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A ciência e a cosmovisão hindu

O Dr. Subhash Kak, engenheiro em computação e eletrônica na State University de Louisiana e estudioso dos Vedas, descobriu o código-chave que explica a estrutura dos altares do fogo, da cosmogonia vêdica e do próprio Rig Veda. A extraordinária relevância deste descobrimento e sua data tão recente (1993) merecem ao menos esta breve síntese.

Escrito por Pedro Kupfer · 6 mins de leitura >

O Dr. Subhash Kak, engenheiro em computação e eletrônica na State University de Louisiana e estudioso dos Vedas, descobriu o código-chave que explica a estrutura dos altares do fogo, da cosmogonia vêdica e do próprio Rig Veda. A extraordinária relevância deste descobrimento e sua data tão recente (1993) merecem ao menos esta breve síntese. Entre outras coisas, porque isto vem ao encontro das conclusões do erudito estadunidense Ebenezer Burguess que afirmou, há mais de um século atrás, que as astronomias indiana, egípcia e grega, pareciam possuir a mesma base, e que a sua origem deveria procurar-se na Índia antiga.

O que S. Kak sustenta é que os rishis não eram apenas poetas ou filósofos ascetas que ficavam meditando e especulando sobre metafísica. Ele descobriu que estes sábios foram, antes de mais nada, e principalmente, matemáticos e astrônomos que observaram o céu com muita atenção durante milênios. A cosmovisão dos rishis passa pela constatação de que existem correspondências sutis entre o macro e o microcosmos, e que estas correspondências admitem uma expressão matemática. A presença dos números e da aritmética nesta sociedade não vale por si, mas está em função da edificação de um sistema ritual altamente preciso.

Os rishis retiravam-se da vida profana para poder dedicar-se à observação do firmamento e da Natureza. Os refúgios onde viviam nas montanhas e florestas, segundo consta nas Upanishads e no Rámáyána, constituíam lugares ideais para a observação do céu, que era feita a olho nu. Isto explica também o fato de que alguns hinos vêdicos e outros Shastras começam ou terminam com a descrição da localização do sol em relação aos planetas e constelações. Os primeiros leitores ocidentais do s. XVIII e XIX desestimaram esse detalhe, pois não acharam possível que esses fossem dados astronômicos concretos. Infelizmente, ainda hoje há quem continue negando essas evidências.

Pode parecer estranha a fixação por números na cultura vêdica, mas esta cosmovisão elimina as casualidades. Nada é fortuito quando está sujeito a tão precisos cálculos matemáticos. Essas relações sutis das que falamos acima, numericamente expressadas, abrangem tanto o mais amplo do Cosmos quanto o mais reduzido da fisiologia humana. Por exemplo, os ascetas-videntes descobriram que existem tantos ossos no corpo humano quantos dias no ano: trezentos e oito ossos, mais trinta e dois dentes, mais vinte unhas, totaliza trezentos e sessenta, que é o ano astronômico de Agni (308+32+20=360).

As correspondências foram conservadas para elaborar seus rituais de sacrifício (hotra) em dois níveis diferentes: no aspecto material, edificando os altares do fogo, o que deu posteriormente origem às impressionantes obras de engenharia desta civilização através da secularização do conhecimento sagrado. No aspecto espiritual, através da composição dos Vedas, especialmente o Rig Veda. A mesma estrutura que apresentam os altares repete-se no Rig Veda. Nela podemos contemplar os três níveis da criação: terra, ar e céu (bhur, bhuva, swaha) . Sacrifica-se para sustentar, atualizar e renovar a criação, pois o Cosmos é o fruto do sacrifício primordial. O hino do Purushashukta descreve esse sacrifício, a partir do qual se cria o Universo:

Com milhares de cabeças, o Purusha,
milhares de olhos, milhares de pés
e, pervadindo a Terra por todos os lados,
enche o espaço na largura de dez dedos.
O Purusha é todo o que hoje é,
o que foi e o que será,
é senhor também da imortalidade
da qual, devido ao alimento , ele está por cima (…).
Viráj nasceu dele
e de Viráj nasceu o Homem.
Tão pronto como nasceu foi maior que a Terra
por trás e por diante (…).
Sobre o florido tapete sacrifical espargiram
o Homem, nascido no princípio:
sacrificaram-lhe os deuses
e também os Sádhyás e os sábios poetas.
Deste sacrifício de oferenda total,
formou-se o leite coalhado e a manteiga,
dali fizeram-se os animais regidos pelo vento,
os das florestas e os das aldeias.
Deste sacrifício de oferenda total,
nasceram estrofes e melodias,
também nasceram os ritmos
e as palavras rituais (…).
Quando imolaram o Homem,
em quantas partes o dividiram?,
que foi de sua boca, dos seus braços,
que foi das suas coxas, como se chamaram seus pés?
O sacerdote foi sua boca,
seus braços converteram-se no guerreiro,
suas coxas foram os lavradores,
de seus pés nasceram os serventes.
A lua nasceu do seu pensamento
de seus olhos o sol,
da sua boca Indra e Agni,
do seu hálito Váyu (…).
Ao Sacrifício sacrificaram os deuses o sacrifício,
tais foram as primeiras leis.
A força de tal fato alcançou os céus,
onde estão os seres antigos.
Rig Veda
, X:90

Este hino apresenta o mito genésico do Purusha. A idéia do Purusha será posteriormente recolhida pela filosofia Sámkhya. Purusha, no contexto do Sámkhya, significa o ser puro, o Princípio de vida, imutável e eterno. A descrição insiste no ilimitado do seu ser em relação à terra. Para transmitir a circunstância do sacrifício, o autor usa uma linguagem carregada de símbolos que recolhe os elementos do ritual vêdico: manteiga (ghee), fogo, oferenda. Estes elementos, alegoricamente, personificam-se nas estações do ano.

Posteriormente, enumeram-se as coisas que nasceram dele: os alimentos, os animais selvagens (‘os das florestas’) e os domésticos (‘os das aldeias’), as estrofes, melodias e ritmos, e também as fórmulas para o sacrifício.

Até este ponto do poema não percebemos o sacrifício em si. Para transmitir a vivência crua do esquartejamento, o poeta se faz uma sucessão de perguntas: em quantas partes o dividiram, e qual foi o destino de cada uma? As respostas remetem à gênese do Universo: a terra, o sol, a lua, o céu, o fogo, a organização da sociedade e as primeiras leis.

Neste sacrifício original sustenta-se a tradição vêdica, na qual se expressam as correlações e o jogo de equilíbrio das forças da Natureza. O corpo humano é uma imagem do Cosmos. Seu sacrifício origina o mundo e portanto, para manter essa ordem universal (rta), o homem deve emular o sacrifício primordial através da ascese, a oferenda de mantras ou do fogo, a retenção do alento, a sublimação da energia sexual. A oferenda é sutil, e pretender ver aqui a descrição de um sacrifício humano…

Existe uma estrutura monolítica e coerente nos Vedas: o arranjo numérico que os sustenta é certamente a razão pela qual puderam ser conservados durante milênios com total exatidão; visto que os textos podem ser ‘raciocinados’, fica muito mais fácil lembrá-los. Os hinos correspondem a determinados pontos dos altares do fogo. S. Kak desmontou literalmente e examinou com cuidado a estrutura, o número e a disposição dos tijolos utilizados nos altares vêdicos do fogo achados em sítios arqueológicos do vale do Indus-Saraswatí. Chegou a conclusões surpreendentes que mostram que os construtores haviam estabelecido uma sincronização entre os 365 dias do ano solar e os 354 do ano lunar, refletida na construção dos altares.

Tudo o que implica contagem – seja na composição de altares, seja na de hinos ou mandalas – é reflexo de alguma correlação matemática, de distância entre o sol e a terra, entre a lua e a terra, ou outras. Em termos de diâmetro solar, a distância aproximada entre o sol e a terra é de 108 vezes o diâmetro do sol. A distância média entre a lua e a terra é de 108 vezes o diâmetro lunar. Esses valores se obtém através de simples observações visuais, que podem fazer-se a olho nu: colocando uma vara no chão e afastando-se dela 108 vezes a sua altura, obtém-se a dimensão angular exata do sol ou da lua. Essa é a razão pela qual o número cento e oito é considerado sagrado, e pela qual os japamálás ou ‘terços’ utilizados para a prática de mantra, possuem 108 contas. Simbolicamente, fazer uma volta de japamálá eqüivale a fazer uma jornada para o céu, pois 108 é também o número que representa a região média (antariksha) entre o céu e a terra. Como parte da correspondência entre ‘o que está embaixo e o que está em cima’, 108 é igualmente a metade do número de grupos de hinos do Rig Veda.

Os números sagrados 296 e 382 proporcionam a razão 1,29. Razão (ratio), é o parâmetro que expressa a taxa de crescimento de uma determinada seqüência de números. Essa razão de 1,29 é precisamente a que existe entre o dia mais longo e o mais curto na latitude da cidade sagrada de Ujjain, que corresponde exatamente à latitude do vale seco do rio Saraswatí, lugar de composição dos Vedas. A supreendente exatidão dessas observações demonstra de maneira categórica que os Vedas são uma criação original do solo indiano.

Por essas razões é que a astronomia possui uma importância capital para a cultura vêdica do Indus-Saraswatí, e faríamos muito bem em deixar para sempre de usar o termo pré-científico para defini-la, pois a verdade é que estas constatações mostram que a ciência da Índia antiga estava tão avançado nos tempos vêdicos que Hiparco de Alexandria e os gregos, que foram por um momento considerados os pais da astronomia no Ocidente, não eram mais que lactentes, quando comparados com a estatura dos rishis e seu conhecimento. Talvez este seja o golpe de graça no ego do eurocentrismo. Por outro lado, não surpreende que hoje a Índia seja o país que aporta mais cientistas ao mundo no campo das ciências exatas, pois os indianos levam no seu inconsciente coletivo uma cosmovisão completa expressada em números.

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