos Vedas encontram-se numerosas passagens que afagam a vaidade humana, tais como: “É inesgotável o mérito dos que praticam o sacrifício Sháturmásya“. Os ignorantes se satisfazem com a letra morta dos Livros Sagrados e não se dão ao trabalho de buscar a verdade real contida em suas páginas.
(20) “Não há nada além disso”, “Isso já é o bastante”, em outras traduções.
(21) Samádhi, terceiro estado de consciência na meditação.
(22) Os três modos, qualidades ou elementos que constituem a natureza material: sattwa, rajas e tamas. O significado dessa passagem, segundo Davies, é que Arjuna deve livrar-se de toda influência da matéria, boa ou má, pois que os melhores resultados que possa obter a partir dela são relativamente um mal.
(23) Dyandyas, em sânscrito. É a suscetibilidade à dor e ao prazer, a luta de paixões, a ilusão nascida das simpatias e antipatias, representadas por um par composto de duas coisas em oposição mútua (frio e calor, afeto e aversão, prazer e dor, etc.) produzidas por impressões sensíveis.
(24) Vários comentadores consideram que o termo sattwa se refere ao primeiro dos três gunas. No entanto, atendo-me ao texto: “supera os três gunas“, acredito que o termo esteja empregado em uma de suas outras acepções (realidade, verdade, bondade, pureza), provavelmente no sentido de Realidade, ou seja, o Espírito, em contraposição às qualidades da matéria, “aquilo que está acima delas” (Bhagavad Gítá, XIV, 19).
(25) Literalmente: “Tanta utilidade há numa cisterna, por toda parte inundada de água…”. Essa obscura passagem tem sido objeto situado junto a (ou em comparação a) um copioso caudal, ou vasta extensão de água. Corrobora essa interpretação o comentário de Ádi Shankaracharya: “Qualquer que seja a utilidade de um poço ou cisterna (beber, banhar-se, etc.), maior é a de uma torrente de água que transborda por toda parte…; assim também, toda utilidade do ritual vêdico está compreendida na do verdadeiro conhecimento adquirido por um brahmána que haja renunciado ao mundo e se tenha deixado penetrar pela verdade concernente à Realidade Absoluta”. Segundo Davies, o autor usou uma expressão velada para não ferir os sentimentos dos brahmánas, dizendo pura e simplesmente que os Vedas não têm utilidade alguma para eles. Essa opinião é bastante rasoável considerando-se a linguagem desdenhosa que o autor emprega ao se referir aos Livros Sagrados. Por outro lado, considerando que o brahmána iluminado não aspira a um céu transitório, nem ao renascimento e nem aos bens temporais que prometem os Vedas, tal passagem não poderia significar simplesmente que os Vedas são tão inúteis para o brahmána que possui o conhecimento espiritual como uma mísera cisterna, quando se dispõe de um abundante manancial de água cristalina?
(26) Yogastha. A palavra Yoga aqui expressa a elevação espiritual até a Divindade, e o desprezo pelas coisas do mundo, sem que nenhum obstáculo possa contrariar semelhante estado.
(27) Sobrenome de Arjuna. Significa dominador ou aquele que despreza riquezas.
(28) Yoga expressa nesse caso aquele estado de serenidade de ânimo, no qual a Luz do Espírito se reflete na mente, assim como a Lua se retrata em toda sua pureza nas águas tranqüilas de um lago.
(29) Buddhi Yoga. Devoção mental (Schlegel, Telang, Davies, etc.); Yoga da sabedoria (Govindácharya, Mahádeva Shástri); Yoga do discernimento, ou união com Buddhi (Annie Besant).
(30) Buddhi.
(31) Aquele que age sob a égide do verdadeiro conhecimento liberta-se das cadeias formadas por milhares de ações boas ou más no decorrer de suas numerosas existências. O bem e o mal não são duas idéias absolutas, mas relativas, constituindo pólos opostos de um mesmo fator ou entidade. O bem e o mal, tal como os entendemos atualmente, desaparecem ante o bem positivo que é o aperfeiçoamento ou progresso evolutivo da Humanidade, pois que na escala da evolução é impossível galgar os degraus superiores sem passar pelos inferiores e da mesma forma é impossível valorizar uma virtude sem ter caído no vício oposto. É verdade que não devemos amar o vício, mas não podemos esquecer que sem passar por ele não podemos alcançar a virtude. O progresso individual se alcança apenas com experiência própria, adquirida no decorrer de numerosas existências.
(32) Devoção ou conhecimento espiritual.
(33) No Yoga está o segredo de levar a cabo as ações sem ficar preso às suas conseqüências.
(34) Nirvana.
(35) Buddhi.
(36) Shruti (audição, desvelação, e daí os Vedas e outras Escrituras inspiradas na Desvelação Divina). Possivelmente essa passagem se refere às doutrinas baseadas na letra morta dos Livros Sagrados, ou seja, os ensinamentos exotéricos que ocultam o sentido íntimo ou esotérico das Escrituras.
(37) Samádhi.
(38) A união com o Espírito ou com o Eu Superior. Yoga significa, nesse caso, harmonia com a Vontade Divina (segundo Annie Besant).
(39) Sthita prájña significa firme no conhecimento espiritual, ou sabedoria divina. Através da firmeza ou da concentração do pensamento no Eu Superior, o homem adquire a Sabedoria Suprema.
(40) Isto é, independentemente de qualquer objeto exterior.
(41) A Suprema Realidade, o Espírito Supremo.
(42) Krishna começa a desvelar-se como Personificação da Divindade Suprema, ainda que não o faça de maneira expressa.
(43) Krodha (ira, cólera, furor, aversão, ódio, em geral todas as paixões que participam da cólera). A maioria dos tradutores toma essa palavra no sentido de cólera, partindo do princípio de que o desejo, quando contrariado, origina a cólera. “Paixão”, “emoção violenta”, em outras traduções.
(44) E, conseqüentemente, o esquecimento dos deveres pessoais, assim como os ensinamentos recebidos.
(45) Está condenado a sofrer novamente as dores e misérias da existência transmigratória.
(46) Os necessários para a manutenção do corpo.
(47) Ádi Shankaracharya, comentando essa passagem, diz: “Em cada ato de conhecimento, a potência cognoscitiva assume a forma do objeto conhecido. Quando o verdadeiro Eu é conhecido, ou, em outros termos, quando o universo objetivo é conhecido como não-Eu, a potência cognoscitiva está em absoluto repouso, pois permanece estável e firme na forma do Eu Imutável e Eterno”.
(48) Bhávaná. Através da contemplação e concentração espiritual, o homem recebe a Luz do Espírito, ou seja, de seu Eu interno.
(49) O que é sonho, ilusão e trevas para os homens comuns é Pura Realidade e Luz para o sábio iluminado e vice-versa.
(50) A afluência dos rios não faz subir o nível das águas do mar nem altera de forma alguma sua condição. Da mesma forma, as percepções sensíveis não afetam a tranqüilidade do sábio (segundo Barnett).
(51) Ahamkára. Refere-se à falsa noção de que o Eu é quem executa os atos da vida, enquanto Seu papel é de simples espectador.
(52) Estado de isolamento espiritual, mesmo durante a vida terrena, em virtude do qual o Espírito se subtrai à influência do corpo e de tudo que o rodeia.
(53) Brahmanirvana. Extinção, aniquilamento, ou melhor, absorção em Brahman.


Traduzido para o castelhano por Roviralta Borrel (1856-1926), e deste para o português por Eloísa Ferreira.

Publicado originalmente pela Editora Três, de São Paulo, em 1973, na Biblioteca Planeta, Volume 7.

Digitado por Cristiano Bezerra.

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