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Do sagrado

Do your duty", me disse um sadhu de Rishikesh. Cumpra o seu dever. Na Índia, não existe sagrado e profano, como em nossa cultura ocidental. Para eles, tudo é sagrado

Escrito por Tereza Freire · 2 mins de leitura >

“Tudo é prasada“, disse a professora de Vedanta, “Tudo vem de Deus”. Esta afirmação abriu meus olhos e alma e entendi que tudo que fazemos é sagrado. Assim, cada gesto, cada alimento, cada palavra adquire sentido. Posso invocar Deus em tudo que fizer ou disser. Isso muda a perspectiva de tudo. Dá significado a tudo que faço.

Quando algo indesejável me acontece, devo receber como presente de Deus. Sabemos que toda crise é uma oportunidade de crescimento. Ao invés de sentir pena de mim achando que fui injustiçada, posso aceitar resignadamente o que me acontece, tentando extrair algum ensinamento disso.

E se tudo é dádiva divina, devo saber que o que me pertence por direito me será dado. Não preciso criar expectativas porque sei que elas são fonte de frustrações, pois expectativa significa esperar que alguma coisa aconteça de determinada maneira. Não devo esperar nada.

Cada vez mais, aprendo que devemos simplesmente fazer o que deve ser feito, cumprir nossas obrigações, porque é para isso que estamos aqui: para cumprir nosso dharma, nossa missão espiritual. Não esqueçamos nunca: não somos seres humanos vivendo uma experiência espiritual. Somos seres espirituais, tendo uma breve experiência como humanos…

‘Do your duty’, me disse um sadhu de Rishikesh. Cumpra o seu dever. Na Índia, não existe sagrado e profano, como em nossa cultura ocidental. Para eles, tudo é sagrado.

Há uma meditação na qual que reverenciamos tudo o que encontramos na natureza, as pedras, as árvores, animais, pedindo desculpas pelo sofrimento causado a eles. É fato que o homem é o único animal que mata sem ser para saciar a fome… mata por crueldade, por dinheiro, por sadismo…

Todas as noites, os jornais eletrônicos enchem nossas casas de tragédias e más notícias causadas pela nossa própria espécie. Não ficamos sabendo de baleias poluindo mares, nem de ursos degelando geleiras, muito menos de onças cortando árvores e incendiando florestas…

Obras exclusivas do bicho-homem. Todos os direitos autorais reservados a eles, a nós. Contrariamos, assim, este princípio do Vedanta: tudo é sagrado. Tudo vem de Deus. Assim, quem maltrata uma planta, um animal, uma pessoa, está invalidando o sagrado que existe em si mesmo. Está invalidando Deus dentro de si…

Na Índia, a saudação mais freqüente é namastê, “o Deus que existe em mim reverencia o Deus que existe em você”. Isto nos mostra o quanto o sagrado está incorporado na vida das pessoas. Respeitar o outro é cultural, não obrigação.

Na nossa cultura de ‘vencedores’, não tem muito espaço para respeito. As pessoas são homenageadas apenas quando estão para morrer ou depois de mortas. Aquele que para no farol vermelho é babaca e o que dá passagem no trânsito é medroso. Quem corrompe ou engana é eleito e quem desvia dinheiro não vai preso. Agora, quem rouba comida para alimentar a família cumpre pena… Na nossa cultura, roubo, propina e suborno são considerados crimes, dependendo da conveniência.

O sagrado é o que faz sucesso. E o que faz sucesso é o que vende. E o que vende dá mais dinheiro. Logo, o sagrado é o dinheiro. E por causa dele, florestas, rios, espécies inteiras estão desaparecendo. Nosso ar está acabando!!! Milhões de pessoas já sofrem com a falta de água potável…

Outros milhões são refugiados de guerras que levam a lugar nenhum e matam cada vez mais pessoas! E os que sobram, passam fome! Onde foi parar o sagrado? Se o sagrado não existe mais ou não é digno de respeito, então, concluo tristemente que nós não existimos mais. Ou melhor, nossa cultura faliu!

Precisamos de outros paradigmas! O paradigma do Vedanta: Tudo é sagrado!

Namastê!

Tereza é yogini, mora e pratica em São Paulo. Dirigiu e produziu, em parceria com Daisy Rocha, o documentário Caminhos do Yoga, filmado na Índia em 2003.

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