Pratique, Ṣaṭkarma

Ṣaṭkarma, a purificação orgânica

O corpo precisa purificar-se através de exercícios que transcendem a noção de higiene fisiológica pura e simples. O corpo precisa limpar-se através de exercícios que transcendem a noção de higiene fisiológica pura e simples. Karma significa atividade. Ṣaṭ é o número seis. O nome ṣaṭkarma deriva do fato de que, originalmente estas técnicas eram somente seis. O ṣaṭkarma é um conjunto de técnicas de purificação descritas na Haṭhayoga Pradīpikā: kapālabhāti, trātaka, nauli, neti, dhauti e vasti.

Escrito por Pedro Kupfer · 17 mins de leitura >

O corpo precisa purificar-se através de exercícios que transcendem a noção de higiene fisiológica pura e simples. O corpo precisa limpar-se através de exercícios que transcendem a noção de higiene fisiológica pura e simples. Karma significa atividade. Ṣaṭ é o número seis. O nome ṣaṭkarma deriva do fato de que, originalmente estas técnicas eram somente seis. O ṣaṭkarma é um conjunto de técnicas de purificação descritas na Haṭhayoga Pradīpikā: kapālabhāti, trātaka, nauli, neti, dhauti e vasti.

Os três primeiros ajudam a purificar o organismo, mas trabalham também a energia e o pensamento. Os três últimos fazem a purificação interna de três partes do corpo. O objetivo destas purificações é equilibrar os três humores (dośas) do corpo, que se constituem pela interação entre os cinco elementos: vāta (ar e espaço), pitta (fogo) e kapha (água e terra). O equilíbrio dos dośas possibilita o correto funcionamento fisiológico. Quando um deles se desequilibra acontecem as doenças. Estas técnicas se fazem para reequilibrar os humores corporais.

Algumas delas ficaram antiquadas ao longo do tempo e não se praticam mais. Por exemplo, hoje em dia, para fazer uma lavagem intestinal, ninguém pensa em procurar um córrego de água limpa onde possa lavar o cólon.

Já o śaṅkaprakṣālaṇa é uma lavagem do trato digestivo e intestinal que consiste em ingerir uma grande quantidade de água morna e salgada, fazendo-a circular através de certos exercícios e eliminando-a.

Cada técnica trabalha sobre uma área definida do corpo, não apenas purificando-o por fora, mas também, e principalmente, por dentro, promovendo a limpeza total do organismo, o bhūtashuddhi, indispensável para o progresso na prática. Esse estado de purificação permitirá que a respiração e os fluxos prânicos circulem livremente.

1 – Kapālabhāti.

O nome significa crânio brilhante, imagem que define claramente a sensação que se tem ao fazê-lo. No kapālabhāti enviamos uma carga extra de oxigênio ao cérebro, que causa uma sensação de brilho. Este exercício proporciona uma limpeza total das vias respiratórias.

Elimine todo o ar dos pulmões. Inspire lenta e profundamente e, sem reter o ar, expire vigorosamente pelas narinas, fazendo bastante ruído e contraindo com força o abdômen.

Volte a inspirar de forma completa, com suavidade, e solte o ar outra vez com vigor, porém sem contrair a musculatura facial nem movimentar os ombros. Faça isto pelo menos dez vezes.

O intervalo entre duas expirações é muito maior que no bhastrikā, a respiração do sopro rápido. A posição na qual você senta deve ser perfeitamente firme, para evitar oscilações devidas à força da exalação. É aconselhável utilizar um lenço debaixo das narinas, pelo menos durante os primeiros ciclos, para reter nele o excesso de mucosidade que será eliminado durante o exercício.

Efeitos: o kapālabhāti limpa instantaneamente as vias respiratórias. Fortalece o sistema nervoso e tonifica o organismo, regulando o seu metabolismo. Proporciona excelente oxigenação cerebral, limpando e purificando os pulmões e revigorando os órgãos internos e a musculatura abdominal. Produz um estado de clareza mental, aumenta a confiança em si próprio e a capacidade de comandar a mente. Igualmente, desperta as faculdades sutis da percepção.

Na Gheraṇḍa Saṁhitā , um dos textos clássicos do Haṭhayoga, descrevem-se três formas de kapālabhāti: vātakrama (expiração rápida e vigorosa, parecida com o bhastrikā), vyutkrama (se aspira água morna e salgada pelo nariz e se elimina pela boca), e śītkrama kapālabhāti (se absorve água morna e salgada pela boca e se expulsa em um sopro pelo nariz).

2 – Trātaka

Trātaka é a fixação ocular. Serve para limpar e tonificar os músculos e nervos ópticos, assim como para descansar a vista. Desenvolve força de vontade e intuição e favorece a meditação. Basicamente, os diferentes tipos de trātaka consistem em fixar firmemente o olhar em um ponto ou em fazer certos movimentos de rotação, alongando músculos e nervos ópticos. Neste sentido, podemos dizer que os trātakas são āsanas feitos com os olhos. Existem três categorias de trātaka.

O primeiro tipo é o bahirāṅga trātaka exercício externo, que inclui a fixação do olhar em algum ponto, como uma flor, uma folha, um símbolo ou a chama de uma vela, sem piscar, até lacrimejar intensamente. Contemplar o céu deixando o olhar aprofundar-se infinitamente no azul, nas ondas do mar, nas folhagens de uma floresta, observar o sol poente ou nascente, a lua ou as estrelas, também são formas de trātaka.

Para fazer bahirāṅga trātaka você vai sentar em uma posição de meditação bem confortável, estendendo seu braço direito à frente com a mão fechada e o dedo polegar para cima. Olhe detidamente para a unha do polegar e comece a movimentar o braço, deslocando-o muito lentamente primeiro para o lado, depois para cima e por fim para baixo, acompanhando o dedo com os olhos, porém sem mover a cabeça. Faça o mesmo para o outro lado.

Agora execute um movimento circular: mova a mão para cima, desça com ela pelo lado e ao chegar no chão troque de braço, subindo então pelo lado e completando o círculo que será feito na próxima vez no outro sentido. Execute diversas vezes. O movimento deve ser lento. Somente os olhos acompanham a mão: a cabeça permanece imóvel.

Aproxime então o polegar de seus olhos e focalize-o bem de perto. Logo em seguida foque um ponto distante à sua frente e rapidamente volte o olhar para o polegar, olhe sucessivamente para o ponto distante e para o polegar, diversas vezes. Depois fixe o olhar em algum ponto, como uma flor, uma folha, um desenho ou a chama de uma vela, sem piscar, até lacrimejar intensamente.

Por fim, atrite as palmas das mãos uma na outra até produzir um intenso calor. Cubra os olhos com as palmas, cuidando para não apertá-los, bloqueando qualquer entrada de luz e permitindo que os globos oculares assimilem esse calor. Enquanto isso, visualize-os em perfeito funcionamento.

Pode-se fazer o movimento com os olhos sem utilizar a guia do dedo, imaginando um círculo em torno deles e mirando primeiramente o ponto entre as sobrancelhas, depois movendo vagarosamente os olhos para a extrema direita, para baixo, seguindo para a extrema esquerda e retornando para o ponto acima. Executa-se diversas vezes esta rotação, invertendo sempre o sentido.

Já o antarāṅga trātaka é um exercício interno, que envolve visualização. Imagina-se um objeto, um símbolo ou um yantra no espaço escuro dentro da cabeça, na altura do intercílio. O objetivo é alcançar a mesma clareza que quando se olha para esse mesmo objeto com os olhos abertos.

O terceiro tipo, antarbahirāṅga trātaka, combina os outros dois, que se fazem de forma alternada. Esses exercícios podem fazer-se a qualquer momento do dia. O trātaka beneficia a saúde geral dos olhos, chegando em alguns casos a melhorar condições de miopia ou astigmatismo, aumenta a força de vontade, desperta a clarividência (śāmbhavísiddhi) e constitui uma excelente preparação para as técnicas avançadas. De todos os exercícios de trātaka, escolhemos a fixação na chama da vela, por ser ao mesmo tempo simples, fácil e de resultados rápidos.

3 – Nauli

É o isolamento do músculo reto abdominal, pressionando os órgãos internos contra a espinha dorsal e elevando ao máximo o diafragma, ao mesmo tempo em que se imprime um movimento ondulante à musculatura do ventre. Deve fazer-se sempre com os pulmões vazios. Durante o nauli, o abdômen apresenta uma aparência côncava, ficando totalmente recolhido contra a coluna e para cima, enquanto que o músculo reto abdominal permanece projetado para frente, deslocando-se sinuosamente.

Para fazer nauli, acompanhe estas instruções. Em pé, com os pés paralelos e afastados na distância do quadril, apoie as palmas das mãos sobre a parte alta das coxas e flexione levemente os joelhos, inclinando-se à frente.

Inspire, expire todo o ar e contraia vigorosamente o abdômen para cima e para trás, forçando o músculo reto abdominal a projetar-se à frente. Transfira então o apoio do tronco para o braço direito, mantendo o abdômen contraído. O reto tenderá a deslocar-se para esse lado. Em seguida mude o apoio, deslocando-o para a esquerda. Por fim, pressione firmemente ambos os lados, projetando o músculo para frente. Treine bastante desta forma, até conseguir efetivamente isolá-lo.

Depois passe à fase dinâmica: expire e contraia bem o abdômen, provocando um movimento ondulante e girando o reto para ambos os lados: primeiramente em sentido horário, deslocando o reto para a direita, para o centro e para a esquerda, promovendo com isso uma massagem fortíssima nos órgãos internos.

Repita essa movimentação o número de vezes que conseguir, sempre mantendo os pulmões vazios. Precisando inspirar, cesse o exercício, descanse durante alguns fôlegos e reinicie-o, até completar um mínimo de cem contrações fortes e cadenciadas. Logo faça o nauli em sentido anti-horário: para a esquerda, ao centro e para a direita, procedendo da mesma forma.

No início, vinte e cinco contrações a cada retenção é um número razoável. Porém, quando estiver devidamente treinado poderá ultrapassar facilmente as quinhentas contrações por sessão, fazendo, por exemplo, dez ciclos de cinqüenta giros a cada śūnyaka. Lembre, no entanto de fazer igual número de contrações em cada sentido, para trabalhar a musculatura de forma equilibrada.

Agnisāradhauti

Caso você ainda não consiga fazer o nauli, recomendamos como preparatório o agnisāradhauti, que é o recolhimento do abdômen, pressionando os órgãos internos contra a espinha dorsal e elevando ao máximo o diafragma, que fica totalmente encolhido e elevado.

4 – Neti

Neti é a atividade de purificação das mucosas nasais. Compreende o sútra neti, que se faz usando um cordão, o jalaneti, que se faz com água, o dugdhaneti, com leite e o ghrītaneti, na qual usa-se ghee, manteiga clarificada. É ótimo contra males dos seios frontais e nasais, como sinusite, enxaquecas, rinites, corizas ou resfriados e ainda favorece a saúde das regiões cerebral, cervical e escapular. Cabe ressalvar que está contra-indicado para pessoas que sofrem de hemorragias nasais freqüentes.

Sūtraneti

Sūtra significa cordão, fio. Antigamente se usava um fio de algodão banhado em cera de abelhas. Hoje em dia esta prática pode ser feita com uma sonda bem fina, de aproximadamente 4 mm de espessura e 36 cm de cumprimento, lubrificada com ghee.

Coloque uma das pontas da sonda em uma das fossas nasais. Empurre-a lenta e cuidadosamente até que alcance a garganta. Neste ponto, introduza os dedos polegar e indicador da outra mão na boca, pegue a extremidade da sonda e puxe-a para fora. Agora segurando-a por cada extremidade, movimente-a para cima e para baixo várias vezes. Repita todo o processo com a outra narina. Este exercício está reservado somente aos praticantes experientes. Se você sentir que pode ser difícil para si, prefira o jalaneti, que utiliza apenas água levemente salgada.

Jalaneti

Advertência importante: use sempre água previamente fervida para fazer esta purificação, especialmente se você mora numa região tropical. Já houve varios casos de morte pela ameba naegleria fowleri (conhecida popularmente como a ameba come-cérebros) nas regiões quentes dos EUA. Para fazer o śaṅka prakṣalāna ou os demais ṣaṭkarmas que usam água não é necessário fervê-la, pois os fluidos gástricos tem a capacidade de matar essa ameba.

Jala significa água. Jalaneti é a limpeza das narinas feita água salgada. Para fazer este ṣaṭkarma necessita-se de um pequeno bule de cerâmica próprio, chamado lota. A água utilizada deve ser mineral, morna e salgada na proporção de uma colher de sobremesa de sal para um litro de água.

Se a água estiver pouco ou demasiado salgada, poderá ter uma sensação de ardência na altura dos seios frontais. Se for o caso, adicione um pouco de água pura para diluir o sal. Caso queira tonificar os vasos sangüíneos desta área, utilize água fria. Isto melhora a circulação e evita hemorragias nasais.

Fique em pé, com o tronco ligeiramente inclinado para frente e incline a cabeça para o lado direito. Coloque o bico do lota na narina esquerda e incline-o, permitindo que a água entre por essa fossa e saia pela outra. A passagem da água deve ser natural e sem esforço. Isto vai depender da inclinação da cabeça. Mantenha a boca entreaberta e respire por ela.

Havendo esvaziado o recipiente, deixe o tronco na mesma posição e o rosto agora voltado para baixo. Execute kapālabhāti a fim de extrair o restante da água. Em seguida, observando as mesmas instruções, faça fluir a água da fossa nasal esquerda para a direita.

O neti limpa as narinas, elimina o excesso de mucosidade acumulado nos seios nasais e frontais, estimula o ājñacakra e desenvolve a clarividência.

As outras duas formas de fazer esta lavagem, bastante menos utilizadas, são dugdha e ghrītaneti: para fazer o dugdhaneti emprega-se leite morno ao invés de água e o procedimento é o mesmo do jalaneti.

Já o ghrītaneti se faz passando ghee no interior das narinas com o dedo indicador. Isso é muito necessário na Índia, pois o ar é muito seco e é preciso lubrificar as narinas para facilitar a respiração.

5 – Dhauti

Existem quatro tipos de dhauti: antardhauti, que compreende diversas técnicas para a limpeza dos órgãos internos; dantadhauti que engloba um grupo de exercícios para asseio dos dentes e órgãos dos sentidos; hṛddhauti, que é descrito como purificação do coração, mas que também atua sobre os órgãos internos e mūlaśodhāna, que consiste em fazer a lavagem do reto. Dhauti significa limpar, lavar, purificar.

Antaradhauti

Antara, palavra que significa literalmente, interno, é um dhauti que envolve quatro técnicas para a desintoxicação dos órgãos internos: vātasāra na qual utiliza-se o elemento ar; vārisāra onde é utilizado o elemento água; vahnisāra ou agnisāra, a limpeza feita através do elemento fogo e bahiskṛta, a lavagem do reto.

Vātasāradhauti. Este é um método de difícil execução, acessível apenas para aqueles praticantes que adquiriram um bom conhecimento e domínio do corpo. Vāta é ar em sânscrito. Vātasāradhauti é a purificação do estômago, feita utilizando ar.

A técnica consiste em sorver ar pela boca, através do bico de corvo (kakimudrā, gesto que consiste em fechar os lábios, deixando uma abertura circular pela qual flui o ar), até encher todo o estômago. Faz-se o ar circular por ele e em seguida executa-se uma posição de inversão.

A melhor delas é o sarvaṅgāsana, invertida sobre os ombros, com os joelhos flexionados tocando a testa ou o chão. Desta forma o ar será pressionado, empurrado para os intestinos e expelido naturalmente. Caso surja alguma dificuldade, é possível eliminar o ar através da permanência no mayurāsana. A Gheraṇḍa Saṁhitā, diz que este dhauti purifica o corpo, evita diversas enfermidades e aumenta a secreção do suco gástrico.

Vārisāradhauti

Vāri significa água. Com o estômago vazio, ingere-se um litro e meio de água morna e salgada. A continuação fazem-se alguns ciclos de agnisāradhauti ou nauli e uma invertida. Finalmente expele-se a água pela boca, colocando dois dedos na garganta para provocar a vomição. Para algumas escolas, vārisāradhauti é sinônimo de vátasára dhauti ou shanka prakshálana.

Vahnisāradhauti

Esta técnica dinamiza o elemento fogo no interior do corpo, associado ao vāyusamāna, o ar vital responsável pela correta assimilação dos alimentos. Agni significa precisamente fogo. O agnisāradhauti consiste em executar cem contrações abdominais em um só śūnyaka (retenção com os pulmões vazios).

Sente-se em posição de meditação. Apoie as mãos nos joelhos e deixe o tronco ligeiramente inclinado para frente. Elimine todo o ar dos pulmões, execute jalāndharabandha e contraia vigorosamente o abdômen, como se quisesse tocar com o umbigo na coluna vertebral. Em seguida relaxe a musculatura. Contraia e relaxe inúmeras vezes de forma intensa e dinâmica, enquanto mantém os pulmões vazios. Este dhauti aumenta a força de vontade e o fogo interno.

Bahiskṛtadhauti é a limpeza do reto. Esta limpeza é feita com água: deve-se ficar submerso na água até a altura do umbigo e lavar o reto com os dedos. Também pode utilizar-se ar em lugar de água. Bahiskṛta significa colocar para fora, exterior. O nome derivaria da qualidade que alguns yogis teriam de fazer esta lavagem pondo o reto e o cólon para fora do corpo para poder lavá-los, após ter enchido de ar o estômago e tê-lo expelido pelos intestinos, segundo está exposto nas escrituras. Obviamente, não é a nossa intenção que você sequer tente fazer isto: fica registrado aqui apenas a título de curiosidade.

Dantadhauti

Embora a palavra danta signifique apenas dente, o dantadhauti inclui as seguintes purificações: dantamūladhauti, limpeza da raiz dos dentes; jihvadhauti ou jihvaśodhāna, a lavagem da língua; karnadhauti, asseio dos canais auditivos; kapālarandhradhauti desobstrução dos seios nasais; e cakṣudhauti, ablução dos olhos.

Para fazer a limpeza dos dentes de acordo com a tradição, emprega-se pó de catechu, que é esfregado nos dentes a fim de limpá-los bem. Atualmente encontram-se diversos produtos à base de ervas ou argila para esta finalidade. Como sucedâneo, podemos servir-nos da combinação de azeite de oliva com sal.

Misturam-se estes dois ingredientes e com o dedo indicador esfrega-se o preparado nos dentes e nas gengivas. Se for utilizar escova dental, escolha aquelas de cerda suave e escove-se fazendo movimentos circulares. Evite os movimentos horizontais, pois isso pode prejudicar o esmalte dos dentes. Utilize fio dental para remover os resíduos acumulados nas cavidades.

Danta múla dhauti: a purificação da raiz dos dentes faz-se pressionando com força os maxilares fechando bem a musculatura da mandíbula. O dantamūladhauti inclui também a purificação e massageamento das gengivas. Para essa finalidade aconselha-se também a ingestão de alimentos de textura firme, como frutas secas: amêndoas, castanhas, nozes ou ainda torradas e outros alimentos duros, pois estes produzirão uma massagem na base dos dentes.

Jihvadhauti. Diariamente, ao escovar os dentes, passe a escova dental na língua, desde a raiz para a ponta, com bastante água, até remover toda a camada esbranquiçada e junto com esta, resíduos de alimentos e bactérias. A limpeza da língua também pode ser feita utilizando uma colher para raspar e remover o excesso de mucosidade ou esfregando-a com os três dedos maiores e lavando-a com muita água.

Karnadhauti. Lavagem dos ouvidos com o dedo médio. Também podem utilizar-se hastes flexíveis de algodão embebidas em óleo de bétula ou similar, passando-as com cuidado no canal auditivo. Isto não deve fazer-se todo dia, pois retirar a cera com demasiada freqüência pode prejudicar a lubrificação natural dos canais. Karna é ouvido em sânscrito.

Kapālarandhradhauti é a limpeza dos seios frontais. Consiste em estimular e massagear com movimentos circulares a região do intercílio ou fazendo uma leve percussão nesta área com os dedos da mão direita. Essa massagem é tonificante, descansa os olhos e a musculatura do rosto, aumenta o poder de concentração e a lucidez em momentos de esgotamento físico ou intelectual. Kapálarandhra designa o crânio e, mais especificamente, a parte interior dele.

Cakṣudhauti. É a ablução dos olhos feita com água mineral, morna e salgada ou ainda com chá de pétalas de rosa, de camomila ou outras ervas com ação emoliente. Também se pode utilizar soro fisiológico. Para fazer esta purificação precisaremos empregar um copo pequeno de vidro, que encaixe perfeitamente no olho.

Verta o líquido no copo, incline a cabeça, coloque e afirme o recipiente na cavidade ocular, eleve a cabeça e abra o olho, fazendo o líquido circular. Repita depois a operação com o outro olho.

Hṛddhauti

Hṛddhauti significa limpeza do coração, embora o termo hṛd designe não apenas o coração, mas toda a área do tórax até a garganta, incluindo-se aqui estômago, esôfago, laringe e faringe. O nome provém da purificação que se processa no plexo cardíaco, beneficiando o prāṇavāyu (o ar vital do coração), que é responsável pela captação de energia do meio ambiente. Duas técnicas configuram este dhauti: vāmana e vastra.

Vāmanadhauti é a lavagem do estômago com água. Em jejum, bebem-se de quatro a seis copos de água morna e salgada e executam-se vários ciclos de nauli. Em seguida, se faz uma massagem com os dedos médio e indicador na raiz da língua, para provocar o vômito. Em utkāsana, sentado de cócoras, expulsa-se toda a água. As unhas devem estar bem cortadas, caso contrário você poderá machucar a garganta. Repete-se o exercício mais três vezes: água, nauli, vomição.

É importante a repetição desta vomição, pois não é possível purificar a vesícula biliar logo na primeira execução. Eliminando o excesso de bílis, estimulamos o funcionamento de todos os órgãos internos: fígado, rins, baço, pâncreas, estômago, pulmões e coração.

Acaba com as disfunções provocadas pelo excedente de muco, azia, dispepsia e outros males do aparelho digestivo. Aumenta a saúde, a força de vontade, o ânimo e a disposição. Em alguns textos, vāmanadhauti e sinônimo de vārisāradhauti. Noutros, aparece ainda como sinônimo de śaṅkaprakṣālaṇa.

Vastradhauti ou vāsodhauti é a limpeza do estômago com uma tira de gaze de algodão umedecida. Deve ser ingerida lenta e cuidadosamente, deixando uma parte dela para fora; em seguida executam-se alguns ciclos de nauli, mantendo-a no máximo durante quinze minutos no estômago.

Este dhauti reveste algum risco para a saúde caso seja mal executado, razão pela qual pedimos ao nosso caro leitor que o faça apenas sob a supervisão direta de um instrutor qualificado e responsável.

Aconselha-se fazer alguns ciclos de kapālabhāti em seguida. Procure não comer ou tomar banho até meia hora após a execução deste dhauti. É conveniente evitar a ingestão de alimentos crus na primeira refeição. O vāmanadhauti não precisa fazer-se com demasiada freqüência: uma vez a cada quinze dias ou uma vez por mês serão suficientes para manter o aparelho digestivo em perfeito estado.

Mūlaśodhāna

Este exercício recebe também o nome de mūladhauti. Consiste em fazer uma lavagem do reto e da última porção do cólon. O apána váyu (ar vital responsável pela excreção) não flui livremente se essa área não estiver purificada. O mūlaśodhāna acaba com a constipação intestinal, problemas digestivos e dispepsia. Introduz-se o dedo médio no reto e fazendo movimentos circulares nos dois sentidos, limpa-se cuidadosamente a região com o auxílio de água. Deve-se prestar atenção para que as unhas estejam bem aparadas.

6 – Vasti

O vasti inclui dois métodos para a purificação dos intestinos: um feito com água, jalavasti e outro com ar, sthālavasti. No caso do primeiro exercício, necessitará apenas de disponibilidade de tempo, pois este terá a duração de uma a duas horas, dependendo das condições dos intestinos do praticante. Já a segunda técnica exige um domínio total da musculatura do abdômen.

Jalavasti

Jala é água. Jalavasti é a lavagem dos intestinos, feita com água. O método tradicional faz-se usando uma cânula ou tubo de bambu de cinco dedos de comprimento por um de espessura. Antigamente, quando as fontes de água não estavam poluídas, o praticante ficava dentro de um rio, com a água na altura do umbigo e utilizava o bambu para sugar através dele a água e fazê-la penetrar nos intestinos. Depois expelia-se tudo. Dominando a técnica, ele tinha condições de fazê-la sem o bambu.

Concordamos com você se achar que estas descrições têm um quê de folclórico, mas considere a época em que estas técnicas foram desenvolvidas (mais de 5000 anos atrás!) e pense também que, naquele, tempo os nossos ancestrais deste lado do mundo moravam em cavernas e nem sequer estavam sabendo da existência dos próprios intestinos… Atualmente, na falta de rios cristalinos, podemos realizar o jala vasti com um clister que tenha capacidade para dois litros de água. Esta deve ser mineral, morna e salgada, em proporção igual à utilizada no jalaneti.

Assimilam-se dois litros de água pelo reto. Executa-se uma posição de inversão até sentir forte vontade de evacuar. Este processo deve ser repetido até que a água saia bem clara. A prática de jalavasti aumenta a saúde de um modo geral, o vigor físico e a imunidade. Não se preocupe com a perda da flora intestinal que acontece durante a lavagem, pois ela se regenera e renova rapidamente, o que, aliás, é muito benéfico. Beba iogurte ou coalhada e pronto.

Sthālavasti

Ficando em viparītakaraṇīmudrā, a variação mais simples da invertida sobre os ombros, com as costas em um ângulo de 60 graus em relação ao chão, traga os joelhos até o peito. Nesta posição, puxe ar pelo reto, provocando o vazio no abdômen através do nauli ou uddiyanabandha. Após alguns minutos, expila-o fazendo diversas contrações abdominais.


Extraído do livro Yoga Prático.

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13 respostas para “Ṣaṭkarma, a purificação orgânica”

  1. GOSTARIA MUITO DE RECEBER INSTRUÇÕES POR E-MAILS. O que devo fazer?
    Obrigada!!

  2. Pedro lendo seu texto sobre Danta Dhauti fiquei com dúvidas.

    Você fala sobre usar azeite e sal…

    – Quais seriam os benefícios destes dois combinados para os dentes e as gengivas?

    – E qual a frenquencia deveriamos fazer isso?

    – Antes de escovar os dentes, depois ou em momentos distintos?

    Aguardo sua resposta… [email protected]

    Abraços
    NANDO
    NAMASTE

  3. Oi de novo Pedro!
    Estou tendo visão dupla, em decorrencia do uso do medicamento Topazol, mesmo sem toma-lo a alguns meses. Agora q esta realmente me incomandando, e já vi q ñ vai passar sozinha, rezolvi fazer algo a respeito, e logico q vou recorrer a medicina natural.
    Felizmente acompanho o seu site a algum tempo e li algo sobre o exercicio para os olhos, e resolvi pesquisar mais. Vou fazer hj mesmo e vê se tenho alguma melhoria.
    Se souber de alguem q tenha se curado da visão dupla com esses exercicios e puder me informar ficarei mais grata ainda, mas é só pra me animar mais um pouco. Pq eu vou fazer o trataka de qualquer jeito!: D
    Obrigada mais uma vez Pedro

  4. Obrigada por está preparando o meu alicerce, ainda não sei nada, mas estou muito feliz pelo começo. Felicidade.

  5. Pedro,

    boa tarde, tudo bem?
    como sempre, encontro ótimos textos e referências em seu site. Minha esposa e eu montamos nosso espaço em Campinas há pouco mais de um ano e produzimos algumas apostilas e publicamos alguns textos em nosso blog como referência aos alunos. Temos seu livro, Yoga Prático, em nossa bilbioteca na escola (carinhosamente nomeada Biblioteca Vidyamandalaka). Como estarei conduzindo algumas práticas de kriyas, gostaria muito de poder publicar este seu texto em nosso blog, mantendo as referências, é claro, como complemento da apostila que estou escrevendo. Por favor, veja em http://www.padmabhavam.com.br outros textos. Seria possível?
    muito obrigado.
    abraços,
    Ivan e Vanessa

  6. Adorei ter conhecido esse site, se é assim que posso chamar; Eu gostaria muito de poder ter minhas curiosidades respondidas, até nao me leve a mal por isso porque estou tentando praticar Yoga há um tempo e nao foi possivel. Gostaria muito de poder ter algumas instruçoes sobre a prática do Yoga. no mais muito obrigado e sucesso.
    Parabéns.

  7. Olá, Pedro!
    Sempre entro em busca de informações sobre Yoga, hoje felizmente encontrei o teu site. Estou apreciando imensamente. Pratico Yoga e confesso que foi uma bela descoberta que fiz na minha existência.
    Beijinhos, Voltarei sempre.
    Rô.

  8. Pedro,
    Todos os dias, agora, venho aqui, “beber dessa fonte” fecunda… Peço a Deus que te inspire e proteja mais. Incalculável, a contribuição que nos passa. Como moro em uma cidadezinha bem pequena(e maravilhosa), não há nada de yoga por aqui, exceto por esse meio Juntei amigos e praticamos Hatha, aqui em minha casa. Quero fazer uma formação. Me sugere o que? Existe algune com vc? Grata.
    Namaste.

  9. Jaya Pedrão!
    Sinto necessidade especial de fazer as purificações no início do ano, ótimo texto para inspirar. Só senti falta dos efeitos fisiológicos no nauli para fortalecer a força de propósito. Um 2010 mais puro para todos!
    Namaste (_/_)

  10. Olá meu amigo inspirador e querido Pedro,
    Tudo bem?
    Sempre digo que você é meu professor, pois aprendo sempre com os livros e com o site, que por sinal ficou lindo!
    Um beijo saudoso,
    Bel.

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