Pratique, Yoga na Vida

O sorriso de Kṛṣṇa

Aceitar situações das quais gostamos, ou aquelas que nos surpreendem agradavelmente é muito fácil. Aceitar coisas que nos são indiferentes tampouco implica algum desafio especial. A palavra aceitação serve para nos lembrar de como lidar de maneira equânime com os obstáculos.

Escrito por Pedro Kupfer · 2 mins de leitura >

O sorriso de Kṛṣṇa é um lindo mistério a ser desvendado. Já faz muitos anos que ouvi por primeira vez o mantra “entrego, confio, aceito e agradeço”, dos lábios do incrível e saudoso professor Hermógenes.

Lembro que, ao ouvir por primeira vez essas quatro palavras juntas, tive a mesma sensação de maravilhamento que senti noutras oportunidades, ao ouvir ensinamentos transformadores da boca dos mestres realizados que tive a oportunidade de conhecer.

Uma das grandes virtudes desses mestres é que eles podem transmitir a visão transformadora do Yoga através de palavras simples que não apenas ficam na memória mas tocam profundamente o coração. Hermógenes é esse tipo de mentor, difícil de se encontrar.

Lá se vão quase duas décadas desde o momento em que escutei por primeira vez estas palavras numa palestra que ele deu num espaço de Yoga em Florianópolis. E muitas outras vezes as ouvi é li noutros lugares.

E sempre elas tiveram (e continuam tendo) o mesmo peso, a mesma carga, a mesma promessa de que as coisas podiam ser mais do que pareciam, de que a vida não devia ser só aquela cilada da qual era preciso ser um ninja para poder sair.

Penso que as quatro palavras do aforismo tenham o mesmo peso. E mais peso ainda têm a união delas nessa ordem específica, pelo que revelam. Bom, o convite que recebi foi para refletir sobre a terceira das quatro palavras: aceitação.

Aceitação, no contexto do Yoga, é um valor muito bonito e transformador. Aqui, a palavra significa algo diferente daquilo para o que ela aponta por exemplo quando aceitamos aqueles termos de uso do computador que jamais lemos.

Aceitar não é, por outro lado, cultivar a resignação sôfrega de quem não consegue manter a equanimidade ou tende a se colocar como vítima das circunstâncias.

Sem ser o professor Hermógenes, e distando muito da sua sabedoria, atrevo-me a dizer que quando escolheu a palavra aceitação quis apontar para a virtude de manter o contentamento e o astral altos; não apenas quando as coisas estão fluindo da maneira que desejamos ou esperamos, mas igualmente quando a vida nos coloca aqueles inevitáveis desafios.

Aceitar situações das quais gostamos, ou aquelas que nos surpreendem agradavelmente é muito fácil. Aceitar coisas que nos são indiferentes tampouco implica algum desafio especial.

Agora, penso que a palavra aceitação esteja nesta frase justamente para nos lembrar de como lidar de maneira equânime com os obstáculos que vão nos ensinar alguma coisa.

Digo isto pois é fato que se as coisas só fluírem para nós na forma do conforto e da facilidade, não aprenderemos nunca nada. Aprendemos através dos desafios, das limitações e das dificuldades.

Como diz um ditado das gentes do mar, que ouvi do meu irmão, cuja casa é um veleiro: “mares calmos não fazem bons marinheiros”.

Porém, esse aprendizado não precisa ser sôfrego. É possível enfrentar desafios, com um sorriso nos lábios e paz no coração. É possível relaxar e apreciar do mar tormentoso como ele é.

Kṛṣṇa, no campo de batalha, sorri

Foi isso o que Kṛṣṇa ensinou o príncipe Arjuna à beira do campo de batalha: sem perder o sorriso nem a calma, apesar da trágica guerra fratricida que estavam vivendo.

O sorriso de aceitação surge da apreciação da ordem maior, de que nela, há um lugar para cada pessoa, para cada coisa e circunstância. A aceitação equânime implica, a priori, compreender a diferença entre o que podemos e o que não podemos mudar.

E, alegremente, nos ajeitar dentro dessas situações, aceitando as pessoas e as coisas como são, vivendo conscientes e aplicando essa visão libertadora a cada momento.

Com o sorriso de Kṛṣṇa.

Kṛṣṇa

॥ हरिः ॐ ॥

Sobre o Maha Mantra

Aqui, Swāmi Dayānanda fala sobre o Mahamantra. Eis aqui um lindo texto sobre Śrī Kṛṣṇa por Swāmi Dayānanda Saraswati.

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4 respostas para “O sorriso de Kṛṣṇa”

  1. “Um doloroso choro
    Recebe a dor que chega nessa casa de hóspedes que herdei.
    Dantes, essa dor reinava sozinha, sem a dona da casa por perto
    Ficava o tempo que queria e passava a chamar-se sofrimento.
    E indiferente a dona e aos outros hóspedes…
    Tomava conta de tudo! Agora,
    Um contentamento inexorável por trás,
    Olhando e adorando aquilo tudo, sinto.
    Que prazer é esse que chegou agora?
    Nem bateu na porta….já estava e não vi ou dormia?
    De repente, Essa dor vai encontrando seu lugar na minha hospedaria,
    E envergonhada , Entrega sua vontade de reinar ao verdadeiro
    Rei do recinto, Que Aceitou sua visita.
    Sakshi mostra seu lado fanfarrão Quando Krishna sorri!
    E a Mente, a dona da hospedaria,
    Nele Confia quando De dolorosas
    As lágrimas tornam-se Gozozas E
    Agradece por todos conviverem em seus lugares.”
    Modificada um pouquinho com a inspiração desse belo texto, e mesmo distando também da grandiosidade poética do mestre Hermógenes, compartilho meu depoimento poético que traduziu um dia, uma experiência real.
    Namaste!
    Hari Om!

    1. Que coisa linda…estou passando exatamente por tudo isso. E vc não imagina como suas linhas me tocaram. Harih Om

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