Pratique, Yoga na Vida

O Yoga e a Vacina: Bom-senso, Dharma e Compaixão

Vacinar-se tornou-se um gesto político, aparentemente. É inaceitável fazer apoiar a vacinação contra a COVID-19? Aparentemente, em alguns lugares do mundo da espiritualidade, sim. Ângela, a minha esposa, publicou uma selfie numa rede social no momento em que estava a tomar a vacina contra a COVID-19. Uma professora de Yoga e terapeuta escreveu em resposta […]

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Vacinar-se tornou-se um gesto político, aparentemente. É inaceitável fazer apoiar a vacinação contra a COVID-19? Aparentemente, em alguns lugares do mundo da espiritualidade, sim.

Ângela, a minha esposa, publicou uma selfie numa rede social no momento em que estava a tomar a vacina contra a COVID-19. Uma professora de Yoga e terapeuta escreveu em resposta ao post dela: “Fico triste de estarem a doutrinar para a vacina. Mas continuo a gostar de ouvir sobre o Yoga”.

A colega fala como se fosse possível separar a vida cotidiana do Yoga. “Ouvir sobre o Yoga” apenas, sem prestar atenção ao chão onde caminhamos e à maneira em que nos relacionamos com os demais e com o ambiente é perigoso e contraproducente, para dizer o mínimo.

O Yoga não tem qualquer valor quando separado do dharma, do viver conscientemente no cotidiano, ou se a visão libertadora e os valores que ela transmite não forem aplicados nas nossas atitudes.

O Yoga na conjuntura da pandemia

Faço aqui um aparte, antes de continuar: é inacreditável que, em pleno século XXI, em meio à dramática situação da pandemia que estamos a atravessar e que já deixou milhões de mortos, seja necessário escrever um texto como este.

É inacreditável que ainda haja pessoas neste planeta que fiquem de costas para as evidências científicas, ou que até mesmo cheguem ao extremo de negar que a pandemia exista. Digo isso, pois é preciso ser egoísta demais para deixar-se cair nesse tipo de cilada.

Talvez esteja na hora de ventilar publicamente estes temas: existe uma desconfortável dose de superstição e credulidade no mundo do Yoga, do Tantra e do Vedānta. A nossa comunidade é um campo fértil onde pululam teorias conspiratórias e extremismos de todo tipo.

Nesse contexto, não surpreende que haja um forte sentimento anti-ciência e antivacinas entre os buscadores de mokṣa, que não hesitam em publicar aos quatro ventos nas redes sociais o elogio da ignorância e do extremismo.

Apesar da ciência ter, desde décadas atrás, revelado os inúmeros benefícios das práticas do Yoga para a saúde e a qualidade de vida, e apesar de que os médicos recomendam maciçamente o Yoga para os seus alunos, não vemos nenhuma reciprocidade da parte dos professores de Yoga em relação à medicina.

Dificilmente um professor de Yoga irá recomendar a um aluno fazer uma consulta médica se este reporta alguma dor ou moléstia corporal. Pelo contrário: o clichê redundante é o do professor de Yoga que se orgulha de não ir ao médico, não confiar na ciência e não tomar vacinas.

Yoga não é debochar das vítimas

Alguns, como o controverso guru Ramdev, de Haridwar, chegam ao ponto de insultar diretamente a classe médica e rir das vítimas da pandemia. Esse infame personagem ofende as vítimas e vende remédios falsos que supostamente curam o vírus da COVID-19.

Ele disse em maio de 2021, enquanto milhares de pessoas morriam diariamente na Índia e os hospitais do país inteiro colapsavam: “Deus nos deu oxigênio de graça, por que não o respiramos? Como pode haver escassez quando Deus encheu a atmosfera de oxigênio? Os tolos estão procurando cilindros de oxigênio. Basta respirar o oxigênio gratuito. Por que vocês está reclamando de escassez de oxigênio e camas e espaço nos crematórios?”

Essa insensibilidade é chocante e cruel. Esse deboche e falta de respeito pelos doentes, pelos falecidos e pelos heróis dos sistemas de saúde de qualquer país diz muito sobre o nível de polarização política que contaminou a comunidade do Yoga, para onde naturalmente se estende o extremismo político da direita radical que vemos noutros ambientes.

Esse guru-empresário está sujando a reputação do Yoga e perdendo uma boa oportunidade de colaborar com o bem comum. O Yoga perde quando aqueles que supostamente o representam ou defendem tomam atitudes irresponsáveis como essa.

Ramdev não está sozinho. Muitos outros professores de Yoga e Vedānta, na Índia e fora dela, cultivam atitudes similares. Paradoxalmente, esse professor de Yoga que ri dos mortos alega poder curar a COVID-19 e outras doenças graves com ervas medicinais, é incapaz de curar o seu próprio tique nervoso, que o faz piscar sem parar.

O tique nervoso incurável do pretenso curador evidencia o alcance limitado das suas promessas terapêuticas, e já deveria ser o suficiente para que as pessoas descartassem seus remédios falsos. Porém, não é isso o que acontece, infelizmente. Ramdev é poderoso, bilionário, e tem milhões de seguidores cegos, dentro e fora da Índia.

Veja aqui uma reportagem sobre as consequências catastróficas para a saúde pública da Índia provocadas pela campanha contra a medicina e a vacinas desse charlatão. Enquanto isso, na comunidade dos praticantes de Yoga do Brasil coloca-se a pessoa que apoia a vacinação no mesmo nível dos falsos gurus estupradores, como se apoiar as vacinas fosse um crime.

Yoga não é fantasia nem negação da realidade

Mokṣa, o objetivo do Yoga, do Tantra e do Vedānta, nada tem a ver com a “liberdade de escolha” sobre se a pessoa vai optar por correr o risco de contagiar seus próprios pais ou avôs com um vírus mortal.

Mokṣa é justamente o contrário dessa atitude irresponsável: é a liberdade em relação às próprias limitações e condicionamentos.

Mokṣa é ser capaz de erguer-se para mais além dos condicionamentos de classe social, casta, grupo familiar ou identificação com as coisas do mundo relativo.

É inaceitável, porém familiar, o constrangedor sentimento de não ter liberdade para manter uma simples conversa sobre vacinas em ambientes ditos “espiritualizados” sem sofrer deboches ou julgamentos desabonadores, injustos e totalmente falsos pelos defensores dessas teorias descabeladas, que apenas fomentam a divisão e a hostilidade.

Hoje em dia, o professor de Yoga que não é anti-ciência precisa pisar em ovos e escolher muito bem as próprias palavras pois, se tentar simplesmente fazer referência a alguma verdade científica, será inevitavelmente escorraçado ou agredido pelos extremistas que (também) tomaram conta desse espaço onde antes havia tolerância e convívio pacífico.

Cabe lembrar que o Yoga não é um sistema de crenças, nem adere a nenhum tipo de extremismo, e ao mesmo tempo não é apolítico. O Yoga é uma visão libertadora que mostra ao ser humano que ele já é livre de quaisquer limitações.

Esse ensinamento libertador vem, necessariamente, junto com um grupo de atitudes e técnicas que devem ser aplicadas. A aplicação começa no tapete e se estende depois para todos os momentos da vida cotidiana do praticante, na medida do possível.

O Yoga, pelo menos da maneira que o aprendemos, é uma espiritualidade com os pés firmemente fincados na terra. Dizia Swāmi Dayānanda, nosso mestre: “we are reality people”, somos pessoas da realidade. Isto quer dizer que não precisamos nos mudar para algum reino de fantasia nem tentar fugir para algum lugar imaginário, nem negar o momento histórico em que nascemos.

O Yoga é para viver a vida. E qual é o propósito dela? Apenas viver. O propósito da vida e viver na realidade, na sociedade e no mundo em que nascemos, compreendendo a diferença fundamental entre o Absoluto, o relativo e o subjetivo.

O grande problema é quando um professor ou praticante de Yoga mistura convenientemente esses níveis da existência e, atribuindo valores absolutos a coisas relativas, distorce e rearranja a realidade de acordo com a própria conveniência.

Vacinas salvam vidas

Voltemos ao início: vacinas salvam vidas desde o século XVIII. Vacinas são o meio mais efetivo e seguro para se combater e, em alguns casos como o da varíola, erradicar doenças infecciosas. Os benefícios da prevenção de doenças infecciosas superam amplamente os riscos de efeitos adversos que possam provocar em alguns poucos casos.

Só para dar um exemplo, a vacina contra o sarampo salva cerca de 1 milhão de vidas ao ano, todos os anos. Não obstante, algumas religiões e seitas não permitem a vacinação e certos grupos políticos extremistas se opõem a ela.

Desinformação, teorias conspiratórias e notícias falsas aumentam as taxas de infecção e ameaçam a vida de todos. É assim de simples.

Vacinar-se é um ato de consideração pelos demais

Já parou para pensar que vacinar-se é um gesto de compaixão e consideração pelos demais? Quando pessoas saudáveis se vacinam, protegem àqueles que não podem ser vacinados devido à idade ou a imunodeficiência, além de proteger àqueles que não se vacinaram. É preciso pensar na sociedade inteira, e não apenas em si mesmo(a).

Confie na ciência. Não se deixe ludibriar por conspirações. Saia da caixa de ressonância! O bom-senso nunca matou ninguém: basta-nos usá-lo. É necessário um reposicionamento público da parte dos professores de Yoga, no sentido de apoiar a ciência, reconhecer e divulgar as evidências que ela nos mostra em prol do bem-estar comum.

Para ter mais recursos (e respostas para um eventual debate), sugerimos que leia também este texto do site da BBC: Os 6 tipos de mensagens enganosas mais comuns contra as vacinas de covid-19 nas redes sociais e o que diz a ciência sobre elas.

॥ हरिः ॐ ॥

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॥ हरिः ॐ ॥

Pedro nasceu no Uruguai, 55 anos atrás. Conheceu o Yoga na adolescência e pratica desde então. Aprecia o o Yoga mais como uma visão do mundo que inclui um estilo de vida, do que uma simples prática. Escreveu e traduziu 10 livros sobre Yoga, além de editar as revistas Yoga Journal e Cadernos de Yoga e o website www.yoga.pro.br. Para continuar seu aprendizado, visita à Índia regularmente há mais de três décadas.
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mantra om

Meditação no Sagrado Mantra Om

Pedro Kupfer em Meditação, Pratique
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3 respostas para “O Yoga e a Vacina: Bom-senso, Dharma e Compaixão”

  1. Excelente abordagem, principalmente em face do obscurantismo multifacetado de espiritualidade que tem sido difundido nas redes sociais e pelas mídias em geral. Gratidão Pedro por essa importante e esclarecedora contribuição. Namastê. A vacina salva, a ignorância mata.

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