Pratique, Yoga na Vida

Dos pequenos samadhis

Este foi o melhor carnaval da minha vida. Poderia ter sido o pior. Começou com uma triste notícia que recebi na estrada. Uma pessoa muito, mas muito próxima a mim, havia mudado seu nome de família ao se casar. O que quero dizer é que esta pessoa trocou o nome do pai pelo da esposa.

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Isso até poderia ser justificável se o referido pai fosse um canalha, um bandido, um dependente químico que batesse nos filhos e na esposa. Ou se o referido pai tivesse colocado filho entre a cruz e a espada exigindo que este escolhesse entre a família e a futura esposa. Mas o pai, ao que me consta, é um homem brilhante, honrado, dedicado exclusivamente a família e aos filhos. Portanto, esta notícia deveria ou poderia ter destruído meu fim de semana. Mas não…

Fiz o que tinha que fazer na posição que ocupava e decidi entregar. Ishvara Pranidhana: entrega total e verdadeira a uma força que sei que age por trás de cada movimento do universo. Até que ponto, podemos interferir na história dos outros, nos karmas dos outros? Segundo a Bhagavad Gita, até o ponto em que não interfira na liberdade de escolha do outro. Sofro de urgência de ação! Cada vez que vejo uma pessoa necessitada próxima a mim, entendo que não foi o acaso que a colocou ali e que é meu dever ajudar. Assim, cada história que ouço, quero contribuir, de alguma forma. Isso muitas vezes me faz agir atropeladamente. Devo agir até o ponto em que a posição que ocupo em determinada relação me permite agir. Fiz o que devia ser feito. E resolvi relaxar.

Isso significa, tomar muitos banhos de cachoeira, caminhar descalça, plantar mudas, semear, molhar o gramado duas vezes ao dia, cozinhar com os vegetais colhidos na horta… Enfim, viver de acordo com o sol. Acordar e dormir com o sol. Não falar no telefone, muito menos usar internet. Paradoxalmente, os dias na natureza passam muito mais rápido do que os da cidade. Deveria ser o contrário. Na cidade, temos muito mais coisas a fazer que nos distraem e quando vemos, já é noite outra vez. Tentamos prolongar o prazer da noite, ficando até tarde na internet fazendo as coisas que gostamos e quando damos conta, stress!

Claro, o corpo precisa dormir! Isso não quer dizer adormecer entorpecido depois de uma pílula que vai dando cada vez mais efeito colateral. O corpo precisa parar de pensar!!! Uns conseguem isso meditando. Isto é uma técnica, requer preparo, um corpo apto a ficar parado por vários minutos. Os batimentos cardíacos desaceleram-se, a mente se acalma e todos os órgãos funcionam como devem. Mas se a gente acorda correndo, engole uma xícara de café com adoçante, sai fumando um cigarro pelo caminho, enfrenta um trânsito na melhor das hipóteses de uma hora e chega a um trabalho que não necessariamente é o que escolhemos, o corpo reclama!

Se depois do trabalho, enfrentamos mais trânsito, chegamos em casa e comemos o que for mais prático, um miojo ou refeição congelada e assistimos a um monte de desgraças na TV, lógico que o corpo adoece! Matemático! Órgãos precisam ser estimulados, precisamos alongar músculos, fortalecer ossos, e não apodrecer numa poltrona em frente ao computador.

Somos feitos de água, gostamos de nadar, tomar banhos de cachoeira, surfar, ou simplesmente boiar num mar calmo e morno. Gostamos de ficar descalços, de sol, de flores, de frutas, de passarinhos. E quem não se comove com um por do sol? Se nos sentimos tão bem perto da natureza, por que fugimos dela? Por que cada vez mais sapatos, roupas, acessórios nos separando dela? DVDs, carros, Ipods, Ipads, Imacs, Itudo…

Se a cada coisa que compramos, a cada desejo que realizamos, imediatamente, surge um outro desejo no lugar. Logo concluímos que não seremos mais felizes conforme comprarmos mais coisas. Seremos mais felizes conforme vivermos as coisas simples da vida, como andar descalço na areia da praia ou pisar nos seixos rolados de uma linda cachoeira de água da nascente.

Minha escolha foi a da cachoeira. A possibilidade de tomar banhos de água pura, intocada, cristalina. A cada fim de semana, tenho uma surpresa, sempre pequenos samadhis, aqueles momento que parece que tudo se encaixa e nos dá a sensação de que até poderíamos morrer de tão perfeito. Momentos de total sintonia com a natureza e com o Ser que sou e tantas vezes esqueço.

Samadhis são momentos muito simples. Não tem nada a ver com luzes piscando, tremores, levitações e muito menos, shows pirotécnicos. É compreender que tudo está perfeitamente bem do jeito que está e se ainda não está, vai ficar. Neste carnaval, tive a oportunidade de, por escolha, retirar –me com meu amor em nosso paraíso e trocar as escolas de samba por passarinhos, batuques pelo som cordial do rio e a multidão pela solidão consentida. A melhor solidão que se pode ter. Aquela em que não estamos sós. Namaste!

4 respostas para “Dos pequenos samadhis”

  1. Tereza,
    Harih Om!

    Somos feitos de água, com certeza parceira!
    Adorei, vontade muuuuita de fazer tudo isso!
    Beijos.

  2. O que importa é fazermos aquilo que mais nos torna felizes, e de certo que nada é melhor do que interagir com o absoluto. Espero que tenhas tantos e melhores momentos como este!
    Bj.

  3. Realmente são coisas desse tipo que as pessoas presisam , despertar suas essencias , voltar um pouco as raizes e descobrir a verdaeira felicidade q é o desfrutar desses momento simplis . Eu tenho focado muito nesses momentos tbm meu carnaval foi no meio de caxoeiras de um acampamento na beira de um rio . e trilhas pela natureza.. sentir a presença divina!
    Namaste!

  4. Poxa, como eu gostaria de ter tido a mesma oportunidade q vc, gosto do contato com a natureza, logem de todo o estresse do dia- a – dia, q bom q o seu carnaval foi assim, acho q não entendi muito a parte da troca de nomes mais tdbm, adoro seus textos, valeu por compartilhar suas experiencias conosco!

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