Ética, Pratique

Ser ou não ser yogi

Outro dia me perguntaram se me considero uma yogini. Se me considero uma pessoa em busca dos mais elevados ideais, se pratico as técnicas yogikas, se observo os valores universais e se em conseqüência disso tenho o mínimo de altruísmo

Escrito por Manuela Mendonça · 3 mins de leitura >

Outro dia me perguntaram se me considero uma yogini. Se me considero uma pessoa em busca dos mais elevados ideais, se pratico as técnicas yogikas, se pratico a não-violência, se observo em minha vida os valores universais e se busco a tão querida libertação e se em conseqüência disso tudo tenho o mínimo de altruísmo.

Pensei aqui no meu currículo de mancadas, erros, manias, pensamentos egoistinhas, neuroses e respondi com letras maiúsculas um NÃO daqueles de aliviar a alma do fardo da perfeição. Porque eu sabia que a pergunta era uma cobrança, era para tocar a consciência, era para fazer olhar a incoerência do meu comportamento aos olhos de quem fez a pergunta. Era para plantar a culpa.

Supostamente todos aqueles que ensinam Yoga carregam a bandeirola branca da santidade de intenções. Nenhuma mancada no currículo, nenhuma reação ou briguinha sequer. O yogi sob essa interpretação a meu ver tem mais a ver com nossa bagagem judaico-cristã do que com o Yoga e si.

É claro que tenho apreço aos valores. É óbvio. Mas também confesso que não ser yogi, assumir não sê-lo foi para mim dizer não para a cobrança de yogi. Mesmo que para mim ser yogi tenha lá uma conotação diferente. O que me deixou perplexa na pergunta foi seu tom de cobrança e julgamento. Sim, os yogis são perfeitos. Mas esse é um lado da história.

Pois que também yogis são aqueles que aspiram não à perfeição, mas a Deus sob qualquer uma de suas formas ou para além de suas formas. Equiparar Deus e perfeição não é bem a idéia original yogika. Perfeição não é santidade, não é ser sublime, bondoso, livre de qualquer maldade.

Perfeição, se fôssemos obrigados a usar essa infame palavra, seria estar à distância igual da bondade e da maldade. Seria não dual, sem opostos, sem escolha de time. Seria estar acima, ou ao largo dessas idéias. O que não implica maldade alguma, tão pouco caridade, bondade e compaixão.

Não são poucos os yogis na história da Índia que foram antipáticos, estúpidos, pentelhos, reclusos ou quase malucos. É nossa a idéia de que aquele que supostamente aspira ideais elevados carrega estampado no rosto a simpatia e a serenidade digna dos nossos santos.

E que em seu trajeto de estudos e busca de conhecimentos segue sem tropeços e mancadas. E estamos falando de Índia hein.

Aqui, no Brasil, onde simplesmente praticamos Yoga e ensinamos o pouco que sabemos somos responsáveis por não nos fazermos passar por Budas ambulantes. E cuidado, pois um professor de Yoga às sete da manhã com cara de sono quase sempre vai passar uma incrível cara de serenidade e paz, como qualquer mortal a essa hora da manhã. Ah ela é tão zen….sim, deprimida e sonolenta. Ah ela é tão calminha… é o Yoga?

Não, é apatia mesmo, não anda bem. Confundimos tudo projetando nossos santos nos professores de Yoga. Confundimos tudo quando colorimos a espiritualidade de luzes douradas e brancas. Só faltam as auréolas para completar o quadro.

E coitado do professor de Yoga, que simplesmente por buscar o que talvez nem ele mesmo saiba direito, perde o direito ao erro.

O yogi quando erra, decepciona mais do que qualquer ouro ser humano. E ninguém disse que yogi não pode errar….aliás, é um dos que mais erra, afinal, o caminho que se dispõe a trilhar é confuso e absolutamente escuro e solitário.

Não sou yogi, não aspiro a perfeição. Não preciso dela. Considero a busca pela perfeição a maior falta de aceitação de si e tudo o mais, uma furada rumo à inquietação, justamente a contra-mão.

Perfeito, se posso usar a palavra é tudo como é. Errado mesmo torto, estranho, lindo, alegre, luminoso, cruel…tudo. Não uma metade do todo, só o que cabe à bondade. Não.

Yogi pra mim é aquele que procura um olhar, que procura justamente esse todo, que procura aceitar, que sossega em si. Se precisa de técnicas yogis para isso, ótimo, será yogi, se não precisa…será yogi também.

O chato do yogi que busca a perfeição é que vai querer a perfeição dos outros, vai se tornar um mala moralista e cedo ou tarde vai carecer de amor, pois vai sofrer decepções eternas cada vez que imperfeição se lhe apresentar.

E é por isso que disse não, pois que não considero a verdade cor de rosa e tão pouco fico bonita de auréola. Pois que aceitar a imperfeição do outro é tão bom, tão bom…é aproximar-se do outro e desiludir-se, finalmente.

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4 respostas para “Ser ou não ser yogi”

  1. Existe um pensamento que é dito quando se fala de Brahman Nirguna, “Se Daquilo eu vim, Aquilo eu sou e Aquilo eu retorno” Então fique tranquila pois somos perfeitos, mesmo dentro de toda essa Ilusão, e pesando bem não poderia ser diferente. Namastê!!!

  2. Acredito que assim como eu, muitos professores já passaram por tal questão. A de ser a personificação do yogi perfeito,que não é apenas cobrado pela sociedade ou por alunos, mas principalmente por ele mesmo. Questão esta que vai caindo por terra quando percebemos que a imperfeição faz parte da Perfeição. Ótimo texto Manu. Namastê!

  3. Há um pensador que diz assim: “os preceitos foram feitos para serem mais perfeitos que nós”. (Nietzsche).
    Compreendo você quando observa nossa inescapável cultura judaico-cristã – da culpa, do pecado, do ressentimento. A meu ver o problema aí é a psicologia que está por trás – uma psicologia ruim. É dela que é preciso escapar. O Yoga é um caminho.
    Maravilha de texto.
    Shanti Om.

  4. Essa é uma boa reflexão. Para a psicologia junguiana não há amadurecimento sem o contato com a sombra, com o nosso lado negado, desconfortável, imperfeito. Construímos uma persona, uma faxada atraente e ideal de quem somos e acabamos acreditando que somos apenas essa faxada. A sombra mancha esse ideal perfeito, tras nossos podres, nossas limitações, nossos erros e também nossa humanidade: não somos perfeitos , não somos deuses! Talvez essa percepção possa contribuir muito para que o sádhana seja um caminho evolutivo e não um reforço da persona de perfeito. Namastê.

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