Pratique, Yoga na Vida

A Iluminação no Cotidiano

A tradição yogika conhece dois caminhos diferentes que conduzem à iluminação. Destes, o primeiro é o da prática constante e o desapego (abhyasa e vairagya). O segundo caminho que propõe a iluminação como forma de vida é muito menos conhecido.

Escrito por Pedro Kupfer · 3 mins de leitura >
Iluminação

Iluminação é samādhi?

A tradição yogika conhece dois caminhos diferentes que conduzem à iluminação. Destes, o primeiro é o da prática constante e o desapego (abhyāsa vairāgyaṁ), postulado por Patañjali no Yogasūtra.

O segundo caminho propõe a iluminação como forma de vida e é chamado Karmayoga, ou o Yoga das Ações. Nós preferimos chamá-lo Yoga da Vida. Nesse caminho, iluminar-se não significa negar ou ficar de costas para o corpo e para a vida no mundo.

A experiência da libertação e a existência no mundo são perfeitamente compatíveis. Essa possibilidade de levar uma vida onde a iluminação flua no cotidiano, então, é o Karmayoga.

Quando falamos aqui em iluminação, não estamos a nos referir ao samādhi, aquela experiência meditativa que muitos confundem com o objetivo do Yoga. A meta do Yoga não é um estado meditativo, nem uma absorção, nem nada do gênero, mas mokṣa, a liberdade.

O samādhi é uma  peculiar absorção na qual a dicotomia sujeito-objeto, característica do estado de vigília, é temporariamente abandonada através da identificação total do meditador com o objeto da meditação.

Essa experiência, como todas as demais, tem um início, um meio e um fim. Portanto, experienciar o samādhi não é garantia de paz contínua nem a solução para atenuar as aflições.

Fatalmente, após esta profunda experiência, existe a volta às experiências do corpo, da mente e do ego.

Tudo continua como estava antes: os medos, os condicionamentos e o sofrimento voltam à tona. Tornar-se mais forte do que as próprias fraquezas é tarefa das mais árduas, pois a identificação com a dualidade é um hábito do qual é extremamente difícil libertar-se.

É por isso que algumas tradições yogikas não dualistas, tanto tântricas quanto vedānticas, negam enfaticamente a necessidade de buscar essas experiências. Elas não são nem definitivas nem duradouras.

A ideia é que não devemos libertar-nos do mundo, mas no mundo. O mundo não é algo diferente de nós mesmos, do qual devamos fugir.

O mundo é uma projeção do poder da Consciência Ilimitada, igualmente presente em tudo e em todos. Portanto, tudo é sagrado.

Iluminação

O Tripura Rahasya e a iluminação espontânea

Essa atitude, revolucionária em termos do que se entende por prática de Yoga atualmente, está belamente expressada num śāstra do tantrismo śaktādvaita (śaktismo não-dualista) chamado Tripura Rahasya (“O Segredo das Três Cidades”) e atribuído ao sábio Śrī Dattatreya.

Este texto narra a história do príncipe Hemacuda e a princesa Hemalekha, do reino de Videha e tem como objetivo demonstrar que nem sequer mil samādhis conseguem tirar a pessoa da rede de seus próprios karmas e samskāras.

A história é a seguinte. Um dia, o príncipe estava caçando na floresta quando foi supreendido por uma forte tormenta. Vislumbrando em meio à chuva, a ermida de um sábio no alto de uma montanha, tomou a decisão de refugiar-se nela.

A bela filha do sábio, Hemalekha, abriu a porta e deu-lhe as boas-vindas. O príncipe apaixonou-se imediatamente pela moça sua mão em casamento. Obtida a aprovação do pai, eles casaram.

O tempo passou e, apesar de Hemalekha ser uma ótima esposa, bondosa e atenta, parecia não compartilhar a paixão pela vida que seu marido exibia.

Pelo contrário, estava sempre serena, e um pouco ausente, como que indiferente, tanto perante as coisas boas, quanto perante as coisas indesejáveis que acontecessem.

Isso produziu uma certa frustração no apaixonado príncipe, que, interrogando-a, obteve uma resposta que era, ao mesmo tempo, um pedido: “Estou em busca da felicidade eterna. Por favor, ajude-me a encontrá-la”.

De início, o príncipe achou que o pedido de sua esposa era absurdo e começou a questioná-la. Ao perceber a penetrante sabedoria de suas respostas, descobriu que estava tendo com ela o diálogo mais profundo que jamais tivera e vislumbrando coisas nas quais nunca tinha pensado antes.

Como resultado desse diálogo, o príncipe entrou numa profunda crise existencial e acabou por fechar-se em seu quarto para encontrar a iluminação. Não tardou muito em atingir e dominar o samādhi.

Uma vez, quando a princesa foi visitá-lo em um dos raros momentos em que ele estava fora desse estado transcendental, ele disse: “Alcancei a felicidade perfeita do samādhi”.

Iluminação

Porém, novamente, a bela e sábia Hemalekha, com sua profunda acuidade, demonstrou-lhe tranqüilamente que estava enganado. Disse-lhe então:

“Meu querido, creio que você ainda não aprendeu nada. Você está tão longe da iluminação quanto o reflexo das estrelas numa poça d’água está do céu, pois somente experiencia essa plenitude quando está sentado meditando. Que tipo de iluminação é essa que se dissolve quando você abre os olhos e se levanta?”

A princesa argumentou que, se ele precisava ainda concentrar-se tanto para entrar em samādhi, não tinha conquistado a iluminação real, a verdadeira felicidade.

Todavia, fez o príncipe perceber que o Ilimitado que estava procurando não era apenas ele próprio, mas igualmente todas as criaturas e todas as coisas.

Finalmente, revelou-lhe que o objetivo verdadeiro e secreto do Yoga é a felicidade real do sahaja samādhi, o samādhi espontâneo de manter a consciência da liberdade a cada momento.

Como resultado da aplicação desses ensinamentos, Hemacuda alcançou a verdadeira iluminação através do sahaja samādhi.

Naturalmente, também percebeu que sua esposa já havia alcançado esse estado havia tempos e ficou devidamente grato a ela. Assim governaram na paz do samādhi espontâneo, e todos no reino foram felizes.

Sahaja significa em sânscrito ‘nascer junto’. Esse termo faz referência à união de dois pólos: mukti e bhukti, a libertação e a experiência no mundo. Assim, sahaja samādhi é mokṣa, é a iluminação no dia-a-dia.

A esse respeito, o sábio Yājñavālkya nos diz na Aṣṭavakragītā, II:1-2:

Eu sou a pura e serena Consciência, mais além da natureza.
Durante muito tempo fui cegado pela ignorância.
Como o Único, ilumino este corpo e o mundo.
Possuo o mundo inteiro e, em verdade, nada possuo.

॥ हरिः ॐ ॥

Leia o Tripura Rahasya aqui
Leia o Vijñānabhairava Tantra aqui

॥ हरिः ॐ ॥

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7 respostas para “A Iluminação no Cotidiano”

  1. Linda essa história do príncipe Hemachuda e a princesa Hemalekha. Obrigada.

  2. Pedro estimado! Já faz tempo que estou para dizer que é muito difícil de achar os artigos aqui no seu site …. essa pérola teria me economizado tanto tempo se tivesse visto antes … hehe … Poxa, se no fundo do seu coração existe a aspiração de encurtar o caminho de iniciantes como eu… sorria … sinto que está conseguindo com muitos … esse artigo é uma pérola. Viva o Yoga! Jaya! Jaya! Jaya! Grato grato grato…(((_/\_)))) Murillo.

  3. Jesus anunciava em seu Evangelho: “brilhe a vossa luz”. O texto de Pedro reflete bem a proposta no Mestre. A luz deve brilhar em todos os lugares, e a luz não tem preconceitos: brilha para todos.
    Namastê.

  4. Que sejamos felizes. Que aprendamos do corpo que nos foi emprestado, da família que nos foi emprestada, do mundo em que vivemos, do ar que respiramos. Que possamos dar risadas nos momentos difíceis, pela simples convicção de que está tudo perfeito para aquele que se mantém consciente de seus atos, buscando o melhor de si para os outros, confiante na unidade de todas as coisas, sem duvidar, mas apenas acreditando e continuando no caminho eterno, estando aqui agora sempre. Just do it. Obrigado sempre. Om! Fernando.

  5. Tenho refletido muito sobre essa questão, da iluminação no dia a dia. Me parece que nos tempos em que vivemos não poderia ser de outra maneira, pois é lidando com as coisas do dia a dia com sabedoria que conseguiremos o samadhi total, ou seja, a Consciência.

  6. Obrigada pelo artigo.É sempre bom sabermos que podemos vivenciar experiências mundanas sem culpa.Cada um no seu próprio momento.O difícil, a meu ver, é justamente isto, a paz no cotidiano, pois ir para um ashram é muito fácil!
    Muita Luz.
    Namastê.
    Daniela.

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