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Do amor e da ignorância

O amor deveria ser um encontro sagrado e não o distanciamento de quem somos. Deixar de ser quem somos por amor é, no mínimo, paradoxal

Escrito por Tereza Freire · 2 mins de leitura >

Sempre achei que não era digno de amor e, por isso, sempre encontrava um jeito de afastar quem quisesse me amar…

Ouvi esta frase de um amigo e me veio o estalo: eu também não me sentia digna de ser amada… Por isso, tantos envolvimentos complicados, desde os primeiros anos da minha vida. Desde o primeiro namorado, sempre pedindo, implorando amor de quem nem sempre queria dar e ignorando quem me amava verdadeiramente. Pura sabotagem.

Pulava de pára-quedas em relações difíceis e sofridas e escapava pra bem longe de qualquer possibilidade de alguém me amar por aquilo que eu era apenas, com todos os meus limites e defeitos. Tentava ser o que não era para agradar e cada vez mais, distanciava-me de mim…

Foi-me preciso chegar ao ponto de aceitar traições e rejeição como parte da evolução de uma relação. Achar que tolerar mentiras fazia parte do crescimento espiritual. E aceitar migalhas pensando em exercitar o desapego e a tolerância… Como assim?

Amor e sofrimento não podem fazer parte da mesma senda, não se complementam, muito menos deveriam se misturar. Quantas incoerências cometemos em nome da escravidão dos sentidos. Quantos vícios atrasando nosso crescimento…

O amor deveria ser um encontro sagrado e não o distanciamento de quem somos. Deixar de ser quem somos por amor é, no mínimo, paradoxal… Se o amor é o que nos faz ser, se foi do amor que nascemos e a ele, iremos retornar um dia.

‘Tirando-se a plenitude da plenitude, somente a plenitude resta’.

Esta é a maior prova de que a natureza nos contemplou com amor e plenitude em abundância. Por causa dos sentidos, sofremos, e esquecemos que somos bem aventurança. Caminhamos pela Terra envoltos pelo manto da ignorância e pela dor que ela nos causa.

Procuramos o Yoga como uma forma de nos livrarmos desta dor, tomando as rédeas de nossas vidas e caminhando em direção a uma luz que não sabemos onde fica, mas temos certeza que existe.

Quando compreendi que não era aquilo que aprendi a aceitar como eu, e sim, um Ser eterno, completo e observador de tudo o que acontece sem perder o distanciamento entre aquilo que vivo e aquilo que sou, pude, finalmente, entregar-me completamente, amadurecidamente, a outro Ser.

Não era mais um ‘Frankenstein’ composto por pedaços colocados juntos ao acaso, movendo-me desengonçadamente em um corpo que não encaixa a procura de outro corpo que me completasse… Mas um Ser que, em conformidade com o universo, aceita e respeita todos os movimentos como parte da existência.

Perceber a imensidão do Ser que posso vir a ser mudou toda a minha percepção de tempo e espaço. Não mais a pressa de encontrar o Santo Graal. Ele está dentro de mim, de nós.

Não mais querer, alcançar, conquistar e sim, ser… Não mais a pressa e sim, a contemplação. Porque tudo o que temos pressa pra conseguir, tudo o que desejamos, já é, já está, já possuímos…

‘Dentro do coração, em uma pequena cavidade, repousa o universo. Um fogo arde aí, irradiando em todas as direções.’
Mahanarayana Upanisad.

Namastê!

Tereza é yogini, mora e pratica em São Paulo. Dirigiu e produziu, em parceria com Daisy Rocha, o documentário Caminhos do Yoga, filmado na Índia em 2003.

Uma resposta para “Do amor e da ignorância”

  1. Achei incrível esse artigo… incrível mesmo. Tudo o que eu precisaria seriam alguns minutos de Yoga. Sou um pessoa muito agressiva, nervosa, ansiosa e estou me sentindo um ser diferente entre as pessoas.
    Queria poder contagiar as pessoas com sentimentos bons. Gostaria que elas sentissem prazer em estar ao meu lado.

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