Āsana, Pratique

Ásana, o tesouro perdido

Há uns três anos atrás resolvi praticar com maior intensidade alguns ásanas de força, muito mais pelo tapas e incentivo de uma pessoa próxima a mim. Praticávamos juntos e isso me mantinha estimulada. Uma das partes mais difíceis era o momento de treinar o chaturanga dandásana

Escrito por Ana Paula Malagueta Gondim · 3 mins de leitura >

Muito já se disse e especulou sobre os ásanas, a começar muitas décadas atrás por Patañjali:

Ásana é [a postura do corpo], firme e agradável. [O ásana] transcende-se ao relaxar no esforço e meditar no infinito. Assim, consegue-se o estado de transcendência das dualidades.’
Yoga Sutra
, II:46-48.

Nos dias de hoje, muitos praticam sequências ou séries pré-estabelecidas de ásanas, outros através do alinhamento corporal e alguns dizem que se preocupar apenas com o excelência no desempenho nos ásanas deve ser secundário e foge do objetivo do Yoga.

Por isso tudo e mais um forte desejo pessoal, gostaria de compartilhar a minha visão sobre os ásanas, tendo em vista uma experiência muito marcante para mim.

Há uns três anos atrás resolvi praticar com maior intensidade alguns ásanas de força, muito mais pelo tapas e incentivo de uma pessoa próxima a mim. Praticávamos juntos e isso me mantinha estimulada. Uma das partes mais difíceis era o momento de treinar o chaturanga dandásana. Eu detestava profundamente esta postura, desistia fácil. Mas como praticava com outra pessoa, está me incentivava a continuar persistindo.

Até que chegou um dia em que fiquei por um longo tempo neste ásana, longos minutos…. parecia uma eternidade, os ponteiros dos relógios pareciam congelados. Tentava desesperadamente me concentrar apenas na respiração, respirava, respirava e mesmo assim o tempo se arrastava. Dizia para mim que não ia desistir, mesmo que tremesse tudo. Eu não estava disposta a desistir. A postura não estava me machucando, eu estava respeitando 100% o ahimsa, então poderia continuar. Depois que o tremor do corpor cessou, inicio-se uma batalha interna. Minhas emoções e minha mente estavam armadas da cabeça aos pés, dispostas a tudo para me fazer desistir da permanência, que já se estendia por alguns minutos.

Percebi então, que a única coisa que eu poderia fazer no momento era respirar e observar. O fato foi que o jogo foi sujo. Começou a me bater um desespero. Eu senti uma vontade imensa de gritar e junto com essa sensação surgiu um forte tremor, que não era percebido fisicamente a olho nu. Tudo isso acontecia no meu universo interior. Parecia que o meu anáhata chakra ia explodir e que o manipura iria transbordar. Eu estava sentindo muito, muitas coisas. Eu não conseguia controlar ou entender o que sentia. Foi exatamente neste momento que comecei a chorar. Chorei, chorei e me debulhei em choro.

O choro passou. E com ele levou toda a guerra junto. A única coisa que ficou foi uma gostosa sensação de vitória. Eu havia vencido uma guerra interna. Eu havia vencido a mente e as emoções que tentaram sabotar minha permanência. Pois eu ainda estava firme e forte no ásana. Não existia tremor algum no meu corpo. Eu respirava tranquilamente quando tudo terminou. Finalmente percebi que agora pudia desfazer a postura.

Permaneci um bom tempo apenas ali. Deitada tentando juntar as peças do quebra-cabeça e compreender o que tinha acontecido. O que inicialmente seria apenas mais uma prática de Yoga, se tornou em uma incrível descoberta. Ali, em meio a permanência dissolvi um vásaná (extremamente forte, só para salientar), se fez a luz e pude claramente enxergar. O karma que havia gerado um vásaná que havia formado um vritti. Ufa! Uma coisa a menos, no meio de tantos samskáras.

Foi uma experiência totalmente surpreendente para mim. Foi a primeira vez que algo deste tipo havia acontecido. E aconteceu em um ásana! Todos os paradigmas e pré-conceitos estabelecidos depois daquele dia se foram e a prática de ásanas nunca mais foi a mesma. Percebi que há muito mais por de trás de um simples alongamento e esforço muscular. Há um universo além da manutenção do corpo e através das estradas de prana.

Os ásanas são aqueles que nos conduzem há um universo onde os músculos, as articulações, os órgãos e os ossos são o espelhos das nossas experiências passadas. Carregados do que somos. O simples fato de colocar o corpo de uma forma única nos leva a uma experiência diferenciada. A permanência nessas porturas ajudam a dissolver condicionamentos desenvolvidos ao longo das vidas. A liberar emoções presas nos chakras e a permitir que essa energia escoe por todo o nosso Ser. Levando esta energia a entrar em comunhão com o restante do corpo-mente. Nos tornando inteiros de consciência. Pura consciência.

Desde então faço questão de compartilhar isso com meus alunos, sempre que posso. Discursando que quando moldamos nosso corpo em uma postura, nos tornamos ela, de corpo e alma. Da importância de aproveitar a permanência e se observar. Depois que você checou se o corpo está bem posicionado, de que o alinhamento está correto e de há conforto, a viagem começa. A viagem em busca do tesouro perdido. Não estamos em busca de apenas colocar o pé atrás da cabeça, se fosse só isso, mandaria todos para o circo. Queremos mais! Queremos o tesouro.

Mergulhamos então na respiração que nos conduz pelo corpo e sentimos a nossa presença do dedão do pé ao último fio de cabelo. E cada novo ciclo respiratório, cada molécula de prána que percorre nosso corpo é uma nova oportunidade de sentir. Entender como nos sentimos naquela postura. O que passa pela nossa cabeça na permanência. Que tipo de emoção emerge. Permitir-se viajar pelo nosso Universo Interior. Pelo desconhecido, sem medo de defrontar as limitações e de superar o que antes era um muro interminável. Como o era aquela postura para mim. E viajar, sem se preocupar com o tempo, com o ganho final. Ishvara Pranidhana. Entregue-se. Busque o tesouro perdido: o Ser.

Om shanti! Om prema!

6 respostas para “Ásana, o tesouro perdido”

  1. ana seu comentario foi extremamente rico e importante principalmente parae o leigo que se interessa em ampliar seus conhecimentos.

  2. Olá Ana Paula, seu texto é muito bacana e me instigou várias reflexões. Uma delas é sobre a nossa dificuldade humana de poder suportar. Como é grande a tentação para ceder, para recuar e ir pelo caminho do conforto. Ou então, seguir por caminhos já conhecidos, que as vezes nem são confortáveis. Mudar e suportar é que é o desafio. E é só depois do suportar que podemos de fato superar(e transformar). Acho que você exemplificou aquilo com o que todo praticante deve se deparar na sua prática, com um dos pilares do Yoga, que pra mim é Tapas.
    Namastê e Tapas pra todos (desculpe, não resisti ao trocadilho).

  3. Sou apenas um iniciante na prática do Yoga. Já li algumas páginas preciosas aqui neste site. E não podia deixar de dizer que esse artigo faz-nos entender a verdadeira essência do Yoga e também dos Ásanas. Infelizmente estão tentando reduzir o Yoga a uma atividade físiaca, ou terapia como pilates por exemplo, e gosto quando leio algo que mostra o verdadeiro sentido do Yoga.

  4. SIMPLESMENTE MARAVILHOSA SUA EXPERIÊNCIA,TENHO POUCO TEMPO DE PRÁTICA, MAS TIVE ESPERIÊNCIAS QUE NÂO ENTENDI AINDA. MAS QUE ACRESCENTARAM MUITO NO MEU MODO DE VER AS COISAS A MINHA VOLTA.. PARABENS, CONTINUE A SER ESSA MARAVILHA DE DEUS. NAMASTÊ. IOLANDA

  5. Olá Ana Paula,
    eu precisava ler isto…… Acho que consigo resumir o quanto bacana foi ler o que escreveu e que a mensagem foi importante.
    Que sejamos todos sempre persistentes em nossos objetivos.
    Namastê
    Adriane

  6. Muito bom Ana, muito bom. Que os Bons Deuses protejam yoginis como você e que vc possa contnuar a passar esta experiência para seus alunos por muito tempo. Acredito muito que a descoberta de nossa infinita força interna através de um ásana e de todo o fluxo de energia nele contido é um dos melhores caminhos para aquilo que andam chamando de paz, ou, como você falou: “..consciência. Pura consciência”.

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