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Max Muller e o Problema das Traduções

Durante meus períodos de estudo na Índia, fiquei muito surpreso com a imagem negativa que deste senhor tinham meus professores indianos. Assim, fui pesquisar para tirar minhas próprias conclusões sobre o caso, e acabei por encontrar algumas coisas muito interessantes na biblioteca do Omanand Yogashram, de Madhya Pradesh. Eis o que consegui concluir sobre o valor das traduções de Max Muller.

Escrito por Pedro Kupfer · 4 mins de leitura >

Pessoalmente, não gosto de teorias conspiratórias, mas às vezes fico com a pulga atrás da orelha em relação às intenções das pessoas que escrevem ou traduzem livros que todos nós usamos para estudar. Você já se perguntou, por acaso, se os livros que tem em suas mãos são confiáveis?

Existe uma tremenda diferença entre versão e versão de cada texto sânscrito traduzido, seja para o inglês, o português ou outras línguas, como bem sabem muitos estudantes sinceros da filosofia yogika. O estudante curioso deve persistir no esforço de investigar e selecionar criteriosamente o material que chega em suas mãos. Às vezes, sob a veste de um acadêmico sério e imparcial, pode se esconder um missionário fanático, decidido a destruir a cultura que deveria expor. Esse parece ser o caso do famoso sanscritista alemão Max Muller.

Durante meus períodos de estudo na Índia, fiquei muito surpreso com a imagem negativa que deste senhor tinham meus professores indianos. Assim, fui pesquisar para tirar minhas próprias conclusões sobre o caso, e acabei por encontrar algumas coisas muito interessantes na biblioteca do Omanand Yogashram, de Madhya Pradesh. Eis o que consegui concluir sobre o valor das traduções de Max Muller.

Descobri que Max Muller ‘vendeu sua alma’ à igreja, que lhe solicitou uma ‘tradução’ do Rig Veda que fosse suficientemente distorcida como para facilitar a conversão dos hindus ao cristianismo, que seria usada no sistema educacional indiano, à época, recentemente reformado (melhor dizendo, demolido), por Lord Macaulay.

Em carta à sua mulher, Max Muller deixa bem claras suas intenções catequizadoras: ‘Espero poder terminar este trabalho [sua ‘versão’ do Ṛgveda] e estou convencido, embora talvez não viva para ver isso, que esta minha edição e tradução do Rig Veda será de imenso valor para o destino da Índia, e para o crescimento de milhões de almas que nascerão naquele país. [O Ṛgveda ] é a raíz da religião deles e demonstrar-lhes o que essa raíz é, estou certo, é a única forma de desenterrar tudo o que cresceu dela nos últimos 3000 anos. The life and letters of Max Muller, vol. I, p. 328, edição de Londres, 1902.

Outro trecho revelador: ‘Ninguém que conheça alguma coisa do Ṛgveda pode pensar em fazer uma tradução no presente momento. Uma tradução do Ṛgveda é tarefa para o próximo século. (…) Se, por tradução, entende=-se uma completa, satisfatória e definitiva tradução do Ṛgveda inteiro, eu me inclino a pensar (…) que talvez precisemos esperar até o próximo século para ver tal tarefa realizada. Entretanto, duvido que possamos algum dia poder fazé-la.’ Max Muller, Sacred Books of the East, vol. xxxii, Introdução, p. ix.

Em 1898, ou seja dois anos antes da sua morte, ele admitiu francamente, numa carta a Pandit Chavilal, de Kathmandu (que, compreensivelmente, foi deixada de lado quando sua correspondência foi publicada), que não estava nem nunca esteve preparado para traduzir o Ṛgveda: ‘Estou surpreso com a sua familiaridade com o sânscrito. Aqui na Europa, nunca poderemos rivalizar com vocês. Nós conseguimos ler, mas jamais conseguiríamos escrever em sânscrito.’

Esta cândida confissão mostra que sua ‘versão’ do Ṛgveda nada tem a ver com o significado real desse shastra. Suas traduções são atrozes. Por exemplo: a palavra yajña, que significava originalmente qualquer ação que precisasse uma associação de homens ou objetos, ou benefícios ou resultados práticos, é sistematicamente traduzida como ‘sacrifício’. Ele era incapaz de ver nos hinos outra coisa que ‘sacrifícios’.

E, finalmente, após haver confessado que sua intenção era desvalorizar o conhecimento vêdico para facilitar a conversão dos indianos ao cristianismo, após ter decarado todo seu preconceito contra a cultura vaidika, após haver confessado que nunca soube o sânscrito suficiente como para fazer uma tradução medianamente decente, após confessar que não entendeu os shastras nem sua mensagem, finaliza desprezando tudo: ‘Aceite o Ṛgveda como um antigo documento histórico: apenas pensamentos em concordância com o caráter de uma antiga raça de homens de mente simples (‘simple-minded race of men’).’ The life and letters of Max Muller, vol. ii, p. 115-116, edição de Nova York, 1902.

Agora, veja uma explanação breve sobre a profundidade dos significados do sânscrito, feita pelo Pandit Vidyarti:

‘Simplificando, três classes de palavras são usadas no sânscrito: yogik, rudhi e yogarudhi. Uma palavra yogik é aquela que tem um significado derivativo, ou seja, que tem apenas o significado do radical junto com as modificações que lhe outorga o seu afixo. De fato, os elementos estruturais a partir dos quais a palavra é composta, provêm a única e completa chave para conhecer seu significado. Sabendo disso, nenhum outro elemento precisa-se para conhecer seu significado. (…) Uma palavra rudhi é o nome de um objeto definido e concreto, ou se refere a um sentido técnico concreto. (…) Yogarudhi são palavras em que duas palavras se combinam de forma que, por virtude dessa combinação, denotam um terceiro objeto. Tais palavras expressam relações ou interações entre fenômenos’. Pandit Guru Datta Vidyarti, Terminology of the Vedas, pp. 22-24.

Max Muller ignorava isto e, em suas traduções (ou melhor, decifrações, como ele mesmo dizia), limitou-se apenas ao sentido rudhi das palavras, assim como também ignorou o Nirukta de Yashka, sem o qual é impossível compreender o Ṛgveda. O Nirukta de Yaṣka, antigo texto interpolado no Mahabhárata, deixa bem claro logo de início que os termos do Ṛgveda são yogik, ou seja que possuem significações metafóricas. Os resultados das traduções feitas fora de contexto são forçosamente superficiais e incorretas.

E ainda, veja o que Swami Dayananda Saraswati tem a dizer sobre a interpretação do Ṛgveda:

‘Os mantras (do Ṛgveda) não podem ser interpretados apenas usando o raciocínio. Precisam ser compreendidos em relação a seu contexto, fazendo referências ao que os antecede e precede. Mas alguém que não for um ṛṣi, que não fizer tapas, cuja mente não for pura e que não possuir conhecimento, não pode inferir significados destes mantras.’ Swami Dayananda Saraswati, Veda Bhaṣyam, Introdução.

Para quem não ouviu falar do “primeiro” Swami Dayananda Saraswati (1824-1883), cabe lembrar que ele é homónimo do famoso mestre de Vedanta da atualidade. Swami Dayananda, que nasceu no Gujarat, foi o fundador do Arya Samaj e um dos arquitetos da independência da Índia. Morreu envenenado a mando do serviço secreto colonial inglês. Ao traduzir, Swami Dayananda dava até nove significados diferentes para cada mantra, dependendo do contexto.

Enfim, convido os estudantes, professores e admiradores do Yoga a manterem o espírito crítico em relação às traduções que têm em mãos, uma vez que a mesma intenção catequizadora ou outras ainda mais tortas, são moeda corrente em muitos dos livros das nossas bibliotecas. Namaste!

3 respostas para “Max Muller e o Problema das Traduções”

  1. Amigo Pedro O que houve com seu site? No Antigo templates, onde havia separação dos assuntos, era fácil encontrarmos o conteúdo almejado, contudo hoje fica quase impossível acessarmos os textos de nossa preferência!

    Sou seu seguidor há muitos anos, e peço com todo carinho do meu coração, volte a antiga organização do seu site, para que possamos gozar de sua sabedoria e de seu mestre!

    Namaste

    1. Olá Paulo.

      ?????? Namaste! Obrigado pela mensagem e os comentários.

      Tivemos alguns percalços na elaboração da nova versão do site.

      Agora estamos a resolver aos poucos. Já avançamos bastante.

      Veja se agora a navegação está mais fácil e intuitiva. Obrigado.

      Abraços.

      Pedro.

  2. Oi Pedro.
    Pois é! Dai também vem aquele vício, aquele veneno fatal que faz muitos ainda hoje acreditarem numa “mirabolante” invasão ariana. Engraçado como alguém pode crer que bárbaros montados a cavalo pudessem ter o conhecimento necessários para escrever os Vedas, desenvolver o sânscrito e toda a sua profunda cultura relacionada.

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