Cakras e Kośas, Conheça

O Homem Segundo a Filosofia Védica

O Uno e o Universo, incluindo todos os seres e todas as coisas, portanto também o homem, são 'explicados' conforme seis dárshanas, ou 'ângulos de visão', sob os quais os Vedas foram analisados. Dos seis darshanas, três ? Sámkhya, Yoga e Vedánta ? são os mais úteis para nosso estudo, para levar-nos a compreender o homem, em suas aparentes misérias e em sua real magnitude.

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As visões científicas ocidentais sobre o homem, como tenho mostrado, ajudaram muito a minha compreensão.

Fizeram-me entender grande parte do que aconteceu tão espantosamente com tanta gente que melhorou, que venceu, reconquistou saúde e acrescentou exuberância à própria vida; que se libertou da mediocridade.

Mas o modelo de homem (manava) segundo os Vedas, isto é, conforme os ângulos de visão principalmente das filosofias Sāṅkhya, Yoga e Vedānta, é o que efetivamente usei para minha própria experiência pessoal, para o trabalho na Academia Hermógenes de Yoga e para as propostas que andei fazendo, através de livros e cursos.

E, não obstante a lucidez e os firmes alicerces que me propiciaram as ciências atuais, ainda hoje continuo fiel à sabedoria hindu, que me explica tão bem o homem holístico, isto é, o sistema grandioso que o homem é, e me faz compreender até mesmo as propostas mais avançadas e abstratas da ciência contemporânea.

Os Vedas

Veda significa conhecimento, sabedoria. Há milênios muito recuados, os sábios da Índia (os rishis) captaram a Ciência Eterna (os Vedas) intuitivamente, e a expuseram em forma de poesia, em hinos, utilizando uma linguagem nada lógica, mas essencialmente simbólica.

Posteriormente, outros sábios, estudando o conteúdo védico sob ângulos particulares de visão (darshanas), criaram algo que no Ocidente chamaríamos ‘escolas filosóficas’.

O Uno e o Universo, incluindo todos os seres e todas as coisas, portanto também o homem, são ‘explicados’ conforme seis dárshanas, ou ‘ângulos de visão’, sob os quais os Vedas foram analisados.

Dos seis darśanas, três (Sāṅkhya, Yoga e Vedānta) são os mais úteis para nosso estudo, para levar-nos a compreender o homem, em suas aparentes misérias e em sua real magnitude.

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Sāṅkhya

A filosofia Sāṅkhya foi proposta por Kapila, o qual, segundo uma escritura sagrada – a Śrīmad Bhagavatam -, foi uma encarnação divina (Avatar).

Ele ensinou que o homem é constituído por uma dualidade: Puruṣa, a Consciência, o Espírito imaculado, livre, imutável e imóvel, de um lado; e de Prakṛti, a matéria, mutável, inquieta, limitada, limitante e transitória.

Não obstante essencialmente transcendente e livre, Puruṣa, no homem, envolvido que está pela densa e frustradora matéria, vê-se cativo, padecendo e gozando, nascendo, morrendo e renascendo.

É por se identificar com a matéria (Prakṛti), isto é, por ignorância quanto à sua própria e original natureza, que, como que ‘encantado’, Purusha permanece no cativeiro.

Só a percepção total da Verdade o libertará. Mas a natureza (Prakṛti) tem muitos sortilégios capazes de prolongar tal ilusão e, conseqüentemente, a prisão de Puruṣa.

A retomada da liberdade, portanto, só virá a ocorrer com a vitória da Verdade sobre a ignorância. A batalha é travada contra as trevas reinantes na mente e no intelecto.

Jesus assegurou: ‘Conhecereis a Verdade, e a Verdade vos libertará.’ (João 8:32).

Kapila des-vela a nossos olhos como ocorreu a manifestação o Universo, até a formação do homem.

Yoga

A filosofia de Patañjali ou Yoga se baseia na escola filosófica anterior, o Sāṅkhya, como teoria.

Mas enquanto esta faz a libertação depender tão-somente de uma conquista gnosiológica, isto é, somente graças ao conhecimento ou constatação, o Yoga, fazendo-nos alcançar não apenas uma compreensão científica da mente humana, ensina-nos principalmente uma austera disciplina (sādhana), isto é, uma prática para o aprimoramento da mente, a qual é levada à perfeita quietude.

É quando todas as funções e movimentos da mente se detêm que Purusha escapa do cativeiro, alcançando seu estado original, que é Liberdade, Poder e Perfeição.

Sāṅkhya é portanto uma teoria. Yoga é essencialmente uma prática. Elas se completam.

A primeira diz-nos que somos Perfeição mas, por ignorância, nos sentimos imperfeitos; que somos Onipotência, mas só acreditamos em nossa própria debilidade; que somos Sanidade, mas nos supomos doença.

Basta mudar nossa errônea crença para que, libertos da ilusão, atinjamos a Perfeição, a Onipotência e a Saúde.

Yoga, mostrando-nos que as condições adversas (vrittis) de nossa mente (citta) é que nos mantém no cativeiro, ensina-nos o que fazer e nos propõe um autotreinamento visando a purificá-la, estabilizá-la e submetê-la, o que permite, finalmente, parar (nirodhah) as agitações (vṛttis) que na substância mental (citta) febrilmente se manifestam.

E, assim, se alcança não somente a perfeita Paz (śānti), mas a Liberdade (kaivalya ou mokṣa) final.

Mas o Yoga, tendo por base o Sámkhya, não poderia deixar de considerar a ignorância como o verdadeiro carcereiro e, portanto, o fator do cativeiro.

Patañjali, o codificador do Yoga, enumera cinco fatores (kleshas) que geram todas as formas de limitação e sofrimento que machucam cada um de nós e toda a Humanidade.

Na enumeração abaixo, cada um gera o seguinte, sendo o primeiro exatamente a ignorância, causa única dos demais. São os cinco kleśas, que se seguem:

1) Avidyā, que significa falta de conhecimento ou sabedoria (vidya), mantém-nos incapazes de saber que, em verdade, somos Purusha (eterno, imutável… Consciência Pura);

2) Asmitā é o ego pessoal, inferior, isto é, aquilo que, nos enganando, nos faz pensar que somos um ‘fulano-de-tal’, que é distinto e está distante de tudo mais; em outras palavras, nos torna egocêntricos e egoístas;

3) Rāga é o apego a tudo o que gratifica asmita (o ego), e assim nos mantém em permanente desgaste e tensão;

4) Dveśa, ou aversão, é a atitude de rechaço ou hostilidade a tudo que desagrada asmitā, o ‘fulano’ que cada um supõe ser, acarretando dramas, estresse, crise e lutas;

5) Abhiniveśa é o medo de morrer ou o apego à vida ou à existência de asmitā.

Tendo perdido na densa nuvem da ilusão o Ser Real (Puruṣa) que somos, o ego (asmitā), embusteiro e intruso, aproveita e assume o trono de nossas vidas.

Na ambição de ganhar o que ainda não tem e assegurar a posse do que já tem, ao mesmo tempo em que, detestando o que o incomoda, e, conseqüentemente, pretendendo afastar ou destruir, se mantém em desgastante luta; e, na evidência de não poder sempre ter o que o agrada e evitar o que o desagrada, o ego torna-se vítima do medo…

E é assim, no torvelinho neurotizante de desejos, apegos, hostilidades, ódios e fobias, que perdemos a homeostase e derrubamos nossa eficiência imunológica. O ego pessoal, como se vê, é o epicentro de todas as perturbações de nossas vidas.

Na medida em que o homem consegue reduzir a tirania do ego, e também aquilo que do ego resulta (apego, aversão e medo), na mesma medida recupera a paz e a saúde, e abre caminho para a felicidade.

O Yoga ensina que o que vela e enovela Puruṣaé o ininterrupto estado de agitação (vṛtti) da substância mental (citta). É isso que obscurece a Consciência (Puruṣa).

Nossa mente, em seu estado normal, é toldada por um véu frustrador (avarāṇa); está permanentemente agitada e inquieta (vikṣepa); e é também impura (aśuddha) e suscetível à poderosa influência de conteúdos (1) do inconsciente…

Tudo isso aprisiona Puruṣa.

Através de uma disciplina científica, pode-se reduzir ou esvaziar os conteúdos do inconsciente. Pode-se também purificar, aquietar e des-velar a substância mental (citta), vencendo o carcereiro de Puruṣa: a ignorância.

O objetivo final de tal disciplina ou sádhana é a parada total dos pensamentos, imagens, recordações, projetos, enganos e fantasias. É isso que viabiliza a libertação de Purusha.

Advaita Vedānta

Outra escola filosófica que ajudou a muitos que se recuperaram das penas de suas vidas traumatizadas, fragilizadas, tristes e enfermiças… é o Advaita Vedānta. Vedānta  é a filosofia baseada na parte final (anta) dos Vedas, isto é, nas Upaniṣads.

Advaita significa não-dualismo ou monismo. Para essa filosofia, só existe um Ser, e Ele é Um ‘sem-um-segundo’. É Uno e Único. Assim, tudo o que existe é o próprio Ser ou Brahman (o Imenso); e nada existe fora d’Ele.

Cada um de nós é um jīva, isto é, uma alma em processo evolutivo. E a evolução consiste em, progressivamente, superar o estado dualista de consciência, que nos ilude, fazendo-nos crer que somos diferentes e estamos distantes uns dos outros e também distintos e alienados do Ser.

O que no Yoga vimos chamar-se asmitā aqui é chamado ahamkara, o ego pessoal, o qual nos detém no estado da dualidade.

O Ser Supremo é também chamado saccidānanda. Sat é Essência ou Verdade; cit é a Consciência Absoluta; e ānanda, a Perfeita Felicidade. Em cada um de nós, o Atma é centelha do eterno e infinito saccidānanda.

Por um lado, em realidade, somos o próprio Ātma, que é idêntico a saccidānanda; por outro, em aparência convincente, somos incapazes de nos apercebermos disso.

Vítimas do sortilégio do ego pessoal (ahaṅkāra), convencidos estamos de que somos nosso corpo, nossa mente e nosso intelecto.

Esse auto-embuste é que nos sentencia a ‘sofrermos fome em um país distante’, conforme a expressão da parábola do ‘Filho Pródigo’, isto é, a continuarmos subjugados pelo sofrimento (dukha).

Duas imagens das Upanishads têm me ajudado a auxiliar pessoas que viviam mergulhadas em estados neuróticos.

Essas duas alegorias explicam melhor o que acabei de tentar explicar sobre a dualidade e sobre a não-dualidade.

A primeira descreve que um indivíduo, ao entrar num lugar de penumbra, foi terrivelmente impactado pela presença agressiva de uma cobra quase a seus pés, respondendo com a morbidez do organismo para a ‘luta ou fuga’, conforme estudamos ao tratar do processo do estresse.

À medida, porém, seus olhos foram se acomodando, o corpo também foi se acomodando, se acalmando, pois verificou ? com que alívio! ? que não era uma ameaçadora cobra, mas uma inofensiva corda.

Na sua própria vida, leitor, quantas falsas cobras já o perturbaram? Ou ainda o perturbam? O Advaita Vedānta nos adverte para que não continuemos a reagir às aparências, pois são como miragens no deserto. Tudo o que existe é falácia e impermanência. Só o Ser (Deus) é real e eterno.

A outra imagem é a da árvore e dos dois pássaros (2). Numa mesma árvore moram dois pássaros. Um, nos ramos mais baixos, vive sofregamente a comer os frutos, investindo todo seu tem, suas energias e habilidades na caça aos mesmos.

Quando come um saboroso, exulta. Quando come um amargo, se deprime. O outro pássaro, da mesma raça, vive nos ramos mais altos. Ele é sereno, imperturbável, eqüânime, feliz, atento. É uma testemunha silente de tudo que se passa com o outro.

Na árvore que é nossa vida, o pássaro de baixo é nosso ahaṅkāra (eu inferior, egoísmo), que vive prisioneiro da alternância dos opostos da existência: alegria-tristeza; lucro-perda; nascer-morrer; dia-noite; agrado-desagrado; euforia-disforia. Sempre rāga (apego) – dveśa (rejeição)…

O pássaro sábio, calmo, sóbrio, eqüânime, imperturbável e feliz é nosso verdadeiro Ser, o Ātma, aquilo que, em realidade e não em fantasia, essencialmente somos.

A logoterapia, em certo aspecto, consiste em libertar-nos da ilusão de que somos o pássaro caçador de frutos, tão frágil, tão aflito e tão vulnerável e, simultaneamente, recobrar-nos a ‘Verdade que liberta’ e que diz que, em realidade, somos o pássaro de cima: o Ātma.

Em termos de ciência vêdica, essa percepção ou sabedoria é a verdadeira metanóia que nos pode salvar.

O modelo de homem holístico representado anteriormente na página 105 do livro Saúde Plena: Yogaterapia é uma proposta que tem por base os conhecimentos ocidentais, e já nos presta muito auxílio para libertar-nos dos velhos ‘modelos’, propostos pelas concepções religiosas tradicionais no Ocidente (corpo e alma).

Aristóteles e São Paulo já haviam proposto mais avançados modelos do homem, os quais, no entanto, tudo indica não foram devidamente levados a sério.

Para o efeito de medicina holística, segundo minha experiência, os modelos propostos pelos rishis (sábios hindus), além de estarem agora recebendo confirmação das últimas conquistas da comunidade científica internacional, merecem reflexão e estudo pelo quanto podem contribuir para o processo de restauração e manutenção da sanidade e da santidade.

Infelizmente, dentro dos limites deste artigo, só posso dar algumas informações esquemáticas e resumidas sobre o homem integral no enfoque da multimilenar filosofia da Índia.

O Homem segundo Kapila e Patañjali

No sistema Sāṅkhya-Yoga vimos o homem formado por dois pólos: o espiritual (Puruṣa) e o material (Prakṛti).

Pena que não possamos aqui descrever o Homem em sua parte psíquica ou antahkarana (instrumento interno), para mostrar que psicologia incomparável é aquela ensinada por Patañjali.

Posso dizer somente que o mundo objetivo nos penetra através dos cinco sentidos da percepção (3) (os que já conhecemos) e sobre ele atuamos através dos cinco órgãos da ação (4).

As impressões sensórias, já no antaḥkaraṇa, nosso ‘instrumento interno’, produzem alterações (vṛttis) na substância mental (citta).

Esses vṛttis também são produzidos pelos conteúdos internos, alguns partindo do inconsciente (5).

O ego (ahaṅkāra) dá seu colorido ou sua ‘nota’ (egoística, sem dúvida) aos mesmos vritts e como que os apresenta ao julgamento do intelecto (buddhi), o qual delibera, e decide como e quando devemos agir.

Para o exercício da Yogaterapia, todo esse esquema é iluminativo. A esteticoterapia sugere toda uma profilaxia da sensualidade (dos indriyas).

A psicoterapia, processada ao nível de antaḥkaraṇa, sugere vigilância sobre os apegos (rāgas) e rejeições (dveśas) geradas pelo ahaṅkāra (ego), e nos facilita o cultivo da eqüanimidade.

A logoterapia sugere vigilância e uso correto do intelecto que avalia, julga e decide, bem como práticas eqüanimizantes, como a meditação e a prece.

O Homem segundo o Vedānta

Segundo o Vedánta, temos não somente um corpo (sháríra) (6) físico, porém mais dois outros, não-físicos.

São, portanto, três estruturas:

1) sthūla śarīra (corpo físico), que tão bem a medicina conhece;

2) sūkṣma śarīra ou corpo sutil, objeto das terapias vitalistas (acupuntura, pranoterapia, do-in, etc.);

3) kāraṇa śarīra, ou corpo causal, pois é aquilo que causa os dois outros.

O modelo vedantino mostra também o Homem formado por cinco revestimentos (kośas), todos eles incessantemente cambiando, fluindo, e, por isso mesmo, ilusórios, inconsistentes (māyā):

1) annamáyákosha – o envoltório (kosha) formado pela modificação (māyā) que se processa nos alimentos. É nosso corpo físico, o sthūla śarīra.

Veja o capítulo A Máquina do livro Saúde Plena: Yogaterapia (página 242). O nome é bem ajustado.

Que é nosso corpo físico senão o que resulta do metabolismo do que comemos? O feto é formado pelo alimento fornecido pelo organismo materno;

2) prāṇamayakośa – envoltório (kośa) formado pelas energias (prāṇas) que regulam e mantêm as cinco funções orgânicas e, portanto, nos mantém vivos e sadios;

3) manomayakośa – estrutura confeccionada pelas emoções e estados d’alma; é formada pela mente e pelos cinco sentidos (jñánendriyas);

4) vijñānamayakośa – estrutura (kosa) cambiante (máyá) constituída pelo intelecto, que é a faculdade pela qual somos conscientes de nossos próprios conhecimentos e realizações; é ela que comunica o sentido de ser ‘autor’ das ações. Para não ficar uma dúvida, esclareço: a mente deseja, quer, enquanto o intelecto conhece, raciocina e decide;

5) ānandamayakośa – é a estrutura (se é que se pode falar assim) cambiante, que se encontra num plano no qual a mente e o intelecto funcionam livres dos problemas e misérias que sempre os acompanham, daí o nome ananda, felicidade, bem-aventurança.

Trata-se do estado de felicidade que desfrutamos no sono profundo ou sono sem sonho, já muito próximo da Realidade Átmica ou nível quântico, onde curas instantâneas e mesmo tidas por impossíveis acontecem.

Analise a ilustração na página 266 do livro Saúde Plena: Yogaterapia e veja as correspondências dos cinco mayakośas com os três śarīras.

Esses śarīras e mayakośas estão no reino das aparências, da irrealidade, do efêmero, incluindo aí até mesmo o mais sutil, anandamayakośa. Intangível, sobranceiro, imutável, imóvel, eterno, onisciente, onipotente e onipresente a tudo isso se encontra o Ātma, o Logos (7).

Na ilustração da página 105 de Saúde Plena: Yogaterapia, o Espírito (o Atma) parece ser o espaço infinito que contém as demais estruturas, indicando, assim, sua infinitude, sua onipresença.

No modelo vedantino (ilustração da página 266), o homem se assemelha, esquematicamente, a um corte transversal numa cebola, dando para ver os koshas como camadas concêntricas.

É no íntimo de tal configuração que se encontra o Ātma, dando uma idéia oposta pela qual Ele parece isolado, prisioneiro, resguardado e interiorizado.

Ora, sendo o Ser Supremo, nós o sabemos, está em toda parte. Portanto, o propósito aqui é representar o que dizem as escrituras: ‘Ele está no interior de cada um de nós’.

E, embora dentro de cada um simultaneamente, o Atma se distribui por todo o ‘oceano sem praia e sem fundo’ que é este vasto Universo, pois Ele é a própria Onipresença. As Upaniṣads dizem:

‘O único a governar é o Eu [Divino, o Atma], e Ele mora no interior de todas as coisas e criaturas transitórias… Os sábios O contemplam como presente em seu próprio Ser, daí porque lhes pertence a Paz Eterna e a mais ninguém.’ Jesus deixou bem claro:

‘O Reino de Deus está dentro de vós.’ (Lucas, 17:21)

Os guṇas

Um outro conhecimento altamente valioso para a ação anti-distresse é a noção dos guṇas. Em Yoga para Nervosos sugeri as séries terapêuticas de técnicas, levando em conta os tipos humanos: tamásicos, rajásicos e sáttvicos.

Anos depois, as pesquisas da ciência chegaram a descrever um tipo humano que é aquele mais freqüentemente vítima de ataques cardíacos – o tipo A.

A descrição do tipo A feita pelos cientistas coincide com aquela que, anos antes, eu fizera para os indivíduos que denominara rajásicos.

Quanto aos dois outros tipos por mim descritos, inspirado pela doutrina dos guṇas, a ciência ainda não os percebeu a não ser, um pouco e pela superfície, o tipo tamásico, que é um astênico, um deprimido.

O tipo sáttvico, que é são, puro, inteligente, harmonioso, vai demorar mais a ser descrito pela ciência, pois esta não tem se dedicado ao estudo da sanidade-santidade no homem. Detém-se mais sobre a doença e menos sobre a saúde.

O corpo energético

Outro aspecto do modelo do homem é aquele sugerido pelo prāṇamayakoṣa, que, como vimos, fazendo parte do sūkṣmaśarīra, ou corpo sutil, é constituído por bioenergias; apresenta uma particular anátomo-fisiologia, formada por nāḍīs ou condutos energéticos e chakras ou centros de força.

Todo esse modelo já se encontra suficientemente explicado em Autoperfeição com Haṭha Yoga, e repetí-lo aqui seria demasiado para os limites deste artigo.

Tenho a acrescentar, porém, o que no mesmo livro deixei de mencionar: as cinco diferentes energias e suas funções biológicas. Ao fazê-lo agora, o leitor vai dar-se conta de quanto é importante a prática de pránáyámas, visualizações, meditações e convicções filosófico-espiritualizantes que fazem parte do ‘método’ (yogaterápico).

Cinco são as funções vitais, isto é, aquelas das quais depende a qualidade da vida e a própria vida. Cada uma delas é desempenhada por uma determinada forma de energia prânica. Vejamos:

1) respiração, efetuada pelo prāṇa;

2) evacuação e outras ações emunctórias permanentes (purificadoras do meio interno), a cargo de apāna;

3) circulação, desempenhada por vyāna;

4) ação de lançar fora (vômito, lágrima, etc.), produzida por udāna;

5) digestão-assimilação, produzida por samāna.

Tomara que o leitor reflita bastante sobre tantas informações e tire suas inferências e as utilize proveitosamente na condução de sua preciosa vida e, assim, alcance as metas mais belas e grandiosas para a conquista das quais recebeu de Deus a oportunidade de existir e o empréstimo deste corpo-instrumento.


(1) Vāsaṇās (tendências, inclinações, impulsos, desejos, necessidades, motivações profundas…) e saṁskāras (impressões, representações, imagens, juízos, …).

Vāsaṇās e saṁskāras formam o conteúdo do inconsciente, o karmashaya, isto é, o depósito do sañcitakarma, resultantes de nossas experiências e ações de vidas passadas.

Como pode ser visto, a tese freudiana não tem a originalidade que reinvidica. Segundo a psicanalista francesa Maryse Choisy, Freud conheceu o Yoga de Pátañjali por intermédio do filósofo A. Schopenhauer.

(2) ‘Como dois pássaros dourados pousados no mesmo galho, intimamente amigos, o ego e a Consciência habitam o mesmo corpo. O primeiro ingere os frutos doces e azedos da árvore da vida; o segundo tudo vê, em seu distanciamento.’ Ṛgveda, I:164.20 (Muṇḍakopaniṣad).

(3) Os cinco órgãos dos sentidos (jñánendriya): audição (śrotra), tato (spārṣana), visão (cakṣu), paladar (rasana), olfato (ghṛāna).

(4) Os cinco órgãos de ação (karmendriya): voz (vāk), mãos (pāṇi), pés (pāda), órgãos excretores (pāyu) e órgãos reprodutores (upaṣṭa).

(5) Vāsaṇās (tendências, inclinações, impulsos…) e saṁskāras (impressões, imagens, juízos…).

(6) Śarīra significa ‘aquilo que será cremado’.

(7) ‘A água não o molha; o fogo não o queima; o vento não o seca; as armas não o ferem; o tempo não o envelhece; nenhuma doença o atinge’; ‘Armas não conseguem cortá-lo, fogo não pode queimá-lo, água não consegue molhá-lo, ventos não podem secá-lo… Ele é eterno e tudo permeia, sutil, imóvel e sempre o mesmo’. Bhagavadgītā, II:23-24.


॥ हरिः ॐ ॥

Extraído do livro Saúde Plena: Yogaterapia.
Digitado por Cristiano Bezerra.
Leia aqui mais textos deste brilhante autor.
Visite aqui o site do Professor Hermógenes.

॥ हरिः ॐ ॥

2 respostas para “O Homem Segundo a Filosofia Védica”

  1. Parabéns!
    Obrigada por dar-nos acesso a um material tão bom.
    Ah, ganhei uma impressão do mesmo! Estou com coisas idênticas na tela e nas mãos. Agora aprendo mais um pouquinho desse universo tão grande do Yoga.

    Stefânia Pessoa.

  2. Que maravilhosa essa explicação concisa do professor Hermógenes sobre Samkhya, Yoga e Vedanta. Amei! Obrigada por terem postado!

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