Āsana, Pratique

A desafiante Postura do Lótus

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Permanecer sentado com as pernas cruzadas, os pés apoiados sobre as coxas opostas e as plantas voltadas para cima, os calcanhares próximos ao osso púbico, mantendo a coluna ereta e as mãos sobre os joelhos, que idealmente tocam o solo, pode ser algo bem interessante de se ver, bem como parece algo importante para se fazer no Yoga. Entretanto, muitos não conseguem ainda perceber o que há por trás dessa polêmica posição chamada padmásana, a postura do lótus.

O padmásana não é tão bem simples assim de se executar como alguns possam achar. Partindo-se do princípio de que cada corpo é único e distinto dos demais, sabemos que, dependendo da mobilidade do quadril, algumas pessoas podem cruzar as pernas e sentar em padmásana com a maior facilidade, enquanto que essa ação pode ser difícil, forçada ou até mesmo impossível para outros corpos com menos flexibilidade.

É natural o praticante querer se firmar como yogi, não só sentando em padmásana, mas ainda executando outras posturas ditas ‘avançadas’. No entanto, é conveniente parar para analisarmos se a forma em que fazemos a posição do lótus é 100% sadia.

Um sinal de falta de alinhamento ou falta de mobilidade no quadril nesta posição sentada é aquele formato de ‘sanfona’ que se apresenta na altura dos tornozelos, nas laterais internas dos pés. Nesse ‘efeito sanfona’, a pele está enrugada, sem contar aquele incômodo que pode aparecer pelos joelhos. Faça a postura e observe se, por ventura, esse é seu caso.

Talvez, para alguns, essa pele enrugada nas partes internas dos tornozelos não se apresente, pois do corpo do praticante se encaixou corretamente ao ásana. Para outros, essa ‘sanfona’ é mais que evidente, nos dando a pista de que o padmásana assim executado pode trazer eventuais problemas para os joelhos do praticante.

Os problemas que podem se apresentar neste caso são a compressão indesejável dos meniscos mediais, e o estiramento desnecessário e lesivo dos ligamentos externos dos tornozelos. Se os tornozelos internos estiverem comprimidos, isso significa que as partes externas deles estarão, por sua vez, forçadas numa posição de instabilidade.

Sabemos que ligamentos e tendões não devem ser alongados, pois eles têm um fator de elasticidade de apenas 4%. Uma permanência excessiva numa posição forçada desse jeito poderá resultar em perda da instabilidade dessas estruturas articulares e numa lesão posterior, que pode acontecer por exemplo quando a pessoa anda num terreno irregular ou com um calçado inadequado e torce o tornozelo.

Uma das boas alternativas ao padmásana é o sukhásana, onde os joelhos não sofrem tanto, já que não há compressão dos meniscos mediais, nem dos tornozelos, sendo considerado um fácil e confortável ásana para aqueles que buscam o estado de meditação. Mesmo assim, adaptações são recomendáveis, como o uso de almofadas, cunhas ou blocos de espuma densa para apoiar o joelho que não ficar em contato com o chão, que corresponde ao pé que fica por cima.

No meio do caminho entre a postura do lótus e a postura fácil, temos o meio lótus, ardha padmasana, onde apenas um dos pés fica apoiado sobre a coxa oposta, com a planta voltada para cima e o calcanhar próximo ao osso púbico, enquanto que o outro pé fica por baixo, com o dorso apoiado no chão. Mesmo nesse caso, observe se o efeito sanfona aparece no tornozelo do pé que fica por cima, sendo que se isso vier ocorrer, pense na possibilidade de se adaptar.

Para aqueles que não sentirem muita estabilidade neste ásana, recomenda-se mantê-lo por breves períodos, evitando permanências muito prolongadas. Isso exclui, obviamente, o uso desta postura nas práticas longas de pranayama ou meditação.

Sabemos que os indianos por hábito, costume ou por falta de cadeiras sentam com facilidade no chão, o que não acontece por aqui. Mesmo que aquele palestrante que veio do Oriente fique por horas a fio em padmásana, sem demonstrar qualquer incômodo, não existe a mínima necessidade de você querer imitá-lo, pois o que verdadeiramente importa é nos sentirmos firmes e confortáveis em qualquer assento que adotarmos.

Ainda que alguém afirmar que para se tornar um sábio você deve sentar por longos períodos em padmásana e que isso é apenas uma questão de prática tome cuidado, pois essa atitude pode ser apenas sinal de certa ignorância em relação à necessidade de respeitar os limites biológicos de cada corpo e aos potenciais efeitos negativos do ásana. Harih Om!

Humberto é professor de Yoga em Campinas.
Mantém o excelente blog Yoga em Voga.

6 respostas para “A desafiante Postura do Lótus”

  1. Pedro,

    Não entendi exatamente o quê é esse tal “efeito sanfona” nos tornozelos a que você se refere. Você poderia me indicar alguma foto ou ilustração a este respeito?
    Tenho efetuado algun exercícios com o objetivo de adquirir a flexibilidade necessária para conseguir executar o padmasana.
    Segue:
    https://youtu.be/Z8LOhZmuVaE

    Você acha que estes exercícios podem, também, representar algum risco?
    Uma pergunta que me ocorreu agora, você acha que existem pessoas que não deveriam nunca executar a postura padmasana ou qualquer um pode conseguir obter a flexibilidade necessária se treinar com cautela apesar dos riscos?

  2. Muito bom o artigo sobre padmasana – e evetuais cuidados, claro! No entanto, asana – que seria apenas uma postura instável, coluna ereta, que não cause embaraço e não pertube a mente direcionada para a meditação – é somente a terceira etapa do sistema de Raja Yoga de Patanjali. Nós praticantes de alguma modalidade de yoga precisamos ir mais além se, de fato, nosso propósito com essa prática seja conhecer o Paramatma, o Espirito Supremo.
    Pranayama, a etapa seguinte, consiste em controle da energia vital. Pratyahara, logo depois, controlada a energia vital, consiste em retirá-la dos sentidos e encaminhá-la mentalmente por meio da força de vontade para os centros de energia e consciência distribuidos ao longo da coluna vertebral até o cérebro.
    Os tres passos seguintes, Dharana – concentraçao – ,Dhyana – meditação – e Samadhi – absorção de Atman em Brahman, do Eu no oceano cosmico do Espírito é a Raja Yoga propriamente dita.
    Mais do que proporcionar bem-estar fisico, a finalidade da Yoga, como bem diz seu conceito – a ciencia da união com Deus – é dar ao praticante devoto é a experiencia consciente do Divino. Isso é autorrealização. Autorrealização divina é a única finalidade da existencia material de um homem ignorante como eu. Om Shanti!

  3. Estou muito grata por éssa magnifica aula; pois assim cada vez mais podemos nos aprofundar atravéz desse site,com a certeza de que estamos fazendo tudo cérto e podemos modificar alguns asanas que por ventura possam não estar tão completos!Namaste.

  4. Sempre pratiquei meditação e pranayamas, mantras etc., com siddhasana mesmo. Para mim é mais fácil e confortável. De qualquer maneira, o importante é: coluna ereta e mente desperta. Valeu.

  5. Gostei muito do teu artigo, até por que eu fui umas das pessoas que encontrou alguém pelo caminho que me dizia que para ser sábia teria que ficar na posição de lotus, sim.
    Até hoje, apessar de praticar diariamente Yoga, tenho muita dificuldade de ficar na posse. Por intuição mesmo, adotei as almofadas para me apoiar melhor.
    Mas isso me frustrava me sentia incapaz, e ao invés de me aliviar me perturbava. Hoje teu artigo me deu ânimo para continuar nas minhas tentavas com o auxílio de almofadas, sem culpa nenhuma.
    Obrigada e parabéns pelo site.

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