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O Corpo é o Templo

Muitas tradições ascéticas da Índia consideram o corpo como um mero acúmulo de vísceras cuja natureza é corrompida e cujo destino final é morrer e apodrecer. Talvez o exemplo mais claro disso é o que aparece no Agni Purana (LI:15)...

Escrito por Pedro Kupfer · 3 mins de leitura >

Muitas tradições ascéticas da Índia consideram o corpo humano como um mero acúmulo de vísceras cuja natureza é corrompida e cujo destino final é morrer e apodrecer.

Naquela época, estava em uso uma fórmula para cumprimentar os demais que hoje nos parece muito cômica.

Quando duas pessoas se encontravam, ao invés de dizerem simplesmente “como vai?”, perguntavam-se: “como anda hoje esse saco de pele cheio de impurezas fedorentas?”

Talvez o exemplo mais claro disso é o que aparece na Agnipurāṇa, LI:15:

“O asceta (yati) concebe seu corpo, na melhor das hipóteses, como uma bolha de pele, rodeado de músculos, de tendões e de carne, cheio de urina, fezes e impurezas malcheirosas, habitáculo da doença e do sofrimento, vítima certa da velhice, da tristeza e da morte, mais transitório que uma gota de orvalho numa folha de grama”.

Nessa mesma linha, afirma a Maitrāyanīyopaniṣad:

“Ó Venerável, neste corpo malcheiroso e insubstancial, [que não passa de] um aglomerado de ossos, pele, tendões, músculos, medula, carne, sêmen, sangue, muco, reuma, fezes, urina, vento, bile e fleuma – de que vale o gozo dos desejos?

“Nesse corpo afligido pelo desejo, pela ira, pela cobiça, pela ilusão, pelo medo, pelo desânimo, pela inveja, pela separação em relação às coisas queridas e a proximidade das não-queridas, pela fome, pela sede, pela velhice, pela morte, pela doença, pela tristeza e outras coisas semelhantes a essas – de que vale o gozo dos desejos?” (1.3)

O corpo como templo

Não obstante, há uma visão diferente que surgiu do tantrismo: a de que o corpo é um templo do divino, pois ele permite uma série de investigações, reflexões e experiências que o tornam um instrumento inestimável para a libertação. É por esse motivo que se afirma no Viśvasāra Tantra:

“Não há nascimento como o humano. Devas e anjos o desejam. Para Ātma, o copo humano é o mais difícil de se conseguir. Por isso, diz-se que o nascimento humano se alcança com grande dificuldade. (…)

“Afirma-se nos Śāstras que, dos 8.400.000 nascimentos de Ātma, o humano é o mais frutífero. Ātma não pode adquirir o conhecimento da verdade em nenhum outro nascimento.

“O nascimento humano é a pedra fundamental no caminho da libertação. Por isso, é raro e cheio de mérito quem chega a ele”.

Portanto, o Haṭhayoga considera a vida humana extremadamente preciosa. Tanto no Haṭha como no Tantra, mesmo o corpo humano mais degradado é considerado um templo da divindade (devālāyā).

O sábio yogin Tirumular, de Tamil Nadu, incluiu estes dois versos em seu belíssimo poema devocional Tirumandiram [versos 724 e 725]:

“Quando o corpo perece, a força vital esvai-se e a luz da verdade não pode alcançar-se. Eu aprendi a arte de preservar meu corpo e, deste modo, também a força vital que o anima.

“Antes, desprezava meu corpo. Porém, mais tarde descobri que o sagrado morava nele e comprovei que o corpo é o templo de Īśvara. Portanto, comecei a preservá-lo com o maior cuidado”.

templo

O Ser, ao manifestar-se sob todas as formas e nomes da criação, como todos os seres vivos e objetos inanimados, experiencia a si próprio como uma série de individualidades dotadas de avidyā, ignorância existencial, cada um dos quais acredita ser uma ilha separada da criação.

Essa equivocação gera por sua vez as condições para as experiências prazerosas ou dolorosas que, por sua vez, reforçam a ilusão inicial de falsa separação.

Somente quando a psiquê individual consegue transcender os karmas e experiências limitadas, é que consegue reconhecer sua verdadeira natureza.

O templo é o corpo

A transição da ignorância à sabedoria libertadora, do círculo do prazer e a dor à luminosa felicidade, é um dos processos mais simples e misteriosos da existência.

É por isso que textos de Yoga como a Śiva Saṁhitā e outros, recomendam visualizar o corpo como se fosse o próprio universo. Estes exemplos das escrituras nos ajudam a compreender melhor esse processo:

“Não existe nada neste universo que não esteja contido no corpo humano. Tudo o que está aqui, está em toda parte; o que não está aqui, não está em nenhuma parte”. Viśvasāra Tantra.

“Aqui mesmo (neste corpo) estão o Gaṅgā, Prayāga e Varanasi, o sol e a lua (isto é, o masculino e o feminino) e os lugares sagrados…

“Não existe outro lugar de peregrinação nem morada de felicidade semelhante ao meu corpo. Em verdade, o yantra que é o próprio corpo é o melhor de todos os yantras”. Gandharva Tantra.

O trabalho preliminar do Haṭhayoga pode considerar-se um longo caminho de preparação através das ações purificatórias, físicas e psíquicas, que limpam o espelho do psiquismo para que esta possa refletir o Ser.

Esse caminho inclui a praxis da ética, a disciplina do corpo através dos āsanas, a purificação dos elementos através do ṣaṭkarmaṇī, a purificação da energia vital através dos respiratórios e a purificação do psiquismo através da meditação.

॥ हरिः ॐ ॥

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॥ हरिः ॐ ॥

Pedro nasceu no Uruguai, 54 anos atrás. Conheceu o Yoga na adolescência e pratica desde então. Aprecia o o Yoga mais como uma visão do mundo que inclui um estilo de vida, do que uma simples prática. Escreveu e traduziu 10 livros sobre Yoga, além de editar as revistas Yoga Journal e Cadernos de Yoga e o website www.yoga.pro.br. Para continuar seu aprendizado, visita à Índia regularmente há mais de três décadas.

Escrito por Pedro Kupfer
Pedro nasceu no Uruguai, 54 anos atrás. Conheceu o Yoga na adolescência e pratica desde então. Aprecia o o Yoga mais como uma visão do mundo que inclui um estilo de vida, do que uma simples prática. Escreveu e traduziu 10 livros sobre Yoga, além de editar as revistas Yoga Journal e Cadernos de Yoga e o website www.yoga.pro.br. Para continuar seu aprendizado, visita à Índia regularmente há mais de três décadas. Perfil

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2 respostas para “O Corpo é o Templo”

  1. Reli esse texto hoje…
    Bom pilar para prática de ásanas no Yoga  
        : )
    Om Jay! Namaste!

  2. A metafora do espelho ja e bem conhecida mas no contexto que voce colocou me tocou e somou mais inspiracao. Esta sendo bom ler esses textos, pre-organizados daqui da India num intensivo de alinhamento em asanas que estou fazendo. Imagino o trabalho que isso nao te deu.Sempre grato Pedro e esse Yoga.pro que dissolve duvidas, clareia pessoas e os ambientes, alem de nos inspirar!

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