Conheça, Tantra

Tantra = sexo?

O objetivo do Tantra é o recohecimento de que todos os pares de opostos, homem e mulher, individuo e Totalidade, Śiva e Śakti, são a mesma Realidade, Una e Única.

Escrito por Pedro Kupfer · 8 mins de leitura >

Algumas pessoas têm me procurado através deste site solicitando informações sobre “aulas de Tantra”. Como não sei exatamente o que elas entendem por Tantra, fico me perguntando como poderia ajudá-las a encontrar o que buscam, ou a evitar as armadilhas em que se arriscam a cair.

Para começar, vamos dizer o que o Tantra não é. Tantra não é um guru mequetrefe prometendo orgasmos múltiplos e iluminação e cobrando mundos e fundos por isso. Tantra não é uma prostituta com nome de deusa oferecendo seus serviços na internet. Tantra não é um grupo de alienados carentes alisando-se em nome da iluminação. Tantra não é infidelidade institucionalizada. Tantra não tem nada a ver com soltar a franga. Tantra não é um professor de Yoga deitando com as alunas num curso de formação. Tantra não é abuso de nenhum tipo. Tantra nao é tara.

Aquilo que os aspirantes a clone de Osho chamam de Tantra, não é Tantra. Cursos de Tantra associados à sensualidade, técnicas sexuais, sexoterapia e promessas de iluminação através do sexo têm como objetivo sustentar a forma de vida de certos autodenominados “mestres”, que buscam satisfazer suas próprias fantasias e desejos de manipular pessoas, ganhando um dinheirinho de quebra.

Então, o que significa essa palavrinha de seis letras? Tantra é o nome de um vasto leque de ensinamentos que têm como objetivo, dentro de espiritualidade hindu, o desenvolver do potencial latente, chamado kuṇḍalinī, que é simbolizado por uma serpente enroscada sobre si mesma.

O princípio comum aos caminhos do Tantra é que as experiências do mundo material podem usar-se como instrumento para a reflexão e o autoconhecimento, já que a natureza é manifestação da Consciência Una e o corpo humano é manifestação da natureza.

Nesse contexto, a visão do Tantra associada ao êxtase sexual é pateticamente superficial e incompleto, se comparada com a verdadeira tradição. O Tantra não é hedonista nem orgiástico. O objetivo do Tantra é o despertar da força do Conhecimento. Kuṇḍalinī é o símbolo daquilo que o ser humano pode vir a ser, quando adquire a coragem para libertar-se dos condicionamentos sociais e familiares (e o cuidado e a honestidade para não substituí-los por outros condicionamentos novos).

Um colega, professor de Yoga, comentou recentemente que apenas 10% dos textos tântricos tratariam sobre sexo. Pessoalmente, acho esse número demasiado elevado. Dos muitos śāstras que garimpei na Índia ao longo das últimas três décadas, em sânscrito e em inglês, não têm sequer um que trate em detalhe da sexualidade. Algumas técnicas sexuais, como a reabsorção seminal após a ejaculação (vajroli), se descrevem, por exemplo, na Haṭhayoga Pradīpikā.

A única obra hindu que conheço que trata explicitamente sobre sexualidade, e como aumentar a performance na cama, é o Kāmasūtra, que não é tántrico e que, por sinal, fala muito mais sobre ética do que você poderia pensar sem ter a obra em mãos.

Embora existam diversas vertentes dessa tradição, todas têm o mesmo objetivo e usam as mesmas ferramentas para atingi-lo: mantras (sons de poder), yantras e maṇḍalas (diagramas sagrados sobre os quais se exerce a concentração), cakras (centros da força vital), práticas de iniciação e purificação e um sistema ético que une e protege o grupo de praticantes. Essa lista de práticas é incompleta, pois os métodos dessa tradição incluem um espectro muito mais amplo de rituais, crenças e práticas.

Tantra significa literalmente tecido, urdidura; pode ser traduzido como “espargir o conhecimento” ou “a maneira certa de se fazer qualquer coisa”, tratado, autoridade, estender, multiplicar, continuar. Também designa o encordoamento do sitar ou outro instrumento musical.

Tantra é o nome de uma espiritualidade que compartilha suas principais premissas com o Yoga, herança e patrimônio da cultura dos rios Indus e Sarasvati. O culto da Grande Mãe (Magna Mater) está presente na Índia desde o neolítico (8000 a.C.), mas os mesmos símbolos que o tantrismo utiliza hoje remontam ao paleolítico (20000 a.C.) e estiveram sempre presentes ao longo do continente eurasiano.

O Tantra assimilou e organizou os rituais da Magna Mater, transformando-os num método de emancipação que busca na psique humana a manifestação da própria força da Śakti. Esse movimento teve uma forte influência sobre a religião, a ética, a arte e a literatura indianas, havendo ressurgido com inusitada força entre 400 e 600 d.C., quando chegou a transformar-se numa moda que acabou por influenciar nos modos de pensar e agir da sociedade indiana medieval. Aqui ela se afirma, populariza e estende ainda mais, dando origem a um grande número de correntes e manifestações filosóficas, religiosas, mágicas e artísticas, algumas antagônicas.

“Não se trata de uma religião nova, senão de uma nova caracterização de fatos que pertencem ao hinduísmo comum, mas que, às vezes, só se apresentam precisamente em suas formas tântricas. Percebe-se o selo do tantrismo na mitologia e na cosmogonia, mas, principalmente, no ritual. O gérmen se remonta com freqüência aos Vedas, especialmente ao Athārvaveda, que pode considerar-se um hinário pré-tântrico.” Jean Renou, El Hinduismo, p. 89.

O Tantra não pertence à tradição ortodoxa hindu, já que não existe um darśana (escola ortodoxa de conhecimento) com esse nome. Sua visão do mundo é herança e síntese da Índia aborígene e da Índia védica, muito mais antigas do que imaginaram os estudiosos ocidentais do século XIX. É uma forma de ver a vida e cada um de seus aspectos.

Há duas diferentes linhas do tantrismo: o Dakṣiṇacāra, linha da “mão direita” se justapõe ao Vāmacāra, corrente da “mão esquerda”, na qual se destaca a escola Kaula, fundada pelo mestre Matsyedranatha, por volta de 900 d.C.

O tantrismo da “mão esquerda” se caracteriza pelos rituais de transgressão, como o pañcamakara (os cinco ms), no qual o praticante utiliza a ingestão de bebidas embriagantes, carnes e o coito ritual como meios para “sacudir” a mente e tirá-la do torpor, através do ato de romper todos os tabus culturais daquele tempo e daquele lugar.

Agora, cabe a pergunta: faz sentido fazer um ritual para quebrar os tabus de outra cultura, quando na nossa comer carnes, beber álcool ou relacionar-se sexualmente afora do casamento fazem parte do cotidiando de muitas pessoas?

Não seria melhor buscar os tabus da nossa própria cultura e da nossa própria sociedade e quebrá-los devidamente, se acharmos necessário, ao invés de usar os tabus da cultura indiana? Quando descontextualizamos práticas desse tipo corremos o risco de cair numa profunda confusão e acabar desorientados, com um profundo sentimento de frustração, falta de significado e sentido no que fazemos.

O Dakṣiṇacāra, por sua vez, recomenda a prática dos chamados “rituais de compensação”. Podemos identificar alguns dos rasgos do Tantra já no Ṛgveda, concretamente nos rituais e libações ceremoniais do soma. No ritual de compensação do Dakṣiṇacāra, o vinho é substituído por água, a carne por coco seco, o coito pelo culto da Śakti, etc. Isso fica muito claro nesta passagem do Yogiṇītantra (V:14), que diz:

“Madya, o vinho, é o conhecimento inebriante de Parabrahman, o Ser Ilimitado, adquirido através do Yoga, que isola o praticante do mundo exterior. Maṁsā não é a carne, mas o gesto em que o sādhaka consagra todos seus atos à Śakti. Matsya, o peixe, é o conhecimento sáttvico pelo qual o adorador sente compaixão pelo prazer e a dor de todos os seres. Mudra, o cereal tostado, simboliza a renúncia a todas as formas do mal, que conduzem a novos condicionamentos. Maithuṇā é a união da kundaliṇīśakti com Śiva no corpo do adorador.”

“Um dos artigos de fé do povo védico era, portanto, que a união sexual conduzia à bem-aventurança do além e devia cumprir-se com verdadeiro espírito religioso para assegurar o bem-estar espiritual, censurando-se severamente a lascívia.” S. B. Lal Mukherjī, ensaio em Śakti y Śākta, de Sir John Woodroffe, p. 83.

A visão cosmogônica do Tantra se caracteriza pela união dos opostos: isto é, se trata de uma coincidentia oppositorum, conjunção daquilo que aparentemente está separado, mas em verdade é idêntico. Essa visão não é original do Tantra. Ela existiu em outras cosmovisões ao longo da história da Humanidade. Notadamente, nas Upaniṣads da própria Índia, mas o tantrismo recupera para si esse princípio, muito mais antigo que ele próprio, dando a ele uma nova linguagem e novos símbolos.

Os princípios em coincidentia oppositorum são Śiva e Śakti. Os ṛṣis, sábios ascetas do alvorecer do pensamento hindu, chamaram Brahman ou Śiva o Ser Ilimitado. Tudo deriva do Ser, e existe por causa dele: tudo é reflexo e evidência da sua realidade. O Ser é o Princípio Imutável e Eterno. Ele não faz nada: apenas é. Sua manifestação é Śakti, palavra que significa energia e, por extensão, esposa. Śakti é a Prakṛti, a Natureza, a força criativa, causa da manifestação do Universo.

Śiva é inabalável: é Ser, é Consciência. Śakti é movimento, dança, mudança, criação. Esses dois princípios se representam na iconografia do tantrismo unidos no viparītamaithuṇā: Śiva aparece deitado ou sentado, imóvel, enquanto Śakti está sempre sobre ele, ativa no ato da manifestação. Esse ensinamento não é religioso, nem dogmático ou doutrinário.

O objetivo do Tantra, o despertar de kuṇḍaliṇī, é o recohecimento de que todos os pares de opostos, homem e mulher, individuo e Totalidade, Śiva e Śakti, são a mesma Realidade, Una e Única. Nesse sentido, o Tantra possui uma certa semelhança com algumas formas de panteísmo ou, mais corretamente, de panenteísmo: o Ser o próprio Universo. Diz o Kularṇāvatantra:

“O que está aqui está em toda parte;
o que não está aqui não está em parte alguma”.

Essa afirmação é praticamente idêntica ao ensinamento da Kaṭhopaniṣad:

“O que está aqui (a Consciência), está lá;
o que está lá, está igualmente aqui”.

Daí provém o culto à Natureza e à feminilidade. Para o Tantra, o mundo tangível é bem real: ilusório é pensar que o Ser (Śiva) intervenha ativamente no Universo manifestado, ou que seja alguma entidade distinta ou separada, escondida em algum canto especial da criação.

Agora, vamos falar um pouco sobre a parte do Tantra que se ocupa do sexo ritual. A incompreensão do Tantra e o simbolismo que o transmite colaborou para considerá-lo repulsivo, vergonhoso e digno de escárnio. A preocupação daquele que condena o Tantra é fruto da sua própria obsessão com a questão sexual, que o leva a querer coartar a liberdade dos demais. Nesse sentido, o tantrismo é totalmente natural, e a sua abordagem do sexo não é patológica, mas absolutamente sadia, de uma espontaneidade difícil de aceitar para os padrões da “decência” cristã.

Maithuṇā, o ritual sexual, não tem nada a ver com pornografia ou licenciosidade, muito pelo contrário, é um instrumento que revela a dimensão divinal da natureza humana. Entretanto, nos últimos tempos, têm surgido mestres inescrupulosos que vendem sexo como iluminação, o que acaba por divulgar e tornar conhecidas no Ocidente unicamente as formas mais vulgares e degradadas do Tantra.

“O maithuṇā é a técnica tântrica que mais fascina os ocidentais, que com demasiada freqüência confundem-na com uma indulgência para com os apetites sexuais, em vez de vê-la como meio para dominá-los.” Daniel Goleman, A Mente Meditativa, p. 98.

Enquanto alguns buscam a elevação através da repressão ou da eliminação do desejo sexual e suas raízes (saṁskāras), para o tantrismo a sua utilização é condição básica. O homem deve evoluir executando as mesmas ações que causam a sua perdição. Assim, citemos novamente o Kularṇāvatantra:

“Quando caímos no chão, é com a
ajuda dele que nos levantamos”.

 

Terminamos aqui a nossa reflexão, citando o grande Mircéa Éliade, El Yoga. Inmortalidad y Libertad, pp. 194, 197:

“Pelo próprio fato de não se tratar de um ato profano, mas de um rito, no qual os participantes não são mais seres humanos senão que estão “desprendidos”, como deuses, a união sexual não participa mais do nível kármico. Os textos tântricos repetem com freqüência o adágio: “pelos mesmos atos que fazem com que muitos homens se queimem no inferno durante milhões de anos, o yogin obtém a libertação”.

“O jogo erótico se realiza num plano transfisiológico, porque nunca tem fim. Durante o maithuṇā, o yogin e sua nāyikā incorporam uma “condição divina”, no sentido de que não somente experimentam a beatitude, senão que podem contemplar diretamente a realidade última”.


(1) Recomendo a tradução de Alain Daniélou, The Complete Kama Sutra, Park Street Press, Rochester, Vermont.
(2) Vishwasara Tantra (citado por Sir John Wodroffe, Shakti y Shakta, p. 216).
(3) Indrabhuti, Jñanasiddhi, 15.
(4) Nayika: heroína, mulher nobre, shakti. Uma das formas de Durga.

73 respostas para “Tantra = sexo?”

  1. A cada artigo que leio a respeito do Yoga fico maravilhada de tão grande que é.
    Me envolvo mais e mais. Namastê!

  2. Bem ou mal, nascimento apos nascimento o desejo brotou. O mundo se criou, é uma pena que lhe dou o falso comentario o distante ser que esteve desejando durante milhas estas em um próximo nascer.
    Creio em 2010 resgatar o falso ser que talvez tenha que melhorar a pratica em um seminario, pois um dia se manifesta em cada nascimento. Nascer está sendo o desejo de proximas atuaçoes de corpos vivos respirando, pensando, de luz a vida eh cheia.
    Namaste.

  3. Muito bom esse esclarecimento sobre Tantra: como é importante ser ético, a iluminação depende de cada um. Abraços.

  4. Muito bom o texto sobre Tantra. Vejo o Tantra como a maneira correta de se fazer sexo.

    1. Caro amigo, atente para o fato de que o texto deixa claro que o tantrismo é um movimento cultural complexo e multifacetado, cujos métodos (que nem de longe são somente sexuais) buscam a emancipação. Logo, o Tantra é muito mais do que “a maneira correta de se fazer sexo”. Abraços.

  5. Adorei a forma em que descreveu o Tantra. Sou leiga e sei que internet tem suas armadilhas. Tantra me desperta muito interesse desde que ouvi sobre, e isso a muito pouco tempo. Muito boa sua descrição.

  6. Parabens ao esclarecimento sobre o tantrismo, ja fiz uma seçso e a pessoa foi muito profissional….realmente mexe com as emoçoes e tanto. Achei tudo muito confuso, mas vi que era tudo muito profissional. abraços

  7. É MUITO BOM SABER QUE AS PESSOAS COMEÇAM A TER UMA VISÃO MAIS CLARA SOBRE TANTRA. O TEXTO Tantra = Sexo? É FELIZ PORQUE FOI EXATAMENTE ASSIM QUE EU O CONHECI. NENHUM APELO INFANTIL OU INCONSEQUENTE PARA O SEXO, MAS UM CONVITE PARA ENCONTRAR AQUILO QUE REALMENTE SOMOS: AMOR,PAZ, EQUILÍBRIO, HARMONIA.
    ENQUANTO MUITOS PERSEGUEM OS MÚLTIPLOS ORGASMOS,O VERDAEIRO TÂNTRICO BUSCA O ORGASMO ÚNICO E PROFUNDO COM O UNIVERSO, COM O TODO.
    PARABÉNS PELO TEXTO!!!

    MTY

  8. Muito obrigado, adorei a descrição do tantra, ainda bem que tem gente séria como vc para ajudar as pessoas sinceras a conhecer a verdade de uma cultura tão antiga e mistificada.
    namaskar

  9. Muito bom o artigo. Li tb um livro chamado tantra, a suprema compreensão, do osho e gostei. Outro é Tantra, culto à feminilidade, de Van Lisebeth.
    Abraços,
    Nina

  10. Este não é láááá um comentário. Não passa de um breve agradecimento por me fazer (finalmente) entender(?) o Tantra. Sou grata por não ter entrado em um site e encontrado o Tantra como algo inteiramente sexual.

    Namaste.

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