Ética, Pratique

O princípio do Yoga e a moral

A cada dia que passa, respostas às perguntas mais bobas vão ficando mais e mais difíceis. Se pratico Yoga? Sim. Que tipo? Nenhum, só Yoga mesmo. Se meu pé vem na cabeça? Não, nem quero que venha

Escrito por Manuela Mendonça · 4 mins de leitura >

A cada dia que passa, respostas às perguntas mais bobas vão ficando mais e mais difíceis. Se pratico Yoga? Sim. Que tipo? Nenhum, só Yoga mesmo. Se meu pé vem na cabeça? Não, nem quero que venha. Mas afinal, que Yoga ensino? Se eu disser que ensino Hatha Yoga não vou estar mentindo, mas Hatha Yoga é tanta coisa!

O velho dilema sobre o que é Yoga, se uma aula é Yoga ou não, se pratico Yoga mesmo ou não. Ah, isso é tão chato…é que existem muitas e muitas formas de se fazer uma mesma coisa e em Yoga, nem sempre Yoga vai ter a “cara de Yoga” que nos é mais conhecida.

Yoga começa quando a gente olha pra gente. Quando levantamos qualquer questão, seja sobre a vida, seja sobre nós mesmos, seja sobre qualquer coisa, já é um começo. Mas Yoga, apesar de no seu aprofundamento nos levar para questoes filosóficas mais profundas, já que o ser humano não existe isolado do resto do mundo, boa parte de suas investigações serão relativas ao indivíduo, cada um consigo mesmo.

E para isso temos textos que expoem várias técnicas para ajudar uma pessoa a encontrar o seu estado ideal. Saúde, lucidez, tranquilidade, responsabilidade moral e ética, enfim, tudo isso faz parte do Yoga e envolve não só o corpo e a mente, mas toda a vida de uma pessoa.

E é por isso que o aprofundamento natural do Yoga é a filosofia, que não tem esse nome, mas que envolve o estudo dos textos que vão falar sobre quem é o Ser.

O Yoga começa no “umbigo” da gente e se expande para todos os lados. Começa aqui, eu comigo mesma, mas necessariamente se alarga. É imprescindível que se alargue, ou estaria funcionando pela metade, ao contrário até. E se corretamente ensinado, acaba por abrir-se tanto mais para dentro quanto para fora e vice-versa.

Agora, reduzir o Yoga a duas ou três de suas técnicas e arrancar-lhe o estudo e a meditação é mutilá-lo tanto, tanto, tanto que não lhe sobra nada. Pode até trazer um pouco de paz, afinal, terapêutico sempre vai ser, mas seu alcance será alopático e raso.

É certo que o Yoga também tem, como tudo, uma forma adequada de começar. Há quem conteste, mas é absolutamente necessário começar pela moral. Sim, não é apenas pelo corpo, mas pelos valores universais conhecidos como Yamas e Niyamas. Porque é por aqui que se inicia um verdadeiro relacionamento consigo mesmo.

O corpo engana, você pode se torcer e nada acontecer. Agora a moral não, a moral exige solidão, como diz o filósofo André Comte-Sponville: “Solidão e grandeza da moral: você vale única e exclusivamente pelo bem que faz, pelo mal que se proíbe fazer, sem nenhum benefício além da satisfação de fazer o bem- mesmo que ninguém jamais venha a saber do seu feito.”

E continua, “Como ser alegre sem se estimar um pouquinho que seja? E como se estimar sem se governar, sem se dominar, sem se superar?

A bola está com você, como se diz, só que isso não é um jogo, e muito menos um espetáculo. É a sua vida mesma: você , aqui e agora, o que você faz.”, mostrando aqui um pouquinho do que pra mim é a razão principal do princípio ser este.

Yoga não se inicia realmente se houver confusão, conflito, falta de auto-estima ou uma vida aos pedaços, cheia de mentiras e de problemas. Sim, os problemas sempre existirão, mas não precisamos fazer de tudo isso um baú de cacarecos inseparáveis que grudados regem nossos atos. Não.

Yoga, pra levar uma pessoa para mais perto dela mesma precisa de um chão, e esse chão é a moral, um saber o que fazer, uma consciência tranquila, que não vai ficar se enrolando em problemas desnecessários. Isso é o básico e é a porta de entrada para o Yoga.

“Quem se preocupa com a moral do vizinho não é moral, é moralizador.”, diz Alain de Botton. E é por isso que em uma aula prática de Yoga não ficamos ouvindo um blábláblá do professor, mas é dever dele colocar na mão do aluno um texto que fale sobre isso.

É importante sabermos que o princípio é este, ou então ficaremos dando voltas e mais voltas no Yoga sem nunca realmente alcançá-lo. E é aqui que mora o segredo para que o Yoga não sirva à vaidade ou somente ao umbigo, pois qualquer moral trata de um agir comigo e com os outros.

O Yoga já se inicia indo tanto para dentro como para fora. “Na moral não há nada além do sentimento de dignidade. É respeitar a humanidade em você e no outro. Trata-se de recusar a sua parte que não pensa, ou que só pensa em você.

Trata-se de recusar, ou em todo caso de superar, sua própria violência, seu próprio egoísmo, sua própria baixeza. É querer ser homem, ou mulher, e digno de sê-lo.”, diz André.

E aqui chegamos no ponto crucial, afinal, para quê Yoga, para quê este Yoga, que abrange a vida toda, que entra em você e que não serve apenas aos prazeres e aos agrados. Para quê afinal?

Para que sejamos mais humanos, mais livres e lúcidos no mínimo. E é aqui que o Yoga se aprofunda num mergulho absurdo para o universo. Sim, primeiro ser mais humano, encontrando o ponto inicial para que se dê o conhecimento.

O estudo se expande a partir daqui, pois seria impossível sem o potencial de humano desperto, sem sermos completamente o que já somos mas desembaralhados de nossas confusões.

Yoga se presta à humanidade e não apenas ao meu corpo. E é por isso que hoje, quando me perguntam se pratico Yoga e qual Yoga, respondo que sim, o tempo todo, afinal, ando bem viva. E qual Yoga?

O único que nos foi verdadeiramente deixado, aquele dos Vedas, dos Sutras de Patañjali, da Bhagavad Gita… aquele que nos pede para sentar, escutar, refletir e contemplar.

Mas e o corpo? Também, ora… Hatha Yoga serve a esse propósito, ajudando a trazer uma condição mental ideal para a meditação. Saúde, um corpo bom…tudo isso vem, mas vem muito mais se o foco for o ser humano inteiro, o Yoga como ele é: inteiro.

Desiderata

Desiderata

Manuela Mendonça em Pratique, Yoga na Vida
  ·   20 segundos de leitura

Āsanas para fortalecer a lombar

Manuela Mendonça em Āsana, Pratique
  ·   8 mins de leitura

5 respostas para “O princípio do Yoga e a moral”

  1. Cara Manuela, que valiosa contribuição! Tenho me deparado com essas indagações.Seu ponto de vista e considerações me ajudaram bastante. Parabenizo a iniciativa, a qualidade, o trabalho sério deste portal. Obrigada a todos que através da yoga, ajudam a melhorar o relacionamento entre HUMANOS.

  2. O texto foi muito bem produzido porém, as perguntas iniciais são pertinentes a nos leigos. Falar o que é yoga e mostrar o que é yoga. Do contrário, continuaremos não sabendo. “Yoga não se inicia realmente se houver confusão, conflito, falta de auto-estima ou uma vida aos pedaços, cheia de mentiras e de problemas.” Yoga não tem hora marcada pra iniciar, é um sopro leve do divino que nos conduz à iluminação. Parabéns pelo site e pelo texto.

  3. O texto é perfeito se considerarmos a prática do yoga como um exercício unificador da mente,físico e espírito.O yoga é “conjunto”,”todo”,por isso ser hatha yoga ou outra modalidade,bem..,acaba por ser mais um designação,apenas!O impotante é o Ser,como diz Ekart Toller,e o Ser na sua totalidade.Parabéns pelo texto!

  4. Sou praticante de Yoga e me identifiquei plenamente com o artigo muito bem escrito pela autora. É muito importante trazer à luz a base e sustentação do Yoga, a leitura deste texto faz bem sim, inclusive aos que teoricamente já conhecem. Hari Om!

  5. Adorei esse texto! Quero começar a praticar yoga, porém, li tantas coisas pela internet, são tantas linhas distintas, e a única coisa que eu quero é ficar bem comigo mesma e, consequentemente, com o mundo! E este artigo focou exatamente naquilo que penso: yoga não são só os exercícios, e sim, acalmar a mente, pensar positivamente, melhorar como ser humano! Parabéns à autora!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *