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Shiva Nilakantha bebe o Veneno do Mundo

Os mitos de Shiva expressam de maneira poética e alegórica a percepção que o povo hindu teve e tem das verdades universais, bem como da reconciliação entre a poesia e a religião por um lado, e a ciência, pelo outro

Escrito por Pedro Kupfer · 4 mins de leitura >

É surpreendente a força da religião na Índia. Qualquer visitante pode verificar que lá, os deuses estão vivos! Shiva, que significa ‘O Benéfico’, é uma das várias formas divinas que reúne aspectos contraditórios. As numerosas e diferentes formas de Shiva representam a dialética da própria natureza. Suas manifestações são complexas e contraditórias: Mahakala é o Senhor do Tempo, Mrituñjaya é o Vencedor da Morte, Pashupati é o yogi que medita nas florestas, Senhor das Feras, Sarva é o Arqueiro, Mahadeva é o Grande Deus, o deus da vida e da morte, Natarāja é o Rei dos Dançarinos, Ardhanarishvara é o andrógino, que unifica e transcende as dualidades.

Diferentemente da idéia que temos em nossa cultura judaico-cristã, Shiva é a síntese, a integração das forças da vida e da morte. Seus mitos são símbolos que expressam de maneira poética e alegórica a percepção que o povo hindu teve e tem das verdades universais, bem como da reconciliação entre a poesia e a religião por um lado, e a ciência, pelo outro.

Dentre essas inúmeras formas, destacam-se duas que são pólos opostos: Nīlakantha e Mahakālā. Por um lado, Shiva é o preservador da criação, sob a forma de Nīlakantha, “Aquele da Garganta Azul”. Nessa forma, Shiva absorve em si próprio o veneno do mundo (hālāhala, ou kalakata). Esse veneno é a antítese do néctar celestial da imortalidade, chamado amrita.

Para que a imortalidade exista, a morte também deve existir. Apenas Shiva, o grande yogi que está além das dualidaes, pode absorver o veneno da morte e salvar o mundo.

Shiva é ao mesmo tempo, então, o Senhor da Vida e da Morte, do nascimento e da destruição.

Por outro lado, Shiva é igualmente Mahakālā, o devorador do tempo, que dissolve o universo (mahapralāyā) no final dos ciclos cósmicos (mahakalpas). Nesta forma, ele revela um aspecto de grande profundidade filosófica: o tempo é rítmico. É por isso que Shiva é o senhor da dança, Natarāja. Ele dança o tandava, a dança da dissolução, marcando o ritmo com o damaru, um tambor em forma de ampulheta.

O mito de Nilakantha, conhecido como O Bater do Oceano de Leite (samudrā mantham) exemplifica o quanto o deus Shiva integra em si próprio as forças de criação e dissolução, bem como todas as ambigüidades, dualidades e pares de opostos.

A história é assim: muito, mas muito tempo atrás, deuses e demônios estavam engajados numa luta sem quartel pela supremacia e pela conquista da imortalidade. Nessa guerra, a arma definitiva seria o Amrita, o Licor da Imortalidade, que jazia no fundo do Oceano das Águas Causais.

No entanto, todo o poder dos deuses, inimaginável para nós, mortais, era insuficiente para extrair o Amrita das profundezas. Ainda mais, quando os demônios estavam concentrados na mesma tarefa, e boicotavam o esforço dos deuses.

Brahma, o Deus Criador, conclamou então um encontro para resolver a questão. Acordou-se que deuses e demônios cooperariam entre si, ao invés de lutar. Vishnu assumiria a forma de Kūrma, uma tartaruga gigante. O ciclo do deus Vishnu inclui dez encarnações, das quais a tartaruga é a segunda. Essas encarnações são chamadas Avatāra, que significa “Aquele que Desce [para salvar o mundo]”.

Shiva Natarāja dança o Tandava, a Dança da dissolução,
no fim dos ciclos cósmicos (kalpas)

Sobre as costas de Kūrma, os demais deuses colocariam o monte Mandara, e ele desceria carregando essa montanha até o fundo do Oceano das Águas Causais (Samudrā). O deus-serpente Vasuki, enroscado ao redor da montanha, serviria como corda, puxada alternadamente por deuses e demônios, cada grupo ficando numa das beiras do Oceano. Desta maneira, Kūrma, girando alucinadamente com os braços e as pernas abertos, trabalhou como uma espécie de liquidificador gigante, que espalhou as águas do Oceano em todas as direções, fazendo com que os tesouros submersos nele desde o início dos tempos, viessem à superfície. A tarefa estava dando muito certo, até a aparição do Veneno.

A maneira em que o Veneno Mortal surgiu é aberta a interpretações. Por um lado, algumas versões do mito de Nīlakantha afirmam que ele jorrou das profundezas do mar quando deuses e demônios começaram a bater as águas. Por outro, algumas versões sustentam que ele foi segregado por um imenso peixe que morava nas profundezas do Oceano, e que foi incomodado por Kūrma quando este começou a bater as águas.

A aparição do veneno kalakata marca o fim da Primeira Era das quatro do presente ciclo cósmico. Essa Era Cósmica chama-se Satya Yuga em sânscrito, que significa Era da Verdade, ou Era do Dharma.

Shiva estava meditando no alto do Himalāyā. Deuses e demônios foram lhe rogar para serem salvos daqueles vapores letais. Ele aquiesceu, e bebeu o veneno, ficando com a garganta colorida de azul. É por isso que ele é chamado Nīkalantha, o da Garganta Azul.

O nome Garganta Azul aponta para o fato de que não existe nenhum conflito entre o coração e a mente de Shiva. Mente e coração estão em sintonia, alinhados e, entre eles, só existe espaço vazio, representado pela cor azul. Nīkalantha é aquele que vê todo o mundo em si mesmo, e a si próprio em todo o mundo.

O desapego de Shiva perante a vida e a morte é absolutamente aterrador. Ao beber o veneno kalakata, ele salva o Universo. Ao absorver em seu próprio organismo o veneno do mundo, ele redime a Humanidade.

Desta maneira, deuses e demônios puderam retomar a tarefa de desenterrar não apenas o licor da imortalidade, mas igualmente a deusa Lakshmī, que surge das águas numa cena idéntica à do nascimento de Afrodite na mitologia grega, e que acaba casando com Vishnu, bem como alguns valiosos tesouros, dentre os quais destaca-se o kausthubha, uma jóia que o deus carrega até hoje no peito.

Uma vez resgatados esses tesouros, os deuses deram uma rasteira nos demônios para ficarem com o licor da imortalidade. Mas essa é já outra história…

 

Uma dica prática: o Gaayatri mantra de Shiva.

Om tat Purushāya vidmahi
Mahadevāya dhimahi
Tanno Rudrah prachodayāt

Fazemos e para compreendermos que tudo o que acontece na vida é um presente, uma bênção (até mesmo aquilo que não conseguimos compreender, ou aquilo que nos desagrada).

Algo que você pode querer saber sobre Shiva Nīlakantha e o medo de praticar āsanas.

Até hoje, os devotos de Shiva sobem desde Rishikesh até o templo de Nīlakantha Mahadeva, nas montanhas do Garhwal Himalaya. Alguns deles percorrem todo o caminho fazendo namaskaram, uma prática igual à saudação ao sol que você conhece, mas que deixam literalmente no chinelo aquelas 108 saudações ao sol que você morre de medo de fazer. A cada namaskaram, avançam-se aproximadamente 150 centímetros, numa caminhada íngrime em subida, de mais de quinze quilômetros. Testemunhamos grupos de devotos fazendo essa prática em mais de uma ocasião. Uma vez, até mesmo durante a noite. Então, você não precisa ter medo dessas práticas! É só fazê-las da maneira correta e segura, e se entregar!

Harih Om para você!

3 respostas para “Shiva Nilakantha bebe o Veneno do Mundo”

  1. Obrigado amigo, grande mensagem de um povo extraordinário que ajuda a Terra a milhões de ano,gratidão por dividir teu conhecimento conosco.Estamos na Terra também para compartilhar e semear o bem.Grande abraço Namastê

  2. Obrigada pelos seus conhecimentos. Beijos de muita luz na alma… Namastê.

  3. Poxa, Pedroji, não poderia ler essa matéria sem deixar o meu comentário. Agradeço a sua ajuda por sugerir o nome Nilakantha para o meu espaço de Yoga. A minha identificação por Shiva continua sendo muito grande e depois de ter conhecido o templo de Nilakantha, lá em Rishikesh, achei que tinha muito sentido batizar o espaço com esse lindo nome. Votos para que esses aspectos transformadores de Shiva Nilakantha continue por aqui!

    Namaste!

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