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O recheio das batatas e o futuro da Humanidade

Ontem fui a um churrasco. Aniversário de uma amiga. Não haveria nada demais nisso, se eu não fosse vegetariano. Escrevo só para dar resposta à pergunta que sempre me fazem nessas ocasiões

Escrito por Renato Carvalho · 7 mins de leitura >

Ontem fui a um churrasco. Aniversário de uma amiga. Não haveria nada demais nisso, se eu não fosse vegetariano. Fui – até ajudei a preparar a carne – mas obviamente não comi. Meu almoço foram as batatas recheadas que prudentemente costumo levar para assar na churrasqueira. Bom, mas até aí isso só valeria um texto se fosse para dar a receita. Escrevo é para dar resposta à pergunta que sempre me fazem nessas ocasiões. Procuro evitar responder na hora para não passar por estraga-prazeres, falando mal de algo de que estão todos justamente reunidos para desfrutar. Mas agora fico à vontade.

A pergunta que sempre se repete é ‘Mas por que você não como carne?’. E a resposta que evito dar é que essa pergunta está errada e eu sim deveria perguntar ‘Mas por que você come carne?’. Porque a pergunta da forma que me fazem tem implícito o pressuposto de que eu estaria fazendo algum esforço para me privar de algo ‘normal’, que eu me daria o trabalho de evitar um caminho mais fácil; quando na verdade acontece justamente o contrário.

Comendo carne é que se contraria o natural, se rema contra a correnteza. Sempre que fiz a réplica que sugeri acima, a resposta que tive foi ‘Eu como carne porque gosto’. É o que você me responderia também, não é? Acontece que isso não é verdade. Ninguém, absolutamente ninguém, gosta de carne. Eu sou gaúcho, fui criado no meio do povo que talvez mais consuma carne bovina no mundo, onde o churrasco de domingo é praticamente um ritual, um elemento cultural básico e firmemente enraizado, onde se aprende a assar uma picanha com perfeição desde criança, mas mesmo lá nunca conheci ninguém que gostasse de carne.

De todos os seres vivos que consomem a carne de seres mortos, o homem é o único que faz isso a contragosto. Só o homem precisa disfarçar a carne que ingere. Precisa maquiá-la, mascará-la, alterar sua aparência, cheiro, textura e sabor para poder comê-la. Um tigre abate uma presa e simplesmente rasga sua pele e abocanha sua carne. Uma cobra não precisa mais que abrir sua mandíbula para engolir um rato e se alimentar dele. Também é assim com os tubarões, os ursos, leões, moréias, águias, hienas, lobos, gatos, sapos, lagartixas… O homem é o único necrófago incapaz disso. Por isso afirmo que ninguém gosta de carne. Sim, existe quem goste de bife, churrasco, picadinho, estrogonofe, galeto, moqueca, almôndega, peixada, fricassê, salsicha, hambúrguer ou qualquer outra das formas de foram inventadas para disfarçá-la; mas carne, carne mesmo, in natura, é intragável para qualquer um, seja ela de que bicho for. Se um homem se encontrar num bote à deriva em alto-mar sem nada além de 20 quilos de contrafilé ao molho madeira, vai tranquilamente viver disso durante alguns dias, até ser encontrado. Se esse mesmo homem estiver no bote com um boi morto (o mesmo boi de onde foi extraída a carne da hipótese anterior), muito provavelmente morra de fome. Primeiro se passariam dias onde a repulsa e o nojo de cravar os dentes naquele cadáver o impediriam de comer. Depois, quando a fome e o medo de morrer dela fossem maiores do que o asco, ele dificilmente conseguiria se alimentar daquela carne, pois a natureza não lhe deu ferramentas para isso ? suas unhas e dentes não seriam capazes nem de rasgar o couro.

Não, não adianta ficar aí pensando: não há exceções. Sashimi? Aquele show de destreza com as facas afiadíssimas disfarça a forma do peixe e poucos o apreciam sem fortes temperos para alterar o cheiro e o sabor. Qualquer samurai sentiria ânsias se tivesse que rasgar as escamas de um belo salmão com os dedos e cravar os dentes naquilo que com poucos truques culinários se transforma num apetitoso quitute. Carpaccio? Idem. Talvez ostras? Não, mesmo animais desse tipo, com um sistema nervoso rudimentar demais para sentir dor e incapazes até de fugir ou dar qualquer demonstração de que preferiam, por obséquio, continuar vivos, poucos aceitam sem azeite, sal e um limãozinho providenciais.

Ou seja, o diferente, o estranho, o antinatural é as pessoas se darem ao enorme trabalho de transformar algo pelo que sentem repulsa em algo comestível. Ao contrário dos vegetais que qualquer um de nós com prazer simplesmente arranca da árvore e leva à boca, sem antes alterar o aspecto dos cadáveres dos animais através de pelo menos uma ou duas das três técnicas possíveis (corte, moagem ou demais alterações no aspecto visual; temperos e especiarias para alterar o cheiro e o sabor; e cozimento, fritura ou as outras modificações na textura e, novamente, no aroma e paladar através do calor), ninguém os encara. Por que será?

Porque algo nos ‘avisa’ que não devemos comê-los: o nojo. O nojo é um dos instintos humanos mais fundamentais à preservação da espécie. Tão fundamental quanto o medo. Aliás, é possível dizer que o nojo é o medo de ficar doente. Se o medo é o instinto que nos avisa que corremos perigo de nos ferir se não evitarmos determinada situação, o nojo nos alerta de que poderemos adoecer se não nos afastarmos de algo. O nojo é o ‘medo’ do que não podemos enxergar, é o ‘medo’ de microorganismos e substâncias que podem nos fazer mal. Temos nojo de insetos que podem carregar vírus e bactérias nocivas, de animais potencialmente venenosos como sapos e cobras, de água estagnada ou locais contaminados por micróbios e de coisas que nos farão mal se ingerirmos.

É desnecessário dizer o quanto o corpo é sábio em demonstrar através do nojo ‘temer’ ingerir pedaços de animais mortos, não é? Não há quem não esteja cansado de ler sobre os riscos da gordura animal, do colesterol, dos vermes e parasitas da carne, dos problemas que podem decorrer de se comer acidentalmente carne em estado de decomposição mais avançado (sim, mais avançado, porque em decomposição toda carne está desde que o animal é morto) e etc. Também não vale a pena esmiuçar os aspectos mais, digamos, filosóficos do assunto, que envolvem o direito ou não que temos de matar outros seres vivos. Praticamente todas as religiões já o fazem restringindo totalmente a carne ou a permitindo apenas após passar por rituais de purificação, como, por exemplo, nos casos do judaísmo e islamismo. Das grandes religiões, apenas as cristãs com o tempo foram afrouxando suas regras e hoje toleram quase sem restrições a ingestão de carne. Da mesma forma, sobre a questão ambiental que envolve a abstinência de carne é fácil se informar por aí e não vale a pena falar demais. Basta lembrar que as extensas áreas de pasto ou de plantação de ração que a pecuária exige são a maior causa de desmatamento no Brasil e no mundo, além do ridículo do metano expelido pelo gado (sim, o peido dos bois) ser a causa de cerca de um quinto da redução da camada de ozônio.

Portanto, o ponto que considero mais importante é perceber que insistir em comer carne apesar dos alertas do nosso corpo e ter todo o trabalho de disfarçar esse alimento para enganar esse instinto é que deveria ser questionado e visto como algo diferente, estranho ou curioso.

Então é a minha vez de questionar. Por que a maioria das pessoas come carne apesar do que o seu corpo pede?

Houve um homem que sabia que comer carne é algo que faz mal para o corpo e o espírito, mas ainda assim, quando lhe ofereciam, não recusava. Ele ficou conhecido como o Buddha (Iluminado) e hoje é venerado como um Deus por milhões. O Buddha aceitava o alimento que sabia que lhe faria mal, por desapego. Ele vivia das esmolas que lhe davam e não se sentia no direito de pensar antes no seu bem-estar do que na gratidão aos que lhe ofereciam o que podiam. Talvez por coincidência (ou não), a história diz que ele morreu em decorrência de uma infecção alimentar ao comer carne de porco; mas não é isso que importa aqui. O ponto é que obviamente não é por possuírem a extrema generosidade de um iluminado que as pessoas comem carne. As pessoas a comem porque na história da evolução da espécie humana houve um tempo em que isso foi necessário. Aliás, todo o imenso acervo de técnicas culinárias para transformar a carne em algo comestível talvez seja o mais impressionante exemplo da capacidade adaptativa da espécie humana. O homem domina o globo porque não se deixa levar totalmente por seus instintos. Continuando no exemplo anterior, quando o homem sente medo, ele não reage apenas instintivamente como os demais animais. O instinto, no primeiro momento, lhe deixa alerta, mas depois ele traz à tona a razão, analisa a situação e procura uma forma de resolvê-la. Caso contrário não teria conquistado os lugares mais inacessíveis do planeta, construído navios e aviões e pisado até na lua. O mesmo se deu com o nojo da carne. Sem vencê-lo, teria sido impossível sobreviver a glaciações sem a proteína e a gordura animal ou viver em regiões onde o clima ou a topografia não permite produzir alimentos vegetais suficientemente. Ou seja, entre se adaptar a um alimento que com o tempo pode vir a fazer mal e passar fome, o ser humano escolheu a alternativa mais lógica. E é por esse hábito, adquirido há milênios e passado de geração a geração, que as pessoas comem carne hoje.

Mas acontece que essa necessidade não existe mais. Nós continuamos evoluindo e agora aprendemos a nos alimentar sem precisar desse recurso extremo. Já sabemos produzir alimentos vegetais em quantidade suficiente para todos e temos todo o conhecimento científico para equilibrar a dieta de forma que os poucos nutrientes que antigamente só tínhamos aprendido a obter pela carne sejam tranquilamente supridos. Em resumo, deixar de comer carne é uma questão de evolução, é mais um passo que devemos e vamos dar no nosso caminho. Os corpos de todos os animais que matamos para nos alimentar já cumpriram seu papel; devemos ser gratos a eles, mas agora podemos nos livrar dessa muleta e seguir com nossos próprios pés.

Ah, caso alguém tenha se interessado, a receita das batatas é simples. Escolha de preferência batatas grandes. Cozinhe durante uns 20 minutos em água com sal, e os temperos da sua preferência. Deixe esfriar. Faça um corte longitudinal, abrindo uma ‘tampa’. Com uma faca ou colher, cave um buraco na polpa, para rechear.

Encha com o recheio que quiser. Recheios a base de queijo costumam ficar bons, rúcula com tomate-seco fica uma delícia, pasta de berinjela com pimenta e alho é sensacional. Mas não se constranja, se ainda quiser, pode rechear com carne também.

Enrole com papel laminado e coloque no forno bem quente ou entre as brasas da churrasqueira. Bom apetite.


Renato pratica Yoga em Fortaleza, CE, e é o Webdesigner deste nosso site yoga.pro.br

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19 respostas para “O recheio das batatas e o futuro da Humanidade”

  1. Tenho 17 anos e deixei de comer carne há 1 ano, e a leitura desse texto foi para mim um total incentivo pra continuar nesse caminho, porque muitas vezes fiquei confusa, sendo que ao meu redor conheço um único vegetariano, com quem não convivo, e minha familia, também gaúcha, vive tentando me convencer que isso vai me fazer mal, pois necessito da proteína que ela fornece…

    Adorei seus argumentos e vou adotar a receita da batata, pois parece ótima!

    Abraços.

  2. Antes de começar, gostaria de dizer que não sou nem contra nem a favor de se comer carne. Como carne porque nasci numa cultura que come e ainda não sei substituí-la. Ela é um alimento muito nutritivo e rica em ferro. Antes de divulgar tantos benefícios em aboli-la, devemos alertar para uma substituição adequada, já que o ferro da carne vermelha é muito mais fácil de ser assimilado por nosso organismo do que o ferro dos vegetais, e é justamente por isso que muitos médicos a recomendam em casos de anemia.

    Não concordo quanto a dizer que o ser humano não gosta de carne. Eu gosto de carne, principalmente crua, desde criança. Os temperos não são para disfarçar, mas para variar ou melhorar. Você deu o exemplo das batatas… porque então recheá-las e cozinhá-las? A batata fica gostosa crua?

    Os animais da era da industrialização realmente são maltratados, e isso é muito triste, mas isso não quer dizer que não possamos ter um quintal com galinhas, vacas, carneiros… criados soltos.

  3. Maguido e Daiane, obrigado a vocês também pelos comentários.

    Maguido, como afirmei na resposta a Marina, Thomaz e Márcia, eu não tive a pretensão de convencer ninguém a se tornar vegetariano, apenas de sugerir a reflexão sobre seus hábitos alimentares. Talvez por isso eu não tenha me preocupado em ilustrar minhas opiniões com dados mais concretos. Entretanto, como você levantou uma questão específica, me sinto obrigado a fazê-lo.

    As plantações de grãos, que você afirma exigirem mais desmatamentos que as pastagens, são feitas, na sua imensa maioria, justamente para produzir ração para o gado, não alimentos diretos para os seres humanos. Segundo o Worldwatch Institute (www.worldwatch.org ou http://www.wwiuma.org.br), 90% da soja e 80% do milho produzido nos EUA é consumido pelo gado. No Brasil são 90% do milho e 70% do total de grãos. Ainda segundo o WWI, a pecuária utiliza 7 quilos de soja para cada quilo de carne que produz, e, nesse processo, 90% da proteína, 99% dos carboidratos e 100% da fibra da matéria-prima original se perdem. Ou seja, com 700 quilos de proteína de soja se produz 10 quilos de proteína de carne. Com 700 quilos de carboidratos de soja, se produz 1 quilo de carboidrato de carne. E 700 quilos de fibras de soja são desperdiçados completamente. Outros dados interessantes: em um hectare de terra é possível produzir 11.200 kg de feijão, 22.400 kg de maçã, 34.900 kg de cenoura, 44.800 kg de batata, 56.000 kg de tomate ou apenas 280 kg de carne bovina. E a quantidade de água necessária chega a ser 20 vezes maior.

    Como curiosidade: procurando esses dados exatos para lhe passar, encontrei, por acaso, uma reportagem, em http://www.revistagloborural.globo.com, que exemplifica bem a questão.

    Portanto, o fator ambiental é, sim, um argumento importantíssimo a favor do vegetarianismo.

    Um abraço,

    Renato.

  4. Comecei a ler seu texto com risos, pois passo pela mesma situação praticamente todos os dias. É muito difícil para as pessoas entender por que você não come carne, mas já cheguei à conclusão, para não me estressar, de que a minha resposta é sempre: me faz mal! Verdadeiramente, não passava bem quando comia carne. Como você, sou gaúcha, e só nós sabemos realmente o que é viver nessa cultura carnívora. Mas hoje em dia moro na China, onde, acredite, é pior ainda. Os chineses comem tudo o que se mexe, anda ou rasteja. Ao contrário do que muitos pensam, que chinês come muitos legumes. Eles também comem legumes, mas nunca sem carne, de qualquer coisa! Entre as preferidas: cabeca e pescoço de pato, pé-de-galinha, cabeça de galinha, tartaruga, cachorro, todos os insetos possíveis e por aí vai…

    Bom, resumindo, pra mim é terrível comer na China. Em qualquer lugar que se vá, só tem carne no cardápio, e, pra piorar, muuuuiiiita pimenta! A minha sorte é que no refeitório da empresa temos uma nutricionista brasileira que é um anjo e faz coisas especiais pra mim, ainda mais quando nossos colegas indianos nos visitam. Falando nisso, tenho muitos amigos indianos, e mesmo os muçulmanos comem carne de frango. A maioria não come, mas tem alguns que comem. Os hindus não comem porco nem ovo. São umas graças. Quando vêem que tem alguma carne perto da comida, já não comem, pois a comida pode estar contaminada. Bom, não posso relatar tudo o que se passa do lado de cá em poucas linhas, mas é uma alegria poder ter essas informações, mesmo tão longe.

    Mais uma coisa curiosa: coração de galinha (tradicional churrasco gaúcho), nem chinês come!!!! Eles acham um horror… mas a cabeça e o bico do pato eles acham que é uma delícia…. vá entender esse povo, e o nosso!

    Grande abraço, Daiane.

  5. Bom, parabéns pelo texto, pelas colocações.

    Acredito que ser vegetariano seja uma opção, além de ética saudável. Porém, certos argumentos, na minha opinão, são colocados erroneamente. Conheci casos, aqui na minha região, em que para mineiros presos em desabamentos não morrerem de fome, optaram por comer a perna de um companheiro. Mas, tirando os casos extremos, outro argumento que não convence é o da derrubada de matas para fazer pastagens, pois muito mais se derruba para plantar soja e outros grãos. Um bom argumento seria o do respeito à vida! Mas aí já entramos no mérito de que as plantinhas do jardim lá de casa também têm vida… Sendo assim, vejo o argumento do respeito à saúde como o mais plausível!

    Desculpas se em alguma parte desse meu texto alguém se sentir ofendido. Tenham certeza de que esta não é a minha intenção. Paz e saúde!

    Maguido.

  6. Chico, muito obrigado pelos elogios. 🙂

    Marina, Thomaz e Márcia, muito obrigado, também, pela atenção e pelas críticas. Quanto a elas, por ter recebido semelhantes de outras pessoas, acho que talvez eu tenha pecado em não deixar claro justamente o que eu acho mais importante no texto. Aliás, foi o que me levou a escrevê-lo. Em momento nenhum ele se atreve a tentar ?convencer ou justificar o não comer carne?, como disse a Marina, ?defender o vegetarianismo partindo da premissa de que por não ingerirmos a carne “in natura” a tornaria imprópria para o ser humano?, como afirmou o Thomaz, e nem mesmo ?conscientizar as pessoas?, como colocou a Márcia. O meu tema é muito menos pretensioso. Quis dizer apenas que acho que as pessoas que costumam nos perguntar por que somos vegetarianos é que deveriam começar a se perguntar por que comem carne. Tendemos a achar que o normal é o que se pauta pela lei do menor esforço. Se você vê uma pessoa subindo até o 6º andar pela escada e outra pelo elevador, para qual delas vai perguntar por que agiu assim? A curiosidade que as pessoas têm em saber por que somos vegetarianos é tão surpreendente quanto seria achar estranho alguém subir ao 6º andar pela maneira mais fácil. Mesmo quem não vê problemas éticos em aprisionar animais, matar para comer ou derrubar florestas para abrir pastos, vai concordar que obter alimentação vegetariana exige muito menos esforço e, portanto, quem come carne é que deveria se perguntar por que se dá ao trabalho de fazer isso. Eu não nasci vegetariano. Tornei-me há pouco tempo porque me fiz essa pergunta e, quando tive coragem de respondê-la com sinceridade, o que descobri é que comia carne por puro hábito, por condicionamento. Antes de estar preparado para me analisar com sinceridade, eu também teria respondido que comia porque gostava. A partir do momento que decidi ser responsável pelas minhas escolhas, mudei meus hábitos alimentares, entre muitas outras coisas.

    Um abraço e, novamente, muito obrigado a todos.

    Renato.

  7. Sabe, Renato, acredito que precisamos conscientizar as pessoas, sem dúvida. Porém, existe uma questão de necessidade individual, e outra – talvez a mais importante – a questão cultural, e nesse sentido nosso quesito é zero. Assimilamos cultura de outros povos, estamos sempre procurando mimetismos e discursamos com uma propriedade que nem sempre acaba convincente. Seu artigo é muito bom, sem dúvida. Porém, acredito que cozinhar seja realmente o maior ato de alquimia possivel à maioria dos seres humanos. Portanto, afirmar que nenhum ser humano gosta de carne é radicalizar demais, penso eu. Apesar dos vegetais e toda linhagem estarem prontos a serem consumidos in natura, na sua receita, por exemplo, a batata foi cozinha, e se formos recheá-la com berinjela, não acredito que o recheio não tenha também passado por esse processo que gosto de dizer… alquímico ! Portanto, nada mais lógico que também processá-lo no preparo da carne. De maneira alguma estou aqui para defender o consumo da carne, mas acho que, nesse caso, o radicalismo da afirmação me levou a fazer esse comentário. Om!

  8. Renato, você esqueceu de duas coisas – e não citá-las em seu artigo, em que defende o vegetarianismo partindo da premissa de que por não ingerirmos a carne “in natura” a tornaria imprópria para o ser humano, é no mínimo “injusto”! As duas coisas de que você esquece de dizer são: (primeiro) a maioria dos alimentos do reino vegetal que ingerimos são também processadas e passam por grandes transformações antes de ser possível ingerí-las. Vide todos os principais grãos que diariamente comemos no almoço e jantar. O arroz, o feijão, o milho e a maioria dos vegetais não são possíveis de serem comidos crus. O seu exemplo do homem no bote no meio do mar seria perfeito se ao lado dele colocássemos também uma saca de feijão “in natura” e outra de arroz também cru e ele preferisse comê-los ao invés da carne. O que ele preferirira no final? Ou o que conseguiria comer sem ter ou uma enorme indigestão ou fratura mandibular (ou quebra de dentes)? Acho que ele preferiria a carne, mesmo com “nojo”, como você diz. Acho que o argumento de que a ingestão de alimentos ao natural prova que estes são apropriados e bons por natureza, é falha. Toda a criatividade de séculos do homem – a gastronomia, a avariedade de combinações, cozimentos, frituras etc – ficaria esquecida. Voltaríamos à idade da pedra (anterior à do fogo), quando o homem ainda não havia aprendido a lidar com ele. A segunda questão (me estendi um pouco na primeira) é a de que temos incisivos, os dentes. Todos os animais que os possuem comem carne. Eles foram feitos para dilacerar carne. Nós os usamos desde o tempo em que ainda éramos um pouco macacos e não sabíamos cozinhar. Somos onívoros, ou ainda, comemos de tudo. Os grandes macacos africanos também (ainda) o são. Se você olhar a boca dos herbívoros notará a falta dos caninos, os incisivos: estes sim, comem e ruminam depois o alimento. Foram talhados para tal.
    O que, infelizmente, não é o nosso caso. Abraços, Thomaz.

  9. Oi Renato. Achei interessante esse seu texto “O recheio das batatas e o futuro da Humanidade”. Entretanto, acredito que não é com esse argumento que se convence ou se justifica o não comer carne. Você esqueceu de um aspecto essencial: a gastronomia. Quando você argumenta que o ser humano come carne a contragosto, que precisa disfaçar o alimento (textura e cheiro) para poder ingerir com prazer, você acaba por fazer uma afirmação por demais simplista. Sem contar o desmerecimento a todo um estudo e aperfeiçoamento feito por cozinheiros e chefs no mundo inteiro. Para muitas pessoas, a culinária é profissão e razão de viver – o mesmo que deve ser o vegetarianismo para muitos de nós. Concordo com você que a carne não é um alimento “recebido” facilmente pelo corpo humano, mas “nojo” já vira uma ofensa, não acha? Acredito que comer ou não comer carne é uma escolha e decisão pessoal baseada em convicções e estilos de vida, sendo estes singulares, e, dessa forma, de difícil compreensão para pessoas que tendem a naturalizar comportamentos – exemplo, os que acreditam ser “normal” comer carne e não o contrário.

  10. Para ser breve, esse texto das batatas está simplesmente o máximo!!! Simples, esclarecedor e objetivo… Show… Chico.

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