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A História de Satyakāma

Este fragmento da Chāndogyopaniṣad revela, através da belíssima história do jovem Satyakāma, a maneira em que, na Índia antiga, o autoconhecimento era acessível a todos, independentemente de posição social. Filho de uma prostituta, ele desconhece sua linhagem, mas ainda assim não hesita em se apresentar um mestre para lhe pedir instrução. O guru o aceita sem reservas, e lhe propõe uma provação: morar no mato sozinho por um período. Nesse período, ele será instruído pelos animais selvagens, bem como por Agni, o fogo sagrado.

Escrito por tradução por Pedro Kupfer · 4 mins de leitura >

Este fragmento da Chāndogyopaniṣad revela, através da belíssima história do jovem Satyakāma, a maneira em que o autoconhecimento era acessível a todos, independentemente de casta ou posição social na Índia antiga.

Esta narrativa milenar derruba, assim, o mito vigente hoje em dia que diz que, naqueles tempos, o sistema de castas era hereditário e o conhecimento somente seria acessível aos membros da casta alta. O que determinava a posição no sistema de castas na época, como fica muito claro pela leitura deste trecho da Chandogya, era a disposição ética da pessoa e não seu nascimento.

Filho de uma prostituta, Satyakāma desconhece a sua linhagem (gotra), mas ainda assim não hesita em se apresentar àquele que escolheu como guru para lhe pedir instrução. O conhecimendo do próprio gotra era essencial na época para saber quais śāstras cada pessoa iria estudar, dado que cada grupo familiar cuidava de um Veda e um conjunto de Upaniṣads, que eram transmitidos dessa maneira para a geração seguinte.

O mestre aceita o menino sem reservas, e lhe propõe uma provação: ficar morando no mato sozinho por um tempo, cuidando do gado. Nesse período, ele será instruído pelos animais selvagens, bem como pelo próprio fogo sagrado, Agni. Finda essa provação, ele recebe a instrução da boca do próprio mestre.

Capítulo IV — Satyakāma
1
Uma vez, Satyakāma, o filho de Jabalā, se dirigiu à sua mãe e disse: “venerada mãe, tenho o desejo de me tornar um brahmācharin (jovem que se dedica à espiritualidade). Qual é meu gotra (linha ancestral)?
2
Ela respondeu: “Eu não sei, minha criança, qual é seu gotra. Na minha juventude, eu vivi preocupada com muitos deveres em casas diferentes, servindo diferentes senhores quando lhe concebi. Não sei quem é seu pai. Meu nome é Jabalā e você é Satyakāma. Assim, você pode dizer que você é Satyakāma Jabalā (Satyakāma, filho de Jabalā)”.
3
Ele voi até Gautama, filho de Haridrumata e disse: “Venerável senhor, tenho o desejo de viver consigo como brahmacarin. Posso me aproximar de você como um estudante?”
4
Gautama disse a ele: “Qual é seu gotra, querido amigo?”
Satyakāma disse: “Desconheço a minha ancestralidade. Perguntei à minha mãe sobre isto e ela respondeu: ‘Eu não sei, minha criança, qual é seu gotra. Na minha juventude, eu vivi preocupada com muitos deveres em casas diferentes, servindo diferentes senhores quando lhe concebi. Não sei quem é seu pai. Meu nome é Jabalā e você é Satyakāma’. Portanto, senhor, sou Satyakāma Jabalā”.
5
Gautama disse: “Ninguém que não fosse um verdadeiro brahmaṇa falaria dessa forma. Prepare o combustível, querido amigo: irei lhe dar iniciação. Você não se afastou da verdade”.
Ele iniciou Satyakāma. Havendo separado quatrocentas vacas magras e fracas do seu rebanho, ele disse: “Querido amigo, parta com elas”.
Levando elas para a floresta, Satyakāma disse: “Não devo retornar até que elas se tornem mil. Ele viveu por vários anos na floresta. Quando as vacas tinham se tornado mil…

Capítulo V — A Instrução pelo Touro
1
O touro do rebanho, dirigindo-se a ele, disse: “Satyakāma!”
“Venerável senhor!” Satyakāma respondeu. O touro disse: “Querido amigo, tornamo-nos mil, leve-nos de volta para a casa do mestre”.
2
“Irei revelar a você um dos pés de Brahman.”
“Revele-lo, venerável senhor”.
O touro disse a ele: “O leste é um quarto, o oeste é um quarto, o sul é um quarto, o norte é um quarto. Este, querido amigo, é um pé de Brahman, que consiste de quatro quartos, e este pé é chamado Prākāśavat (efulgente)”.
3
“Aquele que sabe disto e medita no pé de Brahman que consiste de quatro quartos, como o efulgente, torna-se ele próprio efulgente nesta terra. Ele conquista os mundos efulgentes. Aquele que sabe disto e medita no pé de Brahman que consiste de quatro quartos, como efulgente”.

Capítulo VII — A Instrução pelo Fogo
1
O touro depois disse: “Agni, o fogo, irá revelar a você outro pé de Brahman”.
Então, quando amanheceu, Satyakāma conduziu o gado em direção à casa do mestre. Quando parou para pernoitar naquele entardecer, acendeu um fogo, recolheu as vagas, colocou combustível na fogueira e se sentou ao lado dela, voltado para o leste.
2
Agni, o fogo, dirigindo-se a ele, disse: “Satyakāma!”
“Venerável senhor!” Satyakāma respondeu.
3
“Querido amigo, irei revelar a você um pé de Brahman.”
“Revele-o, venerável senhor!”
Agni disse a ele: “A terra é um quarto, o céu é um quarto, o paraíso é um quarto, o oceano é um quarto. Este, amigo querido, é um pé de Brahman, que consiste e quatro quartos e este pé é chamado Anāntavat (ilimitado)”.
4
“Aquele que sabe disto e medita no pé de Brahman que consiste de quatro quartos, como ilimitado, torna-se ilimitado nesta terra. Ele conquista mundos ilimitados. Aquele que conhece isto e meditação no pé de Brahman que consiste de quatro quartos, como o ilimitado”.

Capítulo VII — A Instrução pelo Cisne
1
Agni depois disse: “Um cisne, haṁsa, vai lhe revelar outro pé”.
Satyakāma então, no dia seguinte, conduziu as vacas na direção do lar do mestre. E quando chegou aquele entardecer, acendeu um foto, recolheu as vacas, colocou lenha na fogueira e sentou à frente dela, voltado para o leste.
2
Então, um cisne voou até ele e disse: “Satyakāma!”
“Venerável senhor!”, Satyakāma replicou.
3
“Querido amigo, irei revelar a você um pé de Brahman”.
“Revele-o, venerável senhor”.
O cisne disse para ele: “O fogo é um quarto, o sol é um quarto, a lua é um quarto, o raio é um quarto. Este, querido amigo, é um pé de Brahman, que consiste de quatro quartos, e este pé é chamado Jyotiśmat (luminoso).
4
“Aquele que conhece isto e medita no pé de Brahman como luminoso, que consiste de quatro quartos, torna-se luminoso nesta terra. Ele conquista mundos luminosos. Aquele que sabe disto e medita no pé de Brahman que consiste de quatro quartos, como luminoso”.

Capítulo VIII — A Instrução pelo Mergulhão
1
O cisne depois disse: “Um madgu (mergulhão) vai lhe revelar outro pé”.
Satyakāma então, quando amanheceu, levou o gado em direção à casa do mestre. E quando comecou o entardecer, acendeu um fogo, atendeu as vacas, colocou lenha no fogo e sentou à frente dele, olhando para leste.
2
Então, um mergulhão voou em direção a ele e disse: “Satyakāma!”
“Venerável senhor!”, Satyakāma respondeu.
3
“Querido amigo, irei revelar a você um pé de Brahman”.
“Revele-o, venerável senhor”.
O mergulhão disse a ele: “O prāṇa é um quarto, o olhar é um quarto, o escutar é um quarto, a mente é um quarto. Este, querido amigo, é um pé de Brahman, que consiste de quarto quartos. Este pé é chamado Ayatanavat (aquele que possui suporte).
4
“Aquele que conhece isto e medita no pé de Brahman que consiste de quatro quartos como Ayatanavat, possui suporte (id est, um lar) nesta terra. Ele conquista os mundos que oferecem abrigo. Aquele que sabe disto e medita no pé de Brahman que consiste de quarto quartos como Ayatanavat”.

Capítulo IX — A Instrução pelo Mestre
1
Satyakāma alcançou a casa do mestre. O mestre disse para ele: “Satyakāma!”
“Venerável Senhor!” Satyakāma replicou.
2
O Mestre disse: “Querido amigo, você brilha como alguém que conhece Brahman. Quem lhe ensinou?”
“Seres diferentes dos homens”, ele respondeu. “Mas desejo, venerável senhor, apenas ser instruído por você”.
3
“Pois ouvi dizer de pessoas como você mesmo que só o conhecimento que é aprendido de um ācārya (professor) conduz ao bem mais elevado”.
Então ele (Gautama), ensinou a ele o mesmo conhecimento, sem deixar nada de fora. De fato, sem deixar nenhum detalhe de fora.

5 respostas para “A História de Satyakāma”

  1. Pedro, Grata por repassar este profundo ensinamento. Particularmente me identifico com as histórias, os mitos. Um conhecimento “tântrico” em um texto vedântico, ensina que a distinção das duas disciplinas é separatista, fragmentada como tem sido o paradigma dualista. Os ensinamentos esotéricos do texto devem ser passados. Parampara, acredito eu.

  2. Amigo Pedro, gostei muito do texto, mas não pude compreender a lição dada sobre Brahman, seria possível elucidar pq o discipulo sentava sempre para o leste, e o que queria dizer cada quarto do pé de Brahma? Namastê

    1. A vida é cheia de destinos paralelos que podem nos ocorrer, meu amigo. Precisamos sempre estar preparados para aquilo que der e vier. Na dúvida, sempre escale o Allejo no leste, pois é garantia de fortunas no futuro. Eu ainda tenho dúvidas na ficha de treino e nem por isso me questiono sobre o pé de Brahma.

  3. Em minha cidade é difícil encontrar locais para a pratica de Yoga e os que encontro são bastantes caros, o que limita esse conhecimento só para quem tem melhores condições. Todo conhecimento foi dado de graça pela natureza, só que hoje se paga caro por ele.

    1. Caro Vitor,
      esse conhecimento não foi dado nem de graça, nem pela natureza. Não é como o fruto de arvore em beira de estrada, quem quiser pega.
      Muitos foram longe atrás desse conhecimento e gastaram bastante tempo e dinheiro para adquiri-lo.Outros o encontraram mais perto mas gastaram da mesma forma.
      Agora não é somente o mercantilismo desse conhecimento, mas quem se devota a ensinar tem que ter remuneração digna.
      Não são monges que renunciaram aos bens e conforto, são gente como vc., que têm família e casa p/ sustentar, prestações , colégios e planos de saúde.
      Tudo acaba de fato saindo caro, mas no final é dinheiro bem investido, no conhecimento de nós mesmos aonde está a felicidade que tanto almejamos.

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