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Vijñanabhairava Tantra

Bhairava e Bhairaví, amorosamente unificados no mesmo nível de conhecimento, deixaram o estado indiferenciado para que, assim, seu diálogo pudesse iluminar todos os seres.

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Vijñanabhairava Tantra 1

Vijñanabhairava Tantra

Bhairava e Bhairavī, amorosamente unificados no mesmo nível de conhecimento, deixaram o estado indiferenciado para que, assim, seu diálogo pudesse iluminar todos os seres.

1.
A Śakti de Bhairava, Bhairavī, disse:

Ó Deus, que manifestas o Universo e fazes luz dessa manifestação, tu és nada mais do que o meu Eu (Self). Eu tenho recebido os ensinamentos do Trika, a quintessência de todas as Escrituras. Entretanto, ainda tenho algumas dúvidas.

2-4.
Ó Deus, do ponto de vista da Absoluta Realidade, qual é a essência da natureza de Bhairava? Reside ela na energia dos fonemas? Na realização da essência da natureza de Bhairava? Em algum mantra em particular?

Nas três Śaktis? Na presença do mantra que vive em todos as palavras? No poder do mantra presente em cada partícula do Universo? Reside ela dentro dos cakras? No som ? Ou ela é apenas a Śakti?

5-6.
Aquilo que é composto, é nascido fora de ambas, energia imanente e transcendente, ou somente fora da energia imanente? Se for produto apenas de energia transcendente, então a própria transcendência não teria objetivo.

A transcendência não pode ser diferenciada por sons ou partículas e a sua natureza indivisível não pode ser expressa na dualidade.

7-10.
Ó Mestre, possa Sua graça afastar minhas dúvidas!

Excelente! Tuas questões, ó bem amada, são a essência dos Tantras. Eu vou desvelar-te um ensinamento secreto. Tudo o que é percebido como forma composta da esfera de Bhairava deve ser considerado como fantasmagoria, mágica ilusória, uma cidade fantasma pairando no céu.

Tal descrição serve apenas para guiar aqueles que caem presas da ilusão e de atividades mundanas em direção à contemplação. Tais ensinamentos fazem sentido somente àqueles interessados em rituais e práticas externas e presos na dualidade.

Vijñanabhairava

11-13.
Do ponto de vista do absoluto, Bhairava não está associado com letras, nem com fonemas, nem com as três Śaktis, nem com o ato de abrir os chakras, nem com qualquer outra crença, e Śakti não constitui sua essência.

Todos estes conceitos contidos nas Escrituras são direcionados àqueles que têm a mente ainda muito imatura para conceber a Realidade Suprema.

São apenas aperitivos que existem para impulsionar aspirantes em direção a um comportamento ético e a práticas espirituais, para que assim eles possam realizar, algum dia, que a natureza última de Bhairava não está separada do seu próprio Eu.

14-17.
Êxtase místico não é assunto para pensamentos dualistas: ele é completamente livre de qualquer noção de localização, espaço ou tempo. Essa verdade somente pode ser tocada pela experiência.

Só pode ser alcançada por aqueles completamente libertos da dualidade e do ego, firme e plenamente estabelecido na consciência do Eu. Esse estado de Bhairava é preenchido com o puro prazer da unidade do tantrika (praticante do Tantra) com o Universo.

Somente esse estado é a Śakti. Dentro da realidade da própria natureza de alguém, assim reconhecida, contendo o Universo inteiro, esse alguém alcança a mais elevada esfera. Quem então pode ser adorado pela confiança? Quem pode, então, ser preenchido por esta adoração? Somente esta condição reconhecida como suprema é a Deusa Suprema.

18-19.
Assim como não há diferença entre a Śakti e aquele que a incorpora, nem entre substância e objeto, a Śakti é idêntica ao Eu. A energia das chamas nada mais é do que fogo. Toda a distinção nada mais é que prelúdio ao caminho do verdadeiro conhecimento.

20-21.
Aquele que alcança a Śakti concebe a não distinção entre Śiva e Śakti e entra pela porta do divino. Tal como o espaço é reconhecido quando iluminado pelos raios do sol, assim Śiva é reconhecido através da energia de Śakti, que é a essência do Eu.

22-23.
Ó Deus supremo! Tu que carregas um tridente e uma guirlanda de crânios, como alcançar a plenitude absoluta de Śaktique transcende toda a noção, toda a descrição, abolindo tempo e espaço?

Como realizar esta não separação do Universo? Em que sentido é dito que a Śakti suprema é a porta secreta para o estado de Bhairava? Podes responder a essas questões absolutas em linguagem simples?

24.
A Śakti suprema se revela quando inalação e exalação nascem e morrem nos seus dois pontos extremos, alto e baixo. Assim, entre duas respirações, experiencia o espaço infinito.

25.
Entre inalação e exalação, entre parar e seguir, quando a respiração se mantém estável entre os dois pontos extremos, interior e exterior do coração, dois espaços vazios te serão revelados: Bhairava e Bhairavī.

26.
Com o corpo relaxado durante a exalação e a inalação, deixa que tua mente se perca e perceba o teu coração, o centro energético onde flui a absoluta essência de Bhairava.

27.
Quando tiveres inalado ou exalado completamente, quando o movimento da respiração parar por si próprio, nessa quietude universal, a noção do ego desaparece e Śakti se revela.

28.
Considera a Śakti como brilho, luz mais e mais sutil, levada para cima através do caule do lótus, de centro a centro, pela energia da respiração. Quando ela se estabiliza no centro mais elevado, é o despertar de Bhairava.

29.
O coração se abre totalmente e, de centro a centro, Kuṇḍalinī dispara, ascendendo como um raio. Então, a glória de Bhairava se manifesta.

30.
Medita nos doze centros de energia, nas doze sílabas relacionadas a eles e liberta-te do materialismo para alcançar a suprema sutileza de Śiva.

31.
Foca tua atenção entre as sobrancelhas, mantém tua mente livre de qualquer pensamento dualista, deixa que tua forma seja preenchida com a essência do alento até o topo de tua cabeça e lá, mergulha em radiante espacialidade.

32.
Imagina os cinco círculos coloridos da pena de um pavão como sendo teus cinco sentidos disseminados por um espaço ilimitado e residindo na espacialidade do teu coração.

33.
Vazio, parede, seja qual for o objeto de contemplação, ele é a matriz da espacialidade da tua própria mente.

34.
Fecha teus olhos, veja todo o espaço como se este tivesse sido absorvido pelo interior da tua cabeça, torna teu olhar na direção interior e lá, vê a espacialidade da tua verdadeira natureza.

35.
O canal interior é a Deusa, como o caule do lótus, vermelho por dentro, azul por fora. Ele corre através do teu corpo. Meditando sobre este vácuo interior, alcançarás espacialidade divina.

36.
Conecta as sete aberturas da tua cabeça com teus dedos e funde-te em bindu, o espaço infinito entre tuas sobrancelhas.

37.
Se meditares sobre o teu coração, sobre o centro do topo ou entre os olhos, a fagulha que dissolverá pensamentos discursivos entrará em ignição, como quando se esfregam as pálpebras com os dedos. Então, te dissolverás na suprema consciência.

38.
Entra no centro do som espontâneo que ressoa por si mesmo, como o som ininterrupto de uma cachoeira. Ou enfiando os dedos nos ouvidos, ouve o som dos sons e alcança Brahman, o Ilimitado.

39.
Ó Bhairavī, canta o mantra Oṁ, o mantra da união amorosa de Śivae Śakti, vagarosa e conscientemente. Entra no som e quando ele se desvanecer, desliza para a liberdade do ser.

40.
Foca o surgimento ou o desaparecimento de um som, então alcança a inefável plenitude do vazio.

41.
Estando totalmente presente numa canção, na música, entra na espacialidade com cada som que surge e dissolve-se dentro dela.

42.
Visualiza uma letra (símbolo), deixa-te ser preenchido pelo seu brilho. Com aberta consciência, entra primeiramente na sonoridade da letra, então numa sensação mais e mais sutil. Quando a letra se dissolver no espaço, sé livre.

43.
Quando contemplas a espacialidade luminosa do teu próprio corpo irradiando em todas as direções, liberta-te da dualidade e te une com o espaço (universo).

44.
Se contemplares simultaneamente a espacialidade acima e abaixo, então a energia sem corpo te carregará para além do pensamento dualista.

45.
Reside simultaneamente na espacialidade na base, no teu coração, acima da tua cabeça. Assim, na ausência do pensamento dualista, a divina consciência desabrocha.

46.
Em um momento, percebe a não dualidade em um ponto do teu corpo, penetra o espaço sem limites e alcança a essência liberta da dualidade.

47.
Ó ser de olhos de gazela, deixa o éter permear teu corpo, funde-te na indescritível espacialidade da tua própria mente.

48.
Supõe que teu corpo é pura espacialidade radiante contida pela tua pele e alcança o infinito.

49.
Ó beleza! Sentidos disseminados no espaço dentro do teu coração, percebe a essência de Śakti como indescritivelmente fino pó de ouro cintilando em sua cabeça e partindo daí são despejados no espaço. Então conhecerás o supremo prazer.

50.
Quando teu corpo é permeado pela consciência, tua mente, unidirecionada, dissolve-se no teu coração, e tu penetras na realidade.

51.
Fixa tua mente no teu coração quando engajado em atividades mundanas, assim a agitação desaparecerá e em poucos dias o indescritível acontecerá.

52.
Fixa tua mente no fogo, mais e mais incandescente, que brota dos teus pés e te incendeia por inteiro. Quando nada mais restar que cinzas espalhadas ao vento, conhece a tranquilidade do espaço que volta ao espaço.

53.
Vê o mundo inteiro como um inferno em chamas. Então, quando tudo se tornar em cinzas, penetra a felicidade pura.

54.
Se mais e mais sutis tattwas são absorvidos por sua própria origem, a Deusa suprema te será revelada.

55.
Alcança o intangível alento focado entre teus olhos, então quando surge a luz deixa que Śakti desça ao teu coração e lá, na radiante presença, no momento de dormir, aprende a mestria dos sonhos e conhece o mistério da morte.

56.
Considera a totalidade do Universo sendo dissolvida em formas mais e mais sutis até que mergulhe em consciência pura.

57.
Se meditares sem o limite do espaço no tattva Śiva, que é a quintessência de todo o Universo, conhecerás o êxtase supremo.

58.
Ó grande Deusa, percebe a espacialidade do Universo, e seja o jarro que o contém.

59.
Olha para uma vasilha ou outro recipiente sem ver seus lados ou o material que o compõe. Em pouco tempo torna-te consciente do espaço.

60.
Assume estar em um lugar infinitamente espaçoso, livre de árvores, montanhas, vales. Deixa que teu olhar se dissolva no espaço vazio, enquanto tua mente relaxa.

61.
No espaço vazio que separa dois instantes de consciência, radiante espacialidade é revelada.

62.
Assim que o impulso de fazer algo surgir, pare. Então, nâo estando no impulso precedente nem no próximo, a realização brotará intensamente.

63.
Contempla todas as formas do teu próprio corpo e aquelas do universo inteiro como sendo de idêntica natureza. Assim teu ser onipresente e tua própria forma descansa em unidade e tú alcançarás a natureza última da consciência.

64.
Durante qualquer atividade, concentra-te no intervalo entre inalação e exalação. Assim atinge o êxtase.

65.
Sente tua essência: ossos, carne e sangue, saturados com a essência cósmica, e conhece o prazer supremo.

66.
Ó beleza com olhos de gazela, considera os ventos como sendo teu próprio corpo feito de prazer. Quando sentires a vibração, alcança a presença luminosa.

67.
Quando teus sentidos se desfazem e tua mente se torna quieta, entra na energia do alento e quando sentires um formigamento, conhece o prazer supremo.

68.
Quando praticas um ritual sexual, deixa que os pensamentos residam no balançar de teus sentidos como o vento nas folhas e alcança o gozo celestial do amor extático.

69.
No princípio da união esteja no fogo da energia liberada pelo prazer da intimidade sensual. Funda-te na divina Śakti e mantenha-te queimando no espaço, evitando as cinzas no final. Estes deleites são em verdade aqueles do Eu.

70.
Ó deusa! O prazer sensual do gozo da união íntima pode ser reproduzido a qualquer momento pela essência luminosa do espírito que se rememora intensamente este gozo.

71.
Quando te reencontrares com um ser amado, esteja totalmente dentro desta felicidade e penetra este espaço luminoso.

72.
Na hora da euforia e da expansão causada por delicadas comidas e bebidas, esteja totalmente nesse deleite e através dele experimenta o gozo supremo.

73.
Funde-te no prazer sentido através da música, ou outros prazeres de outros sentidos. Se te imergires neste prazer, alcanças o divino.

74.
Em qualquer lugar onde encontres satisfação, a mais profunda essência do prazer te será revelada se te mantiveres neste lugar sem deixar que tua mente divague.

75.
No momento de dormir, quando o sono ainda não chegou e o estado de vigília se desvanece, neste exato momento, conhece a Deusa suprema.

76.
No verão, quando teu olhar se dissolve no infinito céu azul, penetra nesta luz que é a essência de tua mente.

77.
Entrarás na espacialidade de tua própria mente no momento em que a intuição se liberta através da fixação do olhar, a sucção ininterrupta do amor, os sentimentos violentos, a agonia pela morte.

78.
Sentado em posição confortável, pés e mãos no vazio, ascenda ao espaço da inefável plenitude.

79.
Numa posição confortável, as mãos abertas e na altura das espáduas, uma zona de espacialidade luminosa se difunde gradualmente entre tuas axilas, banha o coração e traz paz profunda.

80.
Olha fixamente sem piscar para um pedregulho, um pedaço de madeira, ou outro objeto ordinário qualquer, o pensamento perde todo o propósito e rapidamente alcança Śiva-Śakti.

81.
Abre tua boca, volta tua mente para a tua língua ao centro da cavidade oral, exala com o som HA e conhece a pacífica presença para o mundo.

82.
Deitado de forma plana, vê teu corpo sem sustentação. Deixa que teus pensamentos se dissolvam no espaço, então os conteúdos da profundeza de tua consciência se dissolverão e experimetarás pura presença, liberta dos sonhos.

83.
Ó Deusa, sente os movimentos extremamente lentos do teu corpo, de um monte, de um veículo e, com a mente em paz, submerge no espírito divino.

84.
Fita o límpido céu azul sem piscar. A tensão dissolver-se-á durante teu olhar e então alcança a sagrada calma de Bhairava.

85.
Penetra a radiante espacialidade de Bhairava espalhada dentro de tua própria cabeça, abandona espaço e tempo, seja Bhairava.

86.
Quando alcançares Bhairava dissolvendo a dualidade enquanto desperto, quando a presença desse espaço continua durante o sonho, e quando então cruzares a noite do sono profundo na forma real de Bhairava, conhece o infinito esplendor do despertar da consciência.

87.
Durante uma noite escura, sem luar, olhos abertos na escuridão, deixa que todo o teu ser se derreta nessa obscuridade e alcança a forma de Bhairava.

88.
Olhos fecham, dissolve na escuridão, então abre teus olhos e te identifica com a sagrada forma de Bhairava.

89.
Quando um obstáculo se colocar no caminho da gratificação através dos sentidos, te apropria deste instante de vazio que é a real essência da meditação.

90.
Com todo o teu ser pronuncia uma palavra terminada com “AH” e no “H” deixa-te ser varrido pela torrente da sabedoria.

91.
Quando focas tua mente livre de estrutura no som final de uma letra, a
imensidão é revelada.

92.
Andando, dormindo, sonhando, a consciência livre de qualquer
propósito, conhece a ti mesmo como presença espacial radiante.

93.
Belisca uma parte do teu corpo e através deste único ponto, alcança o
domínio radiante de Bhairava.

94.
Quando através da contemplação, ego, atividade intelectual e mente se
revelam vazias, qualquer forma torna-se espaço ilimitado e a verdadeira
raíz da dissolução da dualidade.

95.
Ilusão perturba, os cinco sentidos obstruem a visão, separações
impostas por pensamentos dualísticos são artificiais.

96.
Quando tiver consciência de um desejo, considera-o pelo tempo de um
estalar de dedos, então derrepente, deixa-o partir. Então ele volta para o
lugar de onde veio.

97.
Antes de desejar, antes de saber: “Quem sou Eu, onde estou?” tal é a natureza do Eu, tal é a profundidade espacial da realidade.

98.
Quando desejo ou conhecimento se manifestam, esquece seus objetos e
foca tua mente em desejos ou conhecimentos não materiais sendo o Eu. Então alcançarás a realidade profunda.

99.
Qualquer conhecimento particular é decpcionante. Quando a sede do
conhecimento aflora, imediatamente realiza a espacialidade do próprio
conhecimento e seja Śiva-Śakti.

100.
Consciência está em toda parte, não há diferenciação. Realiza isto em
profundidade e assim triunfa sobre o tempo.

101.
Em estado de extremo desejo, raiva, cobiça, confusão, orgulho ou
inveja, entra no teu próprio coração e descobre a paz escondida.

102.
Se perceberes o universo inteiro como fantasmagoria, um inefável
prazer aflorará em ti.

103.
Ó Bhairavī, não reside no prazer nem na dor, em vez disso esteja
constantemente na inefável realidade espacial que une a ambos

104.
Quando realizas que estás em todas as coisas, a ligação com o corpo
se dissolve, o prazer último emerge.

105.
Desejo está em ti, como em todas as coisas. Realiza que ele está
também nos objetos e em tudo que tua mente possa imaginar. Então,
descobrindo a universalidade do desejo, penetra no seu espaço radiante.

106.
Todo o ser vivo percebe o subjetivo e o objetivo, mas o tântrico
reside na união entre ambos.

107.
Sente a consciência de cada ser como a tua própria.

108.
Liberta a mente de todo o propósito e aprende a não dualidade. Então
dona dos olhos de gazela, o ser limitado se transforma no Ser absoluto.

109.
Śiva é onipresente, onipotente e onisciênte. Se tens os atributos de
Śiva és semelhante a ele. Reconhece o divino em ti mesmo.

110.
Ondas nascem no oceano e nele se perdem, chamas nascem e morrem, o
sol se mostra então desaparece. Assim devem todas as coisas encontrarem
sua fonte na esoacialidade e a ela retornar.

111.
Vaga ou dança até a exaustão espontânea. Então, repentinamente te
deita no solo e seja total nessa queda. Alí a essência absoluta será
revelada.

112.
Suponha que estás gradualmente sendo despojado de energia e
conhecimento. No momento dessa dissolução, teu verdadeiro ser será
revelado.

113.
Ó Deusa, ouve o ensinamento místico último: você precisa apenas fitar
o espaço sem piscar para alcançar a espacialidade de tua própria mente.

114.
Interrompe a percepção do som tapando teus ouvidos. Contraindo o
ânus, começa a ressoanar e toca aquilo que não está sujeito ao tempo ou
espaço.

115.
À beira de um poço, olha sem se mover para suas profundezas até que a
maravilha se apodere de ti e funde-te no espaço.

116.
Quando tua mente divaga externa ou internamente, é precisamente
quando Śiva se manifesta. Onde pode o pensamento se refugiar para não saborear este estado?

117.
O Espírito está em ti e ao redor de ti. Quando tudo é pura
consciência espacial, alcança a essência da plenitude.

118.
Em estupor, ansiedade, sentimentos extremos, à beira do abismo,indo
para o campo de batalha, na fome ou no terror, ou ainda quando tú perderes o controle, a essência da espacialidade da tua própria mente pode ser possuída.

119.
Quando a vista de um certo lugar traz memórias passadas, deixa que
tua mente reviva estes instantes, então, quando as memórias se apagarem, a um passo além, conhece a onipresença.

120.
Olha para um objeto, então, lentamente retira teu olhar. Então retira
teus pensamentos e transforma-te no recpetáculo da inefável plenitude.

121.
A intuição que aflora da intensidade da devoção passional flui no
espaço, libera-te e te permite alcançar o domínio de Śiva-Śakti.

122.
Com a atenção focada em um único objeto, podes penetrar qualquer
objeto. Relaxa então na plenitude do teu próprio Ser.

123.
A pureza exaltada por pessoas religiosas ignorantes parece impura
para o tântrico. Livra-te do pensamento dualístico e não considera nada
como puro ou impuro.

124.
Compreende que a espacial realidade de Bhairava está presente em
todas as coisas, em todos os seres e seja esta realidade.

125.
Felicidade reside na igualdade entre sentimentos extremos. Reside no
teu próprio coração e alcança a plenitude.

126.
Liberta-te do ódio assim como do apego. Então, desconhecendo qualquer
aversão ou amarra, desliza em direção ao divino dentro de teu coração.

127.
Ser de coração doce e aberto, medita naquilo que não pode ser
conhecido, o que não pode ser alcançado. Toda dualidade estando fora do
alcance, onde pode a consciência estabelecer-se para escapar do êxtase?

128.
Contempla o espaço vazio, alcança a não percepção, não distinção, o
insólito, além do ser ou não ser: alcança o não espaço.

129.
Quando o pensamento se dirigir a algum objeto, utiliza esta energia.
Vai além do objeto, e alí, fixa teu pensamento neste espaço vazio e
luminoso.

130.
Bhairava é uno com tua consciência radiante, cantando o nome de
Bhairava, tornar-te-á Śiva.

131.
Quando tú estabeleces: “Eu existo”, “Eu penso isso ou aquilo”, “tal
coisa me pertence”, toca aquilo que é infundado e além de tais
estabelecimentos, conhece o ilimitado e encontra a paz.

132.
“Eterna, onipotente, insustentável, Deusa de todo o mundo
manifestado…”Seja esta e atinge Śiva-Śakti.

133.
O que chamas de universo é uma ilusão, uma aparição mágica. Para ser
feliz considera isto como tal.

134.
Sem o pensamento dualísta, o que poderia limitar a consciência?

135.
Na realidae, apego e liberação existem somente para aqueles que estão
aterrorizados pelo mundo e ignoram sua natureza fundamental: o universo se reflete na mente assim como o sol sobre as águas.

136.
No momento em que tua atenção desperta através dos órgãos dos
sentidos, entra na espacialidade do teu próprio coração.

137.
Quando conhecedor e conhecimento são um só, o Eu divino brilha
esplendorosamente.

138.
Ó bem amada, quando mente, intelecto, energia e o eu limitado
desaparecem, então aparece a maravilha de Bhairava.

139.
Ó Deusa, Já te revelei cento e doze dhāraṇā. Aquele que os conhece
escapa do pensamento dualista e atinge o conhecimento perfeito.

140.
Aquele que realiza um único destes dhâranâ se torna Bhairava. Sua
palavra se torna lei e ele obtém o poder de transmitir a Śakti à vontade.

141-144.
Ó Deusa, o ser que se torna mestre em uma única destas práticas
se vê livre da idade e da morte, ele obtém poderes paranormais, toda
yogiṇī e todo yogin o terão em alta estima e ele presidirá seus encontros
secretos. Liberado em meio à atividade e realidade, ele é livre.

A Deusa disse:

Ó Senhor, deixa que sigamos essa maravilhosa realidade que é a natureza
suprema de Śakti! Quem então é idolatrado? Quem é o idólatra?

Quem entra em contemplação? Quem é contemplado? Quem faz oferendas e quem as recebe? O que é sacrificado e para quem?

Ó Deusa de olhos de gazela, todas estas práticas são aquelas do caminho
externo. Elas servem para aspirações grosseiras.

145.
Somente a contemplação da mais alta realidade é a prática de um
tântrico. Aquilo que ressoa espontaneamente em alguém é a fórmula mística.

146.
Uma mente estável e sem características, aí está a real contemplação.
Visualizações de divindades cheias de cores não são mais que artifícios.

147.
A confiança não consiste em oferendas, mas na realização de que o coração é consciência suprema, livre de pensamentos dualístas. Em perfeito ardor, Śiva-Śakti dissolve-se no Eu.

148.
Aquele que penetra um único yoga aqui descrito, conhece a plenitude
que se espalha dia após dia para alcançar a mais alta perfeição.

149.
Quando alguém entrega ao fogo da suprema realidade os cinco
elementos, os sentidos e seus objetos, a mente dualista e até mesmo o
vácuo, então temos a real oferenda aos Deuses.

150-151.
Ó Deusa suprema, aqui o sacrifício nada mais é que satisfação
espiritual caracterizada pelo prazer. A real peregrinação, Ó Pārvatī, é a
absorção em Śakti que destrói toda a imperfeição e protege todos os
seres. Como poderia existir algum outro tipo de confiança e quem seria
glorificado?

152.
A essência do Eu é universal. Ela é autonomia, bem aventurança e
consciência. Absorção nessa essência é o banho ritual.

153.
Oferendas, devoção, suprema Śakti são o mesmo. Isso é devoção
suprema.

154.
Respiração entra e sai, sinuosamente por sí própria. Perfeitamente
sintonizada com a respiração, Kuṇḍalinī, a Grande Deusa, ascende.
Transcendente e imanente, ela é o mais alto local de peregrinação.

155.
Assim, profundamente estabelecido no ritual do grande prazer,
plenamente presente na ascensão da divina energia, grato à Deusa, o yogin alcançará o supremo Bhairava.

155a-156.
O ar é exalado com o soum Saḥ e inalado com o som Haṁ. Então o
recitar do mantra haṁsa é contínuo. Respiração é mantra, repetido mil e
uma vezes, dia e noite. É o mantra da grande Deusa.

157-160.
Ó Deusa! Eu acabo de te dar ensinamentos místicos últimos. Deixa
que eles sejam passados somente à seres generosos, àqueles que reverenciam a linhagem dos Mestres, às mentes intuitivas libertas de ondulações cognitivas e dúvidas e a quem for praticá-los.

Pois, sem a prática a transmissão se diluirá e aqueles que tiverem a divina oportunidade de receber esses ensinamentos retornam ao sofrimento e à ilusão ainda que tenham tido um tesouro eterno em suas mãos.

Ó Deus, eu agora alcancei a essência dos ensinamentos da quintessência do Tantra. Esta vida terá que ser deixada para trás, mas por que renunciar o coração de Śakti?

Assim como o espaço é reconhecido quando iluminado pelos raios do sol, assim é Śiva dito através da energia de Śakti que é a essência do Eu. Então, Śiva e Śakti, brilhando em plenitude, novamente se fundiram no indiferenciado.


॥ हरिः ॐ ॥

Vijñanabhairava Tantra: traduzido do sânscrito para o inglês por Daniel Odier, e deste para o português por Sérgio Baroukh.

॥ हरिः ॐ ॥

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3 respostas para “Vijñanabhairava Tantra”

  1. A cada nova leitura, mais aprendo.
    Obrigado ao tradutor.
    Este conhecimento permite a abertura de portas.

  2. Agradeço imensamente quem traduziu essa maravilha de texto e também aqueles que o viabilizam através deste site.Me esclareceu muitas coisas!!
    Namastê!
    Om namah shivaya!

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