Mūrcchā significa desvanecimento, vertigem ou ainda expandir, penetrar, ocupar. O nome está vinculado com a capacidade de perceber a si mesmo como Ātma, alguém livre de limitações, que está além do apego a pensamentos e desejos.
Nesse sentido, a Gheraṇḍa Saṁhitā, um texto clássico de Haṭhayoga, menciona o manomūrcchā , uma técnica de samādhi (profunda absorção meditativa), na qual a mente “desmaia” e o praticante tem a epifania de si mesmo não como um corpomente limitado, mas como uma das múltiplas manifestações de Īśvara, o Ilimitado.
A Técnica
Para preparar-se para o prāṇāyāma, feche os olhos, coloque as mãos em jñānamudrā e mantenha a espinha relaxadamente ereta. Durante o primeiro minuto, permita que os pensamentos se aquietem e mantenha o foco na respiração natural.
Inspire devagar e profundamente. Quando os pulmões estiverem totalmente cheios, pressione o queixo contra a parte alta do peito em jalāṇḍhārabandha, degluta saliva e contraia os esfíncteres em mūlabandha. Retenha o máximo de tempo que você conseguir, esforçando-se para manter o antarakūmbhaka até o limite natural do seu conforto. Observe a sensação de vazio. Expire com controle e suavidade.
Concentre-se em conseguir a mínima projeção de ar, mantendo o controle da expiração de maneira uniforme no início, no meio e no final do processo de colocar o ar para fora. Se for necessário, respire de forma espontânea durante alguns ciclos antes de reiniciar o exercício.
Deve-se monitorar com cuidado a sensação de desvanecimento que acontece por causa da diminuição da taxa de oxigênio no sangue que irriga o cérebro e pela diminuição da pressão sanguínea provocada pelo jalāṇḍhārabandha, sempre evitando exageros.
Mūrcchā é indicado apenas àqueles praticantes que já tiverem uma boa preparação física e uma excelente capacidade pulmonar de retenção do ar. Para esses, recomendamos a execução de cinco a dez ciclos. Como cada ciclo pode ultrapassar os três minutos de retenção, esse número é suficiente para fazer uma boa prática.
Efeitos, benefícios e potenciais danos do mūrcchā prāṇāyāma
Este prāṇāyāma limpa a mente de pensamentos desnecessários e facilita a internalização da atenção, reduzindo as influências do mundo exterior que nos invadem através dos sentidos. Também favorece a concentração mental. Pessoas com problemas cardíacos ou de pressão alta devem abster-se de fazê-lo.
Fazer retenções longas de ar com os pulmões cheios (apneia em inspiração) provoca alterações significativas no sistema nervoso, alternando entre efeitos adaptativos de relaxamento a curto prazo e riscos neurológicos se levado ao extremo, quando o nível de oxigénio diminui sensivelmente, levado o praticante para o estado de hipóxia.
A hipóxia é uma condição médica caracterizada pela redução do fornecimento de oxigênio aos tecidos e órgãos do corpo, essencial para o metabolismo celular. Pode causar sintomas como falta de ar, confusão, cianose (pele azulada), dor de cabeça e, se não tratada, danos graves ou morte cerebral.
Portanto, devemos ter muito cuidado ao fazer esse prāṇāyāma, por favor.
- Estimulação do Sistema Nervoso Parassimpático: retenções profundas, especialmente após uma inspiração, ativam o nervo vago, promovendo relaxamento, redução da ansiedade e diminuição do estresse.
- Aumento da Pressão Arterial e fluxo sanguíneo cerebral: a apneia forçada aumenta a pressão intratorácica, o que pode causar um aumento temporário da pressão arterial e, através de mecanismos de compensação (o chamado diving reflex, ou reflexo do mergulhador), aumentar o fluxo sanguíneo para o cérebro para garantir o fornecimento de oxigénio.
- Hipocapnia inicial seguida de Hipercapnia: a retenção faz com que o CO2 aumente no sangue. Embora o CO2 alto seja o principal gatilho para a necessidade de respirar, ele também pode melhorar a entrega de oxigênio aos tecidos (efeito Bohr).
- Alerta e Foco: o acúmulo de dióxido de carbono pode causar uma sensação de alerta, enquanto baixos níveis de CO2 (se precedidos por hiperventilação) podem gerar tonturas.
- Hipóxia Cerebral (Falta de Oxigénio): se a retenção for extrema, os níveis de oxigénio caem drasticamente, fazendo com que o cérebro entre em modo de “hibernação” ou emergência para poupar energia, o que pode levar a confusão mental.
- Perda de Consciência (Blackout): a redução excessiva de oxigénio no cérebro (hipóxia) pode causar desmaios, o que pode revestir riscos.
- Danos Neuroniais Potenciais: estudos em mergulhadores de apneia indicam que retenções extremas e repetidas podem elevar marcadores de lesão cerebral (como a proteína S100B) e aumentar a permeabilidade da barreira hematoencefálica, sugerindo um impacto negativo na integridade do sistema nervoso central.
Pedro nasceu no Uruguai, 60 anos atrás. Conheceu o Yoga na adolescência e pratica desde então. Aprecia o o Yoga mais como uma visão do mundo que inclui um estilo de vida, do que uma simples prática. Escreveu e traduziu 10 livros sobre Yoga, além de editar as revistas Yoga Journal e Cadernos de Yoga e o site yoga.pro.br. Para continuar seu aprendizado, visita à Índia regularmente há mais de três décadas.
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